Reforma ampla no transporte por aplicativo na Indonésia prevê maior proteção aos motoristas

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Reforma ampla no transporte por aplicativo na Indonésia prevê maior proteção aos motoristas

Indonésia se prepara para uma grande reforma no transporte por aplicativo

Milhões de motoristas de aplicativos na Indonésia poderão em breve ter melhorias substanciais em seus benefícios financeiros e sociais, segundo um projeto de decreto presidencial em análise pelo presidente Prabowo Subianto. As regras propostas representam a intervenção governamental mais significativa até hoje no setor de transporte digital do país. Elas podem reformular os modelos de negócios de grandes plataformas, como GoTo e Grab, e ampliar a proteção aos trabalhadores por aplicativo em todo o arquipélago.

Conteúdo
  1. Indonésia se prepara para uma grande reforma no transporte por aplicativo
  2. Principais medidas do projeto de decreto
  3. Novos poderes regulatórios
  4. Motivações políticas por trás da reforma
  5. Mobilização recente dos motoristas
  6. Reação do setor e preocupações econômicas
  7. Perspectiva das plataformas sobre os custos operacionais
  8. Perspectivas dos motoristas e condições de trabalho
  9. Contexto regional e global
  10. Avanços legislativos e próximos passos
  11. Desafios e considerações
  12. O que vem pela frente
  13. Principais pontos

O projeto de decreto surge em meio à crescente tensão entre as plataformas de transporte por aplicativo e seus motoristas, que realizaram protestos em todo o país para exigir melhor remuneração, condições de trabalho e reconhecimento de sua contribuição para a economia indonésia. Como a Indonésia respondeu por 37% do mercado de táxis da ASEAN em 2024, segundo a empresa de pesquisa Mordor Intelligence, essas mudanças regulatórias podem ter amplas consequências para o maior mercado de transporte por aplicativo do Sudeste Asiático.

As reformas propostas chegam em um momento decisivo, em que o setor enfrenta a possibilidade de consolidação. As preocupações com o bem-estar dos motoristas aumentaram após relatos de conversas sobre uma fusão entre a GoTo, da Indonésia, e a Grab, sediada em Singapura. Críticos alertam que o acordo poderia criar uma posição dominante no mercado, em detrimento dos trabalhadores. As regras propostas tratariam de muitas das principais queixas que impulsionaram a mobilização dos motoristas no país.

Principais medidas do projeto de decreto

O ponto mais significativo do decreto proposto seria reduzir de 20% para 10% o limite das comissões, ou seja, o percentual de cada corrida retido pelas plataformas de transporte por aplicativo. Atualmente, a Indonésia é o único país do Sudeste Asiático que impõe limites às comissões dos serviços de transporte por aplicativo em veículos de duas rodas. A redução restringiria ainda mais as margens de lucro das principais plataformas que operam no mercado.

Atualmente, nos termos do Decreto Ministerial KP 1001/2022, as plataformas podem ficar com até 20% do valor de cada corrida a título de comissão. Essa taxa deveria cobrir o uso do aplicativo, o processamento de pagamentos e outros serviços oferecidos pela plataforma. Na prática, porém, os motoristas relatam que às vezes as plataformas descontam mais do que o percentual anunciado, por meio de tarifas adicionais e modelos de preços promocionais que reduzem o valor que recebem.

O projeto de decreto também obrigaria as plataformas a custear integralmente o seguro contra acidentes e morte dos motoristas. Com cerca de sete milhões de entregadores e motoristas no setor de transporte por aplicativo da Indonésia, essa obrigação poderia custar às empresas aproximadamente US$ 1 por mês por motorista, somando despesas anuais significativas. Além disso, as plataformas teriam de dividir com os trabalhadores as contribuições para planos de saúde, aposentadoria por idade e pensão, elevando ainda mais os custos operacionais.

Novos poderes regulatórios

Além das medidas financeiras, o decreto autorizaria o governo a analisar os contratos entre empresas de transporte por aplicativo e trabalhadores do transporte online. Esse mecanismo de supervisão daria aos órgãos reguladores acesso sem precedentes aos termos e às condições impostos aos motoristas, podendo responder às preocupações com práticas contratuais injustas e estruturas de tarifas pouco transparentes.

O projeto também protegeria explicitamente o direito dos trabalhadores de formar sindicatos, enfrentando um desafio antigo para os profissionais por aplicativo, que têm dificuldade para se organizar de forma eficaz na economia digital. Essa medida poderia facilitar a negociação coletiva e dar aos motoristas mais poder nas negociações com as plataformas, alterando a dinâmica de forças no setor.

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As regras propostas também abrangeriam empresas de logística sob demanda, além dos serviços tradicionais de transporte por aplicativo. Entre elas estão a Lalamove, de Hong Kong, e a J&T Express, listada na bolsa de Hong Kong. O escopo mais amplo reflete a importância crescente dos serviços de entrega na economia digital da Indonésia e os desafios comuns enfrentados pelos trabalhadores em diferentes segmentos do trabalho por aplicativo.

Motivações políticas por trás da reforma

O momento em que essas regras são propostas não é coincidência. O presidente Prabowo sofre pressão considerável para atender às demandas dos motoristas, sobretudo depois que a participação deles nos protestos estudantis de grande escala em agosto demonstrou a influência política dos trabalhadores do setor. As manifestações chamaram atenção para as condições precárias de trabalho de milhões de indonésios que dependem do trabalho por aplicativo para se sustentar.

O governo tem se mostrado particularmente empenhado em conquistar o apoio dos motoristas. O porta-voz presidencial Prasetyo Hadi chegou a chamá-los de “heróis da economia”. Essa retórica reflete o reconhecimento tanto da importância econômica dos serviços de transporte por aplicativo quanto da crescente influência política dos trabalhadores que os mantêm em funcionamento.

Siwage Dharma Negara, pesquisador sênior do ISEAS-Yusof Ishak Institute, em Singapura, observou que os mototaxistas se tornaram uma força política cada vez mais visível. Eles organizaram vários protestos contra as comissões e em defesa de seus direitos, atraindo grande atenção pública para suas reivindicações. A morte de um mototaxista durante os protestos de agosto intensificou muito o escrutínio público sobre a vulnerabilidade dos trabalhadores por aplicativo e provavelmente aumentou a urgência política em torno da proteção desses profissionais.

Mobilização recente dos motoristas

O projeto de decreto vem na esteira de uma série de ações coordenadas de motoristas de aplicativos em toda a Indonésia. Em maio de 2025, milhares deles realizaram uma greve nacional de 24 horas, chamada “off-bid”, desligando os aplicativos e se reunindo em grandes cidades, como Jacarta, Surabaya, Bandung e Yogyakarta. Líderes sindicais estimaram que mais de 25 mil motoristas de carros e motos participariam das manifestações.

Durante os protestos, os motoristas carregaram cartazes com os dizeres “Não sejam gananciosos, 10% basta para o aplicativo” e entoaram palavras de ordem como “Unidos, os motoristas de aplicativos não podem ser derrotados”. As manifestações destacaram cinco reivindicações principais: aprovação de uma lei sobre transporte online, redução das comissões para 10%, regulamentação das tarifas de entrega de alimentos e mercadorias, auditoria dos provedores de aplicativos e fim dos programas de adesão que exigem pagamentos extras dos motoristas para obter prioridade no algoritmo.

Raden Igun Wicaksono, presidente da Garda Indonesia, uma das maiores associações de motoristas do país, destacou que as reivindicações eram dirigidas tanto ao Ministério dos Transportes quanto ao presidente Prabowo. Ele afirmou que as regras atuais são insuficientes por não preverem mecanismos de fiscalização, e declarou que os decretos ministeriais existentes “não podem obrigar legalmente os provedores de aplicativos em caso de violação, seja na esfera cível ou criminal”.

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Reação do setor e preocupações econômicas

Representantes do setor demonstraram sérias preocupações com a sustentabilidade das mudanças propostas. Uma fonte do setor que teve acesso ao projeto disse à Reuters: “A maioria dos participantes do setor não consegue arcar com essas mudanças”, destacando especialmente o temor de que as exigências de seguro elevem drasticamente os gastos anuais das plataformas.

Uma segunda fonte familiarizada com as propostas alertou que os custos das contribuições pagos pelas plataformas poderiam reduzir as margens e o número de motoristas que elas conseguem acomodar em seus aplicativos. Isso poderia diminuir as oportunidades de renda para os trabalhadores, criando um paradoxo: regras destinadas a proteger os motoristas poderiam, sem querer, limitar seu acesso ao trabalho.

Há anos, as empresas de transporte por aplicativo resistem a estender aos motoristas os benefícios trabalhistas tradicionais, argumentando que os profissionais são autônomos, e não empregados em tempo integral. Essa classificação permite que as plataformas evitem os custos associados aos benefícios trabalhistas, mantendo a flexibilidade da força de trabalho. O projeto de decreto contestaria esse modelo ao tornar obrigatórios benefícios normalmente associados ao emprego formal.

As plataformas defendem que suas estruturas atuais de comissão são necessárias para manter a sustentabilidade dos negócios. Ade Mulya, responsável por políticas públicas da Gojek, disse à AFP que reduzir a comissão regulamentada de 20% “não é uma solução viável”, pois essas taxas financiam iniciativas de apoio aos motoristas. Da mesma forma, Tirza Munusamy, responsável por relações públicas da Grab Indonésia, afirmou que a estrutura de comissões da empresa era “necessária” para manter a qualidade do serviço e alertou que reduções significativas poderiam ameaçar a sustentabilidade de um ecossistema que beneficia milhões de pessoas.

Perspectiva das plataformas sobre os custos operacionais

As empresas de transporte por aplicativo argumentam que as comissões cobrem mais do que os lucros das plataformas. Segundo elas, essas tarifas financiam o desenvolvimento tecnológico, seguros de terceiros para motoristas e passageiros e vários programas de apoio, como troca gratuita de óleo e pneus para os motoristas. Catherine Hindra Sutjahyo, presidente da Gojek Indonésia, alertou que reduzir as comissões para 10% poderia ter efeito contrário ao esperado se a empresa deixasse de subsidiar descontos promocionais. Isso poderia reduzir o volume total de transações e, na prática, diminuir a renda total dos motoristas.

Essas perspectivas revelam uma divergência fundamental sobre a relação entre plataformas e motoristas. Enquanto as empresas veem seu modelo de negócios como um ecossistema que equilibra os interesses de todos os participantes, os motoristas muitas vezes consideram que assumem riscos desproporcionais e recebem remuneração e proteção insuficientes. Essa tensão impulsionou a demanda por uma fiscalização regulatória mais rigorosa.

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Perspectivas dos motoristas e condições de trabalho

Para milhões de indonésios, o trabalho com transporte por aplicativo representa uma fonte essencial de renda em um país com desemprego e subemprego significativos. No entanto, os motoristas relatam que seus ganhos diminuíram nos últimos anos devido ao aumento da concorrência, às práticas de gestão algorítmica e à alta dos custos operacionais. Pesquisadores da Fairwork confirmam que os motoristas de aplicativos na Indonésia têm dificuldade para conseguir até mesmo quatro ou cinco corridas por dia, em comparação com cinco a dez antes de 2020, o que obriga muitos a trabalhar por mais horas para manter a renda.

Segundo pesquisas com motoristas, o ganho diário típico é de apenas 100 mil a 150 mil rúpias (US$ 6 a US$ 10) por uma jornada de 10 a 12 horas. Depois de descontar combustível, manutenção, impostos e a comissão da plataforma, muitos dizem que mal conseguem pagar as despesas. Quase 70% dos motoristas trabalham mais de oito horas por dia, e quase 80% trabalham seis ou sete dias por semana, de acordo com pesquisas do setor.

Os motoristas demonstram particular frustração com sistemas algorítmicos pouco transparentes, que, segundo eles, reduzem seus ganhos. Entre esses mecanismos estão tarifas fixas, sistemas de pedidos duplos e funções de priorização de corridas que, afirmam os motoristas, são mal explicadas e os prejudicam sistematicamente. Um participante da greve observou que muitos colegas “sofreram acidentes porque precisam correr atrás da renda”, sugerindo que os pagamentos baixos levam os motoristas a correr riscos ou trabalhar em horários inseguros.

O atual marco regulatório tem se mostrado insuficiente para lidar com essas preocupações. As regras vigentes na Indonésia para os serviços de transporte online se baseiam em decretos ministeriais, e não em uma legislação abrangente. O decreto de 2017 do Ministério dos Transportes estabeleceu parâmetros básicos, mas deixou lacunas importantes na proteção dos trabalhadores. De acordo com a Lei nº 22/2009, as motocicletas não podem ser classificadas como transporte público, o que cria uma zona jurídica indefinida. Isso permite que as plataformas operem sem se submeter às regras tradicionais de transporte e, ao mesmo tempo, nega aos motoristas as proteções normalmente garantidas aos profissionais do setor.

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Contexto regional e global

A Indonésia não é o único país que busca regular a economia por aplicativo e proteger os trabalhadores das plataformas digitais. Países de todo o mundo estão desenvolvendo diferentes abordagens para equilibrar flexibilidade e proteção trabalhista, e a Indonésia pode aprender com essas experiências ao aperfeiçoar seu marco regulatório.

Em Singapura, as regras para motoristas de táxi online são bastante estruturadas. O governo exige que os motoristas obtenham uma licença profissional após concluir um treinamento de segurança e passar por um exame médico. A Autoridade de Transporte Terrestre adota um sistema de cotas para limitar o número de veículos de transporte por aplicativo e evitar a saturação do mercado. O seguro contra acidentes de trabalho é obrigatório, e a Grab firmou parceria com a Futuready Insurance para oferecer essa cobertura. No entanto, o alto custo de vida continua sendo um peso significativo para os motoristas, já que a garantia de uma renda mínima não tem sido uma prioridade importante das políticas públicas.

A Malásia estabeleceu um marco jurídico por meio da Lei de Transporte Público Terrestre de 2010, administrada pela Agência de Transporte Público Terrestre (APAD). Os motoristas precisam ter uma licença de veículo de serviço público (PSV), e os veículos devem ser registrados em nome de uma pessoa jurídica ou cooperativa. O governo oferece incentivos, como benefícios fiscais para empresas que empregam motoristas idosos. No entanto, a fiscalização deficiente nas ruas faz com que muitos motoristas trabalhem fora do sistema oficial, sem proteção adequada.

O Vietnã adotou uma abordagem diferente com o Decreto 10/2020/ND-CP, que ressalta a importância de integrar os motoristas a entidades jurídicas, como cooperativas. A Xanh SM, prestadora local de serviços de táxi elétrico, tornou-se exemplo de empresa que oferece treinamento e seguro aos motoristas parceiros. Apesar dessas medidas, a intensa concorrência entre plataformas e a saturação do mercado obrigaram muitos motoristas a trabalhar mais de 15 horas por dia para obter uma renda razoável, criando o que críticos descrevem como uma nova forma de exploração econômica.

Entre essas abordagens regionais, os pontos em comum incluem exigências de habilitação para motoristas, padrões para veículos e algum tipo de cobertura de seguro. No entanto, aspectos do bem-estar econômico, como garantias de renda mínima, limites de jornada e proteção contra a desativação unilateral de contas, ainda não são prioridades centrais na maioria dos marcos regulatórios. Essa lacuna é uma área crucial em que o projeto de decreto da Indonésia poderia liderar, em vez de apenas acompanhar, as tendências regionais.

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Avanços legislativos e próximos passos

O projeto de decreto presidencial não é a única iniciativa regulatória que afeta o setor de transporte por aplicativo da Indonésia. A Câmara dos Representantes (DPR) está se preparando para elaborar uma lei específica sobre serviços de transporte online, com o objetivo de criar um marco jurídico abrangente, separado das atuais regras de trânsito e transporte rodoviário.

Lasarus, presidente da Comissão V de Infraestrutura e Transportes da Câmara, afirmou que a futura legislação daria às plataformas de transporte online uma base jurídica própria, separada das leis gerais de transporte. As discussões envolvem várias comissões, refletindo o amplo alcance da regulamentação do transporte online e a supervisão necessária de vários órgãos. Lasarus ressaltou que “cada artigo e cláusula será discutido e consultado com todos os motoristas de transporte online, e não apenas em benefício de um grupo”.

Enquanto o processo legislativo avança, o projeto de decreto presidencial oferece um meio para agir de forma mais imediata. Decretos presidenciais podem ser implementados relativamente rápido na Indonésia, em comparação com o longo processo de aprovação de uma legislação abrangente. Assim, o governo pode tratar de questões urgentes enquanto desenvolve marcos regulatórios de longo prazo.

Adian Napitupulu, integrante da Comissão V, revelou que algumas empresas de transporte por aplicativo estão atualmente descontando entre 30% e 50% dos ganhos dos motoristas por meio de cobranças adicionais que, segundo ele, não têm fundamento jurídico claro. Ele calculou que, se apenas as tarifas de serviços de entrega fossem multiplicadas pelos 4,2 milhões de vendedores que usam as plataformas, as empresas poderiam faturar até 92 bilhões de rupias (US$ 6 milhões) por dia. Esses números mostram a dimensão econômica em jogo e o impacto potencial das mudanças regulatórias tanto para os trabalhadores quanto para as empresas.

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Desafios e considerações

À medida que a Indonésia avança com essas iniciativas regulatórias, vários desafios e aspectos a considerar influenciarão sua eficácia. Encontrar o equilíbrio adequado entre proteger os trabalhadores e manter um ambiente de negócios sustentável para as plataformas exigirá ajustes cuidadosos e constantes.

Um dos principais desafios será garantir o cumprimento das novas regras. Embora os decretos ministeriais tenham estabelecido limites de 20% para as comissões, os motoristas dizem que as plataformas frequentemente contornam essas restrições com cobranças adicionais e estruturas complexas de preços. A proposta de permitir que o governo analise os contratos entre empresas e motoristas e realize auditorias poderia ajudar a enfrentar o problema, mas uma fiscalização eficaz exigirá recursos adequados e capacidade regulatória.

A transparência dos algoritmos é outro desafio importante. Os motoristas reclamam constantemente de sistemas pouco transparentes que definem desde o preço das corridas até a distribuição dos pedidos sem explicações claras. As disposições do projeto de decreto que preveem a análise governamental dos contratos poderiam ajudar a resolver parte dessas preocupações, mas uma transparência efetiva talvez exija regras técnicas mais específicas, além do que costuma ser possível incluir em um decreto presidencial.

A classificação dos motoristas continua sendo uma questão jurídica fundamental. Embora o decreto proposto estenda muitos benefícios normalmente associados ao emprego, ele aparentemente não reclassifica os motoristas como empregados. Essa abordagem híbrida, que amplia a proteção sem alterar formalmente o vínculo de trabalho, poderia criar uma nova categoria de trabalhadores, com direitos situados entre os dos empregados tradicionais e os dos autônomos. Essa solução inovadora talvez sirva de caminho para outros países que enfrentam questões semelhantes na economia digital.

Os desafios de implementação também são consideráveis. A vasta extensão territorial da Indonésia e a estrutura descentralizada do governo significam que as regras aprovadas em nível nacional terão de ser aplicadas em milhares de ilhas por autoridades locais com capacidades e prioridades distintas. Para garantir uma fiscalização uniforme, será necessária a coordenação entre ministérios nacionais, governos regionais e, possivelmente, novos órgãos reguladores criados especificamente para esse fim.

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O que vem pela frente

O decreto presidencial proposto representa um passo importante para reconhecer e proteger os direitos dos motoristas de aplicativos da Indonésia, que se tornaram essenciais para o transporte urbano e para a economia em geral. No entanto, seu impacto final dependerá de vários fatores, como a versão definitiva das regras, a eficácia de sua implementação e a reação das plataformas de transporte por aplicativo.

Se forem implementadas de forma eficaz, as regras poderão fazer da Indonésia uma referência na proteção dos trabalhadores por aplicativo entre as economias emergentes. A abordagem do país pode oferecer lições valiosas a outras nações que enfrentam desafios semelhantes para regular o trabalho em plataformas digitais sem eliminar a flexibilidade que tornou a economia por aplicativo atraente para trabalhadores e consumidores.

Para os motoristas, as regras poderiam proporcionar segurança e estabilidade há muito necessárias, transformando potencialmente um trabalho precário por aplicativo em uma fonte de renda mais sustentável. A redução das comissões aumentaria de imediato o valor recebido pelos motoristas, enquanto a obrigatoriedade de seguro e de contribuições para a seguridade social criaria uma rede de proteção que hoje não existe para a maioria deles.

Para as plataformas, as regras exigirão mudanças significativas nos modelos de negócios e nas práticas operacionais. As empresas talvez precisem rever suas estratégias de preços, aumentar a eficiência em outras áreas para manter a rentabilidade ou desenvolver novas fontes de receita para compensar os custos maiores associados aos benefícios dos motoristas. A possível consolidação do mercado por meio de uma fusão entre GoTo e Grab torna ainda mais complexo o modo como essas empresas se adaptarão ao novo ambiente regulatório.

Para os consumidores, o impacto de curto prazo pode incluir preços mais altos, caso as plataformas repassem os custos adicionais aos passageiros. No longo prazo, porém, os benefícios podem incluir um ecossistema de transporte mais estável e sustentável, com motoristas profissionais capazes de manter seus veículos e oferecer um serviço de qualidade.

O sucesso dessas iniciativas regulatórias dependerá, em última análise, da capacidade do governo de implementá-las com eficácia e, ao mesmo tempo, estimular a continuidade da inovação na economia digital. A forma como a Indonésia equilibrará a proteção dos trabalhadores e a sustentabilidade dos negócios será acompanhada de perto por outros países que enfrentam desafios semelhantes para regular a economia por aplicativo, em rápida transformação.

Principais pontos

  • O presidente Prabowo Subianto analisa um projeto de decreto que reduziria de 20% para 10% o limite das comissões cobradas no transporte por aplicativo
  • As plataformas seriam obrigadas a custear integralmente o seguro contra acidentes e morte de cerca de sete milhões de motoristas
  • O decreto exigiria que empresas e trabalhadores dividissem as contribuições para planos de saúde, aposentadoria por idade e pensão
  • O governo teria autoridade para analisar os contratos entre plataformas e motoristas
  • As regras protegeriam o direito dos trabalhadores de formar sindicatos e negociar coletivamente
  • As regras também abrangeriam empresas de logística, como Lalamove e J&T Express, além dos serviços de transporte por aplicativo
  • Fontes do setor alertam que a maioria das plataformas não consegue arcar com esses custos adicionais
  • As reformas vêm após protestos generalizados de motoristas e o aumento da pressão política exercida pelo setor
  • A Indonésia lidera o mercado de táxis da ASEAN, com 37% de participação em 2024
  • O decreto surge em meio a preocupações com uma possível fusão entre GoTo e Grab
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