Sete instituições financeiras sofreram violações enquanto investigação se amplia
A polícia sul-coreana ampliou a investigação sobre uma campanha de ataques cibernéticos ao setor financeiro que teria exposto informações de cerca de 66 mil pessoas e 2,2 mil registros corporativos. Os investigadores suspeitam que os invasores usaram o ARTEX, uma ferramenta de inteligência artificial desenvolvida para testes de segurança, enquanto seu criador anunciou o fim da distribuição pública e das atualizações.
Conteúdo
- Sete instituições financeiras sofreram violações enquanto investigação se amplia
- Como a campanha e a resposta se desenrolaram
- O que o ARTEX faz e o que os investigadores descobriram
- O auxílio da IA não significa um invasor independente
- Indícios que apontam para a China seguem contestados
- Conta do Telegram abre outra frente de investigação
- Fim do desenvolvimento público do ARTEX não elimina cópias existentes
- Sistemas periféricos e uma revisão de segurança mais ampla
- Proteções contra fraudes e decisões ainda pendentes
- Principais pontos
A força-tarefa policial passou de 28 para 43 investigadores, com 15 profissionais adicionais designados para perícia digital e cooperação internacional. As principais questões continuam sem resposta: quem realizou os ataques, quantas pessoas participaram e como, exatamente, a IA contribuiu para o roubo.
Sete instituições comunicaram violações: Shinhan Bank, KB Kookmin Bank, Hana Bank, BNK Busan Bank, Yegaram Savings Bank, Welcome Savings Bank e Hyundai Capital. O NH NongHyup Bank e o Woori Bank também teriam sido alvos, mas nenhum dos dois confirmou vazamento de dados. Essa distinção ajuda a explicar por que alguns relatos mencionam sete instituições violadas, enquanto outros apontam pelo menos nove alvos.
O Shinhan informou que dados de 25.729 clientes foram roubados, incluindo nomes, números de telefone e informações de renda fornecidas em pedidos de empréstimo. O Yegaram relatou cerca de 40 mil clientes afetados. Juntos, esses dois números somam 65.729, quase o total de cerca de 66 mil pessoas divulgado. O Hana informou que 89 clientes foram afetados, enquanto o KB Kookmin relatou 119.
Os relatos divergem sobre a exposição total. Um deles estima até 68 mil clientes, enquanto outro separa cerca de 66 mil pessoas de 2,2 mil registros corporativos. Essas categorias não podem ser somadas automaticamente para determinar o número de vítimas individuais. As autoridades não divulgaram um total consolidado que estabeleça quantas pessoas distintas foram afetadas em todas as instituições.
Os dados expostos variam de um banco para outro. O Hana afirmou que nomes, números de identificação pessoal e números de telefone foram roubados, mas não informações financeiras. Em toda a campanha, os registros expostos teriam incluído renda anual, limites de empréstimo e produtos de crédito. O roubo desses dados não equivale ao roubo de depósitos, embora possa fornecer material para tentativas convincentes de fraude por falsidade ideológica.
Como a campanha e a resposta se desenrolaram
As autoridades acreditam que os principais ataques ocorreram aproximadamente entre 27 de setembro e 1º de outubro. O Shinhan teria sido invadido em 30 de setembro e divulgou a violação em 1º de outubro. Descobertas posteriores sobre segurança e a retirada do ARTEX do desenvolvimento público ampliaram a investigação para além dos comunicados iniciais dos bancos.
- Julho: O ARTEX foi disponibilizado gratuitamente no GitHub.
- Setembro: A ferramenta venceu o desafio de ataque e defesa Agent+ do Baidu.
- De 27 de setembro a 1º de outubro: Os investigadores situam nesse período aproximado a campanha suspeita de ataques ao setor financeiro.
- 30 de setembro: As autoridades acreditam que ocorreu a violação do Shinhan.
- 1º de outubro: O Shinhan divulgou publicamente o roubo de informações de clientes.
- 8 de outubro: O desenvolvedor Autumn-27 anunciou que o ARTEX deixaria de receber atualizações públicas e passaria a um formato privado. Uma conta do Telegram sob investigação também foi excluída nesse dia.
- 11 de outubro: Novas descobertas apontaram possíveis ligações entre essa conta e um grupo chinês que vende ataques capazes de sobrecarregar serviços on-line.
A mobilização inicial da polícia reuniu 28 investigadores em quatro equipes da Unidade de Investigação de Ciberterrorismo da Agência Nacional de Polícia. A ampliação posterior para 43 representa um aumento de cerca de 54%, com os profissionais adicionais concentrados na recuperação de provas digitais e na cooperação internacional.
O que o ARTEX faz e o que os investigadores descobriram
O ARTEX não é, por si só, um modelo de linguagem de grande porte. É uma plataforma de automação que se conecta a modelos externos, incluindo ChatGPT, Claude e DeepSeek, e usa as respostas deles para coordenar tarefas de testes de segurança. Um teste de intrusão é uma tentativa autorizada de encontrar falhas antes que um invasor mal-intencionado as explore.
A ferramenta foi criada pelo engenheiro chinês de cibersegurança Li Puhua, que usa o pseudônimo Autumn e o nome de usuário Autumn-27 no GitHub. Seu projeto permite que agentes de IA coletem informações sobre alvos, procurem vulnerabilidades, planejem caminhos de acesso a sistemas, executem ferramentas de segurança e verifiquem falhas. Essa mesma sequência pode ser usada em testes legítimos ou em uma invasão não autorizada, dependendo de quem a direciona e da existência de permissão.
Moon Jong-hyun, chefe do centro de segurança da empresa sul-coreana de cibersegurança Genians, identificou nos cabeçalhos HTML de servidores que, acredita-se, controlaram os ataques, uma identificação de console do ARTEX. O rótulo dizia "ARTEX - 自主渗透测试控制台", identificando um console autônomo de testes de intrusão. Esses vestígios sustentam a avaliação de que o software estava presente, mas não identificam quem o operava.
A CrowdStrike avaliou que o invasor provavelmente usou o ARTEX com o Claude e o Claude Code, da Anthropic. Outros relatos da investigação descrevem o uso de vários modelos, incluindo o DeepSeek, junto com o ARTEX. Esses relatos apontam para uma combinação de ferramentas, e não para um único sistema de IA atuando sozinho; ainda não foi estabelecido um quadro completo de quais modelos realizaram cada tarefa.
O auxílio da IA não significa um invasor independente
A diferença entre automação e responsabilidade humana é central para o caso. A IA pode reduzir o tempo necessário para inspecionar sistemas, interpretar resultados e preparar código, enquanto uma pessoa ainda escolhe os alvos e conduz a operação. A existência de provas do uso de IA não demonstra que toda a invasão ocorreu sem decisões humanas.
Um representante do Instituto de Segurança Financeira da Coreia descreveu o papel da orientação humana nos ataques:
É verdade que a IA foi usada nos ataques, mas não agiu de forma independente, sem envolvimento humano. Um hacker usou a IA como ferramenta.
A CrowdStrike afirmou que registros de sessões de IA incluíam perguntas sobre onde dados coreanos roubados em invasões costumam ser vendidos e pedidos de ajuda para encontrar grupos coreanos no Telegram usados para a venda de dados. Esses pedidos contribuíram para a avaliação de que a atividade tinha motivação financeira. Por si só, porém, não comprovam que os registros roubados tenham sido efetivamente vendidos.
Kim Seung-joo, professor da Escola de Cibersegurança da Universidade da Coreia, alertou que ferramentas como o ARTEX poderiam facilitar ataques para pessoas com menos experiência técnica:
Ferramentas de hacking com IA continuarão surgindo, facilitando a realização de ataques por pessoas sem conhecimentos especializados. Como resultado, esses ataques se tornarão mais frequentes.
A preocupação prática está na velocidade e na escala. Um operador pode usar agentes para inspecionar várias organizações em sequência, em vez de realizar manualmente cada tarefa. Isso não elimina a necessidade de falhas exploráveis, meios de acesso ou discernimento humano, mas pode reduzir o esforço necessário para explorá-los.
Indícios que apontam para a China seguem contestados
A CrowdStrike avaliou que o provável operador falava chinês, tinha motivação financeira e estava na província de Guangdong. A empresa atribuiu confiança moderada à avaliação, sem apresentá-la como uma conclusão definitiva.
Parte da identificação se baseou em uma sessão do Claude em que foi solicitado um currículo de pesquisador de segurança. A sessão incluía idade de 26 anos, localização em Maoming, dados sobre formação acadêmica e uma conta do Telegram. A CrowdStrike considerou provável que essas informações pertencessem ao invasor. A pessoa associada ao número de telefone divulgado negou envolvimento e afirmou que seus dados pessoais foram usados sem autorização.
O Serviço de Supervisão Financeira identificou 28 endereços IP ligados a tentativas de invasão. Os relatos divergem sobre a distribuição geográfica: um menciona cerca de uma dúzia de países, enquanto outro lista Estados Unidos, Japão, Alemanha e pelo menos outros dez países. Os investigadores também teriam identificado servidores de controle em Hong Kong, servidores de ataque separados e rotas alternativas de acesso.
Um endereço IP identifica uma conexão à internet ou a localização de um servidor, mas não necessariamente a pessoa que o controla. Da mesma forma, usar um software criado por um desenvolvedor chinês não prova que o invasor seja chinês. Aditya Das, analista da Brave New Coin, alertou contra tirar essa conclusão com base apenas no ARTEX.
A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, afirmou que o ministério não conhecia o caso específico e que a China se opõe e combate consistentemente as atividades de hacking. Não foi anunciada nenhuma identidade confirmada nem conclusão sobre envolvimento estatal.
Conta do Telegram abre outra frente de investigação
Uma análise de segurança separada associou a conta do Telegram YY520CN ao GodNet, uma comunidade on-line criada por Vitas, um grupo chinês que vende ataques distribuídos de negação de serviço. Esses ataques inundam um serviço com tráfego para torná-lo indisponível. Essa atividade é diferente do roubo de registros bancários; portanto, uma ligação com a comunidade é uma pista de investigação, não uma prova de que o grupo realizou as invasões.
A conta apareceu em uma lista de moderadores do GodNet em setembro de 2024. A análise cruzou informações sobre integrantes do Telegram, atividades no GitHub e credenciais expostas por um malware que rouba senhas. A YY520CN foi excluída em 8 de outubro, depois que seu nome veio a público por meio de uma análise de registros de uso de IA em um servidor ligado aos ataques.
Uma nova conta apareceu depois com o mesmo nome de usuário, e um canal associado publicou uma negativa. Não está claro se a mesma pessoa controlava as contas original e substituta. A negativa do proprietário do número de telefone cria outro problema de identificação que os investigadores ainda não resolveram.
A análise de um segundo integrante do GodNet encontrou, no histórico de edições do GitHub, um endereço de e-mail ligado a credenciais roubadas em 2023. Esses registros incluíam dados de acesso às nuvens da Microsoft e da Oracle, o que sugere que o titular da conta talvez tenha ajudado a operar os sistemas técnicos do grupo.
O segundo integrante não foi ligado diretamente às invasões dos bancos. Comparar credenciais roubadas com registros de assinantes de serviços em nuvem poderia abrir outro caminho para identificar os operadores das contas, mas essas conexões não estabelecem quem cometeu o roubo nem se houve um único responsável.
Fim do desenvolvimento público do ARTEX não elimina cópias existentes
Em 8 de outubro, Autumn-27 anunciou que o ARTEX se tornaria um software de código fechado, sem novas versões públicas nem suporte de manutenção. O desenvolvedor citou o uso indevido da ferramenta, embora o anúncio não tenha mencionado diretamente os ataques ao setor financeiro sul-coreano. Posteriormente, foi noticiado que a página do projeto no GitHub havia desaparecido.
O desenvolvedor também afirmou que o uso ilegal contrariava o objetivo pretendido do projeto e se eximiu de responsabilidade por violações cometidas pelos usuários. Antes de ser retirado do ar, o projeto descrevia seu propósito como aprendizado pessoal, pesquisa de código e verificação técnica local, e não como testes de sistemas on-line sem autorização.
O fim da distribuição pública restringe o acesso futuro por meio do projeto original e encerra sua manutenção pública. Isso não apaga as cópias que os usuários já baixaram nem impede que continuem funcionando. O anúncio representa, portanto, uma mudança na distribuição do software, não uma prova de que a capacidade de ataque tenha desaparecido.
A decisão também mantém a distinção entre o desenvolvedor original e quem supostamente usou o software contra os bancos. Os investigadores ainda precisam vincular infraestrutura, contas e ações a operadores identificáveis. A origem da ferramenta e a retirada do desenvolvedor não resolvem essa tarefa.
Sistemas periféricos e uma revisão de segurança mais ampla
As possíveis rotas de acesso apontam para além das redes bancárias centrais. A autenticação fraca em portais de recrutadores de empréstimos, ferramentas móveis para funcionários e sistemas de apoio às vendas foi identificada como um possível problema. Proteger os sistemas de pagamento não significa necessariamente proteger todos os aplicativos que armazenam dados de clientes ou dão suporte ao processamento de empréstimos.
Hyobin Lee, professor da Universidade Sogang, apontou os sistemas auxiliares como uma área que recebe menos atenção:
Alguns sistemas auxiliares, como portais de informações para agentes de empréstimos e aplicativos móveis internos usados por funcionários, parecem ter recebido menos atenção em termos de segurança.
O gerenciamento contínuo da superfície de ataque é uma das respostas propostas. Isso significa manter um inventário dos sistemas acessíveis de fora da organização e verificá-los em busca de serviços expostos, controles de acesso frágeis e vulnerabilidades. A IA pode ajudar nesse trabalho, mas a resposta também exige corrigir as falhas encontradas.
O presidente Lee Jae Myung pediu o desenvolvimento e a implantação mais rápidos de IA para a cibersegurança, uma revisão imediata dos sistemas críticos e proteção reforçada para a infraestrutura nacional. Ao descrever a urgência da resposta, Lee afirmou:
A rapidez é fundamental.
Os relatos divergem sobre quem fez os alertas no Gabinete. Alguns identificam o presidente Lee como o responsável por pedir uma reformulação da segurança com IA; outro atribui ao primeiro-ministro Han Seong-sook os alertas sobre novos vazamentos e riscos para além do setor financeiro. A orientação política relatada é consistente: ampliar as verificações e agir antes de outro incidente, em vez de se limitar a reparar os danos depois.
Duas grandes igrejas e a Korea Electric Power Corp. também confirmaram acessos não autorizados a sistemas on-line. Não se sabe se esses incidentes estavam ligados à campanha contra os bancos. A divulgação amplia a preocupação imediata com a segurança, mas não comprova a existência de um único invasor ou método comum.
Proteções contra fraudes e decisões ainda pendentes
A Comissão de Serviços Financeiros e o Serviço de Supervisão Financeira afirmaram que não havia casos confirmados de prejuízo financeiro ou dinheiro roubado por golpes de phishing com uso dos dados vazados. As instituições recomendaram que os depositantes não se preocupassem excessivamente com a segurança de seus fundos. Essa declaração se refere às perdas confirmadas naquele momento, não a uma garantia contra fraudes futuras.
Nomes, números de telefone, detalhes de renda e conhecimento de um pedido recente de empréstimo podem ajudar um golpista a se passar por funcionário de um banco. Hyobin Lee também alertou que informações roubadas podem ser combinadas com outros bancos de dados vazados, ampliando o risco para além da violação inicial.
Os órgãos reguladores ordenaram que os bancos criassem centrais de atendimento para os clientes afetados, usassem a plataforma de compartilhamento e análise Anti-Phishing baseada em IA, ampliassem temporariamente o monitoramento de fraudes e oferecessem medidas de reparação e indenização aos clientes vítimas de golpes. O Shinhan pediu desculpas e criou uma página para que os clientes verificassem se foram afetados.
As instituições financeiras concordaram em revisar pedidos de empréstimo on-line, abertura de novas contas e transferências de alto valor que envolvam informações ligadas às vítimas das violações. Verificações adicionais de identidade deverão ser exigidas quando necessário. Os órgãos reguladores também estariam considerando requisitos de auditoria mais rigorosos.
O Serviço de Supervisão Financeira compartilhou os 28 endereços IP suspeitos com as instituições financeiras e pediu que concluíssem as verificações e corrigissem as falhas até a quinta-feira seguinte ao anúncio. Não foram divulgados resultados consolidados dessas verificações, nem identificado outro prazo público com data definida.
A polícia perguntou à Comissão de Serviços Financeiros se os sistemas afetados se enquadram na definição de infraestrutura financeira eletrônica. Essa classificação poderia acionar a obrigação de notificar a recém-criada Agência de Investigação de Crimes Graves e afetar uma eventual transferência do caso. Ainda não foi anunciada uma decisão.
Os próximos desdobramentos relevantes são a identificação dos operadores, a conciliação dos totais de vítimas, a descoberta das rotas de acesso e uma decisão sobre a responsabilidade pela investigação. Nenhum deles pode ser determinado apenas pelas provas de uso do ARTEX.
Principais pontos
- Sete instituições financeiras relataram violações; outras duas teriam sido alvos, sem confirmação de vazamento de dados.
- A exposição relatada inclui cerca de 66 mil pessoas e 2,2 mil registros corporativos, enquanto outro relato estima até 68 mil clientes.
- A força-tarefa policial passou de 28 para 43 investigadores.
- As provas apontam para operadores humanos usando o ARTEX e modelos externos de IA, e não para um sistema de IA atuando de forma independente.
- As alegações sobre a identidade dos envolvidos e possíveis ligações com uma comunidade chinesa de ataques não foram confirmadas e são contestadas.
- O desenvolvedor do ARTEX encerrou as atualizações públicas, mas as cópias já baixadas ainda podem ser usadas.
- Os órgãos reguladores informaram que não havia perdas confirmadas por phishing decorrentes dos dados vazados e ordenaram o reforço do monitoramento e das verificações de identidade.






