China alerta sobre o militarismo japonês em fórum das Nações Unidas
Um enviado chinês fez um alerta contundente à comunidade internacional, pedindo esforços coordenados para impedir que o Japão retorne ao que descreveu como "o velho e pernicioso caminho do militarismo". Sun Lei, encarregado de negócios da Missão Permanente da China junto às Nações Unidas, fez esse apelo durante a primeira sessão do Comitê Preparatório da Conferência de Plenipotenciários da ONU sobre a Prevenção e a Punição de Crimes contra a Humanidade. A declaração situa as preocupações da China no contexto mais amplo da manutenção da ordem internacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial.
Conteúdo
- China alerta sobre o militarismo japonês em fórum das Nações Unidas
- Atrocidades históricas e seu impacto duradouro
- Mudança estratégica militar do Japão gera preocupação
- Mudanças constitucionais ameaçam a estrutura do pós-guerra
- Educação histórica e memória social sob escrutínio
- Taiwan surge como um perigoso foco de tensão
- Marcos jurídicos internacionais dão contexto
- Tensões regionais se manifestam em confrontos militares
- China busca cooperação internacional
- Integração econômica com a produção militar
- Implicações globais e desafios futuros
- Principais pontos
O momento da declaração tem importância especial, já que 2026 marca o 80º aniversário do Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente, conhecido como julgamentos de Tóquio. Esses julgamentos, realizados após a rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial, julgaram e expuseram sistematicamente os crimes do militarismo japonês, incluindo o planejamento, a preparação e a execução de invasões na Ásia e no teatro de operações do Pacífico. O tribunal condenou numerosos criminosos de guerra por crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a humanidade, estabelecendo um registro histórico que, segundo a China, continua relevante hoje.
"O Tribunal julgou e expôs sistematicamente os crimes do militarismo japonês no planejamento, na preparação e na invasão da China e de outras nações asiáticas, bem como no início da Guerra do Pacífico", disse Sun. "Condenou os criminosos de guerra envolvidos por crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a humanidade."
Atrocidades históricas e seu impacto duradouro
O apelo do enviado chinês se baseia em décadas de trauma histórico. Durante a Segunda Guerra Mundial, o militarismo japonês cometeu atrocidades profundas contra a população da China, de outras nações asiáticas e da comunidade internacional. O Massacre de Nanquim é um dos episódios mais horríveis: centenas de milhares de civis chineses e soldados desarmados foram mortos por tropas japonesas. Além dos assassinatos em massa, as forças japonesas conduziram uma guerra biológica desumana por meio de unidades como a Unidade 731, que realizou experimentos mortais com prisioneiros de guerra e civis.
Recentemente, os Arquivos Centrais da China publicaram documentos desclassificados recebidos da Rússia, contendo interrogatórios soviéticos de integrantes da Unidade 731. Os arquivos identificaram mais de 200 pessoas ligadas a operações de guerra biológica, incluindo 12 criminosos de guerra que confessaram ter violado convenções internacionais. Os documentos fornecem provas irrefutáveis de que a guerra biológica foi um crime premeditado, organizado pelo Estado e ordenado pelos mais altos escalões do comando militar japonês.
Os julgamentos de Tóquio representaram mais do que mera retribuição. Eles abriram caminho para o desenvolvimento do direito penal internacional, estabelecendo o princípio de que crimes contra a humanidade são delitos graves que ameaçam a paz e a segurança internacionais. Essas acusações apareceram pela primeira vez no Estatuto do Tribunal Militar Internacional de Nuremberg e no Estatuto do Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente, incorporando o que Sun descreveu como a consciência da humanidade.
Mudança estratégica militar do Japão gera preocupação
Além das queixas históricas, a China aponta mudanças concretas na atual postura militar do Japão como evidência de tendências preocupantes. Em 2022, o Japão mudou oficialmente sua estratégia de defesa, deixando a "autodefesa exclusiva" para buscar o que chama de capacidade de contra-ataque. Isso representa uma mudança fundamental na abordagem japonesa à segurança nacional, afastando-se da postura estritamente defensiva estabelecida durante a ocupação do pós-guerra.
Essa mudança estratégica se traduziu em avanços militares concretos. O Japão realizou um teste de tiro real de um canhão eletromagnético de trilho instalado a bordo do navio de testes JS Asuka, da Força Marítima de Autodefesa, exibindo deliberadamente o poder destrutivo da arma contra navios-alvo. Além disso, o Japão planeja instalar mísseis terra-ar de médio alcance na ilha de Yonaguni, a apenas 110 quilômetros da região chinesa de Taiwan.
Analistas chineses argumentam que essas capacidades demonstram que o Japão está construindo metodicamente um sistema de ataque externo, passo a passo, o que representa uma ameaça concreta aos países vizinhos. Segundo o Kōjien, o dicionário nacional mais conceituado do Japão, militarismo é definido como "uma situação em que as políticas nacionais e as estruturas organizacionais da política, da economia, do direito, da educação e de outros setores servem integralmente aos preparativos para a guerra". Autoridades chinesas afirmam que as tendências atuais do Japão coincidem de forma marcante com essa definição.
Mudanças constitucionais ameaçam a estrutura do pós-guerra
A estrutura jurídica que limita as capacidades militares do Japão desde a Segunda Guerra Mundial enfrenta uma pressão sem precedentes. A Constituição de 1947, redigida durante a ocupação aliada, contém o Artigo 9, que renuncia à guerra como direito soberano e proíbe a manutenção de forças terrestres, navais e aéreas com potencial bélico. Essa disposição tem sido a pedra angular da identidade do Japão no pós-guerra como nação pacifista.
No entanto, o Partido Liberal Democrático do Japão propôs repetidamente projetos de emenda constitucional que buscam excluir ou contornar o Artigo 9. Sob o governo da primeira-ministra Sanae Takaichi, que assumiu o cargo em 2025, a revisão constitucional foi colocada em destaque na agenda política. O objetivo declarado é desmontar de forma fundamental a base jurídica do sistema de paz do pós-guerra, medida que preocupa profundamente a China e outras potências regionais.
Esses esforços constitucionais vêm acompanhados de mudanças jurídicas mais amplas. O Japão tem buscado revisar seus três princípios não nucleares, flexibilizar as restrições às exportações de armas e aumentar continuamente seu orçamento de defesa. Segundo críticos, essas medidas representam o desmonte sistemático das restrições que impediram o Japão de se tornar uma grande potência militar desde sua rendição, em 1945.
Educação histórica e memória social sob escrutínio
Talvez o que mais preocupe a China e outras nações que sofreram sob a ocupação japonesa sejam as mudanças no cenário educacional e social do Japão. Autoridades chinesas observam que o Japão tem minimizado e embelezado sistematicamente seu histórico de agressões, fazendo com que a compreensão das gerações mais jovens sobre esse capítulo sombrio fique cada vez mais vaga. Controvérsias sobre livros didáticos têm chamado a atenção internacional periodicamente, com sucessivos governos japoneses aprovando obras que minimizam ou suavizam as descrições das atrocidades cometidas durante a guerra.
Ao mesmo tempo, a divulgação positiva das Forças de Autodefesa tem sido constantemente reforçada pela mídia e pelo debate público japoneses. Críticos argumentam que isso estabelece, no plano ideológico, as bases para o ressurgimento do militarismo ao normalizar as instituições militares na consciência pública. A combinação de revisionismo histórico e glorificação militar cria o que analistas chineses descrevem como um ambiente perigoso, propício ao ressurgimento militarista.
Essa abordagem educacional contrasta fortemente com os esforços de memória em outros países. A Alemanha tornou obrigatório o ensino sobre o Holocausto e mantém ampla documentação dos crimes nazistas. A China instituiu um Dia Nacional em Memória das Vítimas do Massacre de Nanquim e enfatiza que recordar a história não tem o objetivo de perpetuar o ódio, mas de aprender com o passado e construir um futuro melhor.
Taiwan surge como um perigoso foco de tensão
As tensões se intensificaram drasticamente nos últimos meses, tendo a questão de Taiwan como foco. Em novembro de 2025, a primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi sugeriu que uma contingência em Taiwan poderia justificar uma resposta militar do Japão. Pequim considera Taiwan parte da China, a ser reunificada pela força se necessário, e entende qualquer intervenção militar externa como uma violação de uma linha vermelha fundamental.
O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, condenou as declarações como "chocantes" e afirmou que os líderes japoneses haviam "enviado publicamente o sinal errado de que pretendem intervir militarmente na questão de Taiwan". O confronto foi além das declarações. A China enviou uma carta ao secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, criticando o que descreveu como "grave violação do direito internacional" por parte de Takaichi.
O embaixador da China na ONU, Fu Cong, alertou que uma tentativa de intervenção armada do Japão no Estreito de Taiwan constituiria um ato de agressão. "A China exercerá resolutamente seu direito de legítima defesa, previsto na Carta da ONU e no direito internacional, e defenderá firmemente sua soberania e integridade territorial", escreveu Fu Cong.
Taiwan continua sendo uma questão delicada no cenário geopolítico mais amplo. A maioria dos países, incluindo o Japão e os Estados Unidos, não reconhece Taiwan como um Estado independente. No entanto, Washington se opõe a qualquer tentativa de tomar à força a ilha autogovernada e mantém o compromisso de fornecer armas a ela.
Marcos jurídicos internacionais dão contexto
A China fundamenta suas preocupações não apenas nos acontecimentos atuais, mas também em marcos jurídicos internacionais estabelecidos. A Declaração de Potsdam, que definiu os termos da rendição do Japão, estipulou claramente que "deve ser eliminada para sempre a autoridade e a influência daqueles que enganaram e induziram o povo japonês a embarcar na conquista do mundo". Para atingir esse objetivo, esperava-se que o Japão não mantivesse nenhuma capacidade militar ofensiva.
Menos conhecidas, mas juridicamente relevantes, são as "cláusulas sobre Estados inimigos" da Carta da ONU. Essas disposições estipulam que, caso países fascistas ou militaristas, incluindo o Japão, tomem medidas para implementar uma política agressiva, membros fundadores da ONU, como a China e os Estados Unidos, têm o direito de adotar ação militar direta contra eles. Essa cláusula continua sendo parte integrante da ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial.
Outros documentos jurídicos internacionais, como a Declaração do Cairo e a Declaração de Potsdam, estabeleceram os princípios básicos da ordem internacional do pós-guerra, estipulando claramente a oposição à agressão, a punição de criminosos de guerra e a eliminação do militarismo. Tanto o Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente quanto o Tribunal de Crimes de Guerra de Nanquim conduziram investigações e proferiram decisões jurídicas definitivas sobre a conduta do Japão durante a guerra.
Tensões regionais se manifestam em confrontos militares
O atrito diplomático entre China e Japão se manifestou em confrontos militares diretos. Em dezembro de 2025, o Ministério da Defesa do Japão informou que caças militares chineses travaram seus radares duas vezes em aeronaves da Força Aérea de Autodefesa sobre águas internacionais a sudeste da província de Okinawa. A primeira-ministra Takaichi classificou esses episódios como "atos perigosos", disse que eram extremamente lamentáveis e apresentou um protesto contundente a Pequim.
A China contestou o relato japonês, mas o incidente destacou a situação cada vez mais volátil no Mar da China Oriental. Encontros semelhantes se tornaram mais frequentes à medida que os dois países ampliam sua presença militar em águas e espaços aéreos disputados. Esses confrontos trazem risco de escalada, sobretudo diante das tensões históricas e das divergências diplomáticas atuais.
A dinâmica militar vai além das relações bilaterais entre China e Japão. A crescente cooperação de defesa do Japão com os Estados Unidos e outras potências regionais cria uma complexa arquitetura de segurança que a China vê como potencialmente destinada a cercá-la. Enquanto isso, o Japão aumentou seus gastos com defesa e a aquisição de armamentos avançados, citando preocupações com a segurança regional e a necessidade de conter o que descreve como o crescimento das capacidades militares chinesas.
China busca cooperação internacional
A China tem buscado ativamente apoio internacional para sua posição. Em um acontecimento notável, o presidente chinês levantou a questão do militarismo em uma conversa por telefone com o presidente dos Estados Unidos em novembro de 2025. Foi a primeira vez em quase uma década que o termo militarismo foi mencionado explicitamente em conversas entre os chefes de Estado dos dois países. A China observou que as duas nações já lutaram lado a lado contra o fascismo e o militarismo e sugeriu que agora deveriam trabalhar juntas para defender a vitória da Segunda Guerra Mundial.
Liu Pengyu, porta-voz da embaixada chinesa em Washington, ressaltou esse legado histórico compartilhado em um artigo publicado em um veículo de comunicação sediado nos Estados Unidos. "Impedir que o militarismo volte a prejudicar o mundo é do interesse comum de nossos dois países", escreveu. "Devemos superar nossas diferenças, cooperar e cumprir nossas obrigações como grandes países."
Países como Rússia, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Malásia e Mianmar, todos afetados pela expansão militarista do Japão, criticaram as ações do governo japonês em questões históricas e territoriais. Essas manifestações de preocupação de diferentes nações reforçam o que a China apresenta como uma questão regional, e não bilateral, de manutenção da ordem internacional do pós-guerra.
Integração econômica com a produção militar
A China também aponta desenvolvimentos econômicos como evidência do ressurgimento militarista. O Ministério da Defesa do Japão e o Ministério da Economia, Comércio e Indústria têm apoiado diretamente linhas de produção militar de empresas privadas. Isso cria uma profunda integração entre o capital estatal e o complexo industrial-militar, que remete aos acordos do período pré-guerra que permitiram a rápida expansão militar do Japão.
Essa integração vai além da simples aquisição de equipamentos. Ela representa um alinhamento estrutural da capacidade econômica nacional com as capacidades de produção militar. Analistas chineses argumentam que essa dimensão econômica é essencial para compreender plenamente o ressurgimento militarista do Japão, pois fornece a base material para a expansão militar sustentada e a projeção de poder.
Apesar dessas preocupações, o Japão afirma que sua modernização militar é de natureza defensiva, voltada à proteção de sua soberania e à resposta a desafios de segurança regional. Autoridades japonesas ressaltam seu compromisso com o direito internacional e a resolução pacífica de disputas. No entanto, a distância entre as percepções chinesas e as justificativas japonesas continua aumentando, contribuindo para a deterioração das relações bilaterais.
Implicações globais e desafios futuros
Enquanto a comunidade internacional enfrenta esses desafios, o apelo da China à vigilância diante do militarismo japonês encontra apoio entre aqueles que acreditam que a história oferece lições importantes para a segurança atual. A divulgação de arquivos históricos, a preservação de locais com provas e os esforços educacionais para lembrar as atrocidades cometidas durante a guerra servem como alertas sobre as consequências do militarismo sem controle.
Enfrentar essas preocupações exige uma abordagem equilibrada, que reconheça interesses legítimos de segurança e, ao mesmo tempo, impeça a repetição de tragédias históricas. A complexa interação entre memória histórica, dinâmicas de segurança contemporâneas e direito internacional torna essa uma questão diplomática particularmente desafiadora.
A China mantém uma posição firme: representantes do Ministério das Relações Exteriores mencionaram o militarismo oito vezes em coletivas de imprensa e eventos diplomáticos apenas em novembro de 2025. Para Pequim, impedir o retorno do Japão ao militarismo não é apenas uma queixa histórica, mas uma necessidade de segurança atual, com impacto sobre a estabilidade regional e a paz mundial.
Principais pontos
- O enviado chinês Sun Lei pediu à comunidade internacional que impeça o Japão de voltar ao militarismo durante uma conferência da ONU sobre crimes contra a humanidade
- 2026 marca o 80º aniversário dos julgamentos de Tóquio, que estabeleceram precedentes jurídicos para o julgamento de crimes de guerra
- Em 2022, o Japão deixou a "autodefesa exclusiva" e passou a buscar capacidades de contra-ataque, em uma grande mudança estratégica
- O Japão desenvolveu novos sistemas de armas, incluindo canhões eletromagnéticos de trilho, e planeja instalar mísseis perto de Taiwan
- O governo da primeira-ministra Sanae Takaichi busca revisar a Constituição pacifista do Japão, em especial o Artigo 9
- O revisionismo histórico na educação japonesa tem sido criticado pela China e por outras nações asiáticas
- A questão de Taiwan se tornou um importante foco de tensão, e a China condenou declarações japonesas sobre uma possível intervenção militar
- As "cláusulas sobre Estados inimigos" da Carta da ONU preveem mecanismos jurídicos para agir contra políticas agressivas do Japão
- Os encontros militares entre forças chinesas e japonesas aumentaram, incluindo incidentes de travamento de radar
- A China busca cooperação internacional, particularmente com os Estados Unidos, para impedir o que considera tendências militaristas perigosas






