Por que a energia solar está em alta agora
Em Mianmar, uma mudança discreta, mas abrangente, está em curso. Depois que a Tailândia interrompeu o fornecimento de energia pela fronteira oeste em 2025 para atingir operações de golpes on-line, os efeitos se espalharam muito além desses centros criminosos. Em cidades como Myawaddy, hospitais, escritórios e residências correram para instalar painéis solares. Moradores dizem que, em alguns bairros, três em cada quatro pessoas agora dependem da energia solar, enquanto empresas empilham vários painéis e pequenas baterias para manter as luzes, a refrigeração e os pagamentos funcionando.
Conteúdo
- Por que a energia solar está em alta agora
- O que levou a rede elétrica ao colapso
- Queda na produção de gás natural e suspensão do GNL
- Sanções, peças de reposição e danos causados pelo conflito
- O escurecimento visível da economia
- Famílias e pequenos negócios recorrem à energia solar para sobreviver
- Setor industrial se adapta: arrozais, fábricas e telhados
- Como esses sistemas funcionam e por que as baterias são importantes
- Sinais de política pública e planos de produção local
- Limites e riscos da corrida pela energia solar
- Contexto regional e o que isso significa para Mianmar
- O que saber
Essa adesão à energia solar nos telhados nasceu da necessidade. O sistema elétrico de Mianmar se deteriorou desde a tomada do poder pelos militares, em 2021, e a expansão do conflito civil. Os apagões se tornaram rotineiros, e a manutenção ficou mais difícil sob as sanções ocidentais. O Banco Mundial estima que a capacidade de geração em operação caiu, em 2024, para o nível de 2015. As medições por satélite da intensidade luminosa, usadas pelas Nações Unidas como indicador da atividade econômica e do acesso à eletricidade, caíram em média cerca de 8% ao ano desde o golpe. Com a rede elétrica em crise, fabricantes chineses preencheram a lacuna com módulos solares de baixo custo, enquanto o número de instaladores locais cresceu.
Por trás dos apagões estão limitações concretas. A produção doméstica de gás natural, base da geração termelétrica de Mianmar, está em declínio. As importações de gás natural liquefeito foram suspensas por falta de moeda estrangeira. As sanções dificultaram a obtenção de peças de reposição e suporte técnico para usinas e subestações antigas. As autoridades afirmaram que a capacidade de geração caiu quase pela metade em relação aos níveis anteriores a 2021, embora algumas estatísticas oficiais ainda indiquem pouca mudança na produção desde 2018. O que a maioria das pessoas vê e sente não é uma planilha, mas apagões rotativos e geradores a diesel que consomem dinheiro e combustível.
O que levou a rede elétrica ao colapso
A rede elétrica de Mianmar nunca foi robusta. Os centros urbanos tinham um serviço melhor que grande parte do interior, mas até as grandes cidades enfrentavam interrupções. Anos de subinvestimento e aumento da demanda, seguidos pela crise política, deixaram o sistema vulnerável. Quando o abastecimento de combustível ficou mais restrito e as reservas de moeda estrangeira desapareceram, a fragilidade do setor elétrico se tornou visível no cotidiano.
Queda na produção de gás natural e suspensão do GNL
As usinas de Mianmar dependem fortemente do gás doméstico. A produção caiu à medida que alguns campos amadureceram. As importações de gás natural liquefeito, que deveriam compensar a queda, foram interrompidas com o agravamento da crise cambial. Sem combustível, as turbinas ficam paradas. Em áreas de conflito, os apagões são frequentes e prolongados, criando um mosaico de escuridão que levou as comunidades a buscar soluções improvisadas.
Sanções, peças de reposição e danos causados pelo conflito
As restrições ligadas ao golpe dificultaram a manutenção de equipamentos complexos. Os operadores enfrentam dificuldades para obter peças de reposição e conhecimento técnico especializado. Linhas de transmissão e subestações foram danificadas nos combates, e os reparos podem demorar. Em conjunto, essas pressões reduziram a capacidade da rede de fornecer energia de forma contínua, mesmo quando algumas usinas estão tecnicamente disponíveis.
O escurecimento visível da economia
Dados de satélite que monitoram as luzes noturnas mostram um escurecimento constante da atividade econômica de Mianmar. A queda na intensidade luminosa não retrata todas as dificuldades, mas condiz com o cenário observado no país: pequenos negócios fechando mais cedo, hospitais racionando eletricidade, bairros organizando suas próprias soluções de emergência e um número crescente de setores reavaliando como abastecer suas operações.
Famílias e pequenos negócios recorrem à energia solar para sobreviver
A resposta tem sido prática. Residências, lojas, clínicas e escolas adotaram pequenos sistemas solares, geralmente com alguns painéis, uma bateria e um inversor. Um kit básico de energia solar com bateria pode ser comprado por menos de 1.000 dólares, um valor inferior ao de muitos geradores a diesel e com custos operacionais semanais bem menores. Esses sistemas podem alimentar luzes, ventiladores, carregadores de celular, terminais de ponto de venda, uma geladeira pequena e alguns aparelhos por várias horas ao dia. Para muitas famílias e vendedores ambulantes, essa é a diferença entre continuar trabalhando e fechar ao pôr do sol.
A adesão disparou. As instalações solares residenciais passaram de algumas centenas em 2019 para cerca de 300 mil em 2025. As importações de painéis solares da China mais que dobraram nos primeiros nove meses de 2025, chegando a cerca de 100 milhões de dólares, e os embarques aumentaram mais de oito vezes em relação aos níveis pré-pandemia. Em contrapartida, as importações de diesel caíram 11% nos primeiros dez meses de 2025, à medida que residências e empresas trocaram geradores barulhentos por painéis e baterias.
Fornecedores chineses e distribuidores locais facilitaram o acesso aos equipamentos. Empresas ligadas a investidores chineses, como a Sandisolar, concluíram dezenas de projetos por ano e expandiram suas atividades para além das cidades, chegando a municípios rurais. Os compradores costumam apontar dois motivos: instabilidade da rede elétrica e aumento dos custos da eletricidade. Os usuários também relatam um benefício adicional: menos picos de energia que danificam aparelhos.
O boom solar de Mianmar acompanha uma tendência observada em outros países onde as redes elétricas são pouco confiáveis, como Paquistão, Iraque, Sri Lanka e Afeganistão. Nesses mercados, a energia solar é menos uma escolha climática do que uma ferramenta de resiliência. Ela fornece eletricidade quando a concessionária não consegue fazê-lo. Essa mudança, impulsionada de baixo para cima, também cria novos desafios para as concessionárias, que precisam planejar diante de uma demanda imprevisível à medida que mais clientes geram a própria energia durante o dia e dependem da rede à noite.
Setor industrial se adapta: arrozais, fábricas e telhados
Os grandes consumidores estão seguindo o mesmo caminho. A Federação do Arroz de Mianmar está instalando sistemas solares em usinas de beneficiamento em Yangon, Ayeyarwady, Bago e Nay Pyi Taw. No ano fiscal de 2025 a 2026, 28 usinas devem operar pelo menos parte de suas atividades com energia solar; quatro já contam com instalações. Gestores afirmam que a energia solar reduz o consumo de diesel em até 70%, diminui o ruído e melhora a qualidade do produto ao evitar emissões de geradores perto das linhas de processamento. A federação assinou vários acordos com empresas chinesas de energia solar para garantir equipamentos e suporte técnico, sinal de que compradores industriais estão incorporando essa mudança às suas operações.
Uma usina de beneficiamento de arroz em Kyaikto, no estado de Mon, avançou com um sistema de 487 kWp instalado por uma empresa de desenvolvimento sediada em Mandalay, por meio de um contrato de compra de energia. A empresa é proprietária do sistema instalado no telhado da usina, opera os equipamentos e vende eletricidade por contrato, evitando que a usina tenha de fazer um grande pagamento inicial. A expectativa é que o sistema cubra cerca de 31% das necessidades energéticas da usina, reduzindo custos e mantendo as operações mais estáveis durante os apagões. Os contratos de compra de energia estão se tornando uma porta de entrada para fabricantes que não querem imobilizar recursos em equipamentos ou não têm acesso fácil a financiamento bancário.
Os telhados de edifícios comerciais também se destacam. Uma instalação recente na região de Yangon combinou um sistema de 70,8 kWp com um inversor híbrido de 50 kW e uma bateria de 50 kWh. O sistema atende à iluminação e ao ar-condicionado de áreas de treinamento e administração, além de fornecer energia de reserva para salas de TI e comunicação. Durante os apagões, mantém cargas essenciais em funcionamento. Quando a rede volta, o sistema pode recarregar as baterias e otimizar o uso da energia solar para reduzir as contas. Onde as tarifas permitem, a mesma configuração pode carregar as baterias quando a energia é mais barata e descarregá-las nos períodos mais caros, embora, em Mianmar, seu principal benefício continue sendo a confiabilidade.
Como esses sistemas funcionam e por que as baterias são importantes
A maioria das instalações combina três componentes: painéis para gerar energia, um inversor para convertê-la em corrente utilizável e uma bateria para armazenar eletricidade à noite ou em períodos nublados. Inversores híbridos mais recentes permitem alternar rapidamente entre a rede elétrica e a energia solar ou das baterias, muitas vezes em menos de 10 ms, evitando que computadores e terminais de ponto de venda desliguem. Muitas unidades permitem instalar um conjunto de painéis com capacidade superior à do inversor, maximizando a geração durante breves períodos de sol forte. Também podem priorizar cargas essenciais, e algumas se coordenam com geradores a diesel para limitar o consumo de combustível durante apagões prolongados.
Nas condições de Mianmar, as baterias são fundamentais para garantir um serviço solar confiável. Elas permitem que uma loja mantenha um freezer funcionando durante um apagão ao meio-dia ou que uma clínica opere equipamentos de esterilização depois de escurecer. Nas fábricas, as baterias ajudam a manter as linhas de produção em funcionamento e evitam reinicializações custosas. A capacidade de armazenamento pode ser ampliada gradualmente, facilitando o aumento da resiliência das empresas à medida que o capital fica disponível.
Sinais de política pública e planos de produção local
As autoridades começaram a incentivar essa tendência. Durante uma visita, em junho de 2025, a uma fábrica de painéis solares na região administrativa de Yangon, o general sênior Min Aung Hlaing instou ministérios e produtores a ampliar o uso de energia solar tanto em residências quanto na indústria, além de elevar a qualidade dos painéis locais para que se equiparem aos importados. Ele também pediu a produção doméstica de matérias-primas e chegou a incentivar esforços para iniciar a fabricação de silício.
Em um comunicado divulgado pelo Ministério da Informação de Mianmar após a visita, o foco foi fornecer energia em diferentes escalas.
O ministério precisa se empenhar para gerar eletricidade por meio da energia solar, garantindo tanto o fornecimento em pequena escala para uso doméstico quanto em grande escala para o uso em fábricas.
A capacidade solar instalada de Mianmar, embora ainda modesta para os padrões regionais, está crescendo. Dados da Agência Internacional de Energia Renovável indicam 216 MW no fim de 2024, ante 181 MW um ano antes. Os planos de nacionalizar a produção enfrentam obstáculos, entre eles o acesso a polissilício, vidro especializado e linhas de produção modernas, além da garantia de qualidade. Ainda assim, a mensagem das autoridades indica o desejo de reduzir a dependência de importações e demonstrar apoio a uma tecnologia que muitos cidadãos já consideram essencial.
Limites e riscos da corrida pela energia solar
A energia solar não resolve tudo. Muitas famílias não conseguem pagar nem mesmo por um sistema de 1.000 dólares sem financiamento. A energia que podem produzir é limitada pelo espaço no telhado e pela capacidade das baterias. Para pequenas fábricas, os painéis nos telhados talvez cubram apenas uma fração da demanda. Sistemas maiores exigem telhados mais resistentes, projetos de engenharia e instaladores capacitados.
Os empresários também se preocupam com o retorno do investimento e o fluxo de caixa. Um fabricante de Yangon disse à imprensa local que o investimento inicial necessário para operar uma fábrica inteira com energia solar seria muito alto e poderia superar qualquer ganho nos lucros. Essa preocupação reflete um tema mais amplo: a energia solar reduz os riscos durante os apagões, mas não elimina a necessidade de uma rede elétrica confiável para a indústria pesada.
A qualidade e a segurança também preocupam. Nem todos os equipamentos atendem aos padrões internacionais. Fiação malfeita ou bancos de baterias sem proteção podem causar acidentes. As baterias de chumbo-ácido, ainda comuns por serem mais baratas, apresentam desafios de reciclagem e descarte quando não são manuseadas com cuidado. As baterias de lítio duram mais e armazenam mais energia por unidade de peso, mas exigem sistemas adequados de gerenciamento e fornecedores confiáveis.
A própria rede elétrica precisa se adaptar. Quando muitos clientes geram a própria energia ao meio-dia e depois recorrem à rede à noite, as concessionárias enfrentam picos e vales mais acentuados na demanda. Isso dificulta o planejamento e pode elevar os custos da energia que ainda precisa ser fornecida pela rede. Com o tempo, medidores melhores, tarifas por horário de consumo e programas que remunerem os usuários pela energia solar excedente poderiam ajudar. Hoje, a maioria dos usuários simplesmente maximiza o consumo da própria energia e, quando possível, mantém um gerador para apagões prolongados.
Os dados sobre quem adota energia solar também apontam lacunas. Uma pesquisa baseada em levantamentos domiciliares concluiu que proprietários de imóveis casados em áreas rurais sem acesso à rede elétrica tinham maior probabilidade de possuir equipamentos solares, enquanto inquilinos tinham menor probabilidade de investir. A mesma análise não identificou um forte efeito rebote no consumo de eletricidade após a adoção, indicando que os usuários de energia solar não aumentaram significativamente o consumo total só por terem uma nova capacidade de geração. Esses padrões sugerem que financiamentos direcionados e projetos comunitários podem ajudar a ampliar o acesso em áreas de menor renda.
Contexto regional e o que isso significa para Mianmar
A experiência de Mianmar faz parte de uma expansão mais ampla da energia solar na Ásia. A queda nos preços dos painéis mantém o crescimento das instalações em todo o mundo. No Sudeste Asiático, alguns países vizinhos avançaram mais rápido em projetos de grande escala, mas uma parcela expressiva do crescimento de Mianmar vem de iniciativas locais. Uma análise da matriz elétrica regional em 2024 estimou que a energia solar representava cerca de 5,2% da eletricidade de Mianmar, atrás do Vietnã e um pouco à frente do Camboja naquele levantamento. A capacidade absoluta do país continua pequena, mas a demanda por painéis chineses colocou Mianmar entre os destinos de exportação para mercados em desenvolvimento que mais crescem em termos percentuais.
Programas internacionais tentam ampliar o impacto. A Aliança Global de Energia para as Pessoas e o Planeta apoiou pequenas e médias empresas com sistemas solares em telhados e assistência técnica, mobilizando mais de 4,2 milhões de dólares desde 2023, viabilizando cerca de 5 MW em projetos e criando 1.500 empregos. Gestores relatam economia de energia de 30% a 65% e menos interrupções. Os custos do diesel aumentaram várias vezes desde 2021, então reduzir as horas de uso dos geradores proporciona alívio imediato. Parcerias com bancos e desenvolvedores locais buscam ampliar o acesso ao financiamento para empresas que teriam dificuldade em comprar os sistemas à vista.
O que saber
- Os apagões pioraram depois de 2021, e o Banco Mundial estima que a capacidade em operação caiu, em 2024, para o nível de 2015.
- Dados de satélite das Nações Unidas mostram queda média anual de 8% na intensidade luminosa desde o golpe, indicando redução do acesso à eletricidade e da atividade econômica.
- A produção doméstica de gás caiu e as importações de gás natural liquefeito foram suspensas em meio à escassez de moeda estrangeira, deixando muitas turbinas sem combustível.
- As sanções ocidentais dificultaram a manutenção ao restringir o acesso a peças de reposição e conhecimento técnico especializado para a infraestrutura elétrica.
- A adoção da energia solar é motivada pela segurança energética, não por metas climáticas, e as instalações residenciais chegaram a cerca de 300 mil em 2025.
- As importações de painéis solares da China dobraram, chegando a cerca de 100 milhões de dólares nos primeiros nove meses de 2025, mais de oito vezes acima dos níveis pré-pandemia.
- As importações de diesel caíram 11% nos primeiros dez meses de 2025, à medida que residências e empresas trocaram geradores por sistemas de energia solar com baterias.
- Indústrias estão adotando energia solar: 28 usinas de beneficiamento de arroz planejam instalar sistemas em 2025 a 2026, e um sistema de 487 kWp no estado de Mon deve suprir 31% da demanda de uma usina por meio de um contrato de compra de energia.
- Sistemas comerciais que combinam painéis, inversores híbridos e armazenamento mantêm cargas essenciais em funcionamento, enquanto a comutação rápida e a integração com geradores aumentam a confiabilidade.
- As autoridades defenderam o aumento da produção local de painéis e materiais, e a capacidade solar instalada chegou a cerca de 216 MW no fim de 2024.






