Daca busca proteção contra os períodos mais secos
Bangladesh quer um novo tratado sobre as águas do Ganges com a Índia, ou uma revisão do acordo atual, antes que ele expire em 12 de dezembro de 2026. O país também quer uma salvaguarda para impedir que sua parcela despenque quando a vazão do rio diminuir. A principal reivindicação é restabelecer uma cláusula do acordo de 1977 que garantia pelo menos 80% da parcela prevista para Bangladesh em períodos de vazão excepcionalmente baixa.
Conteúdo
- Daca busca proteção contra os períodos mais secos
- Dois tipos diferentes de garantia de água
- Como funciona a fórmula atual de alocação
- O que mostram duas décadas de medições
- Os acordos que levaram ao prazo atual
- As negociações continuam, mas os termos não foram definidos
- Bihar apresenta suas próprias demandas por água
- Proposta envolvendo Nepal coloca a saúde dos rios em foco
- Outros rios compartilhados continuam sem acordo
- Principais pontos
As negociações dizem respeito à água liberada na Barragem de Farakka, em Bengala Ocidental, durante a estação seca, de 1º de janeiro a 31 de maio. O tratado atual, assinado em 12 de dezembro de 1996 pelo primeiro-ministro indiano H. D. Deve Gowda e pela primeira-ministra de Bangladesh Sheikh Hasina, tem duração de 30 anos. Bangladesh e Índia compartilham 54 rios, mas o Ganges é o único contemplado por um acordo bilateral de divisão das águas.
O ministro dos Recursos Hídricos, Shahiduddin Chowdhury Anee, afirmou que Daca quer mudanças substanciais, e não uma simples prorrogação. Após um seminário sobre governança da água em outubro, ele apontou a salvaguarda anterior como a principal prioridade do governo nas negociações.
"Nossa principal prioridade será restabelecer a cláusula de garantia incluída no acordo de 1977", afirmou.
O que está em jogo vai além da redação de um tratado. Estudos em Bangladesh estimam que quase um terço dos 170 milhões de habitantes do país depende do sistema fluvial para seu sustento, a biodiversidade e o abastecimento de água. Isso representa cerca de 57 milhões de pessoas, com base no número de habitantes citado nos estudos.
Os negociadores também enfrentam demandas conflitantes dentro da Índia, propostas de envolver o Nepal e evidências de que a fórmula atual de divisão pode causar grandes oscilações justamente nos meses em que a água é mais necessária.
Dois tipos diferentes de garantia de água
A expressão cláusula de garantia precisa ser explicada com cuidado, pois o tratado de 1996 já prevê uma alocação mínima alternada. Isso é diferente da proteção que Bangladesh quer restabelecer agora.
Nos termos do acordo de 1977, Bangladesh tinha assegurado pelo menos 80% da parcela prevista quando a vazão em Farakka se tornasse excepcionalmente baixa. A salvaguarda estava vinculada à parcela prevista para Bangladesh, e não a um volume fixo alternado entre os dois países. O acordo durou cinco anos e expirou em 1982.
Já o tratado de 1996 garante a cada país 35 mil pés cúbicos por segundo em períodos alternados entre 11 de março e 10 de maio. Um pé cúbico por segundo, ou cusec, corresponde à vazão de um pé cúbico de água por segundo. Uma alocação de 35 mil cusecs equivale a aproximadamente 991 metros cúbicos por segundo.
Essa distinção explica por que autoridades podem dizer que o tratado atual não tem uma garantia, enquanto uma análise acadêmica descreve alocações garantidas em seu texto. A proteção que falta é a salvaguarda mais ampla de 80% contra a escassez, e não a disposição que alterna os 35 mil cusecs.
Uma autoridade mencionou ainda outra proteção prevista no Artigo III do acordo de 1977: a água liberada em Farakka para Bangladesh não deveria ser reduzida no trecho entre os dois países, exceto por usos razoáveis da Índia, limitados a 200 cusecs, antes que ambas as margens do Ganges fiquem dentro de Bangladesh. Isso trata de uma questão distinta: a diferença entre a água liberada a montante e a que chega ao país a jusante.
A análise acadêmica também aponta que o tratado de 1996 permite a Bangladesh receber pelo menos 90% da vazão prevista durante um processo de revisão, caso não haja acordo sobre os ajustes necessários. Essa disposição condicional de revisão não deve ser confundida com a garantia anterior para períodos de vazão excepcionalmente baixa.
Como funciona a fórmula atual de alocação
O tratado de 1996 divide a estação seca em 15 períodos de alocação, geralmente descritos como ciclos de 10 dias. A fórmula distribui a vazão disponível em Farakka, enquanto um cronograma indicativo serve de referência com base em medições históricas do rio.
Quando a vazão fica abaixo de 70 mil cusecs, a fórmula básica prevê partes iguais. Entre 70 mil e 75 mil cusecs, Bangladesh recebe 35 mil cusecs e a Índia fica com o restante. A garantia alternada de 35 mil cusecs entre 11 de março e 10 de maio é uma condição adicional que afeta essas alocações.
O Artigo II exige consultas imediatas se a vazão em Farakka cair abaixo de 50 mil cusecs em qualquer período de alocação. Os governos devem então buscar ajustes emergenciais com base na equidade, na justiça e na prevenção de prejuízos para qualquer uma das partes. As consultas, porém, não estabelecem por si só o mínimo de 80% que Bangladesh reivindica.
Os cálculos ilustram a dificuldade. Com uma vazão total de 50 mil cusecs, destinar 35 mil a um país deixa apenas 15 mil para o outro antes de qualquer ajuste negociado. Trata-se de um exemplo da pressão que a fórmula sofre em períodos de escassez, não de uma afirmação sobre uma alocação específica registrada.
O que mostram duas décadas de medições
Um estudo publicado na revista Water Policy, a análise da divisão das águas do Ganges, examinou medições de 1997 a 2016 e concluiu que Bangladesh não recebeu sua parcela garantida em 65% das observações durante períodos críticos de seca. O resultado diz respeito aos períodos definidos pelo estudo e à série histórica analisada, não a todas as alocações ao longo do ano nem às condições de 2026.
A análise utilizou medições do rio em Farakka e na Ponte Hardinge, em Bangladesh, registros de divisão das águas da Organização de Planejamento dos Recursos Hídricos e da Comissão Conjunta dos Rios de Bangladesh, além de dados de chuva de 14 subdivisões meteorológicas indianas na bacia.
O estudo registrou desvios consideráveis em relação às alocações indicativas. Entre 21 e 31 de março de 2010, Bangladesh recebeu 474 metros cúbicos por segundo, ante uma previsão indicativa de 841, uma diferença de cerca de 44%. No mesmo período de 2016, recebeu 442 metros cúbicos por segundo, aproximadamente 47% abaixo desse parâmetro.
Os pesquisadores também constataram que, em média, a disponibilidade de água após o tratado correspondia, em linhas gerais, ao cronograma indicativo, mas anos de seca específicos produziram repetidamente vazões muito menores. Uma média pode descrever as condições de muitos anos e, ao mesmo tempo, ocultar a escassez nas semanas em que agricultores e outros usuários mais precisam de água.
A recomendação do estudo difere da atual reivindicação política de Daca. Os pesquisadores argumentam que a alocação fixa alternada de 991 metros cúbicos por segundo contribui para fortes oscilações na parcela de cada país e recomendam eliminar essa condição. Os ministros de Bangladesh querem restabelecer a salvaguarda proporcional anterior. São propostas diferentes, que tratam de fragilidades distintas, e não uma única solução acordada.
Os pesquisadores recomendam aprimorar as observações e a modelagem para estimar a disponibilidade futura confiável. As conclusões sugerem que alterar uma garantia sem revisar as premissas sobre a água disponível pode deixar a escassez recorrente sem solução.
Os acordos que levaram ao prazo atual
As negociações atuais são resultado de décadas de acordos temporários, lacunas de cobertura e tentativas de administrar os efeitos de Farakka. A barragem entrou em operação em 1975, desviando água do Ganges para o Hooghly a fim de remover sedimentos e manter a navegabilidade do porto de Calcutá.
As principais etapas das negociações sobre a divisão das águas foram:
- 1975: Bangladesh e Índia firmaram um acordo temporário de alocação, válido por 41 dias.
- 1976: Bangladesh levou a questão de Farakka à Assembleia Geral das Nações Unidas.
- Novembro de 1977: Os países assinaram um acordo de cinco anos que incluía a salvaguarda de 80%.
- 1982: O acordo de 1977 expirou e foi seguido por memorandos que não incluíam essa salvaguarda.
- 1989 a 1996: A análise acadêmica identifica um período sem um mecanismo operacional de divisão.
- 12 de dezembro de 1996: Os governos assinaram o tratado atual, com duração de 30 anos.
- 12 de dezembro de 2026: O tratado atual deve expirar.
Os relatos divergem quanto às datas dos memorandos intermediários. Uma análise jurídica identifica acordos em 1982 e 1985, enquanto a análise acadêmica descreve entendimentos entre 1983 e 1988. Ambas concordam no ponto central para as negociações atuais: a salvaguarda mínima de 1977 foi eliminada.
Os acordos também adotaram métodos diferentes para estimar a disponibilidade de água. O cronograma de 1977 se baseava nas vazões registradas de 1948 a 1973 e em um padrão de disponibilidade concebido para refletir um abastecimento de água relativamente confiável. O cronograma indicativo de 1996 usou as vazões médias de 1949 a 1988, combinando anos anteriores e posteriores à entrada em operação de Farakka.
Essa diferença importa porque um cronograma baseado em condições médias não necessariamente protege nenhum dos países em um ano particularmente seco. A análise acadêmica aponta as projeções de vazão e as regras de alocação como fatores que contribuem para a escassez recorrente.
As negociações continuam, mas os termos não foram definidos
O ministro de Estado das Relações Exteriores, Humaiun Kobir, afirmou que a comissão de negociação de Bangladesh estava pronta e aguardava uma resposta final da Índia. Segundo ele, os interesses nacionais e a segurança orientariam a escolha entre renovar o tratado e substituí-lo.
"Nossa comissão está pronta. Estamos apenas aguardando a resposta final de nossos interlocutores indianos. Então, sim, estamos esperançosos", afirmou.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Índia, Randhir Jaiswal, disse que o tratado do Ganges e outras questões relativas a rios compartilhados seriam discutidos por meio da Comissão Conjunta dos Rios. As reuniões técnicas sobre o tratado continuam. Anee também demonstrou otimismo quanto à possibilidade de concluir um acordo antes de 12 de dezembro.
O Artigo VII do tratado atual estabelece um processo escalonado para a resolução de divergências: elas são encaminhadas primeiro ao Comitê Conjunto, depois à Comissão Conjunta dos Rios e, por fim, aos dois governos para discussões urgentes. O texto não prevê arbitragem. Uma análise jurídica recomenda recorrer ao procedimento de revisão do Artigo X para buscar tanto uma salvaguarda mínima quanto a arbitragem, mas nenhuma dessas mudanças foi anunciada como resultado acordado das negociações.
O professor Shahab Enam Khan, diretor-executivo do Centro de Bangladesh para Assuntos Indo-Pacíficos, defende a revisão do tratado e o fortalecimento da comissão. Ele também pede compartilhamento de dados transparente e responsável e negociações orientadas por engenharia, ciência e economia, além da diplomacia.
Foi noticiado que uma possível visita do primeiro-ministro de Bangladesh, Tarique Rahman, à Índia poderia abrir caminho para a assinatura de um acordo com o primeiro-ministro Narendra Modi, caso haja consenso. Não há confirmação de visita nem de data para a assinatura. O prazo definido continua sendo 12 de dezembro.
Bihar apresenta suas próprias demandas por água
Na Índia, o partido Janata Dal (United) exigiu garantias para as futuras necessidades de água de Bihar antes de qualquer renovação. Seu presidente em exercício, Sanjay Kumar Jha, afirma que o estado precisa de água do Ganges para a indústria, o abastecimento de água potável e a irrigação até 2050.
Jha disse que Bangladesh recebe cerca de 1.500 metros cúbicos por segundo, ou 53 mil cusecs, entre janeiro e maio, dos quais aproximadamente 1.100 metros cúbicos por segundo vêm de Bihar. Segundo seus números, a contribuição de Bihar representaria cerca de 73% dessa vazão.
Esses números são a avaliação apresentada por Jha, não uma alocação fixa estabelecida pelo tratado. Eles não devem ser considerados diretamente equivalentes ao mínimo alternado de 35 mil cusecs nem às medições do estudo acadêmico para períodos específicos de seca. Referem-se a quantidades e intervalos de tempo diferentes.
A campanha Nitish Dialogue, do JD(U), está prevista para 12 distritos ao longo do Ganges. O partido afirma que os interesses de Bihar foram negligenciados quando o tratado foi assinado e defende que sua renovação aguarde até que as necessidades do estado estejam garantidas.
A campanha também se baseia em preocupações com os efeitos de Farakka a montante. Uma reunião organizada pelo governo de Bihar em 2016 discutiu o acúmulo de sedimentos, as inundações e o desequilíbrio ecológico. A Declaração de Patna recomendou uma política nacional de remoção de lodo. Essas preocupações ampliam o debate interno na Índia para além da quantidade de água que cruza a fronteira.
Proposta envolvendo Nepal coloca a saúde dos rios em foco
Manjur A. Chowdhury, ex-presidente da Comissão Nacional de Conservação dos Rios de Bangladesh, propõe substituir o tratado atual por um acordo provisório de três anos e, em seguida, negociar um entendimento mais bem embasado, com a participação do Nepal.
Em declarações de 6 de outubro de 2026, Chowdhury argumentou que o tratado atual não leva suficientemente em conta as vazões ecológicas e as mudanças climáticas. Vazão ecológica é a quantidade de água necessária para manter os habitats e as funções naturais de um rio, em vez de tratar toda a água disponível como um recurso a ser dividido entre os usuários.
Ele apontou os rios Ghaghara, Gandaki e Koshi como cursos pelos quais o derretimento da neve do Himalaia no Nepal contribui para o Ganges, especialmente nos meses de estiagem. Sua proposta incluiria essas contribuições de áreas a montante em uma estrutura mais ampla de monitoramento e planejamento.
Segundo relatos, a Índia prefere acordos bilaterais separados a um tratado regional conjunto. O país já tem mecanismos de cooperação hídrica com o Nepal, por meio do Tratado de Mahakali e dos acordos dos rios Kosi e Gandak. Não foi anunciada nenhuma decisão de incluir o Nepal nas negociações sobre o Ganges.
A análise acadêmica apresenta outro motivo para examinar o rio entre os pontos de medição. Antes de Farakka, a vazão média na estação seca na Ponte Hardinge era cerca de 16% maior do que em Farakka, refletindo a entrada de afluentes, uma área de drenagem maior, chuvas e contribuições de águas subterrâneas. Essa diferença caiu para cerca de 9% após a construção da barragem e para 8% depois do tratado.
Essas medições, por si só, não identificam todas as causas da mudança. Elas mostram por que os negociadores precisam distinguir a água disponível em Farakka, a água liberada no local e a água medida mais a jusante. Um único número de alocação não descreve as três coisas.
Outros rios compartilhados continuam sem acordo
O prazo para o Ganges se soma às preocupações não resolvidas em torno do Teesta, que Anee descreveu como especialmente importante para o norte de Bangladesh. Seu regime sazonal provoca escassez de água nos meses secos e erosão e inundações durante as monções.
Anee afirmou que estudos de viabilidade e assistência técnica para o projeto do Teesta estavam em andamento. Essas iniciativas dizem respeito à gestão do rio e não significam que tenha sido firmado um acordo bilateral para dividir as águas do Teesta. O Ganges continua sendo o único dos 54 rios compartilhados coberto por um acordo desse tipo.
Bangladesh aderiu à Convenção da ONU sobre a Água, enquanto o Plano Delta 2100 e iniciativas nacionais de gestão dos rios oferecem estruturas mais amplas de planejamento. Kobir afirmou que o direito internacional estava sendo considerado nas discussões sobre a divisão das águas e defendeu parcerias internacionais, transferência de tecnologia e cooperação científica. Participar de uma estrutura internacional não determina, por si só, a alocação em Farakka.
O ministro das Relações Exteriores, Dr. Khalilur, afirmou que um tratado novo ou revisado deve atender às necessidades essenciais da população e apoiar as relações entre os países pelos próximos 25 a 50 anos. Seu apelo por um acordo duradouro contrasta com a proposta de Chowdhury de um entendimento provisório de três anos, embora ambos busquem uma base melhor para a cooperação futura.
As questões imediatas ainda sem resposta são concretas: se o acordo será revisado ou substituído, qual proteção valerá em períodos de escassez, como serão calculadas as vazões confiáveis e como as divergências serão resolvidas. Não há texto final anunciado, nível de garantia acordado nem data de assinatura confirmada. A reivindicação de Bangladesh está definida; a aceitação pela Índia, não.
Principais pontos
- O Tratado de 1996 sobre a divisão das águas do Ganges expira em 12 de dezembro de 2026.
- Bangladesh quer restabelecer a salvaguarda de 1977, que protegia pelo menos 80% de sua parcela prevista em períodos de vazão excepcionalmente baixa.
- A alocação alternada de 35 mil cusecs prevista no tratado atual é um tipo diferente de garantia.
- Um estudo sobre o período de 1997 a 2016 constatou que Bangladesh não recebeu sua parcela garantida em 65% das observações referentes a períodos críticos de seca.
- As negociações técnicas continuam por meio de mecanismos bilaterais, mas nenhum acordo final foi anunciado.
- As demandas de Bihar por água, a saúde dos rios e a proposta de envolver o Nepal acrescentam outras questões às negociações.
- O Ganges continua sendo o único dos 54 rios compartilhados coberto por um acordo bilateral de divisão das águas.






