Falhas contábeis cobram seu preço de ex-líderes
A investigação da Nidec sobre a responsabilidade legal de seus ex-dirigentes colocou no centro de um escândalo contábil danos estimados em ¥ 27,6 bilhões, que envolvem o fundador Shigenobu Nagamori e outros oito ex-executivos. Detalhes publicados em 20 de outubro de 2026 descrevem uma empresa em que atingir as metas de lucro repetidamente teve prioridade sobre o registro das perdas necessárias.
Conteúdo
- Falhas contábeis cobram seu preço de ex-líderes
- Quem foi apontado pelo comitê
- O que significa responsabilidade legal
- Como as metas de lucro se sobrepuseram às regras contábeis
- Investigação anterior descreveu pressão do fundador
- Três valores financeiros distintos explicam os danos
- Os prazos de outubro pressionam a permanência na bolsa
- Acionistas enfrentam desvalorização e pressão por análise de venda
- Nova gestão terá de corrigir mais do que as contas
- Principais pontos
O comitê de advogados externos e outros especialistas concluiu que os nove não cumpriram os deveres que tinham para com a fabricante de motores de Kyoto. As conclusões levam a crise além da correção das demonstrações financeiras e abrem caminho para possíveis ações contra as pessoas que dirigiram ou supervisionaram a empresa.
Cerca de ¥ 22,2 bilhões dos danos estimados correspondem a despesas com a investigação, enquanto outros ¥ 5,3 bilhões são custos de auditoria. O comitê relacionou essas despesas às falhas dos ex-executivos, mas afirmou que o valor atribuível a cada pessoa deve ser definido em processos judiciais.
A Nidec disse que avaliará pedidos de indenização e outras medidas legais. A empresa também está corrigindo relatórios de valores mobiliários relativos ao período de 2022 a 2025, buscando recuperar a aprovação de seu auditor e convencer a Bolsa de Valores de Tóquio de que seus sistemas de gestão interna melhoraram.
Quem foi apontado pelo comitê
O comunicado oficial sobre responsabilidades da Nidec, divulgado em 16 de outubro, nomeou oito pessoas e identificou uma nona pelo antigo cargo. O comunicado apresentou as conclusões do comitê antes da publicação do relatório detalhado, em 20 de outubro.
Os oito nomes eram Nagamori, Hiroshi Kobe, Akira Sato, Hiroyuki Yoshimoto, Jun Seki, Mitsuya Kishida, Kazuya Murakami e Hiroyuki Ochiai. O nono era um ex-diretor financeiro que ocupou o cargo de maio de 2022 a março de 2026 e não teve o nome divulgado.
O grupo reúne diferentes gerações de dirigentes. Kobe foi presidente do conselho; Yoshimoto, Seki e Kishida ocuparam cargos de liderança, incluindo a presidência ou o posto de diretor-presidente. Murakami ainda aparecia como diretor jurídico e chefe de compliance em 1º de outubro, embora a Nidec tenha informado posteriormente que ele não trabalhava mais na empresa.
O escopo do comitê, portanto, foi além do fundador e dos executivos responsáveis pela gestão das operações. Também foram examinadas pessoas cujas atribuições envolviam relatórios financeiros, conformidade legal ou supervisão, refletindo como os problemas contábeis persistiram em diferentes equipes de gestão.
O que significa responsabilidade legal
O comunicado de 16 de outubro afirmou que as oito pessoas nomeadas estavam sujeitas à responsabilidade por danos prevista no artigo 423(1) da Lei das Empresas do Japão. Em termos simples, esse dispositivo permite que uma empresa peça indenização quando diretores ou outros administradores abrangidos deixam de cumprir seus deveres e lhe causam prejuízo financeiro.
A possível responsabilidade do ex-diretor financeiro se baseava em outro fundamento legal: os artigos 644 e 415(1) do Código Civil ou o regulamento dos diretores executivos da Nidec. Essas normas tratam dos deveres ligados a trabalhos confiados a alguém e da indenização por descumprimento de uma obrigação.
A Nidec disse que as investigações do comitê independente anterior e do comitê de responsabilidade dos administradores, além do trabalho de seu comitê de auditoria e supervisão, levaram a empresa a reconhecer violações legais cometidas por vários diretores e outros executivos no exercício de suas funções.
O próximo passo é decidir quais ações serão movidas e quanto será cobrado de cada pessoa. O comitê afirmou que os danos devem refletir a contribuição de cada indivíduo para o prejuízo. Suas conclusões detalhadas reconheceram a dificuldade de atribuir valores individuais e disseram que essa questão deve ficar a cargo dos tribunais. Não foram anunciadas datas para o ajuizamento nem valores individuais dos pedidos.
Como as metas de lucro se sobrepuseram às regras contábeis
A Nidec acumulou, em todo o grupo, ativos cujo valor registrado era duvidoso porque perdas necessárias foram adiadas por anos. Quando um ativo vale menos do que o valor registrado na contabilidade, a empresa pode precisar lançar uma perda para reduzir esse valor.
A investigação descreveu esforços repetidos em toda a empresa para lidar com esse problema acumulado. A cada vez, porém, a abordagem permitia registrar perdas apenas até o limite em que isso não impedisse a empresa de alcançar suas metas de desempenho.
A contabilidade normal funciona na ordem inversa: a empresa registra as perdas exigidas por sua situação financeira e, depois, calcula o lucro restante. Na Nidec, o lucro-alvo vinha primeiro, e o valor das perdas que a gestão aceitaria era calculado de trás para a frente, com base nessa meta.
O comitê atribuiu essa abordagem a Nagamori e a outras figuras fundadoras, incluindo Kobe. Presidentes sucessivos e auditores corporativos em tempo integral permitiram que o tratamento continuasse em vez de corrigi-lo. A conclusão explica por que trocar a pessoa no comando não bastou para resolver uma prática arraigada em todo o grupo.
Investigação anterior descreveu pressão do fundador
Uma investigação independente divulgada em 3 de março já havia descrito fraudes contábeis generalizadas e as associado à pressão intensa para cumprir metas de desempenho irreais. A investigação anterior estimou perdas potenciais em ¥ 250 bilhões.
O comitê de março afirmou que Nagamori sabia de algumas práticas e as tolerava. Descreveu sua atuação em termos contundentes:
É preciso dizer que Nagamori é quem deve ser responsabilizado acima de todos.
Kobe e outros três executivos renunciaram com efeito a partir do dia da divulgação do relatório. Kishida, então presidente e diretor-presidente, anunciou que abriria mão de todo o salário mensal até o outono.
A investigação de outubro tratou da questão jurídica seguinte: se falhas de administradores individuais haviam causado prejuízos pelos quais a Nidec poderia pedir indenização. Seu foco na responsabilização veio depois da análise anterior sobre como ocorreu a conduta contábil irregular.
Três valores financeiros distintos explicam os danos
A estimativa de ¥ 27,6 bilhões em danos no relatório de outubro diz respeito aos custos decorrentes do escândalo contábil, incluindo o trabalho de investigação e auditoria. A conta de cerca de ¥ 22,2 bilhões da investigação representa aproximadamente quatro quintos dessa estimativa, mostrando o custo elevado do trabalho de reconstrução e análise das contas.
As perdas potenciais de ¥ 250 bilhões identificadas em março diziam respeito às consequências financeiras descritas naquela etapa da investigação contábil. Mais tarde, a Nidec informou um prejuízo operacional de ¥ 519 bilhões no exercício encerrado em março, após registrar uma despesa de impairment de ¥ 632 bilhões.
Impairment é a redução do valor contábil de um ativo quando a empresa espera recuperar menos do que se supunha anteriormente. Essa despesa afeta os resultados financeiros da empresa. Os custos de investigação e auditoria são um encargo adicional, decorrente do trabalho necessário para examinar as irregularidades e corrigir os relatórios.
A Nidec prevê voltar a ter lucro operacional de ¥ 200 bilhões, com vendas de ¥ 2,8 trilhões, no atual ano fiscal. Para atingir essa previsão, será necessária uma virada de ¥ 719 bilhões em relação ao prejuízo operacional do ano anterior, enquanto a gestão continua a lidar com as consequências contábeis e jurídicas.
Os prazos de outubro pressionam a permanência na bolsa
A Bolsa de Valores de Tóquio colocou a Nidec sob alerta especial em outubro de 2025 porque seu sistema de gestão interna precisava melhorar. Essa condição submeteu a empresa a um escrutínio mais rigoroso enquanto ela trabalhava para reparar os controles destinados a manter a confiabilidade de suas contas.
A auditoria contábil da PwC Japão não emitiu parecer, afirmando que não conseguiu obter evidências suficientes e apropriadas. O parecer de auditoria é uma avaliação externa das demonstrações financeiras de uma empresa. A Nidec busca a aprovação do auditor enquanto corrige divulgações anteriores e documenta mudanças em seus sistemas internos.
A empresa tem até 28 de outubro para apresentar documentos e evitar um aviso de deslistagem. A bolsa avaliará o documento de confirmação das melhorias para decidir se a Nidec poderá continuar listada.
A sequência mostra como a investigação jurídica e a análise da listagem convergiram:
- Outubro de 2025: a Nidec foi colocada sob alerta especial por fragilidades na gestão interna.
- 3 de março de 2026: foi divulgado o relatório da investigação contábil anterior, seguido por renúncias e pelo anúncio de que Kishida abriria mão do salário.
- 16 de outubro de 2026: a Nidec anunciou as principais conclusões jurídicas do comitê de responsabilidade dos administradores.
- 20 de outubro de 2026: a Nidec publicou o relatório detalhado sobre responsabilidades e a estimativa de danos.
- 28 de outubro de 2026: termina o prazo para a apresentação de documentos à bolsa, ligado aos esforços da Nidec para preservar sua listagem.
Acionistas enfrentam desvalorização e pressão por análise de venda
As ações da Nidec caíram até 2,8% na segunda-feira, 19 de outubro, e atingiram o menor nível desde 2016. Os papéis haviam perdido mais de um terço de seu valor desde o fim de setembro, quando a empresa anunciou a saída repentina de Kishida do cargo de diretor-presidente.
O valor de mercado da empresa era de cerca de ¥ 2,1 trilhões, ante quase ¥ 9 trilhões menos de seis anos antes. O valor de mercado é a soma dos preços que os investidores atribuem às ações de uma empresa. A queda reflete a dimensão da pressão financeira em torno das correções contábeis, dos prejuízos operacionais e da incerteza sobre a permanência na bolsa.
A Oasis Management elevou sua participação declarada para 9%, tornando-se a maior acionista da Nidec com participação divulgada e ultrapassando a fatia detida diretamente por Nagamori. Seth Fischer, fundador da Oasis, pediu aos conselheiros externos que contratassem assessores financeiros e buscassem propostas preliminares e não vinculantes para uma possível operação, incluindo o fechamento de capital, como forma de proteção contra uma deslistagem não intencional.
Em uma operação, potenciais compradores teriam de avaliar as contas ainda não resolvidas, possíveis ações judiciais e a posição dos principais acionistas, incluindo Nagamori. Uma compra voluntária para fechar o capital envolveria negociações sobre propriedade e preço; a análise da bolsa segue um processo separado, voltado a verificar se a Nidec cumpre os requisitos para permanecer listada.
Nova gestão terá de corrigir mais do que as contas
O novo diretor-presidente, Michio Kaida, enfrenta várias tarefas interligadas: reestruturar negócios deficitários, concluir as correções financeiras, responder à pressão dos acionistas e decidir como buscar reparação dos ex-executivos. As conclusões sobre responsabilidades dão ao conselho uma base para avaliar pedidos de indenização enquanto essas demandas operacionais continuam.
Nagamori fundou a empresa em 1973 e a expandiu ao longo de décadas de aquisições. A Nidec, anteriormente chamada Nippon Densan, adotou o nome atual em 2023. A empresa cresceu e se tornou uma fabricante com mais de 100 mil funcionários e posições de liderança em motores usados na direção elétrica de veículos e em unidades de disco rígido.
A sucessão na liderança se mostrou difícil repetidas vezes. Yoshimoto e Seki foram escolhidos como possíveis sucessores, mas ambos deixaram a empresa, enquanto Nagamori manteve sua influência. Ele renunciou ao último cargo formal em fevereiro de 2026, mas continua sendo um dos principais acionistas.
As conclusões de outubro colocam a responsabilização ao lado das tarefas imediatas de manter a empresa em funcionamento e suas ações listadas. Para os acionistas, as questões concretas são o custo do escândalo, a confiabilidade das contas corrigidas e os termos de qualquer proposta futura envolvendo a propriedade da empresa. Para o conselho, as próximas decisões dizem respeito a processos judiciais, relatórios financeiros e às evidências apresentadas à bolsa.
Principais pontos
- O relatório de investigação da Nidec, publicado em 20 de outubro, concluiu que o fundador Shigenobu Nagamori e outros oito ex-executivos eram responsáveis por danos decorrentes de irregularidades contábeis.
- Os danos estimados totalizaram cerca de ¥ 27,6 bilhões, incluindo aproximadamente ¥ 22,2 bilhões em custos de investigação e ¥ 5,3 bilhões em custos de auditoria.
- O comitê concluiu que a gestão limitou repetidamente o reconhecimento de perdas necessárias para proteger as metas de desempenho.
- A Nidec avalia medidas legais, e os valores individuais dos danos devem ser calculados de acordo com a contribuição de cada pessoa.
- A empresa precisa corrigir divulgações financeiras e cumprir o prazo de apresentação de documentos à bolsa, em 28 de outubro, enquanto busca preservar sua listagem.
- A participação declarada da Oasis Management chegou a 9%, ampliando a pressão dos acionistas por uma análise de possíveis mudanças na estrutura de propriedade.






