A guinada estratégica da Tailândia em direção à China desafia aliança com os EUA

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A guinada estratégica da Tailândia em direção à China desafia aliança com os EUA

Uma ruptura histórica em formação

Por quase dois séculos, os Estados Unidos e a Tailândia mantiveram uma relação diplomática que foi um dos pilares da política externa americana na Ásia. A aliança remonta ao Tratado de Amizade e Comércio de 1833, quando a Tailândia ainda era conhecida como Sião, e se consolidou durante a Guerra Fria com o Pacto de Manila, de 1954. A Tailândia serviu como um importante Estado na linha de frente e base de apoio para as operações dos EUA durante a Guerra do Vietnã, e acabou recebendo, em 2003, a designação de Aliado Importante Extra-OTAN. Hoje, porém, analistas alertam que essa parceria antes inabalável está se deteriorando e se transformando de um sólido pilar de segurança no que alguns descrevem como um "tigre de papel", enquanto Bangkok se aproxima cada vez mais de Pequim.

Conteúdo
  1. Uma ruptura histórica em formação
  2. O golpe de 2014 e o vácuo estratégico
  3. Percepções divergentes sobre as ameaças
  4. A mudança nas compras militares e a recusa dos F-35
  5. A questão crucial do acesso e do direito de uso de bases
  6. A mudança das prioridades estratégicas de Washington
  7. O jogo de equilíbrio da Tailândia
  8. O futuro da aliança
  9. Em resumo

As raízes desse realinhamento estratégico são complexas e resultam de uma combinação de decisões da política externa dos EUA, mudanças na política interna tailandesa e da intensa ofensiva econômica e militar da China. Embora os exercícios militares anuais Cobra Gold continuem simbolizando os laços institucionais, a coesão estratégica entre Washington e Bangkok se desgastou. Os Estados Unidos já não podem contar com o acesso de que desfrutavam, e a confiança mútua que definia a aliança durante a Guerra Fria deu lugar a uma relação pragmática e transacional, na qual a Tailândia olha cada vez mais para a China em busca de segurança e de um futuro econômico.

Emma Chanlett-Avery, diretora de assuntos político-militares do Asia Society Policy Institute, em Washington, destacou a gravidade dessa mudança. Ela observou que o centro de gravidade da Tailândia há muito pende para a República Popular da China. Essa aproximação não é uma oscilação temporária, mas representa uma mudança fundamental no cenário geopolítico do Sudeste Asiático. Enquanto os EUA disputam influência na região, perder a Tailândia como parceira confiável tem consequências militares e estratégicas importantes.

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O golpe de 2014 e o vácuo estratégico

O momento decisivo na história recente da aliança entre os EUA e a Tailândia remonta ao golpe militar de 2014, que derrubou o governo tailandês eleito democraticamente. Em resposta à tomada do poder pelo general Prayut Chan-o-cha, os Estados Unidos reduziram drasticamente seu envolvimento, impondo sanções e rebaixando o nível de cooperação militar. Essa retirada, que pretendia punir a junta e promover o retorno à democracia, acabou criando um vácuo de poder que Pequim tratou de preencher rapidamente.

Ao contrário dos Estados Unidos, a China não condiciona sua cooperação em segurança a reformas políticas ou ao respeito aos direitos humanos. Pequim entrou em cena com vendas de armas e incentivos econômicos, oferecendo aos militares tailandeses uma parceria sem as reprimendas e restrições que muitas vezes acompanhavam as relações com os EUA. Segundo o Lowy Institute, a China vendeu à Tailândia quase US$ 400 milhões em armas entre 2016 e 2022, cerca do dobro do valor vendido pelos Estados Unidos no mesmo período. O material incluía mísseis terra-ar, radares e tanques, sinalizando um aprofundamento dos laços de defesa que seria impensável uma década antes.

O contraste entre as abordagens dos EUA e da China era marcante. Washington buscava usar sua influência para incentivar a restauração da democracia, enquanto Pequim priorizava garantir uma posição estratégica. Para a elite militar tailandesa, mais preocupada com a sobrevivência do regime e a estabilidade interna do que com ameaças externas, a oferta chinesa se mostrou muito mais atraente. A retirada dos EUA não foi apenas um revés diplomático: foi um erro estratégico que empurrou um aliado de longa data para os braços de seu principal concorrente.

Zach Cooper, pesquisador sênior do American Enterprise Institute, observou que esse período representou um alto risco de "desacoplamento" entre os dois países. Os interesses de Washington e Bangkok já não estavam alinhados, e o caminho apontava para menos exercícios conjuntos de treinamento, menos acordos de venda de armas e acesso restrito às bases tailandesas.

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Percepções divergentes sobre as ameaças

A tensão entre os Estados Unidos e a Tailândia se deve, em sua essência, às visões fundamentalmente diferentes que os dois países têm da China. Washington vê Pequim como uma potência revisionista e o principal desafio de longo prazo aos seus interesses no Indo-Pacífico. A Estratégia de Segurança Nacional dos EUA identifica explicitamente a China como uma concorrente que busca enfraquecer a ordem internacional baseada em regras. A Tailândia, porém, não compartilha essa percepção de ameaça.

A geografia tem um papel crucial nessa divergência. Ao contrário das Filipinas ou do Vietnã, a Tailândia não tem disputas territoriais com a China no Mar do Sul da China. Bangkok não considera o expansionismo chinês uma ameaça existencial à sua soberania. Em vez disso, vê a China como seu maior parceiro comercial e uma potência hegemônica não hostil, capaz de apoiar seu desenvolvimento econômico. Essa falta de uma percepção comum de ameaça enfraquece a própria base da aliança, historicamente construída em torno de preocupações mútuas com a segurança.

Em um relatório de 2024, o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla em inglês) destacou que a aproximação da Tailândia com a China limita as opções dos EUA para instalar mísseis na região. O relatório concluiu que seria "altamente improvável" que a Tailândia aprovasse a instalação de mísseis americanos destinados a conter a crescente ameaça de mísseis balísticos e de cruzeiro da China e da Coreia do Norte. Essa relutância decorre do desejo de Bangkok de evitar provocar seu gigantesco vizinho e da convicção de que manter boas relações com Pequim favorece mais sua segurança nacional do que antagonizá-la.

Essa divergência estratégica é agravada pela política interna. Os militares tailandeses e as elites alinhadas à monarquia desconfiam dos Estados Unidos, temendo que a ênfase de Washington na democracia e nos direitos humanos ameace seu domínio político interno. A China, por outro lado, é vista como uma parceira confiável, que respeita a segurança do regime e oferece ferramentas, como tecnologias de vigilância, para manter o controle interno. Por isso, os militares tailandeses se sentem cada vez mais à vontade para se alinhar a Pequim, afastando ainda mais Washington.

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A mudança nas compras militares e a recusa dos F-35

A evidência concreta do realinhamento da Tailândia aparece sobretudo nas escolhas de aquisição de equipamentos de defesa. Historicamente, os Estados Unidos eram o maior fornecedor de armas do país. As Forças Armadas Reais da Tailândia eram equipadas com material americano, de caças F-16 a tanques M-41. Desde o golpe de 2014, essa tendência se inverteu drasticamente. A China se tornou a principal fornecedora de armas da Tailândia, com uma variedade de sistemas importantes, incluindo os tanques de batalha VT-4, os veículos blindados de transporte de tropas VN-1 e a controversa compra de um submarino da classe Yuan.

O acordo do submarino, avaliado em mais de US$ 1 bilhão, foi particularmente significativo por marcar a primeira incursão da Tailândia na guerra submarina. O contrato incluiu treinamento da tripulação e um plano de pagamento de dez anos, além da construção de instalações para submarinos na base naval de Sattahip. Essas instalações agora recebem visitas da Marinha do Exército de Libertação Popular, permitindo que a China estabeleça uma posição estratégica de inteligência e vigilância em um local que antes servia de escala para a Marinha dos EUA.

Um momento decisivo no desgaste dos laços de defesa ocorreu em 2023, quando os Estados Unidos negaram o pedido da Tailândia para comprar até oito caças F-35 Lightning II. Um dos aviões furtivos mais avançados do mundo, o F-35 representa o auge da tecnologia aeroespacial americana. A recusa enviou um sinal claro sobre a queda no nível de confiança entre os dois países. Na época, um representante da Força Aérea tailandesa reconheceu à imprensa local que a relação da Tailândia com a China provavelmente havia influenciado a decisão.

Cooper explicou a lógica por trás da recusa. Segundo ele, autoridades de inteligência dos EUA ficariam apreensivas em compartilhar detalhes confidenciais de uma tecnologia tão avançada com líderes tailandeses cujos interesses parecem mais alinhados aos da China. Há um receio real de que tecnologia americana sofisticada acabe nas mãos dos chineses, seja por transferência ou por engenharia reversa. Essa falta de confiança limita severamente a profundidade da futura cooperação militar e a venda de recursos avançados.

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A questão crucial do acesso e do direito de uso de bases

Uma das consequências estratégicas mais importantes da relação desgastada é a perda de um possível acesso a bases militares tailandesas, em especial ao aeródromo naval de U-Tapao, da Marinha Real Tailandesa. Localizado no golfo da Tailândia, U-Tapao é um centro logístico vital para os militares dos EUA no Sudeste Asiático. Sua localização permite operações mais ao norte da região e serve como ponto crucial de trânsito entre o Oriente Médio e o Pacífico.

Durante as guerras do Afeganistão e do Iraque, a Tailândia concedeu aos EUA acesso a U-Tapao para apoio logístico. Analistas, porém, agora estão convencidos de que, em caso de conflito no Estreito de Taiwan, a Tailândia recusaria um acesso semelhante. Chanlett-Avery afirmou que a aproximação de Bangkok consolidou a convicção dos EUA de que a Tailândia não permitiria o uso de suas bases pelos americanos diante de uma situação desse tipo.

"Com a intensificação da competição estratégica entre os EUA e a China, a Tailândia se aproximou bastante de Pequim... Isso significa que os Estados Unidos já não podem contar com o acesso de que dispunham para suas próprias operações militares", disse Chanlett-Avery.

Cooper ressaltou os desafios logísticos que isso cria para os militares dos EUA. Os Estados Unidos simplesmente não dispõem de muitas bases operacionais no Sudeste Asiático. Perder a possibilidade de usar U-Tapao complica a logística necessária para manter uma presença militar global, especialmente enquanto os EUA buscam projetar seu poder no Mar do Sul da China ou no Estreito de Taiwan. Embora possam contar com outros parceiros, como Cingapura, a posição geográfica da Tailândia, mais ao norte, oferece vantagens únicas que agora estão, na prática, fora de alcance.

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A mudança das prioridades estratégicas de Washington

À medida que a Tailândia se aproximou da China, os Estados Unidos também mudaram suas próprias prioridades estratégicas na região. Quando o governo Obama anunciou o "Pivô para a Ásia", em 2011, o Sudeste Asiático estava no centro da estratégia. Desde então, porém, o foco se deslocou para leste, em direção ao que é conhecido como "primeira cadeia de ilhas". Essa fronteira marítima se estende do Japão a Taiwan e às Filipinas, áreas onde a ameaça chinesa é considerada mais aguda.

Cooper observou que a versão mais recente da Estratégia de Segurança Nacional do governo dos EUA define um conjunto bem mais limitado de objetivos, no qual a porção continental do Sudeste Asiático tem um papel menor do que antes. Os Estados Unidos estão priorizando pactos de segurança "minilaterais" e trilaterais com parceiros como Austrália, Japão, Coreia do Sul e Índia. Esses grupos, como o Quad e o AUKUS, em grande parte deixam de fora os países continentais do Sudeste Asiático. A principal exceção são as Filipinas, devido aos confrontos com Pequim no Mar do Sul da China.

Esse recuo parcial da porção continental criou um ciclo de retroalimentação. À medida que os EUA se concentram nas disputas marítimas da primeira cadeia de ilhas, a Tailândia se sente menos envolvida e menos inclinada a se alinhar às prioridades americanas. Por sua vez, à medida que a Tailândia se aproxima da China, os EUA veem menos motivos para investir pesadamente na aliança. O resultado é uma relação estagnada, sem o impulso estratégico que já teve.

O jogo de equilíbrio da Tailândia

Apesar do aprofundamento dos laços com a China, a Tailândia não rompeu completamente sua relação com os Estados Unidos. Bangkok continua praticando o que observadores chamam de "diplomacia do bambu", uma política de se curvar conforme o vento para sobreviver. O país preserva a capacidade de manter alinhamentos com vários lados, buscando colher os benefícios dos laços econômicos com a China e, ao mesmo tempo, manter vínculos de segurança com os EUA.

O Carnegie Endowment for International Peace observa que os laços de segurança da Tailândia com Washington continuam sólidos e bem estabelecidos, sobretudo em comparação com os que mantém com Pequim. Os dois países ainda organizam juntos o Cobra Gold, os maiores exercícios militares multilaterais da região. Os Estados Unidos também continuam sendo o maior mercado de exportação da Tailândia. Bangkok, porém, segue uma política rigorosa de equidistância, evitando se aproximar demais de qualquer potência que possa restringir sua liberdade de ação.

Esse equilíbrio está cada vez mais difícil de manter. O domínio econômico da China na região é avassalador. Pequim é o maior parceiro comercial da Tailândia e um grande investidor por meio da Iniciativa Cinturão e Rota. Projetos de grande visibilidade, como a ferrovia de alta velocidade que liga Bangkok à China e a implantação da rede 5G da Huawei, vinculam o futuro econômico tailandês à China. Nem mesmo as tensões recentes, como as disputas sobre as barragens no rio Mekong ou os déficits comerciais, impediram Bangkok de buscar uma integração mais estreita.

Além disso, a China está ampliando seu papel na segurança para além da venda de armas. Pequim tentou se posicionar como mediadora de segurança em disputas regionais, como o recente conflito na fronteira entre a Tailândia e o Camboja. Ao se oferecer para mediar e projetar a imagem de uma grande potência responsável, a China desafia o papel tradicional dos EUA como garantidores da segurança regional.

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O futuro da aliança

A trajetória da aliança entre os EUA e a Tailândia aponta para um esfriamento contínuo das relações. Nenhum dos lados quer um rompimento público conturbado, mas o conteúdo estratégico da parceria se esvaziou. Os Estados Unidos provavelmente continuarão administrando a relação em um nível mínimo para manter sua presença, mas reduzirão as expectativas quanto à disposição da Tailândia de se opor à agressividade chinesa.

Para a Tailândia, o caminho à frente exige navegar uma relação complexa com uma China cada vez mais assertiva. Bangkok continuará buscando equilíbrio e talvez procure diversificar seus parceiros de segurança, aproximando-se de potências médias como Índia, Japão e Coreia do Sul. No entanto, a força de atração da economia chinesa e a falta de instrumentos econômicos de política externa dos EUA na região dificultam a resistência da Tailândia à órbita de Pequim.

Os Estados Unidos enfrentam uma escolha difícil. Podem aceitar a aliança como uma parceria tática e limitada, útil para ações de menor escala, como assistência em desastres e combate ao terrorismo, ou investir muito mais capital diplomático e econômico para tentar reconquistar a Tailândia. Dado o foco atual dos EUA na primeira cadeia de ilhas e as limitações impostas pela competição entre grandes potências, a primeira opção parece mais provável. A aliança pode sobreviver no nome, mas sua função como baluarte do poder americano no Sudeste Asiático continental chegou efetivamente ao fim.

Em resumo

  • A aliança entre os EUA e a Tailândia, que remonta a 1833 e 1954, está se deteriorando devido ao desalinhamento estratégico e à aproximação tailandesa com a China.
  • O golpe militar de 2014 na Tailândia levou os EUA a impor sanções, criando um vácuo que a China preencheu com vendas de armas e apoio sem condições.
  • A China se tornou a principal fornecedora de armas da Tailândia, vendendo quase US$ 400 milhões em equipamentos entre 2016 e 2022, incluindo tanques e submarinos.
  • Em 2023, os EUA negaram o pedido da Tailândia para comprar caças F-35, alegando preocupações com a transferência de tecnologia e os estreitos laços do país com Pequim.
  • É improvável que a Tailândia conceda aos EUA acesso a bases estratégicas como U-Tapao em caso de conflito em Taiwan, o que limita as opções logísticas americanas.
  • O foco estratégico dos EUA se deslocou para a "primeira cadeia de ilhas" (Japão, Taiwan e Filipinas), reduzindo a prioridade do Sudeste Asiático continental.
  • A Tailândia pratica a "diplomacia do bambu" e tenta equilibrar as relações com os EUA e a China, preservando sua autonomia estratégica.
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