Interesse dos EUA nas terras raras de Kachin: uma nova frente na corrida global por minerais
Os Estados Unidos estariam considerando uma medida ousada para garantir acesso a minerais de terras raras no estado de Kachin, em Mianmar, região que está no centro tanto de uma guerra civil quanto de uma disputa global por recursos essenciais. A possibilidade surge em meio à crescente preocupação com o quase monopólio da China sobre as terras raras, elementos essenciais para tudo, de veículos elétricos e turbinas eólicas a tecnologias militares avançadas. Embora a perspectiva de envolvimento dos EUA alimente esperanças de romper o domínio chinês, também desperta temores profundos entre as comunidades locais e ativistas ambientais de que o conflito se intensifique e a devastação ecológica se agrave.
Conteúdo
- Interesse dos EUA nas terras raras de Kachin: uma nova frente na corrida global por minerais
- Por que o estado de Kachin é tão importante para as terras raras?
- O papel da China: formação de reservas estratégicas e danos ambientais
- Mudança na política dos EUA: busca por alternativas à China
- Obstáculos logísticos e políticos
- O custo humano e ambiental da mineração de terras raras
- Convulsão social e financiamento do conflito
- Cadeias globais de fornecimento: quem realmente se beneficia?
- Apelos por fornecimento responsável e regulamentação
- Interesses geopolíticos: os EUA podem romper o monopólio chinês?
- O que vem pela frente para Kachin e as terras raras do mundo?
- Em resumo
Os elementos de terras raras (ETRs) são um grupo de 17 metais quimicamente semelhantes, com propriedades magnéticas, condutivas e térmicas únicas. São indispensáveis para a tecnologia moderna e estão presentes em tudo, de smartphones e aparelhos de ressonância magnética a ímãs permanentes usados em motores de carros elétricos e turbinas eólicas. Entre eles, os elementos pesados de terras raras, como disprósio e térbio, são especialmente valorizados por seu uso em ímãs de alto desempenho e baterias.
Por que o estado de Kachin é tão importante para as terras raras?
Localizado no norte de Mianmar, na fronteira com a China, o estado de Kachin se tornou uma das fontes mais importantes do mundo de elementos pesados de terras raras. Desde o golpe militar de 2021 em Mianmar, a atividade mineradora em Kachin disparou, em grande parte sem regulamentação e, muitas vezes, de forma ilegal. Os solos ricos em minerais da região atraíram não só milícias locais e a junta militar no poder, mas também empresas chinesas interessadas em garantir o abastecimento de seu vasto setor manufatureiro.
Segundo a Global Witness, as exportações de elementos pesados de terras raras de Mianmar para a China mais que dobraram entre 2021 e 2023. Em 2024, Mianmar havia se tornado o maior fornecedor externo desses minerais essenciais para a China, respondendo por cerca de 40% das importações chinesas de elementos importantes como disprósio e térbio. O comércio movimenta cerca de US$ 1,4 bilhão por ano, mas os lucros raramente beneficiam as comunidades locais.
A maior parte da mineração ocorre em áreas controladas pelo Exército de Independência de Kachin (KIA, na sigla em inglês) ou por milícias aliadas aos militares. O KIA, grupo armado étnico que luta por autonomia, assumiu o controle do cinturão de mineração de Chipwe-Pangwa no fim de 2024, complicando ainda mais a já intrincada rede de alianças e rivalidades da região.
O papel da China: formação de reservas estratégicas e danos ambientais
O domínio chinês sobre a cadeia de fornecimento de terras raras não é acidental. O país controla quase 90% da capacidade mundial de processamento desses minerais e vem transferindo cada vez mais para Mianmar as etapas de extração mais poluentes e prejudiciais ao meio ambiente. Empresas chinesas, muitas vezes operando por meio de intermediários locais, ampliaram suas atividades de mineração em mais de 40% nos últimos anos, transformando florestas antes intocadas em paisagens marcadas por escavações, lagoas de resíduos químicos e solo estéril.
Dados alfandegários chineses apontam um aumento de 70% nas importações de terras raras de Mianmar em 2023, quando os embarques ultrapassaram 34 mil toneladas. Analistas alertam que a China está formando reservas desses minerais, possivelmente para usá-los como instrumento de pressão em futuras disputas geopolíticas ou conflitos de sanções com o Ocidente.
Mudança na política dos EUA: busca por alternativas à China
Há muito tempo, os EUA reconhecem sua vulnerabilidade na cadeia de fornecimento de terras raras. Quase todas as importações americanas desses minerais são processadas na China, o que torna o país dependente de um rival estratégico para obter materiais essenciais aos setores de defesa e tecnologia. Nos últimos meses, o governo Trump teria considerado uma parceria com o KIA para acessar as jazidas de terras raras de Kachin, contornando tanto a junta militar quanto os intermediários chineses.
Segundo a Reuters, as propostas discutidas em julho de 2025 incluíam conversas diretas com o KIA, a mediação de um acordo de paz entre o KIA e a junta ou a cooperação com aliados regionais, como a Índia, para processar os minerais. O objetivo é reduzir a dependência dos EUA em relação à China, garantir um fornecimento estável de terras raras e, potencialmente, enfraquecer o domínio chinês sobre o mercado global.
Adam Castillo, ex-chefe da Câmara de Comércio dos EUA em Mianmar, descreveu os minerais de Kachin como “a galinha dos ovos de ouro da China” e pediu que os EUA cooperem com o KIA. Empresas indianas também demonstraram interesse: a IREL (India) Ltd. visitou Kachin no fim de 2024 para explorar acordos de mineração.
Obstáculos logísticos e políticos
Apesar da lógica estratégica, especialistas alertam que qualquer iniciativa dos EUA para extrair terras raras de Kachin enfrenta obstáculos enormes. A infraestrutura da região é precária, há poucas estradas e a maioria das minas fica perto da fronteira chinesa. Bertil Lintner, escritor sueco e especialista em Mianmar, chamou o plano de “completamente absurdo”, observando que a China poderia facilmente bloquear qualquer tentativa de transportar os minerais por terra até a Índia ou outros destinos.
Além disso, os EUA evitam dialogar diretamente com a junta militar de Mianmar desde o golpe de 2021, citando violações dos direitos humanos e a violência em curso. Medidas recentes para suspender sanções contra alguns aliados da junta causaram surpresa, mas não indicam uma mudança mais ampla de política, segundo autoridades americanas.
O custo humano e ambiental da mineração de terras raras
Enquanto o jogo geopolítico se desenrola, a população do estado de Kachin arca com o peso dos impactos devastadores da mineração de terras raras. O processo de extração, conhecido como lixiviação in situ, consiste em injetar produtos químicos como sulfato de amônio e ácido oxálico no solo para dissolver os elementos de terras raras, que depois são bombeados para a superfície. O método é barato e eficiente, mas deixa resíduos tóxicos, água contaminada e paisagens estéreis.
Ativistas locais e grupos de fiscalização documentaram a ampla destruição ambiental:
- Rios e córregos ficaram vermelhos ou azul-leitosos devido ao escoamento de produtos químicos, tornando a água imprópria para consumo, pesca ou irrigação.
- A contaminação do solo reduziu a produtividade das lavouras e matou animais, ameaçando a segurança alimentar.
- Florestas foram derrubadas para abrir áreas de mineração, destruindo habitats e áreas de grande biodiversidade.
- Problemas de saúde, como doenças de pele, problemas respiratórios e danos a órgãos, estão aumentando entre trabalhadores e moradores.
“A mineração de terras raras gera renda imediata, mas, quando é mal conduzida, destrói nossas terras”, disse Seng Ja, ativista de Kachin de 24 anos. “Kachin sofre com a guerra há anos, e o SAC [junta militar] permite que empresas chinesas levem nossos recursos, deixando rios poluídos e campos vazios. Precisamos de ajuda que proteja nosso meio ambiente e nossa população.”
Os EUA não devem seguir o caminho destrutivo do SAC. Se quiserem ajudar Kachin, devem apoiar uma mineração responsável, cumprir padrões ambientais mínimos e buscar soluções sustentáveis, não apenas levar nossos recursos e deixar um terreno devastado.
— Seng Ja, ativista de Kachin
Convulsão social e financiamento do conflito
O boom das terras raras também agravou problemas sociais em Kachin. As áreas de mineração se tornaram polos de jogos de azar, consumo de drogas e criminalidade. Trabalhadores, muitas vezes sem equipamentos de proteção, sofrem ferimentos e doenças com frequência. A chegada de trabalhadores de fora e a rápida circulação de dinheiro desestabilizaram as comunidades tradicionais e aprofundaram a desigualdade.
Talvez o mais preocupante seja que os lucros da mineração de terras raras ajudam a financiar a guerra civil em curso em Mianmar. O KIA cobra um imposto de 20% sobre as operações de mineração em seu território para financiar a resistência à junta. Enquanto isso, os militares e as milícias aliadas usam a receita da mineração para comprar armas e manter o controle. Como disse um morador da região: “Todos os grupos são obrigados a usar os recursos para sobreviver. O SAC e os líderes rebeldes de Kachin conhecem os danos ambientais, mas não se importam: os custos da guerra são altos demais, e o dinheiro das terras raras é tentador demais para ser ignorado.”
Cadeias globais de fornecimento: quem realmente se beneficia?
As terras raras extraídas de Kachin não ficam em Mianmar. São exportadas, em sua maioria ilegalmente, para a China, onde são processadas e incorporadas a produtos de marcas globais como Tesla, Volkswagen, Toyota e Siemens. A Alemanha, por exemplo, é uma grande importadora de ímãs permanentes fabricados com terras raras de Mianmar, embora a maioria das empresas afirme usar materiais reciclados ou depender de cadeias de fornecimento pouco transparentes.
Essa demanda global cria um forte incentivo para a continuidade da mineração, independentemente das consequências locais. Os boicotes internacionais à junta de Mianmar tiveram pouco efeito sobre o comércio de terras raras, já que empresas chinesas operam com impunidade e empresas ocidentais têm dificuldade para rastrear a origem dos materiais que utilizam.
Apelos por fornecimento responsável e regulamentação
Grupos ambientalistas e ativistas locais pedem medidas urgentes para interromper a mineração sem regulamentação em Mianmar até que salvaguardas eficazes sejam implementadas. Entre as recomendações estão:
- Regulamentação governamental mais rigorosa e fiscalização do cumprimento de normas ambientais
- Devida diligência das empresas sobre as cadeias de fornecimento das quais obtêm terras raras
- Sanções internacionais contra empresas envolvidas na destruição ambiental e em violações dos direitos humanos
- Apoio a tecnologias alternativas e à reciclagem para reduzir a demanda por terras raras recém-extraídas
- Inclusão das comunidades indígenas e locais nas decisões sobre projetos de mineração
Sem essas medidas, alertam especialistas, as minas tóxicas de Mianmar continuarão se expandindo, deixando para trás paisagens devastadas e comunidades sem meios de sustento.
Interesses geopolíticos: os EUA podem romper o monopólio chinês?
O interesse dos EUA pelas terras raras de Kachin faz parte de uma disputa global mais ampla por minerais essenciais. À medida que os países correm para garantir o abastecimento necessário à transição para energias limpas e às tecnologias avançadas, a concorrência se intensifica, não apenas entre EUA e China, mas também entre potências regionais como Índia e União Europeia.
A integração vertical da cadeia de fornecimento de terras raras pela China, da mineração ao processamento e à fabricação, dá ao país enorme influência sobre os mercados globais. As tentativas dos EUA e de seus aliados de construir cadeias de fornecimento independentes até agora têm dificuldade para acompanhar a escala e a eficiência chinesas. Novas minas nos EUA, no Canadá e na Austrália estão em desenvolvimento, mas também enfrentam obstáculos ambientais e regulatórios.
Alguns analistas argumentam que apoiar a independência de Kachin poderia ajudar os EUA a garantir o fornecimento de terras raras, reduzir a influência chinesa e trazer benefícios econômicos à população de Kachin. Outros alertam que uma medida assim pode desestabilizar ainda mais Mianmar e alimentar o conflito. Como observa a publicação The National Interest, a política dos EUA de apoiar a integridade territorial de Mianmar pode, inadvertidamente, prolongar a guerra civil e fortalecer o monopólio chinês.
O que vem pela frente para Kachin e as terras raras do mundo?
O futuro das terras raras de Kachin continua incerto. A região está entre forças poderosas: uma junta militar desesperada por receitas, milícias étnicas que lutam por autonomia, empresas chinesas em busca de recursos e, agora, possivelmente, interesses americanos e indianos à procura de alternativas à China. Enquanto isso, as comunidades locais continuam sofrendo as consequências da mineração sem regulamentação e do conflito em curso.
Para os EUA e outros países que buscam garantir minerais essenciais, a lição de Kachin é clara: romper o monopólio chinês não pode ocorrer à custa dos direitos humanos, da sustentabilidade ambiental e dos meios de sustento locais. A corrida global pelas terras raras deve ser orientada por princípios de transparência, responsabilização e respeito às pessoas e aos ecossistemas mais afetados pela extração.
Em resumo
- Os EUA estão considerando parcerias no estado de Kachin, em Mianmar, para acessar minerais de terras raras e reduzir a dependência em relação à China.
- Kachin é uma importante fonte mundial de elementos pesados de terras raras, mas a mineração é, em grande parte, desregulada e causa danos ambientais devastadores.
- A China domina a cadeia de fornecimento de terras raras, importa grandes quantidades de Mianmar e forma reservas desses recursos para usá-los como instrumento de pressão estratégica.
- As comunidades locais de Kachin sofrem com poluição, problemas de saúde e convulsão social associados à mineração e ao conflito.
- Os lucros da mineração de terras raras financiam tanto a junta militar quanto as milícias étnicas, alimentando a guerra civil em Mianmar.
- Especialistas defendem fornecimento responsável, regulamentação rigorosa e inclusão das comunidades locais nas decisões para evitar mais danos ambientais e sociais.
- A corrida global por minerais essenciais corre o risco de repetir os erros da era dos combustíveis fósseis se reformas urgentes não forem feitas.






