Japão bate recorde de turismo em julho apesar de recuos regionais
O setor de turismo do Japão alcançou um novo marco em julho de 2025, recebendo um recorde de 3,43 milhões de visitantes internacionais, o maior número já registrado para esse mês. O feito foi alcançado mesmo com a desaceleração do crescimento, que atingiu seu ritmo mais fraco no ano, e uma forte queda nas chegadas de importantes mercados asiáticos. Os dados mais recentes, divulgados pela Organização Nacional de Turismo do Japão (JNTO), destacam tanto a resiliência quanto a complexidade do boom turístico japonês, influenciado por tendências econômicas globais, problemas regionais e até rumores virais sobre desastres.
Conteúdo
- Japão bate recorde de turismo em julho apesar de recuos regionais
- O que impulsiona o boom turístico do Japão?
- Problemas regionais: tufões e rumores de terremoto afetam mercados asiáticos
- Como uma profecia de mangá provocou temor de viajar
- Tufões agravam o impacto
- China e Estados Unidos: motores do crescimento
- Impacto econômico do turismo e preocupações com o excesso de turistas
- Respostas políticas: novas regras para uma nova era
- O lugar do Japão no cenário turístico da Ásia-Pacífico
- Perspectivas: oportunidades e desafios
- Em resumo
De janeiro a julho de 2025, o Japão recebeu 24,9 milhões de visitantes estrangeiros, um aumento de 18,4% em relação ao mesmo período de 2024. Esse salto vem na esteira da retomada histórica de 2024, quando o Japão recebeu 36,9 milhões de viajantes internacionais, superando os recordes pré-pandemia e consolidando seu status como um dos principais destinos do mundo.
O que impulsiona o boom turístico do Japão?
Vários fatores impulsionaram o notável crescimento do turismo no Japão nos últimos anos. O mais importante é o iene desvalorizado, que tornou a gastronomia, as compras e as experiências culturais japonesas, famosas no mundo todo, mais acessíveis aos visitantes estrangeiros. Em 2024, o iene foi negociado entre ¥140 e ¥160 por dólar, em comparação com cerca de ¥110 em 2019, tornando o Japão relativamente barato para muitos viajantes. Essa vantagem cambial tem atraído especialmente visitantes dos Estados Unidos, da Europa e de partes da Ásia.
As diversas atrações do Japão — das ruas iluminadas por néons de Tóquio e dos templos históricos de Kyoto às pistas de esqui de neve fofa de Hokkaido e ao interior tranquilo de Kyushu — continuam atraindo turistas em busca tanto de tradição quanto de modernidade. A eficiente rede de transporte do país, sua hospitalidade renomada e as campanhas de divulgação internacional ampliaram ainda mais seu apelo global.
De acordo com o relatório de tendências de viagem de 2025 do Mastercard Economics Institute, Tóquio e Osaka estão entre os destinos de verão em alta no mundo, com viajantes priorizando gastronomia, natureza e experiências de bem-estar em vez dos passeios turísticos tradicionais. Grandes eventos, como shows e torneios esportivos, também impulsionaram o turismo receptivo, enquanto a expansão das redes sociais e fenômenos da cultura pop, como anime e mangá, continuam influenciando as escolhas de viagem.
Problemas regionais: tufões e rumores de terremoto afetam mercados asiáticos
Apesar do recorde geral, nem todos os mercados de origem contribuíram da mesma forma para o resultado de julho no Japão. As chegadas da Coreia do Sul e de Hong Kong caíram acentuadamente: o número de visitantes de Hong Kong recuou 36,9%, e o de sul-coreanos, 10,4%, em comparação com julho de 2024. As quedas foram atribuídas a uma combinação de interrupções em voos causadas por tufões e à disseminação de rumores sobre um terremoto iminente, que ganharam força em partes do Leste Asiático.
Como uma profecia de mangá provocou temor de viajar
O fator mais incomum a afetar o turismo neste verão foi uma profecia viral de Ryo Tatsuki, artista japonesa de mangá (histórias em quadrinhos). Em sua obra de 1999, "Watashi ga Mita Mirai" (O futuro que vi), Tatsuki descreveu sonhos que alguns leitores depois associaram a desastres reais, entre eles o devastador terremoto e tsunami de Tohoku, em 2011. Uma reedição do mangá, lançada em 2021, incluiu uma nova previsão: um grande desastre atingiria o Japão em 5 de julho de 2025.
Amplificada pelas redes sociais e por influenciadores do YouTube, a profecia viralizou em Hong Kong, Taiwan e Coreia do Sul. Em Hong Kong, onde o mangá tem muitos fãs fiéis, o rumor ganhou ainda mais força depois que um famoso mestre de feng shui alertou seus seguidores para evitarem o Japão durante o verão. As reservas de voos de Hong Kong para o Japão despencaram, e algumas companhias aéreas reduziram os voos em até 30% devido ao colapso da demanda. Segundo a Bloomberg Intelligence, as reservas semanais de chegadas de Hong Kong para o período entre o fim de junho e o início de julho caíram até 83% em relação ao ano anterior.
Yoshihiro Murai, governador da província de Miyagi, abordou publicamente os rumores: "Os rumores estão começando a afetar o turismo. Peço às pessoas que não levem essas especulações a sério."
A Agência Meteorológica do Japão também divulgou comunicados lembrando o público de que não é possível prever terremotos com precisão científica e que a preparação para desastres deve se basear em fatos, não em ficção. Ainda assim, a influência cultural do mangá e as lembranças persistentes de desastres passados fizeram com que os rumores repercutissem especialmente na região.
Tufões agravam o impacto
Além dos rumores sobre terremotos, a atividade de tufões no Leste Asiático interrompeu voos e planos de viagem, sobretudo para visitantes da Coreia do Sul e de Hong Kong. As companhias aéreas reduziram rotas, e alguns viajantes adiaram ou cancelaram viagens por questões de segurança. A combinação de temores de desastres naturais, reais e imaginários, criou uma tempestade perfeita para uma queda temporária nas chegadas desses mercados.
China e Estados Unidos: motores do crescimento
Enquanto alguns mercados asiáticos perderam força, outros avançaram. As chegadas da China continental aumentaram 25,5% em julho, refletindo tanto a demanda reprimida quanto a melhora na conectividade aérea. O turismo chinês para o Japão ficou atrás em 2023 e no início de 2024, devido às restrições da pandemia e a dificuldades econômicas, mas a recuperação ganhou força em 2025. Somente em junho, a China enviou quase 800 mil visitantes ao Japão, o maior número entre todos os países naquele mês.
Enquanto isso, as chegadas dos Estados Unidos aumentaram 10,3%, com as companhias aéreas relatando ampliação da oferta de voos e Tóquio figurando entre os principais destinos globais dos viajantes americanos. O iene desvalorizado, somado à reputação do Japão de ser seguro e limpo e oferecer experiências únicas, tornou o país especialmente atraente para turistas dos EUA. Taiwan, Cingapura e Austrália também registraram forte crescimento.
Impacto econômico do turismo e preocupações com o excesso de turistas
Os benefícios econômicos do boom turístico do Japão são expressivos. Em 2024, turistas internacionais gastaram US$ 53,3 bilhões no país, um aumento de 38% em relação a 2023 e 16% acima do nível de 2019. O gasto médio por visitante chegou a ¥226.851, e o setor contribuiu com US$ 257,3 bilhões para a economia nacional, sustentando mais de 5 milhões de empregos.
No entanto, o aumento no número de visitantes também gerou preocupações com o excesso de turistas, especialmente em destinos populares como Kyoto, o Monte Fuji e Tóquio. Governos locais adotaram novas regras e iniciativas de turismo sustentável para controlar as multidões, proteger locais culturais e garantir uma experiência positiva tanto para moradores quanto para visitantes. Entre as medidas estão limitar o acesso a certas atrações, promover destinos menos conhecidos e incentivar práticas de viagem responsáveis.
Respostas políticas: novas regras para uma nova era
Enquanto o Japão busca atrair 60 milhões de visitantes internacionais e alcançar ¥15 trilhões em gastos anuais com turismo até 2030, as autoridades estão implementando novas políticas para enfrentar os desafios do turismo de massa. Uma das principais mudanças previstas é a exigência de que todos os turistas que chegam ao país tenham seguro-saúde privado. A medida busca evitar contas médicas não pagas por visitantes estrangeiros e garantir que os viajantes possam cobrir despesas inesperadas, como ocorre em países da área Schengen, na Europa, e em outros destinos.
Outras medidas incluem a revisão do programa de compras isentas de impostos, a introdução de um sistema eletrônico de autorização de viagem para visitantes de países dispensados de visto e o endurecimento dos requisitos de entrada para pessoas com dívidas em aberto ou impostos não pagos. Essas medidas buscam equilibrar os benefícios do turismo com a necessidade de proteger os sistemas de saúde, administrativos e sociais do Japão.
O lugar do Japão no cenário turístico da Ásia-Pacífico
O sucesso turístico do Japão faz parte de uma tendência regional mais ampla. Segundo o relatório de 2025 da Mastercard, a Ásia-Pacífico abriga oito dos 15 destinos de verão em alta no mundo. As viagens internacionais de países como Cingapura, China e Índia estão em expansão, e o Japão figura constantemente entre os destinos preferidos por seu custo-benefício, segurança e apelo cultural.
Os viajantes da região são cada vez mais motivados por experiências, como bem-estar, gastronomia e contato com a natureza, em vez dos passeios turísticos tradicionais. Grandes eventos, cultura pop e taxas de câmbio favoráveis também influenciam as decisões de viagem. A capacidade do Japão de se adaptar a essas tendências, ao mesmo tempo que administra as pressões do excesso de turistas e os impactos de fatores externos, será fundamental para manter o crescimento nos próximos anos.
Perspectivas: oportunidades e desafios
As previsões do setor continuam otimistas para o restante de 2025 e os anos seguintes. A JTB, uma das principais agências de viagens japonesas, estima que o número de viajantes estrangeiros possa chegar a 40,2 milhões no ano, superando o recorde de 2024. Grandes eventos, como a Expo 2025 em Osaka, e a inauguração de novas atrações, como o parque temático JUNGLIA, em Okinawa, devem atrair ainda mais visitantes.
No entanto, a experiência de julho de 2025 reforça a importância da resiliência e da capacidade de adaptação. O impacto de rumores sobre desastres, mesmo sem fundamento, demonstra como a percepção pública pode mudar rapidamente na era das redes sociais. Fenômenos naturais, oscilações cambiais e tendências econômicas globais continuarão influenciando os rumos do setor.
Para os viajantes, o Japão continua sendo um destino de variedade e custo-benefício incomparáveis. Para os responsáveis por políticas públicas e líderes do setor, o desafio é aproveitar os benefícios do turismo sem deixar de proteger o patrimônio cultural, o meio ambiente e o tecido social do país.
Em resumo
- O Japão bateu um novo recorde de turismo em julho de 2025, com 3,43 milhões de visitantes internacionais, apesar das quedas em mercados regionais.
- As chegadas de Hong Kong e da Coreia do Sul caíram acentuadamente devido a interrupções causadas por tufões e a rumores virais sobre terremotos, associados a uma profecia de mangá.
- A China e os Estados Unidos registraram forte crescimento, compensando as quedas em mercados asiáticos vizinhos.
- O iene desvalorizado, a diversidade de atrações e campanhas de divulgação eficazes fizeram do Japão um dos principais destinos globais.
- O impacto econômico do turismo é expressivo, mas as preocupações com o excesso de turistas e a sobrecarga dos sistemas levaram a novas medidas, incluindo a exigência de seguro-saúde para visitantes.
- As perspectivas para o turismo no Japão continuam positivas, e grandes eventos e novas atrações devem impulsionar ainda mais o crescimento.
- A experiência de julho destaca a necessidade de resiliência diante de rumores, fenômenos naturais e mudanças nas tendências globais.






