Previsão de crescimento de Taiwan mais que dobra com disparada da demanda por chips
O Fundo Monetário Internacional elevou sua previsão de crescimento econômico de Taiwan em 2026 para 10,7%, ante 5,2% em abril, colocando o território à frente de todas as outras economias da região Ásia-Pacífico, à medida que os investimentos em inteligência artificial impulsionam a demanda por equipamentos de computação. O aumento de 5,5 pontos percentuais deixa Taiwan muito acima da taxa de crescimento global de 3,1% projetada pelo FMI.
Conteúdo
- Previsão de crescimento de Taiwan mais que dobra com disparada da demanda por chips
- Como a perspectiva mudou entre abril e outubro
- A posição de Taiwan em relação aos vizinhos
- Por que os gastos com IA beneficiam Taiwan tão diretamente
- Força das exportações não conta toda a história doméstica
- Economistas veem espaço para crescimento além deste ano
- Um boom global com benefícios cada vez mais desiguais
- Energia e retorno da IA são os principais riscos
- Transformar o boom dos chips em crescimento mais amplo
- Principais pontos
O Panorama Econômico Mundial de outubro, intitulado Resiliência sob pressão, escolhas urgentes, projeta que o superávit em conta corrente de Taiwan chegue a 22,0% do produto interno bruto. Taiwan e Coreia do Sul respondem juntas por 62% do comércio líquido global de equipamentos de computação relacionados à IA, segundo o FMI, mostrando como a cadeia de suprimentos por trás do boom de investimentos se tornou concentrada.
A previsão é para o PIB real, que mede a produção econômica após o ajuste pelas variações de preços. Trata-se de uma estimativa para o ano inteiro, não de um resultado de crescimento confirmado. Mesmo após a forte revisão, a estimativa do FMI permanece 0,35 ponto percentual abaixo da previsão de 11,05% divulgada em agosto pela Direção-Geral de Orçamento, Contabilidade e Estatística de Taiwan.
Os relatos divergem sobre Taiwan ser a única economia com previsão de crescimento superior a 10%. Alguns afirmam que sim, enquanto outros incluem a Guiana, com 22,3%, e o Sudão do Sul, com 10,5%. Esses números colocam Taiwan em segundo lugar entre as economias citadas, atrás da Guiana e pouco à frente do Sudão do Sul. O que há de consistente é a liderança regional de Taiwan e sua expansão excepcionalmente rápida.
A perspectiva também inclui um alerta: a previsão é que o crescimento de Taiwan desacelere para 4,3% em 2027. O benefício imediato dos gastos com IA é expressivo, mas nem a continuidade desse ritmo de crescimento nem os retornos futuros desses investimentos estão garantidos.
Como a perspectiva mudou entre abril e outubro
A revisão coloca Taiwan em uma trajetória mais forte do que a esperada pelo FMI seis meses antes. A taxa de crescimento projetada para 2026 agora é pouco mais que o dobro da estimativa de abril e supera em 1,9 ponto percentual o crescimento de 8,8% registrado em 2025.
A sequência de previsões mostra como as expectativas mudaram ao longo do ano:
- Abril de 2026: o FMI projetou crescimento anual de 5,2% para Taiwan, inflação de 1,5% e superávit em conta corrente de 18,1% do PIB.
- Agosto de 2026: a Direção-Geral de Orçamento, Contabilidade e Estatística de Taiwan projetou crescimento anual de 11,05%.
- 12 de outubro de 2026: relatos sobre o Panorama Econômico Mundial de outubro indicaram que a previsão de crescimento do FMI era de 10,7%, a inflação, de 2,0%, e o superávit em conta corrente, de 22,0% do PIB.
- 13 de outubro de 2026: representantes do FMI discutiram a perspectiva global em Bangcoc, onde economistas também avaliaram as perspectivas de Taiwan durante as reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial.
- 2027: o FMI projeta crescimento de 4,3% para Taiwan, inflação de 1,8% e superávit em conta corrente de 23,1% do PIB.
Os relatos datam a publicação da perspectiva em 12 de outubro, enquanto as notícias sobre sua apresentação e discussão em Bangcoc são de 13 de outubro. As previsões se referem à mesma edição de outubro.
A desaceleração esperada para o próximo ano é expressiva: um crescimento de 4,3% ficaria 6,4 pontos percentuais abaixo da previsão para 2026. Ainda assim, representaria uma economia em expansão, não em contração. Não há aqui uma previsão comparável para 2027 da agência de estatísticas de Taiwan, portanto as estimativas de agosto e outubro podem ser comparadas diretamente apenas para 2026.
A posição de Taiwan em relação aos vizinhos
A expansão projetada para Taiwan supera os 8,4% do Vietnã, os 7,0% da Índia, os 5,1% da Indonésia e os 5,0% de Singapura. O FMI prevê crescimento de 4,5% na China, 3,8% em Hong Kong, 3,3% na Coreia do Sul e 0,7% no Japão.
As diferenças são grandes até mesmo entre economias que se beneficiam da demanda por tecnologia. A previsão de Taiwan supera em 7,4 pontos percentuais a da Coreia do Sul, apesar da importância compartilhada dos dois territórios nas cadeias de suprimentos de semicondutores. Também é mais que o dobro da taxa projetada para a China, com base nos números de 10,7% e 4,5%, respectivamente.
O crescimento acelerado de Taiwan não significa que a Ásia esteja se expandindo como um todo. O FMI projeta crescimento regional de 4,8% em 2026, abaixo dos 5,0% de 2025, e de 4,4% em 2027. Para as economias asiáticas avançadas, a previsão para 2026 é de 3,2%.
A expectativa é que a Coreia do Sul cresça 2,8% em 2027, enquanto a expansão da China deve desacelerar para 4,0%. Os relatos concordam com as previsões finais para a China, mas divergem sobre a direção da revisão mais recente: um deles fala em alta, enquanto outro afirma que as duas estimativas anuais foram reduzidas em 0,1 ponto percentual em relação a julho. Os números em comum são 4,5% para 2026 e 4,0% para 2027.
Por que os gastos com IA beneficiam Taiwan tão diretamente
Sistemas de IA precisam de chips potentes e infraestrutura de computação tanto para treinar modelos quanto para executá-los após sua implantação. O treinamento desenvolve um modelo a partir de dados; a inferência é o processo pelo qual um modelo treinado gera uma resposta ou executa uma tarefa. Os investimentos nas duas atividades criam demanda pelos equipamentos fornecidos pelo setor de tecnologia de Taiwan.
O FMI descreve o setor como concentrado em duas pontas: os equipamentos avançados de computação a montante e o desenvolvimento e a operação de modelos líderes de IA a jusante. Taiwan e Coreia do Sul ocupam uma posição central na cadeia de suprimentos de equipamentos.
O número de 62% se refere especificamente à participação conjunta dos dois territórios no comércio líquido global de equipamentos de computação para IA. Alguns relatos o descrevem de forma mais ampla como uma parcela do setor de equipamentos de IA, mas ele não deve ser interpretado como uma medida de toda a atividade de IA, da receita de software ou da produção de chips. O comércio líquido considera as exportações após descontar as importações.
Juntos, Taiwan, Coreia do Sul, Malásia, México e Países Baixos respondem por quase 80% das exportações dos equipamentos em questão, segundo relatos sobre os gráficos do FMI. Estados Unidos e China respondem por quase 80% das importações. Esse padrão conecta os gastos dos principais mercados de IA à produção em várias economias manufatureiras.
O FMI também calcula benefícios para Singapura, Vietnã, Malásia e Japão caso as exportações de computadores, produtos eletrônicos e ópticos de Taiwan e da Coreia do Sul aumentem 40%. Trata-se de um exercício hipotético sobre a cadeia de suprimentos, distinto dos relatos de que as exportações de produtos eletrônicos e equipamentos ópticos de Taiwan cresceram quase 40%.
Força das exportações não conta toda a história doméstica
O superávit em conta corrente projetado para Taiwan subiu da previsão de abril, de 18,1% do PIB, para 22,0%, um aumento de 3,9 pontos percentuais. A conta corrente registra o comércio de bens e serviços, os fluxos de renda e as transferências com o resto do mundo. Há superávit quando os recebimentos do exterior superam os pagamentos nas categorias consideradas.
O FMI estima que o superávit tenha sido de 20,0% do PIB em 2025 e espera que chegue a 23,1% em 2027. O aumento dessa proporção indica força externa contínua, mesmo com a previsão de desaceleração do crescimento anual do PIB.
Os indicadores domésticos mostram uma mudança menos expressiva. A inflação ao consumidor está projetada em 2,0% em 2026, acima dos 1,5% previstos em abril, enquanto o desemprego deve ficar em 3,4% tanto em 2026 quanto em 2027. A expectativa é que a inflação recue para 1,8% no próximo ano.
Esses números não mostram como os ganhos se distribuem entre famílias ou setores. O crescimento do PIB mede a produção total, não se salários, consumo ou emprego melhoram de maneira igual. A previsão inalterada para o desemprego também mostra que uma grande revisão da produção não leva automaticamente a uma mudança equivalente no principal indicador do mercado de trabalho.
A composição do crescimento das exportações também importa. Um relato da análise do FMI afirma que a alta do valor do comércio de equipamentos para IA foi impulsionada substancialmente pelos preços, e não por aumentos igualmente grandes no volume de remessas. Portanto, o aumento das receitas de exportação não deve ser tratado como prova de que o número de dispositivos enviados cresceu no mesmo ritmo.
Economistas veem espaço para crescimento além deste ano
Economistas que participaram das reuniões anuais em Bangcoc, em geral, consideraram a forte demanda por semicondutores uma explicação plausível para a previsão de Taiwan. O economista britânico Paul Temperton disse que o papel de Taiwan no fornecimento de chips para a infraestrutura de IA torna compreensível a projeção de crescimento, dada a dependência do território das exportações.
Temperton acredita que a demanda pode durar vários anos e não considera que o setor já esteja em uma bolha. Para ele, o teste será o volume de receita que as empresas de IA vão gerar nos próximos anos, e não apenas os gastos com investimentos.
Iyabo Masha, diretora do Grupo Intergovernamental dos Vinte e Quatro, também espera que a atividade de semicondutores continue crescendo nos próximos dois a três anos, embora esse avanço possa desacelerar à medida que o setor se estabilize. O G24 coordena as posições dos países em desenvolvimento sobre questões monetárias e de desenvolvimento internacionais.
Emma Rafaelof, da Associação da Indústria de Semicondutores dos Estados Unidos, demonstrou otimismo com a expansão do mercado de IA. Os relatos a identificam de maneiras diferentes, como economista e diretora de políticas globais da associação. Ela afirmou que a expansão contínua exige cooperação entre Estados Unidos, Taiwan e outras economias, com comunicação constante para sustentar essa colaboração.
Essas opiniões apontam para a possibilidade de crescimento adicional, não garantem que Taiwan repetirá uma expansão anual de 10,7%. A própria previsão do FMI de 4,3% para 2027 indica um ritmo mais lento, embora a produção continue aumentando.
Um boom global com benefícios cada vez mais desiguais
O FMI espera crescimento global de 3,1% em 2026 e 3,4% em 2027. A estimativa para este ano está ligeiramente acima da previsão de 3,0% feita em julho, mas abaixo da expansão de 3,5% registrada em 2025. Os investimentos em IA ajudaram a compensar o choque energético associado à guerra no Oriente Médio.
Esse apoio é desigual. Segundo o FMI, 32 economias agora respondem por 95% do crescimento global, ante 54 em abril, e as previsões para 47% das economias foram revisadas para baixo. Os países que fornecem infraestrutura de IA se beneficiam, enquanto muitos importadores de energia fora dessas cadeias de suprimentos enfrentam custos mais altos e menor poder de compra.
A previsão é que os Estados Unidos cresçam 2,3% tanto em 2026 quanto em 2027. A expansão da zona do euro está projetada em 1,1% neste ano, enquanto a Índia deve crescer 7,0% nos dois anos. Em contraste, o FMI prevê contrações de 3,3% na Arábia Saudita, 16% no Iraque, 16,7% no Kuwait e 15,6% no Catar em 2026.
Silvana Tenreyro, conselheira econômica e diretora do departamento de pesquisa do FMI, alertou que a capacidade de absorver choques repetidos está diminuindo:
A economia global tem sido resiliente, mas essa resiliência está chegando ao limite. Precisamos deixar de apenas lidar com os problemas e começar a reconstruir.
Petya Koeva Brooks, vice-diretora de pesquisa do FMI, disse que medidas como o uso de reservas de energia, a troca de fornecedores e a redução da demanda por petróleo impediram que o crescimento global caísse para 2,5% neste ano. O efeito protetor dessas medidas está diminuindo à medida que o conflito continua.
Energia e retorno da IA são os principais riscos
A projeção central do FMI pressupõe que o Estreito de Ormuz reabra em março de 2027 e que as condições de navegação voltem, em linhas gerais, ao patamar anterior à guerra até outubro de 2027. A projeção considera preços médios do petróleo de US$ 96 por barril em 2026 e US$ 87 em 2027. Essas são premissas para as previsões, não datas ou preços confirmados.
As reservas globais de petróleo estão sendo reduzidas em cerca de 2,7 milhões de barris por dia. Em um cenário adverso, no qual o agravamento da guerra mantenha o petróleo a US$ 130 por barril até o primeiro trimestre de 2027, o FMI estima que o crescimento cairia 0,2 ponto percentual em 2026 e 0,5 ponto percentual em 2027. A inflação global no próximo ano subiria para 5,2%, ante a previsão central de 4,1%.
A IA traz um risco à parte. Os gastos com chips, centros de dados e capacidade de geração de energia estão ocorrendo antes que ganhos amplos de produtividade tenham sido demonstrados. Se as receitas e os avanços de eficiência decepcionarem, os investimentos e os preços dos ativos podem cair ao mesmo tempo.
Em um dos cenários do FMI, que combina ganhos decepcionantes com a IA e estresse nos mercados financeiros, as ações americanas caem 20% e a produção global fica 1,1% abaixo da projeção de referência até 2028. A produção asiática pode cair até 1,7%. Em um cenário mais restrito, de retração dos investimentos, o PIB asiático ficaria cerca de 0,5% abaixo da projeção de referência até 2029.
Esses cenários usam premissas diferentes e não devem ser somados. Eles descrevem possíveis desvios em relação à projeção central do FMI, não previsões de que essas perdas ocorrerão. Por outro lado, uma adoção e um investimento mais rápidos em IA poderiam elevar o PIB global em mais 0,6% até 2029, com grande parte do benefício destinada aos Estados Unidos e à China.
Transformar o boom dos chips em crescimento mais amplo
Masha pediu que Taiwan use as receitas adicionais do governo e outros recursos gerados pela expansão para desenvolver setores além da tecnologia. Eric LeCompte, diretor-executivo da Jubilee USA Network, uma organização sem fins lucrativos que defende o alívio da dívida de países em desenvolvimento, fez um apelo semelhante em relação ao emprego e aos riscos econômicos.
LeCompte disse que a diversificação ajudaria Taiwan a se proteger contra um otimismo excessivo em relação à IA:
Acho que, se o governo de Taiwan realmente quiser se proteger dos riscos ou se preocupar menos com eles, o mais importante é diversificar o crescimento da economia e também o setor de empregos,
O Conselho Nacional de Desenvolvimento de Taiwan disse que a revisão do FMI reconheceu o impulso econômico do território. O órgão pretende dar continuidade às iniciativas chamadas de Dez Novos Projetos de Infraestrutura de IA e Treze Setores Estratégicos Centrais, usando a adoção da IA, financiamento, desenvolvimento de talentos, mudanças regulatórias e expansão internacional para levar a atividade para além da fabricação de chips.
Os relatos não especificam prazos de implementação, orçamentos nem resultados mensurados dessas iniciativas. A distinção é importante: planos do governo para ampliar a distribuição dos benefícios ainda não provam que a expansão alcançou todos os setores.
Para Taiwan, o principal desafio de política econômica é converter a demanda excepcional por exportações em fontes mais diversificadas de renda e emprego. A previsão mostra uma vantagem imediata na cadeia global de suprimentos de IA, enquanto a desaceleração projetada e os cenários de risco explicam por que depender apenas dessa vantagem deixaria a economia exposta.
Principais pontos
- O FMI elevou de 5,2% para 10,7% a previsão de crescimento do PIB real de Taiwan em 2026, a maior taxa projetada na região Ásia-Pacífico.
- A estimativa continua abaixo da previsão oficial de 11,05% feita por Taiwan em agosto.
- Taiwan e Coreia do Sul respondem por 62% do comércio líquido global de equipamentos de computação para IA.
- O superávit em conta corrente de Taiwan está projetado em 22,0% do PIB, a inflação em 2,0% e o desemprego em 3,4% em 2026.
- O FMI espera que o crescimento de Taiwan desacelere para 4,3% em 2027.
- Relatos que projetam crescimento de 22,3% para a Guiana e de 10,5% para o Sudão do Sul contradizem as afirmações de que Taiwan é a única economia com previsão de crescimento superior a 10%.
- Economistas defendem um desenvolvimento industrial mais amplo diante dos riscos que as interrupções no fornecimento de energia e os retornos decepcionantes da IA representam para a perspectiva econômica.






