Planos de greve coincidem com negociações na maior unidade da Micron em Taiwan
O sindicato da Micron Technology em Taoyuan planeja uma greve de solidariedade em 22 de outubro de 2026, enquanto o sindicato maior da empresa em Taichung volta à mediação para reivindicar a destinação de 15% do lucro operacional anual aos bônus dos funcionários. A ação levaria a disputa sobre como os trabalhadores participam do boom da inteligência artificial a uma base de produção que emprega cerca de 15 mil pessoas.
Conteúdo
- Planos de greve coincidem com negociações na maior unidade da Micron em Taiwan
- Trabalhadores querem uma fórmula que se mantenha mesmo em um ano lucrativo
- Por que um bônus de NT$ 1 milhão não encerrou a disputa
- Votação expressiva, com decisões separadas em cada unidade
- Como as negociações chegaram a 22 de outubro
- Micron defende um sistema de remuneração mais amplo
- Concorrentes coreanas servem de referência, mas seguem regras diferentes
- Taichung liga a disputa salarial às entregas de memórias para IA
- Governo pressiona por um acordo
- Principais pontos
O sindicato de Taoyuan obteve 1.994 votos favoráveis à greve entre 2.258 membros aptos a votar. A paralisação planejada busca pressionar a Micron a adotar uma fórmula permanente de participação nos lucros, enquanto as negociações continuam em Taichung, onde a empresa fabrica memórias DRAM e realiza o encapsulamento e o teste de memórias avançadas para sistemas de IA.
O dia 22 de outubro reúne duas etapas distintas da disputa. A mediação em Taoyuan terminou sem acordo em setembro, e os membros autorizaram uma ação trabalhista. Em Taichung, a mediação continua e ainda não houve votação sobre a greve. O relato inicial descreve a ação em Taoyuan como uma paralisação de um dia, mas o anúncio do sindicato não especificou a duração e prometeu mais detalhes na quinta-feira.
Até 20 de outubro, não havia confirmação de interrupção da produção ou de atrasos nas entregas, e a Micron não havia divulgado publicamente um acordo aprovado que atendesse à principal reivindicação dos sindicatos. O governo de Taiwan pediu que as partes negociem, e o presidente Lai Ching-te fez um apelo pessoal por conversas sérias na inauguração, em 15 de outubro, da segunda unidade avançada de montagem e testes da Micron em Taichung.
Trabalhadores querem uma fórmula que se mantenha mesmo em um ano lucrativo
Os sindicatos querem que 15% do lucro operacional anual da Micron sejam reservados para recompensas aos funcionários, com pagamentos trimestrais a partir do ano fiscal de 2027. Também reivindicam um pagamento adicional referente ao ano fiscal de 2026, que, segundo estimativas deles, poderia equivaler a cerca de 83 meses de salário por funcionário em Taiwan.
Lucro operacional é o que uma empresa ganha depois de descontar as despesas operacionais, mas antes de itens como juros e imposto de renda. Um fundo de bônus vinculado a esse indicador aumentaria ou diminuiria conforme o desempenho operacional da empresa. Os trabalhadores buscam uma regra acordada para calcular as recompensas, em vez de depender de um novo anúncio de remuneração a cada ano.
O presidente do sindicato de Taoyuan, Lin Che-jui, também identificado como Jerry Lin, descreveu a proposta como um sistema duradouro, e não como mais um pagamento excepcional. O sindicato estima que a remuneração adicional proposta pela Micron corresponda a cerca de 4,4% do lucro operacional, bem abaixo dos 15% reivindicados.
A diferença é significativa: 15% é cerca de 3,4 vezes 4,4%. No entanto, os dois percentuais representam propostas concorrentes de remuneração, e o custo final dependeria de quais pagamentos seriam substituídos por um acordo negociado, de quem teria direito a eles e de como seria calculada a base de lucro.
Por que um bônus de NT$ 1 milhão não encerrou a disputa
A Micron anunciou em 11 de setembro seu pacote de remuneração para Taiwan referente ao ano fiscal de 2026, incluindo um bônus especial em dinheiro de NT$ 1 milhão, incentivos por desempenho e ações. A empresa descreveu o pacote como o maior já oferecido aos funcionários em Taiwan.
Segundo a Micron, a remuneração total dos funcionários da produção, incluindo operadores, técnicos e engenheiros de turno, equivaleria a entre 35 e 68 meses de salário-base. A remuneração anual em dinheiro dos funcionários em Taiwan começaria em US$ 53.800. Engenheiros em início de carreira receberiam, em média, US$ 91.800 em remuneração em dinheiro, valor que subiria para cerca de US$ 107.600 com a inclusão das ações.
O bônus especial de reconhecimento é destinado aos funcionários elegíveis que ingressaram na empresa até 29 de agosto de 2025. Os valores expressos em meses de salário combinam diferentes componentes da remuneração anual. Os funcionários receberiam salários, bônus e outras recompensas cujo valor combinado equivale ao número indicado de meses de salário-base.
O sindicato de Taoyuan afirma que a Micron anunciou o pacote sem negociá-lo previamente com os sindicatos de Taoyuan e Taichung. A objeção diz respeito tanto à forma de definir a remuneração quanto à ausência de uma fórmula permanente. Um grande pagamento referente ao ano fiscal de 2026 ainda deixa trabalhadores e direção com a tarefa de chegar a um acordo sobre como dividir os ganhos futuros.
Votação expressiva, com decisões separadas em cada unidade
Os membros de Taoyuan votaram entre 1º e 6 de outubro, e o sindicato anunciou o resultado em 7 de outubro. Dos 2.012 votos depositados, 1.994 foram favoráveis à greve, 14 foram contrários e quatro foram invalidados. O apoio correspondeu a 88,3% dos membros aptos a votar e a aproximadamente 99,1% dos votos depositados.
A autorização da greve em outubro veio após o fracasso da segunda sessão de mediação em Taoyuan. De acordo com a Lei de Resolução de Conflitos Trabalhistas de Taiwan, um sindicato que busca autorização para uma greve precisa obter apoio de mais da metade de seus membros na votação exigida. O resultado de Taoyuan superou esse limite com folga.
O sindicato de Taichung tem cerca de 11 mil membros entre aproximadamente 12.300 funcionários. Dados anteriores indicavam cerca de 400 membros, número que depois cresceu para mais de 10 mil à medida que ganhava apoio a reivindicação por uma participação maior nos lucros. Uma decisão de realizar uma ação trabalhista ali exigiria um processo próprio.
O sindicato de Taoyuan explicou o objetivo da ação de solidariedade planejada em comunicado divulgado na segunda-feira:
Com nossas ações, faremos ouvir nossa insatisfação com o sistema atual e demonstraremos nossa determinação em estabelecer um sistema justo de participação nos lucros,
Líderes sindicais já haviam cogitado uma paralisação surpresa caso a Micron não apresentasse propostas concretas. Também incentivaram os funcionários a tirar folga para participar de um ato em Taipei planejado para 19 de outubro, descrevendo a manifestação como algo separado de uma greve.
Como as negociações chegaram a 22 de outubro
Taoyuan e Taichung seguiram procedimentos de mediação separados, com resultados diferentes até o momento. A mediação reúne trabalhadores e direção com a ajuda de uma terceira parte para tentar chegar a um acordo.
As principais etapas que levaram à greve planejada são:
- 28 de agosto: O Departamento de Assuntos Trabalhistas de Taichung enviou ao Departamento do Parque Científico de Taiwan Central uma lista de especialistas em conflitos trabalhistas para ajudar a escolher os mediadores.
- 4 de setembro: A Micron e o sindicato de Taoyuan realizaram a primeira sessão de mediação.
- 11 de setembro: A Micron anunciou seu pacote de remuneração para Taiwan, incluindo o bônus especial de NT$ 1 milhão.
- 15 de setembro: O departamento do parque científico realizou uma reunião de mediação em Taichung. Segundo o departamento municipal de trabalho, a direção pediu tempo para analisar a questão, e as duas partes concordaram em retomar as conversas em 22 de outubro.
- 21 de setembro: A segunda sessão de mediação em Taoyuan terminou sem acordo.
- De 1º a 6 de outubro: Os membros do sindicato de Taoyuan votaram sobre a autorização da greve.
- 15 de outubro: O presidente Lai pediu negociações na nova unidade da Micron em Taichung.
- 22 de outubro: A segunda sessão de mediação em Taichung está marcada para a manhã, no mesmo dia da greve de solidariedade planejada em Taoyuan.
O sindicato de Taoyuan afirma que a direção não apresentou uma proposta concreta ou alternativa de participação nos lucros na sessão de 21 de setembro. A Micron diz que buscou dar continuidade ao diálogo de mediação, mas que o pedido não foi aceito. Os dois lados afirmaram que continuam abertos a novas conversas.
Micron defende um sistema de remuneração mais amplo
A Micron afirma que a remuneração dos funcionários deve ser considerada como um pacote que inclui salário-base, bônus por desempenho, remuneração em ações, um plano de compra de ações para funcionários e benefícios. A empresa também cita a volatilidade do setor de memórias e a necessidade de equilibrar os gastos com funcionários, pesquisa e fabricação.
Os trabalhadores têm se concentrado no atual sistema de bônus por desempenho, conhecido como IPP. Lin afirmou que a média de atingimento das metas pelos funcionários foi de 93% e que os pagamentos médios corresponderam a 2,3 meses de salário, embora o lucro líquido da empresa tenha aumentado acentuadamente. O sindicato quer tornar mais clara a relação entre os resultados da empresa e as recompensas aos funcionários.
A Micron afirmou anteriormente que preparou várias opções de remuneração para serem discutidas pelo conselho. Mudanças que envolvam um sistema global de remuneração também passariam pelos procedimentos de governança da empresa. Até 20 de outubro, as divulgações públicas não haviam confirmado a aprovação de um novo plano pelo conselho.
O ex-ministro do Trabalho de Taiwan Pan Shih-wei argumentou que a disputa também reflete uma falta de confiança. Na avaliação dele, uma conjuntura econômica mais favorável dá aos trabalhadores maior poder de negociação, pois fica mais fácil encontrar outro emprego. O crescimento do número de sindicalizados dá mais força coletiva a essa divergência.
Concorrentes coreanas servem de referência, mas seguem regras diferentes
Os sindicatos citaram a Samsung e a SK Hynix como exemplos de fabricantes de memórias que compartilham com os funcionários uma parcela fixa do lucro operacional. A SK Hynix se comprometeu a distribuir bônus equivalentes a 10% do lucro operacional anual durante um período de 10 anos.
O fundo de bônus da divisão de semicondutores da Samsung é descrito como equivalente a 10,5% do lucro operacional, sujeito a condições de rentabilidade; uma comparação anterior feita pelo sindicato da Micron apontava 12% para a Samsung. Os 15% reivindicados pelo sindicato superam os dois parâmetros da Samsung e os 10% citados para a SK Hynix.
Essas comparações ajudam a explicar por que as negociações continuam apesar do grande pacote de remuneração da Micron. Os trabalhadores negociam uma parcela do desempenho corporativo e as regras que a determinam. A Micron defende um sistema que combina várias formas de remuneração e investimentos nos funcionários.
Qualquer acordo precisaria definir o lucro operacional usado no cálculo, os funcionários abrangidos, o calendário dos pagamentos e o tratamento dos incentivos existentes. Gastos maiores com bônus poderiam reduzir o lucro operacional e o lucro líquido, mas o tamanho do efeito dependeria dos termos finais e do tratamento contábil.
Taichung liga a disputa salarial às entregas de memórias para IA
Taiwan é uma importante base de produção da Micron, que afirma ter investido mais de NT$ 1,6 trilhão na ilha. Taoyuan fabrica principalmente DRAM, a memória de trabalho que os computadores usam para armazenar dados enquanto executam tarefas. Taichung combina a produção de DRAM com o encapsulamento avançado e os testes de memória de alta largura de banda, ou HBM.
A HBM empilha chips de memória na vertical e os conecta para que grandes quantidades de dados possam ser transferidas rapidamente. Os processadores de IA dependem desse fluxo acelerado de informações. O encapsulamento e os testes transformam os chips individuais em uma pilha funcional e verificam se o produto final funciona corretamente.
A segunda unidade em Taichung da Micron, conhecida como AATT2, foi inaugurada em 15 de outubro. Na cerimônia, o presidente e diretor de operações da Micron, Manish Bhatia, descreveu a demanda pela produção da unidade e o mercado mais amplo de HBM:
Já vendemos toda a capacidade que esta fábrica produzirá em 2027 e esperamos que a memória de alta largura de banda cresça mais rapidamente do que o restante do setor de DRAM até 2028,
Posteriormente, a Micron esclareceu o alcance desses contratos: a maior parte de sua oferta de HBM para 2027, considerando o ano civil, já tem acordos definitivos com clientes, enquanto parte da produção da segunda unidade em Taichung ainda não está coberta por esses contratos. Mesmo assim, a expansão vem acompanhada de compromissos substanciais com clientes e da pressão para colocar a nova capacidade em operação dentro do cronograma.
A fabricação de semicondutores envolve etapas rigorosamente ordenadas. A falta de pessoal em uma etapa crítica pode afetar as fases seguintes do processo, e a retomada plena da produção e da qualidade após uma interrupção pode levar tempo. O efeito prático de uma ação trabalhista dependeria da adesão, da duração, das funções afetadas e dos planos da Micron para manter as operações.
Governo pressiona por um acordo
O presidente Lai aproveitou a inauguração em Taichung para pedir negociações sinceras e uma comunicação melhor entre trabalhadores e direção. Sua intervenção colocou a disputa ao lado de uma expansão apoiada pelo governo de Taiwan, incluindo investimentos em pesquisa e desenvolvimento de HBM.
A autoridade trabalhista de Taiwan afirmou respeitar a votação pela greve em Taoyuan e pediu à Micron que apresentasse uma proposta concreta e viável. O Departamento de Assuntos Trabalhistas de Taichung incentivou o sindicato a usar a mediação para buscar um acordo e disse que as negociações talvez exijam várias rodadas.
O departamento municipal também afirmou que manteria contato com a administração do parque científico e com o sindicato, coordenaria assistência quando necessário e ofereceria aos trabalhadores consultas jurídicas e apoio em questões relacionadas aos direitos trabalhistas. A Micron diz respeitar os direitos legais dos funcionários e os procedimentos aplicáveis, e que continuará se comunicando de boa-fé com os sindicatos.
O dia 22 de outubro é o próximo momento decisivo. Uma fórmula negociada poderia atender à reivindicação por recompensas previsíveis. O fracasso das conversas poderia levar os membros de Taichung a realizar sua própria votação sobre a greve, ampliando a disputa para além da ação planejada em Taoyuan.
Para os funcionários, a questão central é se um ano excepcional resultará em uma regra duradoura para a divisão dos lucros. Para os clientes, é saber se a produção e as entregas continuarão dentro do cronograma. Para a Micron, as negociações colocam na mesma discussão os custos de remuneração, a confiança dos funcionários e o planejamento da produção.
Principais pontos
- O sindicato da Micron em Taoyuan planeja uma greve de solidariedade em 22 de outubro, data marcada para a segunda sessão de mediação em Taichung.
- Os membros de Taoyuan aprovaram a greve com 1.994 votos favoráveis, equivalentes a 88,3% dos membros aptos a votar.
- Os sindicatos querem destinar 15% do lucro operacional anual às recompensas dos funcionários, com pagamentos trimestrais a partir do ano fiscal de 2027.
- O pacote da Micron para o ano fiscal de 2026 inclui um bônus especial de NT$ 1 milhão, incentivos por desempenho e ações.
- O sindicato de Taichung continua em negociações e ainda não realizou uma votação sobre a greve.
- Até 20 de outubro, não havia confirmação de interrupção da produção ou de atrasos nas entregas.
- O presidente Lai e as autoridades trabalhistas pediram negociações enquanto a Micron amplia o papel de Taiwan no fornecimento de memórias para IA.






