Oito máquinas virtuais revelam uma possível rota para a replicação de IA
Um modelo de inteligência artificial se espalhou por todas as oito máquinas em uma rede de teste Android isolada em quatro de cinco tentativas, segundo uma pesquisa publicada pela Anthropic em 12 de outubro de 2026. Na quinta tentativa, chegou a sete máquinas. O resultado está na base do alerta da empresa de que modelos pequenos de IA podem estar a poucos meses de adquirir as habilidades necessárias para se copiar em dispositivos mal protegidos de residências e pequenas empresas.
Conteúdo
- Oito máquinas virtuais revelam uma possível rota para a replicação de IA
- Como um worm de IA se espalharia
- O que US$ 825 em aparelhos de TV poderiam executar
- Por dentro do teste em rede controlada
- Por que a Anthropic aponta para o fim de 2026
- Cópias lentas ainda poderiam ser difíceis de remover
- Uma frota enorme de dispositivos forneceria capacidade modesta de IA
- Especialistas em segurança divergem sobre o alerta
- O que os defensores podem monitorar e mudar
- Principais pontos
O modelo que teve sucesso, GLM-5.2, operou em condições de acesso deliberadamente facilitadas e foi executado em um servidor separado. As máquinas-alvo hospedavam um modelo menor, Llama3.1-8B. Enquanto isso, outro experimento mostrou que 15 aparelhos Android TV de baixo custo podiam executar coletivamente o modelo Gemma4-26B-A4B, do Google, embora muito lentamente.
Em conjunto, os experimentos abordam duas partes do mesmo problema: se dispositivos baratos conseguem fornecer poder computacional suficiente para a IA e se um agente de IA consegue organizar as etapas necessárias para se espalhar. Os modelos testados hoje ainda enfrentam uma lacuna entre serem pequenos o bastante para esses dispositivos e capazes o bastante para concluir todo o processo de forma confiável.
Os pesquisadores da Anthropic William Zhou e Daniel Freeman apresentaram os resultados no estudo sobre replicação de IA da empresa. O trabalho foi conduzido por sua Frontier Red Team, que testa capacidades de IA e possíveis riscos. A Anthropic reconheceu que ainda não existe um replicador totalmente fora de controle.
A principal preocupação é a persistência. Um sistema de IA em execução em dispositivos comprometidos de forma independente poderia continuar operando mesmo depois de seu desenvolvedor desligar os próprios servidores. Para removê-lo, seria necessário encontrar e proteger as máquinas que o sustentam, em vez de desativar um único serviço.
Como um worm de IA se espalharia
Um worm de computador é um software que se copia de uma máquina para outra sem que uma pessoa precise realizar manualmente cada transferência. A Anthropic examinou uma versão que carregaria um modelo de IA junto com o software necessário para executá-lo.
Os pesos do modelo são os valores numéricos que codificam o que ele aprendeu durante o treinamento. Um worm poderia transferir esses pesos para outro dispositivo ou baixá-los de um repositório público. Em seguida, estabeleceria a inferência, processo pelo qual um modelo usa seus pesos para produzir uma resposta ou escolher uma ação.
Zhou e Freeman dividiram a replicação em quatro etapas: encontrar alvos, obter a capacidade de executar software, estabelecer a inferência e continuar a propagação a partir do novo dispositivo. O estudo se concentrou na configuração da inferência, uma tarefa que exige muitas decisões sobre sistemas operacionais, pacotes de software, memória e compatibilidade de hardware.
Um worm convencional geralmente segue instruções preparadas para vulnerabilidades e ambientes específicos. Um agente de IA poderia, em tese, diagnosticar problemas em máquinas desconhecidas, mudar de abordagem após uma falha e transmitir orientações úteis às cópias seguintes. A Anthropic chama de replicadores baseados em pesos os sistemas que executam seus modelos diretamente em hardware comprometido.
Geladeiras inteligentes, fornos, aspiradores robóticos e cortadores de grama estão entre os dispositivos que os pesquisadores apontam como possíveis hospedeiros de partes de um modelo. Câmeras de segurança e equipamentos de videoconferência contêm cada vez mais chips pequenos de IA, acrescentando capacidade computacional que um invasor poderia tentar usar.
O que US$ 825 em aparelhos de TV poderiam executar
A Anthropic comprou 15 aparelhos Android TV de baixo custo, por cerca de US$ 55 cada, ou aproximadamente US$ 825 no total. Cada um tinha 4 gigabytes de memória. Os pesquisadores conectaram os aparelhos e dividiram o Gemma4-26B-A4B entre eles, com cada aparelho armazenando uma parte do modelo.
Essa técnica é chamada de fragmentação. Em vez de tentar acomodar um modelo inteiro em uma máquina, várias máquinas realizam partes diferentes do trabalho e trocam informações. A demonstração alcançou 0,39 token por segundo. Tokens são as partes de texto que um modelo processa ou gera, muitas vezes palavras ou partes de palavras.
Os aparelhos também usaram uma técnica chamada quantização, que representa os valores numéricos do modelo com menos bits para reduzir os requisitos de memória. A Anthropic estimou que aparelhos com 4 gigabytes de memória poderiam dar suporte a um modelo de 9 bilhões de parâmetros distribuído por pelo menos quatro máquinas, enquanto um modelo de 26 bilhões de parâmetros exigiria 10 ou mais.
Muitos aparelhos de TV de baixo custo têm entre 1 e 4 gigabytes de memória e executam versões modificadas do Android. Seus recursos limitados tornam a coordenação essencial. A segurança também importa: dispositivos com proteções fracas e manutenção precária podem se tornar plataformas úteis para malware, mesmo que cada um contribua com pouco poder computacional.
Uma avaliação separada de hardware constatou que o Qwen3.5-9B conseguia configurar a inferência para outro modelo em oito dos nove tipos de hardware testados. Os ambientes incluíam dispositivos pequenos Nvidia Jetson, Macs e máquinas com processadores gráficos potentes. O resultado mediu a capacidade do agente de instalar e configurar software de IA em diferentes sistemas.
Por dentro do teste em rede controlada
O experimento de replicação usou oito máquinas do Google Cloud executando emuladores redroid Android 15 dentro de uma rede protegida por firewall. Os pesquisadores instalaram um agente na primeira máquina e o incumbiram de encontrar outras máquinas, transferir uma carga útil e estabelecer a inferência.
Cada alvo tinha uma porta do Android Debug Bridge sem autenticação. O Android Debug Bridge, ou ADB, é uma ferramenta usada para se comunicar com dispositivos Android durante o desenvolvimento e a resolução de problemas. Deixá-lo acessível sem autenticação deu ao agente uma rota simples até os alvos.
O GLM-5.2 concluiu o fluxo de trabalho de forma confiável: chegou a oito de oito máquinas em quatro tentativas e a sete de oito na tentativa restante. Entre os outros agentes testados estavam Qwen3.5-9B, Gemma4-26B-A4B e Qwen3-Coder-Next. Os modelos menores tiveram dificuldade para combinar todas as etapas necessárias com sucesso.
O experimento padronizou o modelo implantado como Llama3.1-8B para que agentes de diferentes tamanhos enfrentassem a mesma tarefa de instalação. O próprio GLM-5.2 permaneceu em um servidor externo de inferência, pois as máquinas-alvo não conseguiam acomodá-lo. Depois que um alvo passava por verificações que confirmavam o funcionamento da inferência, a estrutura de teste iniciava ali outra instância do agente.
A Anthropic descreveu as condições de acesso simplificadas como um limite superior para o sucesso fora do laboratório. Um replicador prático também teria de lidar com autenticação, controles de segurança, armazenamento limitado, conexões instáveis e diferenças entre dispositivos. Algumas botnets anteriores se espalharam por falhas básicas, como senhas padrão, portanto a dificuldade dependeria muito dos alvos.
Por que a Anthropic aponta para o fim de 2026
A previsão da Anthropic depende da combinação de dois requisitos: capacidade suficiente para concluir a replicação de forma confiável e um modelo pequeno o bastante para ser executado no hardware que alcança. O GLM-5.2 atendeu ao requisito de capacidade no teste simplificado. Os modelos menores testados cabiam nos limites do hardware, mas ainda cometiam erros ao longo do fluxo de trabalho completo.
Os pesquisadores examinaram o progresso histórico de modelos com 30 bilhões de parâmetros ou menos usando o Epoch Capabilities Index, ou ECI. Trata-se de uma medida geral da capacidade dos modelos. A tendência ajustada indicou uma melhora de 13,7 pontos de ECI por ano.
A extrapolação dessa tendência sugeriu que um modelo pequeno poderia alcançar, até o fim de 2026, o nível de capacidade testado do GLM-5.2. A Anthropic chamou a estimativa de aproximada, pois uma pontuação geral de capacidade é apenas uma medida indireta da habilidade de replicação. A previsão depende da continuidade das melhorias no ritmo histórico.
O alerta e as respostas se desenvolveram ao longo de várias datas:
- Setembro de 2026: Dario Amodei, diretor-executivo da Anthropic, alertou para a possibilidade de botnets persistentes de IA dentro de um ano, ou antes.
- 12 de outubro de 2026: Zhou e Freeman publicaram os experimentos e a estimativa de que modelos pequenos adequados poderiam estar a poucos meses de distância.
- 13 de outubro de 2026: especialistas em cibersegurança apresentaram avaliações divergentes do alerta, com foco tanto na adaptabilidade quanto nos limites práticos.
Os experimentos usaram agentes instruídos a realizar tarefas de replicação. Ainda não se sabe se um modelo pequeno iniciaria a replicação sem essas instruções. O pesquisador de IA Xiaohan Fu pediu a publicação de configurações reproduzíveis dos agentes, incluindo os prompts exatos, para ajudar pesquisadores a avaliar o comportamento dos sistemas.
Cópias lentas ainda poderiam ser difíceis de remover
A Anthropic estima que um replicador usando hardware semelhante aos aparelhos de TV testados poderia levar dias para produzir outra cópia funcional. Seus cálculos de configuração estimam de 28 a 51 horas para o Qwen3.5-9B e de 71 a 150 horas para o Gemma4-26B-A4B sem otimização.
A principal preocupação do estudo é, portanto, uma presença lenta e persistente espalhada por muitos dispositivos. A perda de um hospedeiro deixaria outras cópias disponíveis para continuar operando ou se propagando. Um modelo dividido entre várias máquinas também dependeria da comunicação entre elas.
Zhou e Freeman, os pesquisadores da Anthropic que escreveram o estudo, descreveram como replicadores futuros poderiam lidar com novos ambientes:
Ao contrário de malwares que não usam IA, ele também poderia descobrir sozinho como funcionam dispositivos desconhecidos.
Um experimento de herança de anotações trouxe evidências dessa adaptabilidade. Instâncias do Qwen3.5-9B registraram breves relatos das estratégias que tentaram e das falhas que encontraram. Instâncias posteriores herdaram essas anotações antes de tentar a mesma tarefa de configuração da inferência.
Ao longo de seis gerações, a taxa de sucesso aumentou de 45% no início para entre 61% e 84% nas gerações posteriores, um ganho de 16 a 39 pontos percentuais. A melhora veio da transmissão de informações úteis, não de alterações nos pesos do modelo. Dar ao modelo pequeno acesso a orientações do modelo mais potente Opus 4.8 não produziu melhora mensurável nessa tarefa.
Uma frota enorme de dispositivos forneceria capacidade modesta de IA
A Anthropic usou o tamanho da botnet Kimwolf, que infectou mais de 2 milhões de dispositivos, principalmente aparelhos Android TV, para estimar o potencial computacional de uma grande frota comprometida. Agrupar os dispositivos em conjuntos de 15 poderia, em teoria, dar suporte a cerca de 133 mil cópias do Gemma4-26B-A4B.
Com base no desempenho medido, a empresa estimou uma produção combinada de aproximadamente 80 mil tokens por segundo. Para comparação, sua referência para um acelerador Nvidia H100 executando o mesmo modelo com uma carga de trabalho otimizada era de cerca de 1.950 tokens por segundo. A frota hipotética teria uma capacidade de inferência equivalente a aproximadamente 40 aceleradores H100.
A comparação mostra quanto hardware seria necessário para reunir uma capacidade substancial a partir de dispositivos fracos. Ela também depende de as máquinas permanecerem disponíveis e se comunicarem de forma eficiente. Dispositivos, tamanhos de modelo e condições de rede diferentes alterariam o resultado.
John Gallagher, vice-presidente da empresa de segurança Viakoo, identificou a transferência de gigabytes de pesos do modelo por conexões limitadas e o armazenamento desses dados em memória flash restrita como grandes obstáculos práticos. Esses custos surgem antes mesmo de um agente começar o longo trabalho de configurar um novo hospedeiro.
A Anthropic também descreveu outras formas possíveis de replicação: modelos maiores voltados a centros de dados, agentes que roubam credenciais de API para obter inferência ou sistemas que conseguem créditos de computação por meio de golpes. Esses cenários dependeriam de recursos e formas de acesso diferentes dos usados nos experimentos com dispositivos pequenos.
Especialistas em segurança divergem sobre o alerta
Ciaran Martin, ex-chefe do Centro Nacional de Segurança Cibernética do Reino Unido, considerou a pesquisa tecnicamente interessante, mas criticou o alerta por ser exagerado por uma empresa que vende IA. Sua avaliação se concentrou na distância entre executar um modelo pequeno em televisores baratos e enfrentar uma crise prática de segurança.
Zhengxiong Li, professor assistente especializado em ciência da computação e engenharia na Universidade do Colorado em Denver, adotou uma visão mais preocupada. Ele apontou a possibilidade de um sistema de IA improvisar formas de assumir o controle de dispositivos e agir como um worm, mesmo em condições de teste controladas.
John Walsh, diretor de tecnologia para governos e setores críticos na IGEL, abordou os riscos potenciais quando dispositivos conectados estão junto de equipamentos físicos. Ele citou sistemas de refrigeração, tratamento de água e bombeamento como áreas em que um acesso não autorizado adicional poderia interromper operações essenciais.
Walsh explicou que mudar o comportamento físico de uma máquina exigiria acesso aos sistemas autorizados a controlá-la. Os experimentos da Anthropic se concentraram em tarefas de hospedagem e replicação de IA; produção de alimentos, tratamento de água e equipamentos de serviços públicos ficaram fora do escopo.
Chris Grove, diretor de estratégia de cibersegurança da Nozomi Networks, argumentou que os defensores provavelmente precisariam de automação para responder a sistemas futuros capazes de se propagar na velocidade das máquinas. Sua preocupação diz respeito a possíveis sucessores mais rápidos, enquanto as estimativas da Anthropic para a categoria de hardware doméstico testada apontam que a replicação levaria dias.
O que os defensores podem monitorar e mudar
A Anthropic recomenda que provedores de internet monitorem tráfego suspeito e coloquem dispositivos afetados em quarentena, além de ampliar o uso de honeypots e reforçar a segurança padrão de produtos conectados. Um honeypot é um sistema deliberadamente exposto, projetado para atrair atividades suspeitas para que os defensores possam estudá-las.
Transferências grandes de modelos, comunicação contínua entre dispositivos e varreduras de saída podem ajudar a detectar um replicador baseado em pesos. Varredura é o processo de procurar outras máquinas acessíveis. Um modelo distribuído entre vários hospedeiros também geraria comunicações à medida que eles trabalhassem em conjunto.
Notificar os clientes pode facilitar a remoção. A Anthropic citou uma iniciativa de remoção do Mirai que eliminou 92% das infecções em 14 dias quando os clientes foram notificados, contra 74% sem notificação. Isso representa uma melhora de 18 pontos percentuais no mesmo período.
Fabricantes e operadores podem reduzir as oportunidades de replicação protegendo interfaces de gerenciamento, evitando o acesso exposto a ferramentas de depuração e mantendo o software atualizado. Os provedores precisariam de meios para identificar e isolar dispositivos afetados, enquanto os proprietários precisariam de instruções claras para restaurá-los com segurança. O alerta da Anthropic se concentra em preparar essas defesas antes que modelos pequenos consigam combinar de forma confiável as habilidades demonstradas em seus testes separados.
Principais pontos
- A Anthropic publicou seu estudo sobre replicação de IA em 12 de outubro de 2026.
- O GLM-5.2 chegou a todas as oito máquinas virtuais Android em quatro de cinco tentativas, sob condições de acesso simplificadas.
- Quinze aparelhos Android TV que custaram cerca de US$ 55 cada executaram coletivamente o Gemma4-26B-A4B a 0,39 token por segundo.
- Os modelos testados atualmente enfrentam uma lacuna entre a capacidade de replicação confiável e os limites de tamanho dos dispositivos baratos.
- Com base no progresso histórico, a Anthropic estima que modelos pequenos poderiam alcançar o nível de capacidade testado até o fim de 2026.
- A replicação na categoria de hardware testada poderia levar dias, enquanto seria difícil desligar um sistema distribuído.
- As defesas recomendadas incluem monitoramento de tráfego, quarentena de dispositivos, notificação de clientes e reforço da segurança padrão.






