A ousada estratégia de exportação da BYD: veículos elétricos fabricados na Tailândia partem rumo à Europa
Em um marco para o setor global de veículos elétricos (VEs), a montadora chinesa BYD começou a exportar para a Europa veículos fabricados na Tailândia. Mais de 900 unidades do BYD Dolphin, um hatch elétrico compacto, partiram recentemente da província tailandesa de Rayong com destino à Alemanha, à Bélgica e ao Reino Unido, a bordo do navio da própria BYD, o BYD Zhengzhou. Essa remessa marca a primeira vez que a BYD exporta VEs fabricados na Tailândia para a Europa, sinalizando uma mudança significativa na estratégia internacional da empresa e na dinâmica mais ampla do mercado global de VEs.
Conteúdo
- A ousada estratégia de exportação da BYD: veículos elétricos fabricados na Tailândia partem rumo à Europa
- Por que a BYD está exportando VEs da Tailândia em vez da China?
- Por dentro da fábrica da BYD em Rayong: o novo polo de VEs da Tailândia
- Como os kits CKD e a montagem local ajudam as montadoras a evitar tarifas?
- A expansão global da BYD: além da Tailândia e da Europa
- Tensões comerciais e desafios jurídicos: o contexto mais amplo
- O papel da Tailândia na cadeia global de suprimentos de VEs
- O que isso significa para o futuro do mercado global de VEs?
- Em resumo
Isso ocorre em um momento em que os VEs fabricados na China enfrentam tarifas elevadas na União Europeia (UE), levando a BYD e outras montadoras a repensar suas estratégias de produção e exportação. A iniciativa não apenas destaca o papel crescente da Tailândia como polo regional de VEs, mas também ressalta a complexa interação entre políticas comerciais, investimentos industriais e concorrência global no setor de veículos elétricos, que evolui rapidamente.
Por que a BYD está exportando VEs da Tailândia em vez da China?
O principal motivo para a decisão da BYD de exportar VEs da Tailândia para a Europa é a imposição de novas tarifas pela União Europeia sobre veículos elétricos fabricados na China. Em julho de 2024, a UE introduziu tarifas provisórias antissubsídios de até 37,6% sobre as importações de VEs chineses, alegando preocupação com práticas comerciais desleais e subsídios governamentais que supostamente distorcem a concorrência. Para a BYD, que cooperou com a investigação antissubsídios da UE, a tarifa adicional foi fixada em 20,7%, além da taxa alfandegária existente de 10%, elevando o total a 30,7% para veículos enviados diretamente da China.
Essas tarifas aumentam significativamente o custo dos VEs fabricados na China na Europa, ameaçando a competitividade de marcas como BYD, Geely e SAIC. Em resposta, a BYD recorreu à sua nova base de produção na Tailândia, onde os veículos podem ser fabricados e exportados para a Europa com uma tarifa menor. Ao montar os carros fora da China, a BYD pode evitar as tarifas punitivas e manter preços mais atraentes para os consumidores europeus.
Essa estratégia não é exclusiva da BYD. Outras montadoras chinesas, como a SAIC (dona da marca MG), também estão explorando maneiras de exportar veículos a partir de terceiros países para contornar barreiras comerciais. A tendência reflete uma mudança mais ampla na produção global, à medida que as empresas buscam navegar por uma rede cada vez mais complexa de tarifas e restrições comerciais.
Por dentro da fábrica da BYD em Rayong: o novo polo de VEs da Tailândia
A fábrica da BYD em Rayong, que iniciou as operações em julho de 2024, representa um investimento de US$ 490 milhões e é a primeira unidade da empresa totalmente própria para a produção de automóveis de passeio fora da China. A instalação tem capacidade de produção anual de 150 mil veículos, incluindo veículos elétricos a bateria (BEVs) e híbridos plug-in. A fábrica conta com linhas de estampagem, pintura, soldagem e montagem final, o que permite à BYD produzir veículos tanto para o mercado interno tailandês quanto para exportação.
Inicialmente, a fábrica de Rayong se concentrou na montagem de Dolphins com volante à direita para a Tailândia e outros mercados da ASEAN. No entanto, com a recente mudança para a produção de modelos com volante à esquerda, a fábrica agora está posicionada como um importante polo de exportação para a Europa e outros mercados. Em julho de 2025, a unidade comemorou a produção de seu veículo de número 90 mil, apenas um ano após a inauguração, destacando a rápida expansão das operações.
Ke Yubin, gerente-geral da BYD Tailândia, ressaltou a importância dessa conquista:
Após entregar nosso veículo de nova energia de número 90 mil em julho, estamos alcançando mais um avanço. A exportação para a Europa, pela primeira vez, de modelos Dolphin fabricados na Tailândia não representa apenas mais um passo na estratégia de globalização da BYD, mas também ressalta o papel fundamental da Tailândia na cadeia global de suprimentos de VEs.
O governo tailandês teve papel fundamental na atração de investimentos em VEs, oferecendo incentivos como redução de impostos de importação e de consumo para empresas que se comprometem com a produção local. Pelo programa EV 3.0, as montadoras devem compensar as importações com veículos fabricados localmente, e a proporção mínima exigida aumentará de 1:1 para 1:1,5 em 2025. Em julho, o governo permitiu que as exportações de VEs fabricados no país fossem contabilizadas nessa cota, dando alívio à BYD e a outras fabricantes que enfrentavam dificuldades para cumprir as metas de vendas domésticas em meio à desaceleração do mercado automotivo tailandês.
Como os kits CKD e a montagem local ajudam as montadoras a evitar tarifas?
Uma das principais estratégias usadas pela BYD e por outras montadoras globais para contornar barreiras comerciais é o uso de kits CKD (completamente desmontados, na sigla em inglês). Nesse modelo, os veículos são enviados em peças e montados no país de destino. A montagem CKD permite que as fabricantes se beneficiem de impostos de importação menores e atendam aos requisitos de conteúdo local, contribuindo tanto para a redução de custos quanto para a criação de empregos locais.
Ao fabricar veículos na Tailândia e exportá-los para a Europa, a BYD pode classificá-los como fabricados na Tailândia e, assim, evitar as tarifas mais elevadas impostas aos veículos fabricados na China. Essa abordagem não é apenas uma resposta à política comercial, mas também está alinhada à ambição da Tailândia de se tornar um polo regional de fabricação de VEs. O país atraiu investimentos significativos de montadoras chinesas, incluindo Great Wall Motor, SAIC-MG, Neta, GAC-Aion, Changan Automobile e Omoda & Jaecoo, todas interessadas em aproveitar os incentivos locais e acessar tanto o mercado interno quanto os mercados de exportação.
A expansão global da BYD: além da Tailândia e da Europa
A iniciativa da BYD de exportar para a Europa VEs fabricados na Tailândia faz parte de uma estratégia mais ampla de expansão global. Diante da estagnação das vendas na China e do aumento das barreiras comerciais em mercados importantes, a empresa está acelerando sua presença internacional. Além da fábrica de Rayong, a BYD está construindo novas unidades na Malásia, na Indonésia, no Brasil, na Hungria e na Turquia.
A futura fábrica na Malásia, localizada no estado de Perak, terá 600 mil metros quadrados e deve iniciar as operações no segundo semestre de 2026. Inicialmente, montará veículos com kits CKD importados, diversificando ainda mais a base de produção da BYD no Sudeste Asiático. No Brasil, a BYD iniciou a produção de veículos em uma nova fábrica em julho de 2024, e a empresa também está construindo unidades na Hungria e na Turquia para atender aos mercados europeu e do Oriente Médio.
As ambições globais da BYD vão além da fabricação. A empresa estabeleceu centros locais de pesquisa e desenvolvimento, produção e vendas em regiões estratégicas e firmou parcerias para promover a adoção de VEs. Por exemplo, a BYD planeja fornecer 100 mil VEs a motoristas da Uber em todo o mundo e está ampliando sua presença na África e na América Latina, onde vê grande potencial de crescimento.
Tensões comerciais e desafios jurídicos: o contexto mais amplo
O aumento das barreiras comerciais contra os VEs chineses faz parte de uma disputa geopolítica e econômica mais ampla. Além das tarifas da UE, os Estados Unidos elevaram de 25% para 100% os impostos de importação sobre VEs fabricados na China em maio de 2024, e o Canadá adotou uma tarifa de 100% em agosto. Essas medidas são motivadas por preocupações com subsídios industriais, excesso de capacidade e a ameaça percebida às indústrias nacionais.
A China respondeu com suas próprias contramedidas, incluindo ações antidumping contra a carne suína e o conhaque da UE, além de investigações sobre produtos agrícolas e químicos canadenses. A escalada das tarifas e das medidas retaliatórias aumentou o temor de uma guerra comercial prolongada, com possíveis consequências para as cadeias globais de suprimentos e os preços ao consumidor.
Fabricantes chinesas de VEs, incluindo BYD, Geely e SAIC, contestaram as tarifas da UE no Tribunal de Justiça da União Europeia. Os processos, que podem levar até 18 meses, se concentram na avaliação dos subsídios, dos prejuízos à indústria da UE e da metodologia usada para calcular as tarifas. A Câmara de Comércio da China para Importação e Exportação de Máquinas e Produtos Eletrônicos (CCCME) também apresentou uma queixa, pedindo negociações para evitar uma escalada ainda maior.
Apesar desses desafios, as exportações chinesas de VEs para a UE continuaram crescendo. Em dezembro de 2024, as remessas aumentaram, contrariando as expectativas e levantando dúvidas sobre a eficácia das tarifas e a resiliência das montadoras chinesas. Analistas sugerem que, embora as tarifas possam desacelerar o crescimento em alguns mercados, dificilmente mudarão de forma fundamental o compromisso da China com a expansão de sua indústria de VEs e de sua presença global.
O papel da Tailândia na cadeia global de suprimentos de VEs
A ascensão da Tailândia como participante importante na cadeia global de suprimentos de VEs é resultado de escolhas deliberadas de política pública e investimentos estratégicos. O programa EV 3.0 do país, lançado em 2022, oferece incentivos generosos para atrair montadoras, incluindo isenções fiscais, subsídios e apoio à produção local. Em contrapartida, as empresas devem se comprometer a produzir VEs localmente e cumprir cotas de exportação.
Essas políticas fizeram da Tailândia o principal mercado de VEs do Sudeste Asiático, com vendas em rápido crescimento apesar da desaceleração mais ampla do setor automotivo. No primeiro semestre de 2025, as vendas de VEs na Tailândia chegaram a 54.084 unidades, alta de 61% em relação ao ano anterior. A BYD lidera o mercado doméstico de VEs, mas a empresa e suas concorrentes enfrentam dificuldades para cumprir os compromissos de produção devido à fraca demanda local, ao alto endividamento das famílias e à intensa concorrência de preços.
Para enfrentar esses desafios e utilizar plenamente sua capacidade de produção, montadoras como a BYD estão recorrendo cada vez mais às exportações. A possibilidade de contabilizar as exportações nas cotas de produção local trouxe a flexibilidade necessária, permitindo que as empresas equilibrem as vendas domésticas e internacionais e, ao mesmo tempo, cumpram as exigências do governo.
O que isso significa para o futuro do mercado global de VEs?
A decisão da BYD de exportar para a Europa VEs fabricados na Tailândia simboliza a transformação do cenário global de produção e comércio. À medida que os países impõem novas barreiras para proteger as indústrias nacionais, as montadoras se adaptam diversificando suas bases de produção e cadeias de suprimentos. É provável que essa tendência se acelere enquanto as tensões comerciais persistirem e a demanda por veículos elétricos continuar crescendo no mundo todo.
Para os consumidores, esses desdobramentos podem ter efeitos diversos. Por um lado, o aumento da concorrência e a produção local podem levar a preços mais baixos e a uma maior variedade de opções. Por outro, as disputas comerciais em andamento e as interrupções nas cadeias de suprimentos podem resultar em custos mais altos e incerteza.
Para a Tailândia e outros mercados emergentes, o fluxo de investimentos de montadoras chinesas representa tanto uma oportunidade quanto um desafio. A criação de novas fábricas e empregos impulsiona o crescimento econômico, mas há preocupações com excesso de capacidade, sustentabilidade e viabilidade de longo prazo de estratégias voltadas à exportação. Alguns especialistas questionam se a rápida expansão das montadoras chinesas, muitas vezes sustentada por capital paciente e apoio governamental, é sustentável diante da desaceleração da demanda global e da intensificação da concorrência.
Em resumo
- A BYD começou a exportar para a Europa veículos elétricos Dolphin fabricados na Tailândia para evitar as altas tarifas da UE sobre veículos fabricados na China.
- Inaugurada em 2024, a fábrica de Rayong, na Tailândia, é a primeira unidade da BYD totalmente própria para a produção de automóveis de passeio fora da China, com capacidade anual de 150 mil veículos.
- As tarifas da UE sobre VEs chineses levaram a BYD a transferir a produção para a Tailândia, aproveitando incentivos locais e barreiras comerciais menores.
- A expansão global da BYD inclui novas fábricas na Malásia, na Indonésia, no Brasil, na Hungria e na Turquia, enquanto a empresa busca diversificar sua base de produção.
- As tensões comerciais entre a China e as principais economias provocaram uma onda de tarifas e contramedidas, enquanto os processos judiciais na UE continuam em andamento.
- As políticas proativas da Tailândia para o setor de VEs atraíram investimentos significativos, tornando o país um polo regional de produção e exportação de veículos elétricos.
- O mercado global de VEs passa por rápidas transformações, e as montadoras se adaptam às novas condições comerciais transferindo a produção e expandindo sua atuação em mercados emergentes.






