Modelos chineses realizam tarefas sensíveis no KIC
O fundo soberano da Coreia do Sul está sob escrutínio pelo uso de modelos chineses de inteligência artificial para processar documentos internos, incluindo relatórios semanais, normas internas e materiais usados para responder a perguntas de parlamentares. A Korea Investment Corporation (KIC) administrava US$ 246,6 bilhões no fim de agosto de 2026, o equivalente a cerca de 339 trilhões de won pela cotação utilizada pelo fundo.
Conteúdo
- Modelos chineses realizam tarefas sensíveis no KIC
- O que fazem os quatro modelos
- Por que a inclusão na lista de controle de exportações importa
- Como a KIC escolheu o Qwen3
- Da inclusão na lista à expansão
- Uso caiu após a liberação para os funcionários
- Uso do ChatGPT foi cerca de 46 vezes maior
- Por que triplicar os equipamentos?
- Governo planeja adotar modelos nacionais
- Principais pontos
Documentos enviados pela KIC ao deputado Kang Min-kook, da Assembleia Nacional, mostram que o Qwen3, da Alibaba, realiza tarefas de linguagem, enquanto o BGE-M3, desenvolvido pela Beijing Academy of Artificial Intelligence (BAAI), dá suporte à busca de documentos. O Departamento de Comércio dos Estados Unidos incluiu a BAAI na Entity List em 25 de março de 2025, alegando apoio à modernização militar da China. A KIC instalou o BGE-M3 em 15 de dezembro daquele ano.
Kang, integrante do Partido Poder do Povo e da comissão da Assembleia responsável por assuntos econômicos e fiscais, disse que os critérios de seleção não incluíam a nacionalidade dos desenvolvedores nem sua situação em relação aos controles de exportação dos Estados Unidos. A KIC afirmou que levou em conta desempenho, adequação operacional, estabilidade, custo e limitações dos equipamentos de computação disponíveis.
A controvérsia também envolve os gastos. A KIC assinou um contrato de 950,4 milhões de won para triplicar o número de unidades de processamento gráfico, ou GPUs, de quatro para 12. Ao mesmo tempo, o uso mensal da IA interna caiu de 3.755 solicitações em maio de 2026 para 798 em setembro. Os documentos reúnem duas questões para a instituição: como proteger informações sensíveis e como alinhar os investimentos em tecnologia à demanda real.
O que fazem os quatro modelos
A IA interna da KIC combina quatro modelos com funções distintas. O Qwen3 é o modelo de linguagem, componente que interpreta instruções escritas e produz respostas. O BGE-M3 é um modelo de embeddings, que transforma textos em representações numéricas para que o sistema encontre documentos ou trechos relacionados a uma pergunta.
O Llama3, da Meta, filtra conteúdo prejudicial, enquanto o Gemma3, do Google, processa imagens. O Qwen3 é o único componente que a KIC classificou como modelo de linguagem responsável por compreender documentos e gerar respostas. Assim, os modelos americanos executam tarefas de suporte, enquanto os chineses lidam com a geração de texto e a recuperação de informações.
Quando um funcionário pesquisa uma norma interna, o modelo de recuperação ajuda a localizar materiais relevantes, e o modelo de linguagem ajuda a transformar esse conteúdo em uma resposta. A KIC usa o sistema para resumir documentos, traduzir, preparar rascunhos, pesquisar normas internas, elaborar relatórios semanais e preparar materiais sobre perguntas de parlamentares.
Essas tarefas aproximam o sistema de informações sobre as operações da instituição e suas respostas à fiscalização parlamentar. Os detalhes divulgados não informam onde ficam os servidores, se há conexões externas nem quais controles regulam o acesso aos documentos.
Por que a inclusão na lista de controle de exportações importa
A inclusão da BAAI na Entity List dos Estados Unidos é central às críticas de Kang. A lista impõe restrições à exportação, reexportação e transferência de determinados produtos e tecnologias para organizações nela identificadas. No processo de seleção de modelos da KIC, essa informação sobre um desenvolvedor pode ser considerada junto com o desempenho técnico.
A KIC adotou o BGE-M3 quase nove meses depois da inclusão da BAAI na lista. Kang disse que os documentos enviados a ele não continham um critério específico sobre a nacionalidade do desenvolvedor nem sobre sua situação em relação aos controles de exportação. Sua objeção diz respeito à forma como a KIC avaliou um fornecedor ligado a um sistema que processa informações internas.
Kang pediu que a KIC inclua esses fatores de segurança na seleção de modelos e instou o ministério responsável pelo fundo a examinar a adoção de IA em instituições públicas. Sua proposta ampliaria as análises de compras para além da capacidade de um modelo de produzir respostas úteis a um custo aceitável.
Uma análise prática de segurança precisaria abordar como as informações circulam pelo sistema, quem pode acessá-las e como são verificadas as mudanças no software. Esses detalhes operacionais importam porque um mesmo modelo pode ser implantado com diferentes configurações técnicas, conexões e permissões.
Como a KIC escolheu o Qwen3
A KIC afirmou que selecionou os modelos em conjunto com a empresa responsável pela construção do sistema. A avaliação usou o LMArena, que classifica modelos com base em avaliações de usuários, e o MMLU-Pro, um teste de referência que avalia conhecimentos e raciocínio em áreas especializadas. Também levou em conta precisão, compreensão, raciocínio, adequação ao trabalho e estabilidade.
A capacidade dos equipamentos foi outro fator importante. Inicialmente, a KIC tinha quatro GPUs disponíveis para operar o sistema. As GPUs são processadores capazes de executar muitos cálculos ao mesmo tempo, o que as torna úteis para IA. A memória dessas unidades limita o tamanho dos modelos e a quantidade de tarefas que podem executar de uma só vez.
Segundo a KIC, o Qwen3 teve melhor desempenho em custo-benefício, memória de GPU disponível e tarefas multilíngues envolvendo idiomas asiáticos. Para uma instituição que traduz e pesquisa documentos, esses são aspectos práticos: o modelo precisa lidar com os idiomas relevantes sem exceder a capacidade dos equipamentos disponíveis.
As críticas de Kang se concentram no que ficou de fora dessa avaliação. Testes de desempenho e requisitos dos equipamentos foram considerados, mas a nacionalidade do desenvolvedor e sua inclusão em listas de controle de exportação não constavam dos critérios enviados. A alternativa considerada para o modelo de busca BGE-M3 também era um modelo Qwen, da Alibaba.
Da inclusão na lista à expansão
As decisões da KIC se estendem por mais de um ano, desde a medida dos Estados Unidos contra a BAAI até a implantação e expansão da plataforma interna do fundo. As datas ajudam a explicar por que parlamentares estão examinando tanto a seleção dos modelos quanto as compras.
- 25 de março de 2025: O Departamento de Comércio dos Estados Unidos incluiu a BAAI na Entity List.
- 15 de dezembro de 2025: A KIC instalou o modelo BGE-M3, da BAAI, em sua IA interna.
- 16 de março de 2026: Um edital para expansão da infraestrutura citou o aumento da demanda de trabalho.
- 7 de maio de 2026: A KIC disponibilizou a IA interna aos 350 funcionários e assinou o contrato de expansão de 950,4 milhões de won.
- Agosto de 2026: A KIC encomendou um projeto de melhoria da plataforma de IA interna, que depois citou como justificativa para expandir os equipamentos.
- Setembro de 2026: O uso da IA interna somou 798 solicitações de 147 usuários.
- 6 de novembro de 2026: Termina o período previsto para o contrato de expansão da infraestrutura.
A KIC afirmou que os equipamentos adicionais dão suporte ao projeto de melhoria da plataforma, encomendado em agosto. Também citou a alta dos preços de GPUs e memória e os prazos de entrega como motivos para encomendar os equipamentos. O documento de contratação de março havia apontado o aumento da demanda de trabalho como contexto para a expansão.
Uso caiu após a liberação para os funcionários
A IA interna da KIC registrou 3.755 solicitações em maio, seu primeiro mês disponível a todos os funcionários, e 798 em setembro. Isso representa uma queda de 78,7% em quatro meses. O número de usuários caiu de 339 para 147, uma redução de 56,6%.
Em relação aos 350 funcionários contemplados no lançamento, o número de usuários em maio correspondia a cerca de 97% do quadro. Em setembro, eram 42%. Portanto, a queda envolveu tanto um número menor de pessoas usando o sistema quanto menos solicitações daqueles que continuaram a utilizá-lo.
Os números também mostram que a média mensal de solicitações por usuário caiu de cerca de 11,1 para 5,4. O cálculo divide o total informado de solicitações pelo número de usuários em cada mês. Isso oferece um retrato mais detalhado da desaceleração do que qualquer um dos totais isoladamente.
A KIC disse que sua IA interna tem uma função limitada, de apoio a nove tipos de trabalho. Esse escopo mais restrito faz parte de sua explicação para os níveis de uso. Para os gestores que avaliam a demanda, o próximo dado útil seria saber quais dessas tarefas os funcionários continuam realizando com a ferramenta e quais respondem pela queda.
Uso do ChatGPT foi cerca de 46 vezes maior
Os funcionários da KIC registraram 36.881 usos do ChatGPT em setembro, ante 798 usos da IA interna. O total do serviço externo foi cerca de 46 vezes maior, tornando-o uma ferramenta muito mais utilizada segundo essa medida.
A explicação da KIC aponta diferenças de escopo. Sua plataforma interna atende a um conjunto definido de nove categorias de trabalho, enquanto o ChatGPT abrange uma gama maior de tarefas. Os números mostram para onde os funcionários direcionaram suas solicitações, enquanto a justificativa da KIC explica por que os serviços podem ter volumes diferentes.
Para o fundo, essa combinação cria um desafio prático de gestão. A instituição investe em uma plataforma interna enquanto os funcionários usam muito mais outro serviço. Entender quais tarefas estão por trás dessas solicitações ajudaria a KIC a decidir onde sua própria plataforma precisa melhorar e onde capacidade computacional adicional seria útil.
Por que triplicar os equipamentos?
O contrato de expansão acrescenta oito GPUs Nvidia H200 às quatro que a KIC já tinha, elevando o total para 12. O valor do contrato é de 950,4 milhões de won, e os trabalhos estão previstos para terminar em 6 de novembro de 2026. A KIC afirmou que planejava executar o orçamento correspondente após a conclusão do projeto, em novembro.
Os documentos da contratação indicam um orçamento de 950 milhões de won. A KIC relacionou a compra à infraestrutura necessária para o projeto de melhoria da plataforma, além dos preços dos equipamentos e dos prazos de entrega. Essas justificativas descrevem a preparação para um sistema futuro, e não gastos vinculados exclusivamente ao número de solicitações em setembro.
Ainda assim, Kang questionou o contraste entre a queda no uso e o aumento da capacidade. Ele pediu que a KIC verifique se os equipamentos ampliados serão utilizados de acordo com a demanda real, tornando a utilização uma questão central ao lado da segurança.
Os números oferecem um teste concreto para o investimento: a quantidade de GPUs vai aumentar 200%, enquanto as solicitações mensais caíram 78,7% entre maio e setembro. As mudanças planejadas pela KIC para a plataforma precisarão explicar quais tarefas exigem a capacidade adicional e como a instituição medirá seu uso.
Governo planeja adotar modelos nacionais
A controvérsia envolvendo a KIC ocorre enquanto o governo sul-coreano promove a substituição de modelos estrangeiros de IA por modelos desenvolvidos no país. Bae Kyung-hoon, vice-primeiro-ministro e ministro da Ciência e das TIC, abordou o uso de modelos chineses durante uma auditoria parlamentar.
Bae reconheceu que muitas empresas e órgãos públicos usam atualmente IA chinesa. Disse que os modelos nacionais já instalados em algumas plataformas vieram da primeira etapa do projeto governamental de modelos básicos de IA independentes. Modelos básicos são sistemas gerais de IA que podem ser adaptados a diversas tarefas.
Bae afirmou que quatro modelos nacionais da segunda avaliação do projeto passaram por testes de desempenho suficientes e seriam introduzidos de forma mais ampla no setor público. Também descreveu planos para ampliar ainda mais o uso quando forem divulgados os resultados da terceira etapa.
Para a KIC, qualquer substituição teria de atender às tarefas atualmente divididas entre geração de texto, recuperação de documentos, filtragem de conteúdo prejudicial e processamento de imagens. O processo de seleção do fundo já considera desempenho em idiomas, memória e custo. Kang pede que verificações relacionadas à segurança e aos desenvolvedores também sejam incluídas explicitamente nessa decisão.
Principais pontos
- A KIC administrava US$ 246,6 bilhões, ou cerca de 339 trilhões de won, no fim de agosto de 2026.
- Sua IA interna usa o Qwen3, da Alibaba, para tarefas de linguagem e o BGE-M3, da BAAI, para recuperar documentos.
- A KIC instalou o BGE-M3 em dezembro de 2025, quase nove meses depois da inclusão da BAAI na Entity List dos Estados Unidos.
- O deputado Kang Min-kook disse que a nacionalidade dos desenvolvedores e sua situação em relação aos controles de exportação não constavam dos critérios de seleção de modelos enviados.
- As solicitações à IA interna caíram de 3.755 em maio de 2026 para 798 em setembro, enquanto o número de usuários recuou de 339 para 147.
- Um contrato de 950,4 milhões de won elevará de quatro para 12 o número de GPUs H200 da KIC; o período do contrato termina em 6 de novembro de 2026.
- A KIC citou desempenho, limitações de hardware e requisitos futuros da plataforma para explicar suas escolhas.






