Seis jovens malaios buscam tornar vinculante um compromisso nacional
Seis jovens malaios pedem ao Tribunal Superior de Kuala Lumpur que obrigue o governo a cumprir a promessa de manter pelo menos metade do país coberta por florestas. O pedido cita estimativas de que entre 4,27 milhões e 4,51 milhões de hectares de floresta natural foram destinados à conversão comercial, o que poderia reduzir a cobertura florestal para entre 47,4% e 49,6% da área terrestre da Malásia.
Conteúdo
- Seis jovens malaios buscam tornar vinculante um compromisso nacional
- Uma visita a Johor tornou a questão pessoal
- Como o compromisso de 50% entrou na política nacional
- O que os números florestais realmente medem
- Por que os poderes estaduais são importantes em um processo contra o governo federal
- O que os dados oficiais sobre reservas podem revelar ao público
- A primeira etapa judicial é obter autorização para prosseguir
- Os direitos constitucionais podem proteger as gerações futuras?
- As florestas ligam as finanças públicas à preocupação pessoal
- Principais pontos
A estimativa do governo para 2024 aponta que a cobertura florestal era de cerca de 54,6%. A disputa vai além desses números: os requerentes querem que o tribunal decida se promessas reiteradas do governo criam obrigações exigíveis, que proteção os jovens podem reivindicar e como as autoridades federais devem agir quando os estados controlam as florestas.
Amira Aliya, que tinha 18 anos quando o caso foi apresentado, se juntou a outros cinco requerentes, com idades entre 20 e 30 anos, na campanha Mana Hutan Kami, que significa “Onde está nossa floresta?”. Eles contestam o governo da Malásia e o ministro dos Recursos Naturais e da Sustentabilidade Ambiental.
A própria política florestal nacional da Malásia reitera o compromisso de manter pelo menos 50% do território do país coberto por florestas e árvores. Aprovado pelo Gabinete em 11 de novembro de 2020 e pelo Conselho Nacional de Terras em 29 de janeiro de 2021, o documento também explica uma dificuldade central do processo: as florestas estão sob jurisdição estadual.
Os requerentes, representados pelos advogados Datuk Ambiga Sreenevasan e Lim Wei Jiet, pedem declarações de que seus direitos foram violados e uma ordem vinculante que exija medidas do governo. Entre as medidas solicitadas estão atuar por meio do Conselho Nacional de Terras e apresentar atualizações sobre o progresso a cada 90 dias.
Uma visita a Johor tornou a questão pessoal
A preocupação de Aliya tomou forma durante uma visita, em agosto de 2024, a uma instituição de acolhimento em Johor. Ela foi ensinar habilidades básicas para a vida a jovens de famílias em situação de abuso e vulnerabilidade, mas viu como as enchentes prejudicavam necessidades cotidianas.
A cozinha, a lavanderia e a área comum da instituição ficavam ao ar livre. Nos períodos chuvosos, moradores e cuidadores tinham dificuldade para chegar aos espaços de que dependiam. Aliya, estudante e ativista ambiental, descreveu o problema em termos práticos:
“A infraestrutura daquela instituição não foi feita para as temporadas de chuva”,
Aliya já havia organizado oficinas de compostagem de resíduos alimentares por meio do clube de meio ambiente e natureza de sua escola. As enchentes recorrentes durante as monções fizeram com que ela sentisse que as atividades individuais eram pequenas demais para enfrentar as pressões que afetavam as comunidades ao seu redor.
Os seis requerentes têm experiências em várias partes da Malásia. Entre eles estão a ativista climática Abe Lim, de 30 anos, de Kuala Lumpur; a funcionária de uma ONG Sitti Fatimah, de 25 anos, de Sabah; a pós-graduanda Winona Elisha Jemak, de 23 anos, de Sarawak; e os estudantes de Johor Lee Yu Dong, de 20 anos, Adom Teh, de 20, e Aliya, de 18. As idades foram informadas quando o pedido foi anunciado.
Como o compromisso de 50% entrou na política nacional
O então primeiro-ministro Mahathir Mohamad assumiu o compromisso florestal da Malásia em 1992, por volta da Cúpula da Terra do Rio. Ele defendeu o direito do país de usar madeira para o desenvolvimento econômico, prometendo manter metade do território sob cobertura florestal.
A política florestal registra o compromisso de manter pelo menos 50% de cobertura florestal e arbórea, com a condição de que os países desenvolvidos mantenham 30% de seu território coberto por florestas. A estratégia de ação reitera a meta de 50% da Malásia.
A promessa nunca foi transformada em uma obrigação legal independente. No entanto, ela foi reiterada em documentos de planejamento e políticas nacionais, inclusive na 80ª reunião do Conselho Nacional de Terras, presidida pelo primeiro-ministro Anwar Ibrahim. Os requerentes argumentam que essa repetição confere força jurídica à promessa.
Lim Wei Jiet, um dos advogados dos requerentes, resumiu a posição deles:
“Se você promete algo, precisa cumprir sua parte do acordo”,
A política também identifica medidas concretas: aprimorar os procedimentos para alterar o uso de terras florestais, repor áreas retiradas das reservas florestais permanentes, transformar áreas florestais adicionais em reservas legais e atualizar regularmente as informações sobre cobertura florestal e arbórea. Essas medidas vinculam a promessa ampla às decisões sobre áreas específicas.
O que os números florestais realmente medem
A estimativa dos requerentes diz respeito à floresta natural destinada à conversão. Se essas áreas forem excluídas do cálculo da cobertura florestal, restariam entre 47,4% e 49,6% do território nacional cobertos por florestas. A faixa projetada fica de 0,4 a 2,6 pontos percentuais abaixo do mínimo prometido.
A análise da RimbaWatch, citada pelos requerentes, usa conjuntos de dados espaciais para identificar florestas ameaçadas. Sua definição de floresta natural exclui plantações industriais. O governo usa categorias mais amplas de cobertura florestal e arbórea, o que torna a definição um ponto central da disputa.
Abe Lim, pesquisadora climática e requerente, explicou que as florestas naturais têm camadas de vegetação e relações ecológicas desenvolvidas ao longo de séculos. Em geral, uma plantação tem uma composição mais uniforme de espécies e árvores de idades semelhantes. Em uma entrevista de rádio em abril, ela alertou:
“Se tratarmos plantações e florestas naturais como se fossem equivalentes, corremos o risco de criar uma impressão pública muito, muito enganosa”,
O Departamento Florestal da Malásia Peninsular já contestou as definições de floresta, desmatamento e plantações florestais usadas pela RimbaWatch. Em resposta a uma estimativa anterior de que cerca de 2,34 milhões de hectares estavam destinados ao desmatamento, o departamento afirmou que a perda projetada era alta demais porque as definições eram diferentes.
Esse cálculo anterior usou dados do governo que apontavam 18,33 milhões de hectares de floresta, ou 55,2% do território nacional, em 2017. A projeção indicava uma redução para cerca de 15,6 milhões de hectares, ou 47,35%. O departamento disse que a Malásia divulga informações florestais a cada cinco anos por meio da Avaliação dos Recursos Florestais, coordenada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, e reiterou o compromisso de 50%.
Assim, a disputa judicial envolve tanto planos de uso da terra quanto métodos de medição: quais áreas devem contar para o compromisso nacional e como as autoridades devem contabilizar a conversão de florestas naturais em plantações.
Por que os poderes estaduais são importantes em um processo contra o governo federal
O artigo 74(2) da Constituição Federal, lido em conjunto com a Lista II da Nona Tabela, coloca as florestas sob jurisdição estadual. A política florestal nacional afirma que os estados controlam seus recursos florestais e elaboram suas próprias leis e políticas para o setor.
O papel executivo do governo federal é descrito como o de fornecer aconselhamento, assistência técnica, treinamento e pesquisa. Portanto, uma ordem judicial dirigida ao governo federal teria de operar dentro de um sistema em que muitas decisões sobre terras florestais cabem às autoridades estaduais.
O pedido dos requerentes para que sejam tomadas medidas por meio do Conselho Nacional de Terras aborda essa divisão de responsabilidades. Eles buscam uma coordenação nacional para manter o mínimo prometido, em vez de depender apenas de contestações a projetos específicos de desmatamento.
A própria política florestal reconhece as consequências da conversão. Ela define desmatamento como a remoção permanente da cobertura florestal para usos como agricultura, indústria, mineração, estradas, represas, cidades e moradias. Também alerta que os ecossistemas das florestas tropicais são frágeis e difíceis de restaurar após perturbações contínuas.
O que os dados oficiais sobre reservas podem revelar ao público
O conjunto de dados sobre reservas florestais do Departamento de Estatística da Malásia, atualizado até 2024, registra a área das reservas florestais permanentes por estado. São áreas designadas legalmente, com números calculados a partir dos mapas oficiais das reservas.
O conjunto de dados descreve as reservas florestais permanentes previstas na Lei Florestal Nacional de 1984 e sua gestão segundo a Política Florestal Nacional de 1978, alterada em 1992. Suas quatro funções principais são proteção, produção, recreação e pesquisa. Assim, uma reserva pode ter diferentes finalidades, inclusive a produção de madeira conforme as regras de manejo.
A área de reservas registrada para Johor era de 432.184 hectares em 2014 e 332.749 hectares em 2017. O departamento explica que, antes de 2017, os números da Malásia Peninsular incluíam reservas propostas que aguardavam reconhecimento legal; a partir de 2017, foram contabilizadas apenas as reservas oficialmente designadas. Quem compara esses anos precisa levar em conta essa mudança de abrangência.
Para comunidades que buscam acompanhar decisões sobre florestas, o conjunto de dados fornece um registro dos limites legais das reservas. O cálculo nacional do processo levanta uma questão mais ampla sobre as florestas em diferentes categorias de terras, incluindo áreas destinadas à conversão comercial.
A primeira etapa judicial é obter autorização para prosseguir
O Tribunal Superior precisa decidir primeiro se concede autorização para uma revisão judicial, ou seja, permissão para apresentar a contestação. Uma questão central é o locus standi, ou legitimidade para agir: se os requerentes têm relação suficiente com o dano alegado para levar o caso à Justiça.
Uma disputa separada sobre a floresta de Bukit Cherakah, em Selangor, mostra o quanto essa questão pode ser decisiva. Em abril de 2026, o Tribunal Federal decidiu que duas ONGs ambientais não tinham legitimidade para contestar a retirada da proteção da reserva, pois foram criadas depois da decisão. Um relato de julho ainda descrevia a questão como pendente no Tribunal Federal.
Kiu Jia Yaw, presidente do Comitê de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Conselho da Ordem dos Advogados da Malásia, não está envolvido no caso dos jovens. Em caráter pessoal, ele afirmou que a decisão sobre Bukit Cherakah mostrou a necessidade de fortalecer o reconhecimento dos direitos ambientais no sistema jurídico malaio.
As datas de apresentação do processo e da audiência também foram descritas de maneiras diferentes. O anúncio dos requerentes indicou 28 de fevereiro de 2026 como data de apresentação, enquanto o relato de Aliya situou o protocolo em abril. A audiência foi inicialmente marcada para 14 de maio, depois descrita como agendada para 27 de julho; o relato de Aliya informa 20 de outubro. Não foram fornecidas confirmação da data de audiência válida nem explicações para essas mudanças.
- 1992: A Malásia assume o compromisso de manter pelo menos metade do território sob cobertura florestal.
- 11 de novembro de 2020 e 29 de janeiro de 2021: O Gabinete e o Conselho Nacional de Terras aprovam a política florestal nacional.
- Agosto de 2024: Aliya visita a instituição de acolhimento afetada pelas enchentes em Johor.
- 28 de fevereiro de 2026: O anúncio dos requerentes indica a data de apresentação do pedido de revisão judicial.
- 20 de outubro: Data da audiência para autorização, segundo o relato de Aliya.
Os direitos constitucionais podem proteger as gerações futuras?
Os requerentes invocam o direito à vida previsto no artigo 5(1) e o direito à igualdade previsto no artigo 8(1) da Constituição Federal. Também recorrem à expectativa legítima, argumento de que promessas públicas reiteradas devem ser cumpridas, e à confiança pública, princípio segundo o qual os recursos públicos devem ser administrados em benefício das pessoas de hoje e do futuro.
A Constituição da Malásia não prevê expressamente o direito a um meio ambiente saudável. Datuk Dr Shad Saleem Faruqi, professor emérito de direito da Universiti Malaya, explicou que os requerentes precisam relacionar a proteção ambiental aos direitos constitucionais já existentes.
Decisões judiciais malaias adotam abordagens diferentes. No caso Tan Tek Seng, de 1996, sobre demissão do emprego, o tribunal interpretou o direito à vida de modo a incluir o sustento. No caso Kajing Tubek, também decidido em 1996, os tribunais se recusaram a interromper um projeto hidrelétrico em Sarawak que desalojaria milhares de indígenas, entendendo que o projeto havia seguido a lei.
Os jovens argumentam que a destruição das florestas impõe um ônus desigual às pessoas que conviverão por mais tempo com seus efeitos. A declaração juramentada deles afirma:
“A degradação ambiental de hoje transfere custos para o futuro, que recairão sobre aqueles que não tiveram participação em sua causa”,
Kiu disse que a justiça entre gerações já aparece no direito climático internacional, no direito de família da Malásia e no direito consuetudinário, ou adat. Segundo ele, o adat exige que as pessoas usem o meio ambiente sem ameaçar a capacidade das gerações futuras de usufruir dele.
Os requerentes pedem que o tribunal aplique essas ideias à responsabilidade do governo em relação às florestas. O argumento inclui o abastecimento de água, os meios de subsistência, a segurança alimentar e as condições que serão herdadas pelas gerações futuras na interpretação do direito à vida.
As florestas ligam as finanças públicas à preocupação pessoal
A exposição econômica da Malásia amplia o alcance do caso para além da conservação. Um estudo de 2022 do Banco Negara Malaysia e do Banco Mundial constatou que 54% dos empréstimos bancários estavam vinculados a setores dependentes da natureza, enquanto 87% estavam expostos a setores que contribuem para a degradação ambiental. Portanto, a política florestal diz respeito a empresas e empréstimos, além das comunidades próximas às áreas desmatadas.
As finanças estaduais também fazem parte do debate. O fundo de Transferência Fiscal Ecológica foi descrito como tendo RM 250 milhões e estando em expansão, com o objetivo de apoiar a conservação ecológica. Dr Lim Teckwyn, professor adjunto de ciências ambientais na Universidade de Nottingham Malásia, argumentou que uma compensação significativa aos estados pela conservação das florestas poderia exigir centenas de bilhões de ringgits.
Aliya descreve os riscos de forma mais pessoal. O calor e a deterioração ambiental dificultam que ela e alguns colegas imaginem o próprio futuro, inclusive se terão filhos. Ela teme que os esforços individuais sejam insuficientes diante dos danos causados por empresas poderosas.
Sua irmã, Amira Aisya, integrante da assembleia estadual de Johor, deu um exemplo de ação por meio das instituições públicas. Depois de eleita, ela conseguiu pressionar pela criação de um Comitê de Mudanças Climáticas e Gestão de Riscos de Desastres na assembleia estadual.
A campanha judicial de Aliya recebeu milhares de comentários nas redes sociais, incluindo relatos de perda de florestas de Penang a Bornéu e pedidos de doações ou de apoio ao caso. Para ela, recorrer à Justiça oferece uma maneira de responder à sensação de impotência. Ela disse:
Precisamos entender que ainda podemos fazer alguma coisa. Que este não é o fim.
Principais pontos
- Seis requerentes, com idades entre 18 e 30 anos, contestam o governo por causa do compromisso da Malásia de manter pelo menos 50% de cobertura florestal.
- O pedido cita entre 4,27 milhões e 4,51 milhões de hectares destinados à conversão, o que poderia reduzir a cobertura de floresta natural para entre 47,4% e 49,6%.
- O governo estimou que a cobertura florestal era de cerca de 54,6% em 2024; as definições de florestas, plantações e cobertura arbórea são centrais para a disputa.
- Os requerentes pedem medidas vinculantes do governo, coordenação por meio do Conselho Nacional de Terras e atualizações sobre o progresso a cada 90 dias.
- A legitimidade para agir, os direitos constitucionais e a divisão de poderes entre os governos federal e estaduais são questões jurídicas centrais.
- A política florestal nacional reitera o compromisso de 50% e estabelece medidas para administrar conversões e repor áreas retiradas das reservas.






