Crescimento da população estrangeira no Japão acelera e supera projeções

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Crescimento da população estrangeira no Japão acelera e supera projeções

Uma nação em transformação

O Japão caminha para ter 10% de sua população composta por estrangeiros muito mais rápido do que previam as projeções oficiais. Dezenas de municípios já ultrapassaram esse patamar, e uma vila informou que mais de um terço de seus moradores são cidadãos estrangeiros. Um instituto nacional de pesquisa estimou que os estrangeiros representarão 10,8% da população japonesa até 2070. Mas uma análise dos dados do Registro Básico de Residentes mostra que essa mudança já está em pleno curso no âmbito local. Em janeiro de 2025, 27 municípios tinham mais de 10% de residentes estrangeiros, liderados pela vila de Shimukappu, em Hokkaido, com 36,6%.

Conteúdo
  1. Uma nação em transformação
  2. A realidade local: onde os estrangeiros se concentram
  3. A perspectiva das empresas
  4. O mercado de trabalho: por que os trabalhadores estrangeiros são essenciais
  5. O que está em jogo para a economia
  6. A evolução das políticas: da formação ao emprego
  7. O sistema de formação e emprego
  8. Tensões políticas: identidade nacional versus realidade econômica
  9. Atitudes e percepções do público
  10. Desafios de integração: além dos números
  11. O protagonismo municipal na integração
  12. Tecnologia versus imigração: soluções concorrentes
  13. Os limites das soluções tecnológicas
  14. O caminho a seguir: as decisões que o Japão precisa tomar
  15. Rumo a uma estratégia abrangente
  16. Pontos principais

Essa transformação demográfica representa uma mudança profunda para um país há muito definido pela homogeneidade étnica e cultural. A tendência indica que a transição em âmbito nacional pode ocorrer muito antes do previsto, levantando questões fundamentais sobre como a vida cotidiana mudará nas comunidades de todo o Japão. O crescimento acelerado da população estrangeira não é apenas uma curiosidade estatística, mas reflexo de forças econômicas e sociais mais profundas que estão remodelando o país.

Segundo as estatísticas, o número de residentes estrangeiros em todo o país chegou a 3,76 milhões no fim de 2024, 350 mil a mais do que no ano anterior, o maior aumento anual já registrado. Essa trajetória de crescimento coloca o Japão no caminho para atingir o patamar de 10% de população estrangeira por volta de 2040, cerca de 30 anos antes das estimativas oficiais do governo.

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O atual aumento representa a terceira grande fase de expansão da população estrangeira no Japão. Até a década de 1960, o número de estrangeiros no país geralmente girava em torno de 600 mil. Os números cresceram de forma mais evidente após uma revisão da Lei de Imigração e Reconhecimento de Refugiados, em 1990, que permitiu a pessoas de ascendência japonesa viver no Japão como residentes permanentes. Depois de cair na esteira da crise financeira global e novamente durante a pandemia de COVID-19, a população estrangeira está entrando agora no que demógrafos chamam de terceira fase de expansão, marcada por taxas de crescimento sem precedentes e maior diversidade de origens nacionais.

A realidade local: onde os estrangeiros se concentram

A distribuição dos residentes estrangeiros pelo Japão revela um padrão moldado pelas oportunidades econômicas, e não por uma ocupação aleatória do território. As maiores concentrações estão em áreas industriais e turísticas, além de comunidades com populações estrangeiras estabelecidas há muito tempo. Em Tobishima, na província de Aichi, no centro do Japão, uma comunidade de 4.713 habitantes com vista para a baía de Ise, havia 501 residentes estrangeiros em janeiro do ano passado, o equivalente a 10,6% da população.

Nas noites dos dias de semana, trabalhadores estrangeiros uniformizados circulam de bicicleta pela vila. Nos fins de semana, quase metade dos passageiros dos ônibus locais são cidadãos estrangeiros. Moradores dizem que o aumento se acelerou nos últimos anos. Muitos trabalhadores estrangeiros atuam em fábricas por meio dos programas japoneses de estágio técnico ou de habilidades específicas, suprindo a falta de mão de obra em pequenas e médias empresas. Outros trabalham na venda de carros usados.

As reações dos moradores variam bastante. Uma agricultora de 54 anos disse que os residentes estrangeiros ajudam alegremente nos trabalhos do jardim e são esforçados, enquanto um agricultor de 78 anos afirmou não ter notado problemas específicos, apesar do rápido aumento. Outros continuam cautelosos. Alguns moradores reclamam que motoristas estrangeiros desrespeitam as regras de trânsito. Uma autônoma de 75 anos disse que valoriza o trabalho deles, mas teme que aumente o número de pessoas que não conhecem os costumes japoneses, enquanto uma mulher de 83 anos afirmou que as mudanças repentinas ao seu redor a deixam inquieta.

Shimukappu, onde fica a área de resorts de Tomamu, registrou 582 residentes estrangeiros em uma população de 1.590 pessoas. Outros cinco municípios tinham mais de 20% de residentes estrangeiros, entre eles a vila de Akaigawa e a cidade de Kutchan, em Hokkaido, o distrito de Ikuno, em Osaka, e a cidade de Oizumi, na província de Gunma. Em contraste, duas vilas, incluindo Nishimeya, na província de Aomori, informaram não ter residentes estrangeiros, evidenciando o caráter desigual dessa mudança demográfica.

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A perspectiva das empresas

Perto do porto de Nagoya, depois de um trecho de armazéns e fábricas, a unidade fabril da Tobishima Seisakusho funciona em meio a campos tranquilos. A empresa produz peças para equipamentos de refrigeração e resfriamento. Quatro de seus 21 funcionários são vietnamitas que trabalham com vistos de estágio técnico ou de habilidades específicas. O presidente da empresa, Hideki Ito, de 73 anos, disse que a presença deles é essencial.

Eles são um patrimônio valioso, um tesouro", disse Ito. "Se fossem embora, a empresa não sobreviveria.

Ito afirmou que os moradores japoneses mais jovens se mudaram para as cidades, deixando os empregadores locais com dificuldades para contratar. Mesmo quando trabalhadores japoneses são contratados, alguns saem em menos de um ano. "Pensando no futuro da empresa, seria muito melhor contar com jovens japoneses, mas isso simplesmente não é viável. Não tivemos escolha", disse Ito. A empresa começou a contratar trabalhadores vietnamitas em 2017, após ouvir por recomendação que eram dedicados, e aumentou gradualmente o número de funcionários. Segundo ele, os salários e bônus são quase iguais aos dos empregados japoneses.

Os quatro trabalhadores moram juntos nas dependências da empresa. Nguyen Manh Ha, de 28 anos, trabalha na companhia há cerca de seis anos. Ele envia de 120 mil a 150 mil ienes por mês para a família no Vietnã e gasta cerca de 20 mil a 30 mil ienes consigo mesmo.

Gosto do meu trabalho", disse Ha. "Se possível, gostaria de trabalhar no Japão para sempre.

O mercado de trabalho: por que os trabalhadores estrangeiros são essenciais

O crescimento acelerado da população estrangeira no Japão é impulsionado fundamentalmente por necessidades econômicas. A escassez de mão de obra no país deve se agravar drasticamente nas próximas décadas. A população em idade ativa, de 15 a 64 anos, deve diminuir em 15 milhões entre 2020 e 2040. Mesmo uma reversão repentina da queda na taxa de natalidade não seria suficiente para compensar essa redução.

Segundo uma pesquisa da Agência de Cooperação Internacional do Japão, o país precisará de 4,19 milhões de trabalhadores migrantes em 2030 para sustentar o crescimento econômico. No entanto, no ritmo atual de aumento da mão de obra migrante, ainda haverá uma falta de 770 mil trabalhadores. Em todo o mundo, a escassez de mão de obra custa às 30 maiores economias cerca de US$ 1,3 trilhão por ano em PIB perdido.

Historicamente, o Japão esteve entre os países da OCDE com os menores fluxos migratórios em relação à população. No entanto, a situação mudou significativamente nos últimos anos. Para contrabalançar o impacto do rápido envelhecimento populacional no mercado de trabalho, o Japão promoveu grandes mudanças nas políticas de contratação de trabalhadores no exterior.

As condições favoráveis do mercado de trabalho japonês explicam boa parte do aumento da migração laboral. A taxa de desemprego permaneceu baixa nos últimos 15 anos, e o número de vagas por candidato atingiu o maior nível em 45 anos no ano fiscal de 2018. Além disso, para enfrentar o desafio do rápido envelhecimento da população, a migração laboral passou a ser considerada uma das opções de política pública, junto a esforços de longa data para aumentar o crescimento da produtividade e a oferta de mão de obra entre os residentes do país.

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O Relatório sobre o Futuro dos Empregos 2023 do Fórum Econômico Mundial mostra que apenas 35% das empresas dão prioridade a trabalhadores com mais de 55 anos. A população do Japão está cada vez mais envelhecida. Mais de uma em cada dez pessoas no país tem hoje 80 anos ou mais, segundo os dados nacionais mais recentes. Quase um terço da população tem mais de 65 anos, o equivalente a 36,23 milhões de pessoas. E nunca houve tantos japoneses chegando aos 100 anos. O Japão tem, de forma consistente, a população mais idosa do mundo.

O que está em jogo para a economia

As implicações da mudança demográfica no Japão vão muito além das fábricas e dos canteiros de obras. Em 2020, o Fundo Monetário Internacional previu que "o envelhecimento e a redução da população pressionarão as finanças públicas do Japão, à medida que aumentam os gastos relacionados à idade, como os destinados à saúde e às aposentadorias, enquanto a base tributária encolhe". Apesar do envelhecimento populacional, o Japão ainda tem o segundo maior PIB entre os países do G7. Mas o primeiro-ministro Fumio Kishida disse em janeiro de 2023 que "o Japão está à beira de saber se conseguirá continuar funcionando como sociedade", diante das ameaças simultâneas da queda na taxa de natalidade e do aumento contínuo da população idosa.

O Japão já enfrenta escassez de mão de obra e, até 2040, poderá ter um déficit de 11 milhões de trabalhadores, segundo um estudo recente. Isso levou o governo a introduzir, em 2018, as Diretrizes de Medidas para uma Sociedade Envelhecida, com o objetivo de incentivar os idosos a continuar trabalhando. Em 2022, quase metade das empresas japonesas dependia de trabalhadores com mais de 70 anos. Em todo o mundo, porém, apenas 35% das empresas dão prioridade a trabalhadores com mais de 55 anos.

Com a tecnologia e a digitalização também em jogo, o primeiro-ministro Kishida prometeu, no início de 2023, US$ 7,6 bilhões para qualificar trabalhadores para empregos mais especializados nos cinco anos seguintes. Mas alguns especialistas dizem que, sem flexibilizar as rígidas leis de imigração do país, preencher essa lacuna de mão de obra será um processo lento.

A evolução das políticas: da formação ao emprego

A abordagem do Japão em relação à mão de obra estrangeira mudou significativamente ao longo das décadas, passando de políticas restritivas a estruturas cada vez mais abertas, que reconhecem a dependência do país de trabalhadores estrangeiros. A política de imigração japonesa moderna tem suas raízes na Lei de Controle de Imigração e Reconhecimento de Refugiados de 1952, implementada após a ocupação dos Estados Unidos, e em uma revisão posterior, em 1990.

O sistema de imigração permite vários vistos relacionados ao trabalho, incluindo categorias como professor, jornalista, especialista em humanidades e artista. Há também diversas categorias relacionadas à família, como dependente, cônjuge de cidadão japonês e cônjuge de residente permanente. A maioria das categorias de visto não tem limite de vagas, o que permite alguma flexibilidade no número de cidadãos estrangeiros admitidos a cada ano.

Historicamente, a política migratória do Japão se concentrou na admissão de migrantes qualificados e na atração de estudantes internacionais. A maioria dos imigrantes qualificados migra para o país por meio de um único programa, o de Engenheiros/Especialistas em Humanidades/Serviços Internacionais, que abrange uma ampla variedade de ocupações elegíveis, como engenheiros, arquitetos e tradutores.

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Historicamente, o Japão não tinha canais de migração laboral para ocupações que exigem menos qualificação. O Programa de Estágio Técnico, criado na década de 1960 para desenvolver habilidades e transferi-las de volta a países em desenvolvimento, foi ampliado ao longo do tempo e se tornou o principal programa por meio do qual as empresas podiam contratar trabalhadores estrangeiros com qualificação baixa ou intermediária. Os estagiários trabalham principalmente na indústria, na construção e na agricultura, e podem permanecer no Japão por no máximo cinco anos.

O sistema de formação e emprego

Em 14 de junho de 2024, a Dieta Nacional aprovou uma lei que mudou o nome do Programa de Estágio Técnico para Sistema de Formação e Emprego (TES), após críticas nacionais e internacionais. No sistema anterior, os estagiários técnicos assinavam contratos antes de ir para o Japão, mas não podiam mudar de empregador depois de chegar. Essa restrição, embora tivesse o objetivo de apoiar a formação, foi amplamente criticada por violar a "liberdade de escolha profissional".

O Ministério da Saúde, do Trabalho e do Bem-Estar informou que 70% dos 9.829 locais de trabalho inspecionados após consultas e denúncias de estagiários violavam as normas trabalhistas. Desde então, o governo japonês redefiniu o novo TES para se concentrar tanto na formação de trabalhadores qualificados quanto em garantir sua permanência de longo prazo. O sistema revisado flexibiliza as restrições, permitindo que os trabalhadores mudem de empregador dentro da mesma área após um ou dois anos de emprego.

O Programa de Trabalhador com Habilidades Específicas (SSWP) foi introduzido em 2019 para criar uma via potencialmente de longo prazo para migrantes com qualificações profissionais em setores específicos, incluindo os mais afetados pelas mudanças estruturais demográficas, como o de cuidados a idosos. O programa tem dois níveis. O segundo é destinado a trabalhadores com maior nível de qualificação e oferece reunificação familiar e um caminho para a residência permanente.

Os trabalhadores estrangeiros que avançam para o programa de "Trabalhador com Habilidades Específicas (Tipo Dois)" podem levar suas famílias para o Japão, renovar a residência sem limite e ter a possibilidade de obter residência permanente. Mas, em março de 2024, o programa se aplicava a apenas 15 áreas designadas, como eletrônica, tecnologia da informação, construção e agricultura. A maioria dessas áreas não é viável para estagiários, pois há limites para o número de trabalhadores estrangeiros em cada uma delas no âmbito do TES.

Tensões políticas: identidade nacional versus realidade econômica

A rápida mudança demográfica está alimentando um intenso debate político no Japão. O governo de coalizão da primeira-ministra Sanae Takaichi com o Partido da Inovação do Japão defendeu controles mais rígidos sobre estrangeiros. Em um discurso sobre políticas públicas, ela disse que atividades ilegais e violações das regras por parte de alguns deles provocaram ansiedade na população e uma sensação de injustiça.

Takaichi defende a contratação de trabalhadores estrangeiros em áreas específicas onde o país enfrenta escassez de mão de obra, mas com critérios rigorosos, como domínio do japonês, formação e fiscalização. Ela se opõe à instalação em massa de imigrantes ou à concessão em larga escala de direitos políticos a residentes estrangeiros. Embora suas políticas ainda não tenham sido detalhadas, ela apresenta os estrangeiros como uma ameaça à coesão nacional que precisa ser rigorosamente controlada.

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Essa tensão política reflete contradições mais profundas da sociedade japonesa. O Japão mantém uma forte percepção de homogeneidade étnica e cultural, e a imigração continua amplamente impopular, segundo pesquisas de opinião. No entanto, as realidades demográficas estão obrigando os responsáveis por políticas públicas a cortejar imigrantes como possíveis soluções, ou ao menos como fatores de mitigação, para alguns dos problemas econômicos decorrentes do envelhecimento.

Em julho do ano passado, o então ministro da Justiça, Keisuke Suzuki, disse que o Japão deveria partir do princípio de que a população estrangeira ultrapassará 10% por volta de 2040, cerca de 30 anos antes da estimativa do instituto. O governo japonês planeja fazer uma revisão abrangente de suas políticas de imigração, incluindo a possibilidade de estabelecer limites. A iniciativa ocorre em meio ao rápido aumento do número de residentes estrangeiros no país.

Uma força-tarefa recém-criada fará pesquisas para avaliar os impactos sociais dessa mudança demográfica, e os resultados deverão orientar futuras decisões de política pública. O relatório destaca preocupações com a prevenção de divisões sociais entre cidadãos estrangeiros e japoneses e traça paralelos com problemas observados em outros países desenvolvidos do Grupo dos Sete. A possibilidade de impor limites à imigração será considerada caso surjam sinais de atritos sociais acima de níveis aceitáveis.

Atitudes e percepções do público

Pesquisas acadêmicas revelam padrões complexos nas atitudes do público japonês em relação à imigração. Em um experimento de pesquisa com mil eleitores japoneses, pesquisadores avaliaram o impacto de apresentar aos participantes dados demográficos sobre o envelhecimento e suas implicações. Os principais resultados apontaram um aumento de 10 pontos percentuais no apoio à imigração entre o grupo exposto aos dados. Os participantes mais jovens e urbanos reagiram de forma positiva, enquanto os idosos e moradores de áreas rurais foram menos receptivos.

Trabalhos de campo posteriores, baseados em entrevistas, revelam que grupos favoráveis a restrições veem a redução da população como um fator que deixa o país vulnerável ao aumento da imigração, enquanto outros participantes se preocupam menos com questões de identidade e mais com a competitividade econômica. Em conjunto, essa pesquisa oferece uma nova compreensão das percepções singulares do Japão sobre a política migratória em comparação com as de países semelhantes.

Embora governos anteriores tenham reconhecido que a redução da população é um problema significativo, pouco fizeram para enfrentá-lo. Várias iniciativas trouxeram residentes ou trabalhadores estrangeiros para o país, mas, sob governos do Partido Liberal Democrático (LDP), houve relutância em lançar programas com escala e compromisso suficientes para integrar imigrantes à sociedade japonesa e fazer uma diferença significativa. Por isso, esses programas tiveram apenas êxito limitado.

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O número de residentes nascidos no exterior no Japão chegou a um recorde de 3,6 milhões neste ano, cerca de 3% da população. Ainda assim, o percentual é muito inferior ao de muitas outras economias desenvolvidas. O aumento da população estrangeira levou a um número recorde de bebês de "origem estrangeira" nascidos no Japão, com mães chinesas, filipinas e brasileiras no topo da lista. Isso compensou em parte a queda no número de recém-nascidos de pais japoneses.

Desafios de integração: além dos números

À medida que mais municípios ultrapassam a marca de 10%, as questões sobre como o Japão acolhe e integra os residentes estrangeiros deixam de ser projeções de longo prazo e passam a envolver decisões imediatas de política pública. O governo japonês tem tido dificuldade para oferecer aos trabalhadores estrangeiros um caminho claro para o emprego de longo prazo, levando alguns municípios a adotar suas próprias medidas de integração.

A integração à sociedade japonesa continua sendo um desafio para os migrantes. Só recentemente o Japão começou a desenvolver uma política de integração para apoiar trabalhadores migrantes. No entanto, migrantes altamente qualificados que escolhem o Japão tendem a permanecer no país por muito tempo. Estudantes internacionais são um recurso fundamental visado pela estratégia japonesa de atrair e reter talentos globais. A maioria dos trabalhadores migrantes qualificados no Japão entrou no país inicialmente como estudante internacional.

Sem um apoio ou uma regulamentação nacional robustos, algumas cidades, como Kawasaki e Hamamatsu, lideram iniciativas para desenvolver políticas voltadas ao número crescente de residentes de longo prazo sem cidadania japonesa. Essas cidades trabalham para resolver questões como atritos culturais, discriminação étnica e discriminação no emprego.

O protagonismo municipal na integração

Kawasaki mostra como o passado colonial do Japão moldou as desigualdades étnico-raciais vividas no pós-guerra pelos residentes coreanos. Muitos coreanos mais jovens, nascidos no Japão, fixaram residência permanente e participam da política de base para enfrentar as experiências de discriminação. Imigrantes de outros países também fizeram de Kawasaki seu lar.

Em março de 2024, a população estrangeira da cidade era de cerca de 50 mil pessoas, entre elas 17 mil cidadãos chineses, 5.900 vietnamitas, 5.400 filipinos e 7.600 coreanos. A Assembleia Representativa de Residentes Estrangeiros da Cidade de Kawasaki (KCRA) foi criada em 1996, transformando o ativismo de não cidadãos, antes limitado à participação comunitária, em envolvimento ativo nas decisões. Em 2019, a KCRA revisou suas regras de nomeação e recrutamento para refletir a mudança na composição da população estrangeira residente.

O fórum assessora o prefeito sobre questões a partir da perspectiva dos residentes estrangeiros. A KCRA propôs 49 medidas de política pública para tratar de preocupações como discriminação habitacional, regulamentação do discurso de ódio, restrições ao acesso de idosos sem cidadania a pensões assistenciais, acesso limitado às universidades e falta de informações públicas em idiomas estrangeiros.

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Hamamatsu, um importante polo industrial, tem uma população crescente de residentes estrangeiros. Em setembro de 2024, eram cerca de 30 mil, entre cidadãos brasileiros, vietnamitas, filipinos, chineses e coreanos, entre outros. Quase metade desses residentes estrangeiros vive em Hamamatsu há mais de 15 anos.

Uma iniciativa que diferencia Hamamatsu é o Conselho de Municípios com Grandes Populações Migrantes (CMLMP), criado em 2001. Essa rede entre cidades, que chegou a 15 municípios em 2021, cria uma ponte entre os ministérios nacionais e as ações locais, promovendo cooperação e compartilhamento de informações entre os municípios. O CMLMP tem pressionado líderes empresariais e órgãos nacionais a proteger os direitos dos residentes estrangeiros e também funciona como um centro de inovação em políticas públicas e colaboração entre seus integrantes.

Tecnologia versus imigração: soluções concorrentes

Embora o Japão recorra cada vez mais à mão de obra estrangeira para enfrentar os desafios demográficos, o país também busca soluções tecnológicas que possam reduzir a dependência da imigração. O envelhecimento extremo e a redução da população representam um desafio econômico e social para o Japão, mas também uma oportunidade tecnológica de liderança global.

As trajetórias de automação do trabalho e de ampliação das habilidades dos trabalhadores no Japão já são moldadas pela demografia do país. Softwares, robótica e outras tecnologias estão transformando a natureza do trabalho em uma ampla variedade de setores da economia japonesa e em diferentes tipos de ocupação, como trabalhos manuais, administrativos, agrícolas, industriais e de serviços.

As trajetórias tecnológicas impulsionadas pela demografia se agrupam em torno de dois paradigmas contrastantes: a automação do trabalho e a ampliação das habilidades dos trabalhadores. Nas discussões globais, a automação costuma ser apresentada como uma forma de retirar trabalhadores de tarefas e empregos, com o risco de eliminar muito mais vagas do que as ocupadas por quem procura trabalho. No caso do Japão, porém, a automação é mais uma resposta à escassez de mão de obra: já não há pessoas suficientes para realizar o trabalho necessário.

A ampliação de habilidades diz respeito ao aprimoramento das capacidades das pessoas, seja por meio do aumento da eficiência, seja pela qualificação, permitindo que trabalhadores sem habilidades especializadas executem tarefas especializadas. Tecnologias de software baseadas em inteligência artificial (IA), combinadas com hardware, robôs de assistência humana e sistemas automatizados de diversos tipos, estão sendo desenvolvidas e implementadas em todos os tipos de trabalho.

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Os limites das soluções tecnológicas

Embora a automação e a robótica ofereçam algum alívio, especialistas alertam que a tecnologia não pode substituir totalmente o trabalho humano em todos os setores. O Fundo Monetário Internacional observa que, embora a automação venha a eliminar pouquíssimas ocupações por completo nas próximas décadas, é provável que afete parcialmente quase todos os empregos, em maior ou menor grau, dependendo do tipo de trabalho e das tarefas envolvidas.

Ao ir além das atividades industriais rotineiras e repetitivas, a automação pode alcançar uma variedade muito mais ampla de atividades do que até agora e redefinir o trabalho humano e as formas de trabalhar nos serviços e em outros setores. No Japão, o rápido encolhimento da força de trabalho e a entrada limitada de imigrantes criam um forte incentivo à automação, tornando o país um laboratório particularmente útil para estudar o futuro do trabalho.

Dados empíricos indicam que, ao contrário do que temem os cenários mais pessimistas, a automação e o uso crescente de robôs tiveram um impacto geral positivo no emprego interno e no crescimento da renda no Japão. Cálculos da equipe do FMI constataram que o aumento da densidade de robôs na indústria está associado não apenas a maior produtividade, mas também a ganhos locais em emprego e salários. Vale notar que esses resultados, que excluem períodos de crise, são opostos aos de um estudo semelhante baseado em dados dos Estados Unidos.

Ao que tudo indica, a experiência do Japão pode diferir significativamente da de outras economias avançadas. O avanço da automação, o uso de robôs e a integração da inteligência artificial ao cotidiano provavelmente ocorrerão no Japão em ritmo mais acelerado do que em muitos outros países desenvolvidos, por vários motivos: a redução da população e, mais rapidamente ainda, da força de trabalho; o envelhecimento populacional, que gera grandes necessidades de mão de obra na saúde e no cuidado de idosos, não atendidas por novos trabalhadores nativos; e a queda na qualidade dos serviços à medida que a escassez de mão de obra compromete os padrões de atendimento.

O caminho a seguir: as decisões que o Japão precisa tomar

O Japão está diante de uma encruzilhada e enfrenta escolhas difíceis sobre como administrar seu futuro demográfico. Embora a automação e a inteligência artificial ofereçam algum alívio, a dependência da mão de obra estrangeira deve continuar, pois nenhuma solução isolada pode enfrentar toda a dimensão dos desafios demográficos do país.

Outros argumentam que a coexistência é inevitável. Tsukasa Sasai, professor de demografia da Universidade da Província de Fukui, disse que o Japão não pode mais funcionar sem residentes estrangeiros.

O Japão já é uma sociedade que não consegue sobreviver sem coexistir com estrangeiros", disse Sasai. "Criar um ambiente em que estrangeiros possam se estabelecer com sucesso como parte da força de trabalho traria benefícios significativos para a sociedade japonesa.

O governo japonês precisa adotar uma política migratória estratégica que atenda às necessidades do mercado de trabalho e também esteja alinhada aos objetivos demográficos do país diante da redução da população. Igualmente importante, é preciso implementar medidas para integrar melhor os residentes estrangeiros à sociedade, em conformidade com as normas e os tratados internacionais.

A incapacidade do Estado de administrar eficazmente a migração internacional deixou as autoridades locais na linha de frente, oferecendo segurança e apoio tanto aos residentes locais quanto aos estrangeiros. Apesar disso, primeiros-ministros sucessivos afirmaram não ter "intenção de adotar o que é comumente chamado de política de imigração".

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Rumo a uma estratégia abrangente

Em vez de uma política explícita de imigração, parece haver um esforço coordenado para melhorar a permanência dos imigrantes e ampliar gradualmente o recrutamento no âmbito das políticas migratórias existentes, aumentando os números aos poucos e evitando um referendo público potencialmente controverso. No entanto, essa abordagem incremental pode já não ser suficiente diante do ritmo das mudanças demográficas.

Para que os imigrantes fossem uma solução viável para o envelhecimento do Japão, algumas estimativas apontam que eles teriam de representar pelo menos 10% da população total, um número inviavelmente alto para a maioria, considerando a forte preferência que ainda existe pela homogeneidade étnica e cultural e a provável reação negativa do público.

Se o governo continuar aumentando gradualmente a população estrangeira sem dizer isso explicitamente, provavelmente chegará um momento em que o público perceberá a situação e cobrará explicações das autoridades. Se o aumento da imigração para o Japão for mesmo inevitável, o governo precisará apresentar seus argumentos à população japonesa.

A questão mais ampla não é se a população estrangeira do Japão crescerá, mas como o país se adaptará a essa nova realidade. Os municípios que já ultrapassaram o patamar de 10% oferecem lições valiosas tanto sobre os desafios quanto sobre as oportunidades da integração. Suas experiências indicam que uma integração bem-sucedida exige não apenas mudanças nas políticas públicas, mas também uma transformação fundamental das atitudes sociais e das estruturas comunitárias.

A trajetória demográfica do Japão está definida para as próximas décadas. A única variável é a resposta do país. A escolha não é entre imigração e manutenção da homogeneidade, mas entre integração planejada e atritos sociais. As vilas e cidades que já atravessam essa transição mostram que a coexistência não é apenas possível, mas também potencialmente benéfica, desde que seja conduzida com planejamento cuidadoso e sensibilidade cultural.

Pontos principais

  • 27 municípios japoneses já têm mais de 10% de residentes estrangeiros, e a vila de Shimukappu, em Hokkaido, lidera com 36,6%
  • A população estrangeira chegou a 3,76 milhões no fim de 2024, 350 mil a mais que no ano anterior, o maior aumento anual já registrado
  • A população japonesa em idade ativa (de 15 a 64 anos) deve diminuir em 15 milhões entre 2020 e 2040
  • Espera-se que a população estrangeira chegue a 10% do total nacional até 2040, 30 anos antes das projeções oficiais
  • O Programa de Estágio Técnico mudou de nome para Sistema de Formação e Emprego em 2024, após críticas
  • O Programa de Trabalhador com Habilidades Específicas oferece um caminho para a residência permanente a trabalhadores qualificados em 15 áreas designadas
  • Cidades como Kawasaki e Hamamatsu estão desenvolvendo suas próprias políticas de integração diante do apoio nacional limitado
  • O governo da primeira-ministra Takaichi defende controles mais rígidos, enquanto empresas pedem mais trabalhadores estrangeiros
  • Segundo estimativas de pesquisas, o Japão precisará de 4,19 milhões de trabalhadores migrantes até 2030 para sustentar o crescimento econômico
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