Mortes por sarampo em Bangladesh chegam a 1.147, enquanto campanhas de vacinação deixam milhões de crianças de fora

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Bangladesh Measles Deaths Reach 1,147 as Vaccination Drives Miss Millions of Children

Surto mortal expõe dificuldades para alcançar crianças

Bangladesh registrou cerca de 202.000 casos suspeitos de sarampo entre meados de março e 9 de outubro de 2026, incluindo 22.000 confirmados por exames laboratoriais, segundo a Organização Mundial da Saúde. A agência informou 1.147 mortes, sendo que crianças menores de cinco anos representaram 94% dos óbitos registrados.

Conteúdo
  1. Surto mortal expõe dificuldades para alcançar crianças
  2. Cobertura vacinal ficou abaixo da meta de proteção
  3. Em Sylhet, famílias dizem que a ajuda chegou tarde demais
  4. Como a resposta emergencial se desenrolou
  5. Contagem de crianças se tornou um ponto fraco crucial
  6. Preparação foi concentrada em quatro semanas
  7. Registros de agosto mostraram lacunas persistentes
  8. Crianças pequenas correm o maior risco
  9. Nova campanha precisa alcançar as famílias que ficaram de fora
  10. Principais pontos

O país teve mais casos suspeitos de sarampo do que qualquer outra nação nesse período. Uma campanha emergencial de vacinação alcançou quase 20 milhões de crianças em abril e maio. No entanto, um programa de saúde realizado posteriormente identificou quatro milhões a mais de crianças na mesma faixa etária do que constavam na lista de alvos da campanha contra o sarampo.

Esses números retratam o problema central em um país de 178 milhões de habitantes: mesmo com a aplicação de milhões de doses de vacina, muitas crianças continuaram desprotegidas. Listas populacionais incompletas, falta de profissionais de saúde e falhas na comunicação com os pais sobre as sessões de vacinação enfraqueceram a resposta após a queda da imunização de rotina em 2025.

Em setembro, houve uma média de 1.198 novos casos de sarampo por dia, o maior nível desde maio. No fim do mês, o governo iniciou outra campanha para alcançar 3,4 milhões de crianças que não haviam sido vacinadas anteriormente, enquanto hospitais enfrentavam pressão tanto do sarampo quanto da dengue.

Mark Jit, consultor de vacinas da OMS e professor da Escola de Saúde Pública Global da Universidade de Nova York, disse que a experiência trazia uma mensagem para além de Bangladesh:

Este é um alerta real para todos os países.

Jit afirmou que prevenir um surto por meio da vacinação era mais fácil, barato e seguro do que organizar uma resposta emergencial. A experiência de Bangladesh mostra como a queda rápida da cobertura da vacinação de rotina pode se transformar em uma crise difícil de conter até mesmo com uma grande campanha de vacinação.

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Cobertura vacinal ficou abaixo da meta de proteção

A OMS e o UNICEF estimaram que a cobertura da primeira dose da vacina contra o sarampo em Bangladesh caiu de 96% em 2024 para 90% em 2025. A cobertura da segunda dose recuou de 93% para 86%.

A queda foi de seis pontos percentuais na primeira dose e de sete na segunda. Em 2025, a cobertura ficou cinco pontos abaixo da meta de 95% da OMS para a primeira dose e nove pontos abaixo para a segunda.

O sarampo se espalha com tanta facilidade que é necessário um nível muito alto de cobertura vacinal para prevenir surtos. Quando há um número suficiente de pessoas protegidas, o vírus tem menos oportunidades de passar de uma pessoa para outra. Essa proteção coletiva costuma ser chamada de imunidade de rebanho.

A segunda dose protege a pequena parcela das crianças que não desenvolve imunidade após a primeira injeção. Por isso, vacinar uma criança uma vez é apenas parte do processo para garantir a proteção contra o sarampo.

A queda em Bangladesh ocorreu após a turbulência política que se seguiu aos protestos de 2024 e encerrou os 15 anos de governo de Sheikh Hasina. Profissionais de saúde entraram em greve, pedidos de vacinas sofreram atrasos e a aplicação de doses de reforço foi interrompida. Em conjunto, essas interrupções enfraqueceram um programa que antes era considerado um sucesso de vacinação.

Em Sylhet, famílias dizem que a ajuda chegou tarde demais

Sylhet, no nordeste de Bangladesh, foi uma das regiões mais atingidas. Registros oficiais apontaram 180 mortes de crianças na região. Famílias relataram que as crianças adoeceram antes de as equipes de vacinação chegarem às comunidades.

Arman Hossain, de dois anos, morreu em julho, cerca de 24 horas após ser internado. A família vendeu o auto-riquixá para pagar o tratamento. Arman não havia sido vacinado. A irmã dele, de quatro anos, também teve sarampo sem ter recebido a vacina, mas sobreviveu.

O pai, Amin Mia, de 26 anos, disse que profissionais de saúde não haviam visitado a aldeia remota da família para oferecer a vacinação antes de o filho adoecer:

Eles só vieram depois que enterrei meu filho.

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Em Chhatak, também na região de Sylhet, Labiba Akter morreu em junho, aos nove meses. O programa emergencial havia reduzido a idade mínima para vacinação de nove para seis meses, permitindo que bebês mais novos fossem protegidos.

O pai de Labiba, Humayun Rashid, carpinteiro de 30 anos, disse que a família não havia sido informada sobre a campanha:

Nenhum profissional de saúde veio nos avisar.

Entre as 16 famílias entrevistadas em Sylhet em setembro, oito disseram não ter visto profissionais de saúde oferecendo vacinas. Pelo menos seis afirmaram que os profissionais só visitaram a comunidade após a morte de uma criança por sarampo. Os relatos mostram falhas de acesso e comunicação justamente no ponto em que um programa nacional precisava chegar às casas de cada família.

Como a resposta emergencial se desenrolou

Bangladesh agiu rapidamente após o início do surto, e as novas infecções diminuíram inicialmente depois da campanha de vacinação de abril e maio. O governo afirmou ter alcançado todas as crianças da faixa etária definida como alvo, de seis meses a cinco anos.

Nos meses seguintes, surgiram evidências de que muitas crianças não haviam sido alcançadas e a transmissão voltou a crescer:

  • Meados de março de 2026: início do surto de sarampo.
  • Abril e maio: quase 20 milhões de crianças receberam vacinas por meio do programa emergencial.
  • Maio: o ministro da Saúde, Sardar Md Sakhawat Husain, afirmou que o surto estava sob controle.
  • Junho: outro programa de saúde registrou quatro milhões a mais de crianças elegíveis na mesma faixa etária do que a campanha contra o sarampo.
  • Agosto: atas de reuniões mostraram que crianças não vacinadas ainda representavam a maioria dos casos confirmados por exames laboratoriais entre crianças.
  • Setembro: a média chegou a 1.198 novos casos por dia, o maior nível desde maio.
  • Fim de setembro: início de uma nova campanha, voltada a 3,4 milhões de crianças que não haviam sido alcançadas anteriormente.
  • 9 de outubro: o total acumulado chegou a cerca de 202.000 casos suspeitos.

Ziauddin Hyder, assessor especial do primeiro-ministro Tarique Rahman para assuntos de saúde, reconheceu em 14 de setembro que havia uma lacuna na cobertura. Ele atribuiu a falta de vacinação, em parte, à relutância dos pais e ao fato de as crianças estarem doentes quando as equipes de vacinação faziam as visitas.

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Contagem de crianças se tornou um ponto fraco crucial

A diferença de quatro milhões entre a lista de alvos da campanha contra o sarampo e a lista do programa de junho expôs um problema básico de planejamento. Os dois programas atendiam à mesma faixa etária, mas trabalhavam com estimativas bastante diferentes do número de crianças que precisavam de atendimento.

Uma taxa de cobertura vacinal depende de duas contagens: quantas crianças receberam uma dose e quantas eram elegíveis. Se a população elegível for subestimada, as autoridades podem atingir a meta numérica enquanto crianças continuam fora do programa.

Um relatório da OMS e do UNICEF publicado em julho questionou a qualidade dos dados oficiais de vacinação contra o sarampo e outras doenças entre 2023 e 2025. Alguns números preliminares indicavam um total de doses superior a 100% da população-alvo, o que apontava para erros na contagem das doses ou na estimativa do número de crianças elegíveis.

O registro de nascimentos é outra dificuldade. O UNICEF e o Instituto de Estatística de Bangladesh estimaram que até 40% das crianças não tinham registro. A falta de registros dificulta a identificação das crianças elegíveis, o planejamento de sessões locais de vacinação e o acompanhamento de quem ainda precisa receber uma dose.

Para famílias de aldeias remotas, uma lista de alvos imprecisa pode ter uma consequência direta: uma equipe de vacinação pode ser designada para alcançar menos crianças do que deveria, ou os pais podem nunca receber informações sobre quando e onde as vacinas estão disponíveis.

Preparação foi concentrada em quatro semanas

A ata de uma reunião realizada em 19 de abril, com participação do governo, da OMS e de parceiros de saúde, registrou que, devido a limitações de tempo, as autoridades fizeram uma rodada de verificações de prontidão antes da campanha emergencial, em vez das quatro habituais.

As verificações de prontidão abrangem necessidades práticas, como refrigeração das vacinas, equipes disponíveis e estimativas do número de crianças que precisam ser vacinadas. A única rodada indicou que a maioria dos distritos estava preparada, mas alguns não estavam.

Hyder afirmou que a campanha de abril foi organizada em quatro semanas. Tajul Islam Abdul Bari, que liderou o programa de imunização de Bangladesh até 2017, disse que campanhas desse tipo normalmente exigiam meses de planejamento.

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Mahmudur Rahman, epidemiologista e presidente do Comitê Nacional de Verificação da Eliminação do Sarampo e da Rubéola de Bangladesh, descreveu quem tinha mais chances de sofrer quando a preparação era insuficiente:

Quando as verificações de prontidão não são feitas adequadamente, são muitas vezes as crianças mais pobres e mais difíceis de alcançar que ficam sem vacinação e pagam o preço.

Dados do governo também mostraram que cerca de um terço dos postos de profissionais de saúde estava vago. Essa escassez reduziu a equipe disponível para identificar crianças não vacinadas, explicar a campanha aos pais, aplicar as vacinas e voltar às casas onde uma criança estivesse ausente ou doente.

Registros de agosto mostraram lacunas persistentes

Em uma reunião realizada em agosto, as autoridades já tinham evidências de que crianças não vacinadas continuavam a representar a maioria das infecções confirmadas. Entre as crianças com sarampo confirmado por exames laboratoriais, a proporção das que não haviam sido vacinadas era de 82% antes da campanha emergencial e de 85% depois dela.

Apesar das quase 20 milhões de doses aplicadas, as crianças que continuavam desenvolvendo sarampo confirmado eram, em sua enorme maioria, as que não tinham registro de vacinação. Os números direcionaram a atenção para a necessidade de alcançar as crianças que haviam ficado de fora da campanha.

A nova alta de setembro ocorreu depois da declaração do ministro da Saúde, em maio, de que os casos nas áreas mais afetadas haviam caído quase a zero. A desaceleração inicial trouxe alívio, mas a transmissão contínua deixou famílias expostas meses depois.

Rajesh Narwal, representante adjunto da OMS em Bangladesh, afirmou que a agência continuava comprometida em apoiar o governo na vacinação de todas as crianças em risco. Ele também pediu o fortalecimento dos serviços de rotina:

A imunização de rotina precisa se tornar mais eficaz e resiliente para que essas lacunas não voltem a surgir.

A vacinação regular e as campanhas emergenciais têm objetivos interligados. A campanha emergencial busca fechar rapidamente as lacunas acumuladas; os serviços de rotina precisam continuar protegendo cada novo grupo de crianças à medida que elas se tornam elegíveis.

Crianças pequenas correm o maior risco

O sarampo causa febre alta, tosse e uma erupção cutânea característica. Segundo a OMS, a doença costuma matar duas ou três pessoas a cada 1.000 casos, e fatores como a desnutrição a tornam mais mortal em países pobres.

Crianças menores de cinco anos representaram 94% das mortes registradas em Bangladesh. Crianças mais velhas também corresponderam a uma parcela significativa do surto: dados da OMS mostraram que crianças acima dos cinco anos representavam cerca de um terço dos casos de sarampo.

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Especialistas em saúde pediram ao governo que ampliasse os esforços de vacinação para incluir esse grupo mais velho. Como o programa emergencial se concentrou em crianças de seis meses a cinco anos, as autoridades tiveram de enfrentar a transmissão em uma faixa etária mais ampla.

Cientistas em Bangladesh também investigavam por que os anticorpos pareciam diminuir mais rápido do que o esperado em bebês de até cerca de seis meses. Em geral, espera-se que bebês dessa faixa etária mantenham parte da proteção conferida pelos anticorpos recebidos da mãe. A razão para a queda mais rápida ainda não havia sido determinada.

O diagnóstico e o tratamento imediatos eram outra prioridade apontada pela OMS. A epidemia simultânea de dengue em Bangladesh aumentou ainda mais a demanda sobre serviços de saúde que já atendiam um grande número de pacientes com sarampo.

No Hospital Shahid Shamsuddin Ahmed, em Sylhet, unidade com 100 leitos que atende pacientes com sarampo, 178 pessoas foram internadas em um dia de setembro. Eram 78 pacientes a mais do que a capacidade informada, o que ilustra a pressão sobre o atendimento durante o surto.

Nova campanha precisa alcançar as famílias que ficaram de fora

A campanha lançada no fim de setembro buscava alcançar 3,4 milhões de crianças que não haviam sido vacinadas anteriormente. Seu sucesso dependia de encontrar essas crianças, informar suas famílias e aplicar as doses em locais que as iniciativas anteriores não haviam alcançado.

O ministro da Saúde, Sardar Md Sakhawat Husain, disse que moradores das aldeias participariam da resposta:

Vamos envolver as pessoas de todas as aldeias para que nenhuma criança fique para trás.

Hyder afirmou em setembro que o governo estava fazendo todo o possível para encerrar o surto. O governo não respondeu a novas perguntas enviadas em outubro. Não foi informada uma data para a conclusão da nova campanha.

O desafio de Bangladesh é imediato e contínuo: vacinar as crianças que não foram alcançadas durante a resposta emergencial e, ao mesmo tempo, restabelecer serviços de rotina confiáveis. Para as famílias de Sylhet, a medida prática desse esforço é saber se um profissional de saúde chega à casa com informações e uma vacina antes que uma criança fique gravemente doente.

Principais pontos

  • A OMS registrou cerca de 202.000 casos suspeitos de sarampo até 9 de outubro de 2026, incluindo 22.000 confirmados por exames laboratoriais.
  • O total informado de mortes chegou a 1.147, e 94% dos óbitos registrados foram de crianças menores de cinco anos.
  • A cobertura da primeira dose caiu de 96% em 2024 para 90% em 2025; a da segunda dose recuou de 93% para 86%.
  • Quase 20 milhões de crianças foram vacinadas em abril e maio, mas listas populacionais elaboradas posteriormente revelaram grandes lacunas.
  • Registros incompletos, alcance limitado, preparação concentrada e vagas em postos de profissionais de saúde dificultaram a resposta.
  • Uma campanha lançada no fim de setembro teve como alvo 3,4 milhões de crianças que não haviam sido alcançadas anteriormente.
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