Projeto de chips de US$ 16,8 bilhões monta rede de fornecedores
O projeto de semicondutores Terafab, de Elon Musk, negocia com cerca de 10 fornecedores sul-coreanos enquanto Tesla e SpaceX montam uma rede de fabricação para um complexo planejado no Texas, cujo investimento inicial é estimado em US$ 16,8 bilhões. A HPSP concordou em fornecer um sistema de pesquisa, enquanto outras empresas discutem produtos químicos, válvulas, serviços de limpeza e equipamentos para testar chips.
Conteúdo
- Projeto de chips de US$ 16,8 bilhões monta rede de fornecedores
- Da compra de fábricas à parceria com fabricantes de chips
- O que os fornecedores sul-coreanos devem fornecer
- Um equipamento de pesquisa já foi contratado; outros seguem em discussão
- Por que a Coreia do Sul se encaixa na estratégia de compras
- O cronograma de produção vai de 2027 a 2036
- A fábrica também precisa de água, energia e tratamento de resíduos
- As entregas de equipamentos podem determinar o ritmo
- Tesla busca fornecedores externos enquanto constrói sua própria fábrica
- Principais pontos
As negociações vêm após tentativas relatadas de adquirir instalações de fabricação da Intel, da Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. e da Micron. Um funcionário não identificado de uma fornecedora internacional de equipamentos afirmou que Musk recorreu a parcerias depois que essas propostas foram rejeitadas. O relato não informa valores de compra nem datas das abordagens.
Desde então, Musk apresentou um cronograma ambicioso de produção. Durante a teleconferência da SpaceX em 20 de outubro de 2026, ele disse que a Terafab pretende produzir um chip de teste funcional em maio ou junho de 2027 e alcançar a produção em volume no terceiro ou quarto trimestre de 2028. Ele também alertou que essas datas estão sujeitas a considerável incerteza.
Tesla, SpaceX e xAI anunciaram em março que buscariam desenvolver a Terafab em conjunto. As empresas não divulgaram a criação de uma entidade corporativa separada nem uma estrutura societária. A primeira fase está prevista para o condado de Grimes, no Texas, com cerca de 3 mil empregos esperados, enquanto a Tesla constrói uma unidade de pesquisa em seu campus Gigafactory Texas, em Austin.
A tarefa imediata da Terafab é transformar as conversas com fornecedores em um sistema de produção operacional. O escopo proposto reúne fabricação, empacotamento e testes de chips para atender aos sistemas de direção e robôs da Tesla, além dos satélites da SpaceX e dos centros de dados planejados no espaço. As negociações com empresas sul-coreanas mostram quanto desse trabalho envolve tubulações, produtos químicos e sistemas ambientais que dão suporte às máquinas de fabricação de chips.
Da compra de fábricas à parceria com fabricantes de chips
A Intel mostra como uma tentativa de aquisição rejeitada pode dar lugar a outro tipo de relacionamento. A empresa anunciou em abril que se juntaria à Terafab para ajudar a acelerar o projeto. A contribuição técnica proposta inclui o processo de fabricação 14A da Intel, embora as empresas não tenham explicado como a colaboração funcionará.
Um processo de fabricação é a sequência de etapas usada para construir circuitos eletrônicos microscópicos em uma lâmina de silício. Garantir um parceiro com um processo de fabricação pode ajudar uma nova fábrica a avançar além da compra de máquinas e aprender a usá-las de maneira consistente.
As conversas de Musk com a TSMC expuseram divergências sobre o controle operacional. O presidente e diretor-presidente da TSMC, C.C. Wei, afirmou que a empresa está aberta à colaboração, mas que qualquer fábrica no Texas cuja operação envolva a TSMC terá de ser administrada por ela. Ele também disse que equipes visitaram o Texas para avaliar uma possível expansão.
Musk, por sua vez, afirmou que a Tesla e seus parceiros pretendem construir e operar a Terafab por conta própria. As descrições do possível papel da TSMC variaram entre subcontratação e sublocação de parte do complexo. A questão central é quem administraria a operação de fabricação.
Na produção de chips, essa decisão afeta diretamente o trabalho diário: quem aprova mudanças no processo, define os requisitos de qualidade e assume a responsabilidade quando muitos chips são reprovados nos testes. O interesse da TSMC no Texas também ocorre em meio à forte demanda por sua capacidade atual.
Wei descreveu essa demanda durante a teleconferência de resultados da TSMC:
Na verdade, a demanda ainda está muito acima da nossa capacidade atual de fornecimento, e estamos trabalhando muito para reduzir essa diferença.
O que os fornecedores sul-coreanos devem fornecer
Representantes da Tesla e da SpaceX visitaram estandes de cerca de 10 empresas sul-coreanas em 13 de outubro, primeiro dia da SEMICON West 2026, em San Francisco. A feira foi realizada até 15 de outubro. As conversas com várias empresas já estavam em andamento havia meses.
Entre os visitantes estavam profissionais de compras de materiais e especialistas em sistemas de fornecimento de gases. As reuniões incluíram, entre outras, as empresas ENF Technology, Dongjin Semichem, Asflow, BMT, GnG Intech, Unisem, MiCo e Hanmi Semiconductor.
Mais da metade dos cerca de 10 fornecedores envolvidos assinou acordos de confidencialidade, que permitem às empresas compartilhar informações técnicas e comerciais sigilosas. As conversas vão de apresentações iniciais de produtos à troca de amostras e projetos de pesquisa.
A ENF Technology recebeu um pedido para apresentar os materiais de fabricação que poderia fornecer. A Asflow discutiu componentes de tubulação e válvulas, enquanto a BMT negocia válvulas e outras peças que controlam o fluxo de fluidos. Três funcionários da área de instalações da Tesla visitaram a GnG Intech para perguntar sobre equipamentos de reciclagem de águas residuais.
A Dongjin Semichem conversava com a Tesla havia dois a três meses, avaliando possíveis fornecimentos relacionados à sua fábrica de diluentes no Texas. O ácido fosfórico também estava em discussão. Esses produtos químicos têm funções específicas na fabricação, incluindo preparar, limpar ou remover materiais das superfícies das lâminas de silício.
A Unisem assinou um acordo de confidencialidade sobre equipamentos ambientais, incluindo lavadores de gases que tratam as emissões liberadas durante a produção. A KoMiCo, subsidiária de limpeza da MiCo, assinou um acordo tripartite com a Tesla e a SpaceX para discutir serviços de limpeza para a linha de pesquisa no Texas.
Um equipamento de pesquisa já foi contratado; outros seguem em discussão
O acordo com a HPSP prevê um sistema de recozimento com hidrogênio em alta pressão para a linha de pesquisa da Terafab. O recozimento trata estruturas de semicondutores para melhorar suas propriedades elétricas. Esse é o único compromisso de fornecimento de equipamento identificado especificamente nos relatos sobre os fornecedores.
A Hanmi Semiconductor discute prensas de ligação por termocompressão, que usam calor e pressão para conectar componentes semicondutores. Um executivo de vendas visitou a empresa a pedido da SpaceX para apresentar o equipamento, e as companhias trocaram perguntas em seguida.
A ISC avançou para a troca de amostras e informações de projetos de pesquisa sobre soquetes de borracha de silicone usados em testes de chips. Esses soquetes fazem conexões elétricas temporárias para que os fabricantes verifiquem se um chip funciona antes de incorporá-lo a um produto final.
Relações comerciais já existentes ajudam a Terafab a encontrar fornecedores. A BMT já fornece componentes de tubulação à SpaceX, a KoMiCo presta serviços de limpeza à área automotiva da Tesla e a Hanmi fornece equipamentos usados na fabricação de materiais para satélites da SpaceX.
Ex-funcionários da Intel que supervisionam a Terafab também trouxeram contatos com fornecedores como ENF Technology, Asflow, ISC e HPSP. Profissionais de compras da GlobalFoundries contribuíram com contatos como a Dongjin Semichem. A rede em formação, portanto, se apoia tanto nos negócios já existentes de Musk quanto na experiência de profissionais recrutados de fabricantes de chips consolidados.
Por que a Coreia do Sul se encaixa na estratégia de compras
Um executivo de uma empresa sul-coreana de equipamentos afirmou que Tesla e SpaceX estão evitando fornecedores chineses para a Terafab e consideram caras as alternativas japonesas. Outro executivo do setor disse que o projeto busca preços inferiores aos oferecidos por fornecedores chineses. Juntos, os relatos descrevem uma combinação exigente: menos fornecedores elegíveis e forte pressão sobre os custos.
Fabricantes sul-coreanos podem fornecer vários componentes da cadeia produtiva, desde sistemas de fluidos até produtos químicos e peças para testes. A Terafab também está conversando com empresas de outros lugares. A Fujifilm realiza reuniões regulares sobre suspensões de polimento, fotorresistes, soluções de corrosão e produtos químicos de limpeza. Esses materiais ajudam a aplainar a superfície das lâminas, definir padrões de circuitos e remover camadas indesejadas.
A Lam Research e a Applied Materials também participam das conversas e, segundo relatos, têm equipes dedicadas à Terafab. A Fujifilm afirmou que os produtos fornecidos dependerão das tecnologias de fabricação escolhidas pelo projeto.
Os fornecedores descrevem uma comunicação excepcionalmente rápida. Um funcionário não identificado de um fornecedor sul-coreano afirmou que as consultas recebiam resposta em 30 minutos a uma hora, mesmo durante a madrugada nos Estados Unidos. Segundo ele, os engenheiros tinham autoridade direta para tomar decisões.
Respostas rápidas podem encurtar negociações e resolver mais cedo questões sobre equipamentos. As etapas seguintes ainda incluem instalar máquinas, conectar serviços essenciais, testar processos e produzir chips de forma confiável. Essas tarefas determinarão a rapidez com que as decisões de compra se transformarão em capacidade utilizável.
O cronograma de produção vai de 2027 a 2036
A atualização de Musk em outubro estabelece uma meta mais antecipada do que as previsões do setor, segundo as quais uma fábrica inicial, com capacidade para processar 100 mil lâminas por mês, ficaria pronta antes de 2030. A ambição de longo prazo é chegar a um milhão de lâminas por mês em até 10 anos.
Os marcos representam diferentes etapas de desenvolvimento:
- Março de 2026: Tesla, SpaceX e xAI anunciaram que buscariam desenvolver a Terafab em conjunto.
- Abril de 2026: a Intel anunciou que se juntaria ao projeto.
- Outubro de 2026: segundo relatos, a SpaceX assinou um acordo de incentivo fiscal no Texas e as obras começaram; depois, ocorreram reuniões com fornecedores na SEMICON West.
- Maio ou junho de 2027: a Terafab pretende ter seu primeiro chip de teste funcional de SRAM na unidade de pesquisa de Austin.
- Terceiro ou quarto trimestre de 2028: Musk espera alcançar a produção em volume.
- Antes de 2030: as previsões do setor indicam que a instalação inicial, com capacidade para cerca de 100 mil lâminas por mês, deverá estar concluída.
- Até 2036: quatro possíveis fases de construção poderiam ampliar o complexo, sujeitas a decisões de investimento posteriores.
Musk, diretor-presidente da Tesla e da SpaceX, ressalvou o cronograma de produção durante a teleconferência de 20 de outubro:
Considero que há uma grande margem de erro porque não sabemos se vamos conseguir alcançar esse objetivo.
O primeiro dispositivo de teste planejado usa memória estática de acesso aleatório, ou SRAM, um tipo de memória comumente integrado a processadores. Os fabricantes usam circuitos SRAM para testar e aprimorar um novo processo antes de tentar produzir itens mais complexos.
A fábrica também precisa de água, energia e tratamento de resíduos
Documentos públicos citados em reportagens sobre a construção descrevem quatro possíveis fases e um gasto potencial de US$ 119 bilhões caso todas sejam executadas. Cada expansão posterior exigiria uma decisão separada. O investimento inicial de US$ 16,8 bilhões é, portanto, a primeira parcela de um empreendimento muito maior ainda em proposta.
Foi descrito que o campus do condado de Grimes ocupará 100 milhões de pés quadrados. Os planos identificam uma central de utilidades, subestações elétricas, sistemas de tratamento e reciclagem de água, tratamento de efluentes industriais, geração de energia no local, equipamentos de refrigeração e infraestrutura para gases comprimidos e produtos químicos.
As conversas da GnG Intech sobre águas residuais e as negociações da Unisem sobre equipamentos ambientais atendem diretamente a esses requisitos. Uma fábrica de chips precisa de controle rigoroso da água, dos gases e dos produtos químicos, pois pequenas quantidades de contaminantes podem danificar circuitos microscópicos. Também precisa de sistemas para tratar os resíduos resultantes.
O empacotamento e os testes acrescentam outras exigências. O empacotamento conecta e protege os chips fabricados; os testes verificam se eles funcionam como esperado. Reunir essas atividades à fabricação das lâminas poderia dar à Terafab mais controle sobre o caminho de seus produtos, do projeto aos componentes acabados.
A meta inicial da Terafab, de 100 mil lâminas por mês, equivale a um décimo de sua ambição final de um milhão. Para comparação, a capacidade da TSMC para o processo de 2 nanômetros tem previsão de chegar a 120 mil lâminas por mês até o fim de 2026. A meta inicial da Terafab corresponde a cerca de 83% desse volume. O número de chips utilizáveis obtidos de cada lâmina também depende do tamanho do chip, da tecnologia de fabricação e da proporção aprovada nos testes.
As entregas de equipamentos podem determinar o ritmo
Musk agradeceu à ASML e a outros fornecedores por acelerarem as entregas de equipamentos durante a teleconferência de outubro. Questionado sobre a realização de pedidos das máquinas de litografia ultravioleta extrema da ASML, ele não confirmou diretamente nenhum pedido.
Essas máquinas usam luz para transferir padrões de circuitos extremamente pequenos para as lâminas e são essenciais para a produção dos chips mais avançados da atualidade. A Terafab também precisará de equipamentos para depositar materiais, remover camadas e inspecionar os resultados da fabricação.
A KLA mencionou prazos de entrega de até 18 a 24 meses para alguns produtos, em comparação com os 12 meses habituais. A ASML indicou aumentos de preços a partir de 2027, com aceleração a partir de 2028. Essas condições tornam os prazos de entrega e os orçamentos de equipamentos importantes para a meta da Terafab em 2028.
Investidores do setor de equipamentos reagiram positivamente à atualização de Musk. Os recibos de ações da ASML negociados nos Estados Unidos subiram até 2,7% no fim do pregão de terça-feira, enquanto a Applied Materials avançou mais de 2%.
Samsung Electronics e SK hynix enfrentam o mesmo mercado competitivo de maquinário enquanto ampliam sua própria produção. Um novo grande comprador pode pressionar ainda mais prazos de entrega que já são longos, ao mesmo tempo que oferece aos fabricantes de equipamentos e fornecedores sul-coreanos de componentes outra fonte de demanda.
Tesla busca fornecedores externos enquanto constrói sua própria fábrica
Os possíveis clientes da Terafab relacionam o projeto a várias necessidades distintas de chips: os sistemas de direção automatizada e os robôs Optimus da Tesla, os satélites da SpaceX e a infraestrutura de computação planejada no espaço. Chips lógicos realizam cálculos, enquanto chips de memória armazenam os dados necessários para essas operações. A Terafab planeja desenvolver capacidade para fabricar ambos.
Musk descreveu a ambição de acrescentar, a cada ano, capacidade computacional associada a um terawatt de potência. Um terawatt equivale a um trilhão de watts. Essa medida representa a escala da infraestrutura de computação prevista; as metas de lâminas indicam a capacidade de produção pretendida para a fábrica.
A Tesla também mantém o trabalho com fabricantes externos. Segundo relatos, o processador AI5 está em produção experimental na unidade da Samsung em Taylor, no Texas, com produção em volume prevista para 2027. Espera-se que projetos posteriores, como os AI6 e AI6.5, usem processos de 2 nanômetros da Samsung e da TSMC.
A disputa também envolve profissionais. Segundo relatos, a Samsung enviou da Coreia do Sul para Taylor engenheiros especializados em rendimento de processos avançados antes do início da produção planejada para 2027. O rendimento é a proporção de chips fabricados que funcionam corretamente e representa um fator importante no custo de produção.
Um engenheiro de semicondutores que publica como @TTHUEONE alegou que a Tesla buscou informações sigilosas sobre a fabricação da Samsung, direitos de auditoria e preços menores, e que a Terafab recrutou funcionários de Taylor. As alegações não foram confirmadas, e nenhuma das empresas as confirmou ou negou publicamente. Elas coexistem com uma realidade comercial mais concreta: a Tesla está desenvolvendo sua própria operação de fabricação enquanto continua dependendo de produtores consolidados para os próximos chips.
O próximo marco técnico da Terafab é o chip de teste SRAM de Austin, previsto para maio ou junho de 2027. O progresso nessa etapa, seguido pela instalação dos equipamentos e por uma produção confiável, mostrará com que rapidez a rede de fornecedores em expansão poderá dar suporte à fábrica proposta por Musk.
Principais pontos
- A Terafab negocia com cerca de 10 fornecedores sul-coreanos após tentativas relatadas de adquirir instalações de fabricação da Intel, da TSMC e da Micron terem sido rejeitadas.
- A HPSP concordou em fornecer um sistema de recozimento com hidrogênio para a linha de pesquisa; outros fornecedores discutem materiais, equipamentos e serviços.
- A primeira fase no condado de Grimes prevê investimento estimado em US$ 16,8 bilhões e cerca de 3 mil empregos.
- Musk pretende obter um chip de teste SRAM funcional em maio ou junho de 2027 e iniciar a produção em volume no fim de 2028, mas alerta que o cronograma é incerto.
- A meta inicial de capacidade é de 100 mil lâminas por mês, com aumento posterior para um milhão.
- TSMC e Musk manifestaram posições diferentes sobre quem operaria uma fábrica em uma eventual parceria.
- Prazos de entrega de equipamentos, serviços essenciais e rendimentos de fabricação influenciarão o andamento do projeto.






