Disputa sobre templos vai além dos danos causados pela guerra
O Ministério da Cultura e das Belas Artes do Camboja exigiu, em 22 de outubro de 2026, o fim das atividades tailandesas nos templos de Tamone Thom, Ta Krabey e K'nar, rejeitando as acusações de que o Camboja teria usado monumentos antigos como bases militares. O protesto abrangeu a presença de forças tailandesas, operações de remoção de minas, redes elétricas, obras de construção e restauração realizadas sem o consentimento cambojano.
Conteúdo
- Disputa sobre templos vai além dos danos causados pela guerra
- O que o Camboja quer que seja interrompido
- Tailândia afirma que armas foram posicionadas em Preah Vihear
- O que os números sobre os danos descrevem
- Por que os termos sobre patrimônio são importantes
- Os dois lados invocam o direito internacional
- Registros patrimoniais da Tailândia acrescentam outra disputa
- Como a disputa se desenvolveu
- Objetos de K'nar e o papel das negociações fronteiriças
- Principais pontos
O comunicado reuniu várias disputas: a responsabilidade pelos danos causados durante os confrontos de julho e dezembro de 2025, o controle das obras em sítios históricos na fronteira e a devolução de objetos arqueológicos que, segundo o Camboja, foram retirados do templo de K'nar e levados à Tailândia. O ministério pediu que os dois países recorressem às negociações já estabelecidas, em especial à Comissão Conjunta de Fronteiras (JBC, na sigla em inglês), para tratar das questões fronteiriças pendentes.
O porta-voz do Exército tailandês, major-general Winthai Suvaree, rejeitou as acusações de que as forças tailandesas tenham atacado ilegalmente o templo de Preah Vihear. Ele acusou as forças cambojanas de posicionar armas e equipamentos militares no sítio do Patrimônio Mundial ou em seus arredores e afirmou que as operações tailandesas tiveram como alvo ameaças imediatas, em legítima defesa.
A resposta do Camboja foi categórica: seus templos têm fins culturais, históricos, religiosos, de conservação, pesquisa, educação e turismo, não militares. O ministério afirmou que as acusações tailandesas induziam o público ao erro e desviavam a atenção da destruição causada pelas forças armadas tailandesas.
A divergência agora vai além do que ocorreu durante os combates. A Tailândia também registrou mais 79 sítios antigos sob suas proteções patrimoniais nacionais, incluindo templos na fronteira cuja inscrição foi contestada pelo Camboja. Para os dois governos, decisões apresentadas como medidas de conservação estão se tornando parte de uma discussão mais ampla sobre soberania e autoridade.
O que o Camboja quer que seja interrompido
No comunicado de 22 de outubro, o Camboja contestou a presença contínua de forças tailandesas nos templos mencionados e em outros sítios arqueológicos ao longo da fronteira. Também questionou as atividades de autoridades civis tailandesas, ampliando o protesto para além das mobilizações militares.
O ministério listou operações de remoção de minas, desenvolvimento de infraestrutura, redes elétricas, restauração, construção e outras intervenções. Sua principal objeção era que a Tailândia atuava em locais que o Camboja considera território cambojano sem obter seu consentimento.
A remoção de minas elimina riscos de explosivos, enquanto a restauração repara edifícios danificados. A reclamação do Camboja diz respeito a quem autoriza e realiza essas obras. Até mesmo uma atividade destinada a preservar um monumento pode se tornar politicamente controversa quando dois governos disputam a autoridade sobre o local onde ele se encontra.
O ministério afirmou que projetos unilaterais poderiam prejudicar os esforços pacíficos para resolver as questões fronteiriças pendentes. Pediu que a Tailândia interrompesse as atividades, respeitasse a soberania e a integridade territorial do Camboja e levasse as questões não resolvidas às negociações bilaterais.
Tailândia afirma que armas foram posicionadas em Preah Vihear
O major-general Winthai acusou as forças cambojanas de posicionar artilharia, lançadores de granadas, depósitos de munição e sistemas antidrones no templo de Preah Vihear ou em seus arredores. O Exército tailandês afirmou que essas posições haviam sido usadas para atacar tropas tailandesas e comunidades civis.
A distinção entre o próprio templo e a área ao redor é importante para compreender a acusação. Declarações tailandesas mencionaram armas tanto no local quanto em posições próximas. O Camboja rejeitou a alegação mais ampla de que seus templos antigos haviam sido usados para fins militares.
Winthai afirmou que as forças tailandesas usaram armas de precisão contra alvos militares que representavam uma ameaça imediata. O Exército negou ter uma política de atacar deliberadamente civis ou monumentos antigos e argumentou que suas ações estavam em conformidade com o direito internacional.
O coronel Ritcha Suksuwanon, vice-porta-voz do Exército tailandês, reiterou em 21 de outubro a acusação de uso militar de Preah Vihear. O ministério cambojano respondeu no dia seguinte. A troca de declarações mostra que a discussão sobre os confrontos de 2025 continuava ativa muito depois dos próprios combates.
O que os números sobre os danos descrevem
O Centro Cambojano de Ação contra Minas (CMAC, na sigla em inglês) atribuiu às forças tailandesas o disparo de 1.599 projéteis de artilharia contra Preah Vihear durante os dois episódios de confrontos em 2025. Seus dados também registraram 501 direções de disparo. São medidas diferentes: uma contabiliza projéteis, enquanto a outra descreve as direções dos disparos.
O ministério da Cultura do Camboja lembrou os extensos danos sofridos por Preah Vihear e outros sítios históricos durante os confrontos de julho e dezembro. Pediu contenção, responsabilização e cumprimento das convenções internacionais de proteção dos bens culturais.
A equipe de relações públicas do Camboja também citou uma avaliação da UNESCO que, segundo o país, foi publicada no início de setembro de 2026. De acordo com a descrição cambojana, as conclusões apontaram danos à integridade, à autenticidade e ao valor universal excepcional de Preah Vihear, além de uma ameaça grave e específica que exige importantes obras de conservação urgentes.
O Exército tailandês contestou a interpretação cambojana de uma avaliação que descreveu como um rascunho elaborado com participação do Centro do Patrimônio Mundial e do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS, na sigla em inglês). Em vez disso, atribuiu os danos ao valor patrimonial do local ao suposto uso militar cambojano. O status final e o texto integral da avaliação continuam sem esclarecimento na troca pública de declarações.
Por que os termos sobre patrimônio são importantes
O status de Patrimônio Mundial de Preah Vihear faz da condição de sua estrutura histórica uma questão de conservação internacional. Os termos usados na avaliação dos danos descrevem diferentes aspectos do que pode ser perdido quando um monumento é atingido.
Integridade diz respeito à preservação dos elementos necessários para que um sítio patrimonial expresse sua importância. Autenticidade se refere à credibilidade de suas características históricas, como os materiais e o projeto originais. Valor universal excepcional é a importância cultural que torna um lugar extraordinário para além das fronteiras do país onde se encontra.
Uma estrutura danificada pode, portanto, representar mais do que um problema de engenharia. Os reparos podem ajudar a manter um edifício de pé, enquanto a perda de pedras originais também pode afetar as evidências históricas que pesquisadores, conservadores e visitantes buscam estudar.
O Camboja afirmou que seu trabalho de conservação se concentrava em evitar novos danos, proteger a estrutura do templo e preparar futuras reparações. Essa sequência prioriza a estabilização imediata antes de projetos maiores de restauração, refletindo a preocupação do ministério de que a deterioração adicional agrave os danos já sofridos.
Os dois lados invocam o direito internacional
O Camboja reafirmou seus compromissos com a Convenção da Haia de 1954 para a Proteção dos Bens Culturais em Caso de Conflito Armado e com a Convenção do Patrimônio Mundial de 1972. A primeira trata da proteção em tempos de guerra; a segunda oferece o marco internacional para salvaguardar lugares reconhecidos por sua excepcional importância cultural ou natural.
A Tailândia também invocou a Convenção da Haia de 1954. Winthai argumentou que o uso militar poderia afetar a proteção concedida aos bens culturais e acusou o Camboja de comprometer o status protegido do templo ao posicionar armas no local.
O Exército tailandês citou separadamente o artigo 51 da Carta das Nações Unidas, que reconhece o direito à legítima defesa após um ataque armado. Afirmou que suas operações foram dirigidas contra ameaças provenientes de posições militares cambojanas.
A legítima defesa e a proteção dos bens culturais dizem respeito a questões jurídicas distintas. O artigo 51 trata do uso da força por um Estado em resposta a um ataque, enquanto as regras de proteção de sítios culturais dizem respeito à condução das operações militares. Assim, as posições divergentes dependem de alegações factuais específicas sobre armas, alvos, ataques e danos, além dos argumentos jurídicos dos países.
Registros patrimoniais da Tailândia acrescentam outra disputa
O Departamento de Belas Artes da Tailândia informou que a ministra da Cultura, Sabeeda Thaiseth, publicou 11 comunicados registrando mais 79 sítios antigos. Os registros foram publicados no Diário Oficial e entraram em vigor em 9 de maio. Abrangeram templos, sítios arqueológicos, pinturas rupestres e ruínas da era Khmer no norte, nordeste e sul da Tailândia.
Nove dos sítios foram registrados na província de Surin, incluindo Prasat Ta Muen e Prasat Ta Kwai, perto da fronteira com o Camboja. Nove dos 79 correspondem a cerca de 11% do total de novos registros. O Camboja protestou contra o registro de sítios fronteiriços, relacionando a medida às suas preocupações com a soberania.
Os comunicados também abrangeram locais em Ubon Ratchathani, Nakhon Phanom, Mukdahan, Tak, Yala, Narathiwat, Ranong, Buri Ram, Si Sa Ket e Amnat Charoen. A dimensão do programa mostra que a Tailândia inseriu os registros contestados em uma iniciativa patrimonial nacional mais ampla.
Sabeeda afirmou que o registro reforçaria a conservação, a restauração e a proteção contra invasões ou destruição. O Departamento de Belas Artes destinou 20 milhões de baht para a reforma de Prasat Ta Kwai ao longo de dois anos, após danos sofridos durante o conflito recente. A objeção cambojana à restauração unilateral insere esses gastos na discussão sobre quem pode autorizar obras em sítios fronteiriços disputados.
Como a disputa se desenvolveu
As declarações mais recentes relacionam os confrontos de 2025 a avaliações de conservação, decisões nacionais sobre patrimônio e novas acusações de uso militar. As principais datas são:
- Julho de 2025: confrontos armados causaram danos a Preah Vihear e a outros sítios culturais, segundo o ministério da Cultura do Camboja.
- Dezembro de 2025: novos combates causaram danos adicionais ao patrimônio, afirmou o ministério.
- 9 de maio: entraram em vigor os registros tailandeses de mais 79 sítios antigos.
- Início de setembro de 2026: o Camboja afirmou que uma avaliação da UNESCO documentou danos graves a Preah Vihear.
- 21 de outubro de 2026: o vice-porta-voz do Exército tailandês, coronel Ritcha Suksuwanon, reiterou as acusações de uso militar do templo.
- 22 de outubro de 2026: o ministério da Cultura do Camboja rejeitou as acusações e protestou contra atividades tailandesas em sítios históricos na fronteira.
A sequência explica por que a divergência atual envolve tanto a responsabilidade pela destruição passada quanto a autoridade sobre as obras de conservação em andamento. O Camboja busca responsabilização pelos danos e, ao mesmo tempo, exige que a Tailândia interrompa projetos que considera não autorizados.
Objetos de K'nar e o papel das negociações fronteiriças
O Camboja reiterou sua exigência pela devolução de objetos arqueológicos que, segundo afirma, foram retirados do templo de K'nar e levados à Tailândia. Essa reivindicação acrescenta o patrimônio móvel a uma disputa que, de resto, se concentra em templos, território e obras.
Os objetos arqueológicos são importantes, em parte, por sua ligação com os lugares onde foram encontrados ou utilizados. Retirá-los pode separar as evidências materiais do contexto que ajuda a explicar sua história. A reivindicação do Camboja busca a devolução desses materiais e o reconhecimento de sua autoridade sobre o sítio.
O ministério apontou a Comissão Conjunta de Fronteiras como um canal para resolver pacificamente as questões pendentes. Um mecanismo bilateral permite que os dois países tratem de suas divergências fronteiriças por meio de conversas diretas, em vez de adotarem medidas unilaterais concorrentes nos templos.
O Camboja descreveu os monumentos como parte de sua identidade nacional e do patrimônio compartilhado da humanidade. O resultado que reivindica reúne várias medidas concretas: o fim das atividades contestadas, a devolução dos objetos de K'nar, o respeito às normas de proteção cultural e negociações sobre as questões fronteiriças não resolvidas.
Principais pontos
- Em comunicado de 22 de outubro de 2026, o Camboja rejeitou as acusações de que seus templos antigos serviam como bases militares.
- O ministério protestou contra a presença de tropas tailandesas, a remoção de minas, obras de construção, redes elétricas e restauração em sítios históricos na fronteira sem o consentimento cambojano.
- A Tailândia alegou que havia armas posicionadas em Preah Vihear ou em seus arredores e afirmou que suas operações foram atos de legítima defesa.
- O CMAC atribuiu às forças tailandesas 1.599 projéteis de artilharia e 501 direções de disparo contra Preah Vihear durante dois episódios de confrontos em 2025.
- O Camboja citou uma avaliação de danos da UNESCO; a Tailândia contestou sua interpretação e descreveu a avaliação como um rascunho.
- A Tailândia registrou mais 79 sítios antigos e destinou 20 milhões de baht para reformar Prasat Ta Kwai ao longo de dois anos.
- O Camboja pediu a devolução de objetos do templo de K'nar e defendeu negociações pacíficas por meio da Comissão Conjunta de Fronteiras.






