Estados Unidos e China disputam o futuro da energia limpa na Indonésia

15 min de leitura
Estados Unidos e China disputam o futuro da energia limpa na Indonésia

Indonésia no centro de uma disputa global por energia limpa

A Indonésia, maior exportadora de carvão do mundo, tornou-se o foco de uma disputa acirrada para substituir o carvão por energia mais limpa. Estados Unidos e China participam dessa competição, que moldará não apenas o sistema energético indonésio, mas também as regras e os fornecedores que muitos países em desenvolvimento poderão seguir. Empresas chinesas assinaram acordos de mais de 54 bilhões de dólares em 2023 com a PLN (a concessionária estatal de energia), e uma visita a Pequim, em 2024, do presidente Prabowo Subianto acrescentou outros 10 bilhões de dólares em compromissos. Esses valores superam em muito os 20 bilhões de dólares acordados em 2022 com um grupo de países ricos no âmbito da Parceria para uma Transição Energética Justa. A parceria tem demorado a liberar recursos, e os Estados Unidos se retiraram formalmente dela em março. Apenas cerca de 1,2 bilhão de dólares, aproximadamente 6% do valor prometido, foi desembolsado. Jacarta estima que a transição completa exigirá mais de 97 bilhões de dólares. A escolha que se apresenta à Indonésia é clara. Washington promove o gás natural liquefeito como combustível de transição confiável e uma forma de reduzir a dependência da tecnologia chinesa. Pequim oferece investimentos vultosos em energias renováveis e fábricas capazes de gerar empregos rapidamente, com menos exigências em relação ao trabalho e ao meio ambiente. O resultado definirá os preços da eletricidade, a qualidade do ar e o crescimento industrial da Indonésia pelas próximas décadas.

Conteúdo
  1. Indonésia no centro de uma disputa global por energia limpa
  2. Por que a Indonésia é importante
  3. Dois caminhos em oferta: gás ou impulso industrial às renováveis
  4. A proposta dos Estados Unidos: gás e geopolítica
  5. A proposta da China: rapidez e escala nas energias renováveis
  6. O que a Parceria para uma Transição Energética Justa ainda pode fazer
  7. Das grandes expectativas a projetos viáveis
  8. A presença chinesa, das minas às gigafábricas
  9. Os custos do carvão, do níquel e da geração própria
  10. Acordos de GNL, tarifas e segurança energética
  11. A estratégia da Indonésia para preservar sua autonomia e atrair capital
  12. Prioridades de curto prazo
  13. Dinâmica regional e novos parceiros
  14. Como seria o sucesso em 2030
  15. Em resumo

Por que a Indonésia é importante

A demanda por eletricidade na Indonésia cresce com o aumento da população e a expansão da indústria. O carvão continua sendo um importante pilar econômico, com contribuição estimada de 3,6% do produto interno bruto. Ainda assim, a energia solar e a eólica representam uma parcela ínfima da matriz, cerca de 0,24% da energia total. Países vizinhos estão mais avançados: essas fontes respondem por cerca de 3,8% nas Filipinas e 13% no Vietnã. As escolhas da Indonésia nos próximos anos têm peso adicional porque as usinas têm vida útil longa e os ciclos políticos duram cinco anos. As decisões tomadas agora podem consolidar ainda mais a infraestrutura de combustíveis fósseis ou acelerar a implantação de energias renováveis e armazenamento.

Dois caminhos em oferta: gás ou impulso industrial às renováveis

Há dois modelos em discussão. Um se baseia na importação de gás e numa abordagem mais tradicional à segurança energética. O outro aposta nas energias renováveis e numa presença industrial expressiva nos setores de baterias, veículos elétricos e painéis solares. Cada caminho traz custos e benefícios para a economia, o meio ambiente e a liberdade da Indonésia para definir suas políticas.

A proposta dos Estados Unidos: gás e geopolítica

Os Estados Unidos são o maior produtor mundial de petróleo e gás e incentivaram a Indonésia a ampliar as compras de gás natural liquefeito como parte de negociações mais amplas sobre tarifas e comércio. A Indonésia planeja aumentar em cerca de 10 bilhões de dólares as importações de GNL dos Estados Unidos. Defensores da medida dizem que o gás pode substituir o carvão no curto prazo, reduzir a poluição do ar local e dar estabilidade à rede quando não há sol ou vento. Críticos temem que novos terminais de GNL, gasodutos e usinas a gás consolidem o uso de combustíveis fósseis e deixem a Indonésia com ativos obsoletos à medida que a energia renovável fica mais barata e rápida de implantar. Há também uma dimensão industrial. Washington tenta garantir o acesso a minerais críticos e a cadeias de fornecimento de tecnologias limpas entre parceiros que atendam a padrões mais rigorosos, o que pode dificultar a cooperação quando empresas chinesas dominam partes dos setores indonésios de mineração e processamento.

A proposta da China: rapidez e escala nas energias renováveis

A abordagem chinesa se concentra em projetos de energias renováveis de grande escala e cadeias industriais de fornecimento. A proposta é direta: substituir combustíveis fósseis importados por painéis solares e outros equipamentos que geram eletricidade por décadas. Construir fábricas que transformem níquel e outros minerais em baterias e carros. Capacitar trabalhadores e avançar rapidamente. Essa proposta atrai líderes que querem mostrar resultados concretos durante um mandato de cinco anos. Mas também envolve concessões. Os projetos chineses tendem a ser rápidos e intensivos em capital, mas muitas vezes oferecem menos proteções aos direitos trabalhistas e ao meio ambiente e podem criar novas dependências do carvão por meio de usinas próprias em complexos de fundição.

Publicidade

O que a Parceria para uma Transição Energética Justa ainda pode fazer

A Parceria para uma Transição Energética Justa nunca teve a intenção de cobrir todos os custos da Indonésia. É uma plataforma inicial que combina doações, empréstimos concessionais e garantias para catalisar mais investimentos. A parceria prometeu 20 bilhões de dólares, dos quais cerca de 2 bilhões cabem aos Estados Unidos; aproximadamente metade desse valor continua disponível por meio de garantias de empréstimos. Até agora, apenas 1,2 bilhão de dólares foi liberado, e a saída dos Estados Unidos em março prejudicou o impulso político. Ainda assim, a parceria pode ajudar a coordenar projetos que reduzam o uso de carvão, modernizem a rede e atraiam novos financiadores além dos Estados Unidos e da Europa.

Das grandes expectativas a projetos viáveis

As conversas iniciais criaram expectativas difíceis de cumprir. Está em andamento uma reorientação para projetos concretos e financiáveis. Entre as prioridades estão a aposentadoria antecipada das usinas a carvão mais poluentes, melhorias nas linhas de transmissão para permitir a conexão de mais energia solar e eólica e a aceleração de projetos de energia solar em grande escala e em telhados, com regras claras para tarifas e contratação. A parceria também serviu como centro de coordenação, ajudando a Indonésia a abrir espaço para novos parceiros do Golfo. Acordos com os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita estão entre as alternativas para obter mais capital de longo prazo e a custos menores. Se a Indonésia usar a parceria para eliminar gargalos na obtenção de licenças e melhorar as condições contratuais, a mesma plataforma ainda poderá destravar investimentos privados substanciais.

Publicidade

A presença chinesa, das minas às gigafábricas

A presença da China na economia de energia limpa da Indonésia vai da extração de recursos à montagem final. Uma iniciativa de 6 bilhões de dólares para criar uma cadeia de fornecimento, liderada pela gigante de baterias CATL, pretende integrar mineração, processamento e produção de baterias. A BYD está construindo uma fábrica de veículos elétricos de 1 bilhão de dólares, com capacidade prevista para 150 mil carros por ano e estimativa de 18 mil empregos. O BTR New Material Group está investindo 478 milhões de dólares em materiais para baterias. A gigante solar LONGi está instalando uma fábrica com capacidade anual de cerca de 1,6 gigawatt. No setor elétrico, a rapidez na entrega é um atrativo. Em 2024, um parque solar de 100 megawatts construído por uma empresa chinesa de engenharia passou do início das obras à operação em cerca de sete meses. Esse ritmo se encaixa no calendário político da Indonésia, embora muitos investidores ocidentais ofereçam proteções mais robustas para o trabalho e o meio ambiente.

A força da China na fabricação e nas compras geralmente se traduz em preços mais baixos e prazos menores. Para a Indonésia, regras de conteúdo local podem aproveitar essa escala para desenvolver cadeias de fornecimento e competências nacionais. A questão central é quanto valor será gerado localmente e se os padrões ambientais nos parques industriais estarão de acordo com a legislação nacional. Metas claras para fornecedores indonésios, capacitação profissional e divulgação de dados sobre poluição podem transformar entregas rápidas em ganhos duradouros para o desenvolvimento.

Os custos do carvão, do níquel e da geração própria

A maioria das minas e fundições de níquel na Indonésia opera com usinas a carvão exclusivas, conectadas diretamente às instalações. Essas unidades próprias fornecem energia confiável para o processamento, que consome muita energia, mas perpetuam as emissões e a poluição local. Um estudo de 2024 estimou que a poluição das fundições e das usinas a carvão custaria à economia indonésia cerca de 2,6 bilhões de dólares em 2025, valor que chegaria a 3,4 bilhões de dólares em 2030, além de causar milhares de mortes prematuras. Esses custos externos, que não aparecem nos balanços das empresas, recaem sobre as comunidades e os orçamentos de saúde pública.

A Indonésia ainda tem a terceira maior capacidade de geração de energia a carvão do mundo, e há novas usinas em preparação. Cerca de 1,9 gigawatt das adições recentes foi destinado, em grande parte, a complexos de fundição, e aproximadamente 80% dessa capacidade atende às necessidades próprias do processamento mineral. Construir mais usinas a carvão, mesmo em parques industriais, traz o risco de criar ativos encalhados, à medida que financiadores e clientes endurecem as regras sobre intensidade de carbono. Se o governo combinar o desenvolvimento das fundições com contratos de compra de energia renovável e sistemas de armazenamento, poderá começar a afastar esses polos industriais do carvão sem sacrificar a produção.

Publicidade

Acordos de GNL, tarifas e segurança energética

O plano da Indonésia de aumentar em cerca de 10 bilhões de dólares as importações de GNL dos Estados Unidos faz parte de uma negociação mais ampla sobre comércio e tarifas. O GNL pode ajudar a estabilizar a rede e reduzir poluentes locais em comparação com o carvão. Também emite gases de efeito estufa e exige infraestrutura cara e compromissos de compra de longo prazo. Se os preços globais do gás dispararem, ou se a energia solar, eólica e o armazenamento ficarem mais baratos que o gás, a Indonésia poderá ficar presa a custos mais altos. O risco é consolidar ativos de combustíveis fósseis que permaneçam em operação mesmo depois de deixarem de ser competitivos.

A política comercial influencia essas escolhas energéticas. As regras dos Estados Unidos para créditos fiscais de veículos elétricos favorecem materiais de fontes aliadas e que atendam a padrões ambientais e trabalhistas mais elevados. Empresas chinesas controlam uma grande parcela da capacidade de refino de níquel da Indonésia, estimada em cerca de três quartos do total. Washington manifestou preocupação com os efeitos disso sobre o acesso às cadeias de fornecimento que permitem obter incentivos nos Estados Unidos. Uma das alternativas em discussão é criar zonas de investimento específicas, que atendam a padrões mais rigorosos e tenham estruturas de propriedade adequadas. A Indonésia busca isenções das novas tarifas dos Estados Unidos e procura negociar concessões que incluam mais importações de produtos americanos de energia e agrícolas. O equilíbrio é delicado, mas dá a Jacarta poder para pressionar os dois lados por melhores condições de financiamento, transferência de tecnologia e acesso a mercados.

A estratégia da Indonésia para preservar sua autonomia e atrair capital

A estratégia de longa data da Indonésia é evitar alinhar-se a uma única potência e manter abertos diversos canais de investimento. Essa postura, muitas vezes descrita como uma política de mil amigos e nenhum inimigo, agora também se aplica à transição energética. O governo promoveu o beneficiamento industrial ao proibir a exportação de minério de níquel bruto, incentivando investidores a construir unidades de processamento no país. Está ampliando as regras de conteúdo local e buscando acordos comerciais que abram as portas dos maiores mercados. O objetivo é avançar na cadeia de valor e preservar a autonomia estratégica enquanto reduz as emissões num ritmo compatível com a realidade interna.

Prioridades de curto prazo

Algumas medidas podem maximizar o poder de negociação da Indonésia e os ganhos em energia limpa. Primeiro, acelerar as melhorias na rede, sobretudo em áreas com melhores recursos solares e eólicos, e publicar uma lista transparente de projetos de transmissão. Segundo, realizar licitações competitivas para projetos de energia solar, eólica e armazenamento em grande escala, com tarifas claras, contratos padronizados e processos previsíveis de licenciamento. Terceiro, substituir as usinas a carvão próprias das fundições por contratos exclusivos de compra de energia renovável, respaldados por armazenamento e serviços flexíveis para a rede. Quarto, aplicar padrões de poluição mais rigorosos e monitoramento contínuo nos parques industriais, com divulgação pública dos dados. Quinto, criar programas de transição profissional em regiões carboníferas para gerar empregos dignos em novos setores. Sexto, alinhar o financiamento público, incluindo recursos de qualquer parceria JETP e do Novo Banco de Desenvolvimento, à aposentadoria antecipada de usinas a carvão, à modernização da rede e à geração distribuída em ilhas remotas.

A previsibilidade das políticas será tão importante quanto o dinheiro. Os investidores acompanham a integridade dos contratos, a independência dos órgãos reguladores e a capacidade da PLN de honrar os acordos de compra. Regras claras sobre uso da terra, estudos de impacto ambiental e conteúdo local reduzirão atrasos nos projetos. A publicação de cronogramas e dados sobre filas de conexão à rede, qualidade dos recursos e cortes de geração ajudará os desenvolvedores a calcular os riscos. O governo também pode estabelecer metas para a fabricação nacional de módulos solares, baterias e equipamentos para a rede, mantendo as portas abertas a fornecedores internacionais para evitar escassez e aumentos de preços.

Publicidade

Dinâmica regional e novos parceiros

A Indonésia não enfrenta esse desafio sozinha. O Sudeste Asiático é um dos mercados de energia que mais crescem, e a região atrai investimentos em energias renováveis e redes elétricas. A China financiou importantes conexões de energia, como interligações que transportam o excedente de energia hidrelétrica do continente do Sudeste Asiático. A Austrália apoia projetos para exportar eletricidade limpa à região, incluindo uma conexão proposta que levaria energia solar à Indonésia e a Singapura. Se forem combinadas com o comércio regional de energia e um melhor planejamento da rede, essas iniciativas podem reduzir custos e suavizar as variações no fornecimento.

A diversificação também aparece no comércio e nas finanças. A Indonésia está estreitando os laços com Japão, Coreia do Sul, Índia, União Europeia e países do Golfo. A entrada no grupo dos Brics abre acesso ao Novo Banco de Desenvolvimento, que poderia apoiar infraestrutura verde com condições mais flexíveis do que as oferecidas por alguns financiadores tradicionais. As relações com os Estados Unidos continuam importantes para segurança, investimentos e comércio digital. Ao mesmo tempo, Jacarta continua defendendo o direito internacional no mar enquanto administra relações complexas com Pequim. A diversidade de parceiros reduz a dependência excessiva de uma única fonte de capital ou tecnologia.

Como seria o sucesso em 2030

Em 2030, o sucesso se refletiria num sistema elétrico mais limpo, mais barato de operar e mais confiável. A energia solar, eólica e o armazenamento passariam de uma fração da matriz para vários pontos percentuais da geração total, multiplicando muitas vezes a participação atual. As usinas a carvão mais poluentes seriam aposentadas antecipadamente ou operariam com menos frequência, e novos projetos de geração própria a carvão dariam lugar a contratos de energia renovável nos parques industriais. A rede teria novas linhas para aproveitar áreas com alto potencial solar e eólico, além de regras claras para conexão. A Indonésia teria pelo menos algumas grandes fábricas de baterias e uma ou mais fábricas de veículos elétricos operando perto da capacidade máxima, com uma parcela crescente de componentes produzidos no país. Os custos de saúde associados à poluição do ar nas proximidades de fundições e usinas a carvão cairiam com a adoção de monitoramento contínuo e padrões mais rigorosos. Acima de tudo, os investidores encontrariam um ambiente de políticas previsível, que recompensasse o cumprimento das metas nacionais e, ao mesmo tempo, protegesse trabalhadores e comunidades.

Em resumo

  • Os investimentos chineses em energia e indústria na Indonésia superam os compromissos ocidentais e são concluídos mais rapidamente.
  • A Parceria para uma Transição Energética Justa desembolsou apenas uma pequena parcela dos recursos prometidos, mas ainda oferece uma plataforma para projetos práticos.
  • A Indonésia estima que precisa de mais de 97 bilhões de dólares para conduzir seu setor elétrico a uma trajetória mais limpa.
  • A abordagem dos Estados Unidos favorece o GNL e regras para cadeias de fornecimento alinhadas a padrões ambientais e trabalhistas mais elevados.
  • A Indonésia planeja aumentar em cerca de 10 bilhões de dólares as importações de GNL dos Estados Unidos como parte de negociações comerciais mais amplas.
  • Empresas chinesas estão presentes em toda a cadeia de fornecimento, do níquel aos veículos elétricos, e controlam grande parte da capacidade de refino indonésia.
  • As usinas a carvão próprias que abastecem as fundições acarretam custos econômicos e de saúde cada vez maiores e correm o risco de se tornar ativos encalhados à medida que a energia limpa fica mais barata.
  • Entre os grandes projetos apoiados pela China estão os investimentos da CATL, da BYD e do BTR New Material Group, além de uma fábrica solar da LONGi.
  • As escolhas para o setor elétrico feitas agora definirão os preços da energia, a qualidade do ar e a competitividade industrial pelas próximas décadas.
  • Regras claras, redes mais rápidas, contratações competitivas e proteções mais rigorosas podem ajudar a Indonésia a preservar sua autonomia e atrair capital de todos os parceiros.
Compartilhar esta matéria

Você também pode gostar