Reuniões em Avaza vinculam cotas de água a um alerta regional mais amplo
Autoridades de água da Ásia Central aprovaram limites de retirada dos rios Amu Dária e Syr Dária para a temporada 2026–2027, fora do principal período de cultivo, enquanto o Uzbequistão defendeu medições mais precisas, menos desperdício e diálogo contínuo com o Afeganistão. As decisões foram tomadas na 95ª reunião da Comissão Interestatal para a Coordenação da Água, em Avaza, no Turcomenistão, em 7 de outubro, antes de um apelo presidencial por ação conjunta, no mesmo local, em 8 de outubro de 2026.
Conteúdo
- Reuniões em Avaza vinculam cotas de água a um alerta regional mais amplo
- O que o acordo sazonal abrange
- Por que as medições de Kerki são importantes
- Chardara recebeu mais água do que o previsto
- A contabilização digital avança, mas é preciso cautela ao descrever seu estágio
- Diálogo com o Afeganistão e estimativas divergentes sobre o canal
- Uzbequistão se prepara para presidir o fundo do Mar de Aral
- O teste é a implementação, não outra declaração
- Propostas para o ar limpo coexistem com a expansão industrial
- Próximos marcos
- Pontos principais
A pauta imediata incluía um problema concreto: medições inconsistentes da vazão na estação hidrométrica de Kerki, no Amu Dária. As autoridades também analisaram o relatório do Cazaquistão segundo o qual 3,69 bilhões de metros cúbicos chegaram ao reservatório de Chardara durante a temporada de cultivo de 2026, 840 milhões de metros cúbicos acima da previsão. Esses dados colocaram as medições e a gestão coordenada dos reservatórios no centro de um debate muitas vezes apresentado simplesmente como uma questão de escassez de água.
O presidente do Uzbequistão, Shavkat Mirziyoyev, ao discursar na oitava Reunião Consultiva dos Chefes de Estado da Ásia Central e do Azerbaijão, relacionou a escassez de água ao desenvolvimento econômico. Seu discurso presidencial oficial defendeu o monitoramento digital, a modernização da irrigação e a adoção mais ampla de tecnologias que economizam água.
Mirziyoyev descreveu as pressões que a região enfrenta:
A escassez de água está se tornando uma restrição cada vez mais grave ao desenvolvimento da Ásia Central. O clima está mudando, a população está crescendo e a pressão sobre a agricultura e a infraestrutura está aumentando.
As duas reuniões produziram resultados de tipos diferentes. As autoridades de água aprovaram decisões de gestão sazonal e assinaram um protocolo. O presidente apresentou um programa mais amplo, cujo financiamento, especificações técnicas e datas de implementação não foram detalhados em seu discurso.
O que o acordo sazonal abrange
A comissão de água reuniu representantes do Uzbequistão, do Turcomenistão, do Cazaquistão e do Tadjiquistão, além dos dirigentes das associações de gestão das bacias dos rios Amu Dária e Syr Dária. A delegação uzbeque foi liderada pelo ministro dos Recursos Hídricos, Shavkat Khamraev.
Os participantes analisaram a disponibilidade e o uso da água, além do cumprimento dos limites de retirada durante a temporada de cultivo de 2026. Em seguida, aprovaram limites para o período seguinte e projeções dos cronogramas de operação dos sistemas de reservatórios em cascata, ou seja, reservatórios interligados cujas liberações precisam ser coordenadas ao longo de um rio.
Os limites de retirada determinam quanta água os usuários podem captar do sistema fluvial. Os cronogramas dos reservatórios definem quando a água é armazenada ou liberada. Ambos são importantes porque um volume acordado, por si só, não garante que a água chegue aos usuários no momento em que precisam dela.
Os volumes destinados a cada país não foram divulgados nos relatos sobre o acordo. Isso impede comparar as parcelas nacionais ou avaliar se algum país recebeu uma cota maior ou menor do que antes. As partes concordaram em realizar a 96ª reunião da comissão no Uzbequistão, mas não especificaram uma data.
Por que as medições de Kerki são importantes
Em Kerki, as autoridades examinaram discrepâncias nos registros de vazão, mesmo quando o nível do rio era idêntico. A vazão mede o volume de água que passa por um ponto ao longo do tempo, e não simplesmente a altura da água. Níveis iguais, por si só, não determinam qual deve ser o cálculo correto da vazão.
A comissão instruiu especialistas a investigar as discrepâncias e garantir medições precisas. Os relatos não identificaram a causa, determinaram a dimensão de algum erro nem afirmaram que a vazão tivesse sido informada deliberadamente de forma incorreta.
Isso é importante para a discussão paralela sobre a distribuição proporcional da água entre usuários ao longo dos trechos superior, médio e inferior do Amu Dária. Se os países participantes não confiarem nas medições, não poderão determinar com segurança se a parcela acordada foi entregue. Por isso, as autoridades discutiram a modernização das estações hidrométricas, a troca rápida de informações e consultas quando as condições do rio mudarem.
Chardara recebeu mais água do que o previsto
O Ministério de Recursos Hídricos e Irrigação do Cazaquistão descreveu como estáveis as condições na bacia do Syr Dária durante a temporada de cultivo de 2026. Segundo o ministério, aproximadamente 3,69 bilhões de metros cúbicos chegaram ao reservatório de Chardara, na região cazaque do Turquestão.
Esse volume superou a previsão inicial em 840 milhões de metros cúbicos. Subtraindo-se o excedente, chega-se a uma previsão de aproximadamente 2,85 bilhões de metros cúbicos, o que significa que a entrada efetiva foi cerca de 29,5% maior do que o esperado. A comparação mostra por que as decisões de operação sazonal precisam se basear em observações atualizadas, e não apenas em previsões.
Para o período 2026–2027, fora da principal temporada de cultivo, a entrada de água em Chardara foi projetada em aproximadamente 10 bilhões de metros cúbicos. Trata-se de uma previsão para um período diferente, não de um total anual medido nem de uma garantia de água disponível para retirada.
O resultado favorável da temporada de cultivo em um reservatório não contradiz o alerta de Mirziyoyev sobre a escassez regional. Ele se refere a um local e uma temporada específicos. A preocupação do presidente abrange pressões mais amplas, causadas pelas mudanças climáticas, pelo crescimento populacional, pela demanda agrícola e pelas perdas nas redes de distribuição de água.
A contabilização digital avança, mas é preciso cautela ao descrever seu estágio
A comissão apoiou a continuidade do trabalho de contabilização automatizada da água na bacia do Syr Dária. Sistemas desse tipo podem coletar e transmitir medições eletronicamente, ajudando os países a comparar retiradas e vazões dos rios com mais rapidez. Ainda assim, dependem de instrumentos precisos e de procedimentos de medição acordados.
Os relatos diferem ligeiramente quanto à etapa do planejamento. Um deles descreve um plano de automação aprovado em agosto de 2026 e a continuidade dos trabalhos de implementação na reunião de outubro. Outros relatos dizem que as autoridades aprovaram o processo de elaboração de um plano. Essas descrições demonstram apoio à automação, mas não comprovam que um sistema completo para toda a bacia esteja em operação.
A proposta mais ampla de Mirziyoyev combina monitoramento digital com melhorias físicas nas redes de irrigação e tecnologias que reduzem o consumo de água. Uma contabilização melhor pode mostrar para onde a água vai; consertar a infraestrutura de distribuição e mudar as práticas de irrigação ajuda a reduzir o volume perdido ou consumido. O discurso não apresentou metas numéricas de economia nem cronogramas de obras.
Diálogo com o Afeganistão e estimativas divergentes sobre o canal
Mirziyoyev incluiu o diálogo com o Afeganistão na agenda regional da água. Seu discurso oficial mencionou o Afeganistão, sem citar um canal específico nem prescrever um formato de negociação. O presidente uzbeque afirmou:
Esse diálogo deve ser contínuo e substantivo, levando devidamente em conta os interesses de todos os países da região.
O apelo ocorre enquanto as autoridades talibãs constroem o canal de Qosh Tepa, no norte do Afeganistão, para captar água do Amu Dária. O Uzbequistão defende a participação afegã nos mecanismos regionais de gestão da água e, segundo relatos, ofereceu assistência técnica para reduzir as perdas causadas pelo projeto.
As estimativas publicadas sobre o possível impacto do canal divergem bastante. Um relato aponta uma possível redução de 15% a 20% na vazão do Amu Dária; outro, mais antigo, menciona uma redução potencial de metade. Nenhum deles estabelece um ponto de medição, período ou método de cálculo comum. Portanto, os números devem ser tratados como estimativas divergentes, e não como uma previsão consolidada.
O discurso não anunciou um volume acordado de captação pelo canal, um impacto verificado sobre o abastecimento de água no Uzbequistão e no Turcomenistão nem uma data para o diálogo proposto com o Afeganistão. Essa incerteza torna a troca de informações essencial para as conversas propostas, e não um detalhe a ser tratado depois de um acordo.
A região também tem um exemplo separado de tensões relacionadas à água que se tornaram violentas: confrontos mortais entre o Afeganistão e o Irã, em maio de 2023, por causa da partilha das águas do rio Helmand. Essa disputa envolve outro rio e não significa que um conflito pelo Amu Dária seja inevitável.
Uzbequistão se prepara para presidir o fundo do Mar de Aral
O Uzbequistão assumirá a presidência do Fundo Internacional para Salvar o Mar de Aral em 2027, segundo o discurso de Mirziyoyev em 8 de outubro. Ele prometeu tornar o trabalho do fundo mais eficaz, lançar novos projetos ambientais e ampliar o financiamento, sem especificar projetos nem compromissos financeiros.
O presidente apresentou a próxima função como uma responsabilidade:
A partir do próximo ano, o Uzbequistão assumirá a presidência do Fundo Internacional para Salvar o Mar de Aral. Consideramos essa função uma grande responsabilidade.
A comissão de água também analisou tarefas acordadas em cúpulas dos Estados fundadores do fundo e o trabalho de seu centro científico e de informações e de seus órgãos executivos. Isso vincula a próxima presidência a instituições existentes, em vez de a uma organização recém-anunciada.
Mirziyoyev pediu a implementação integral da Década de Ação Prática para o Uso Racional dos Recursos Hídricos na Ásia Central. Seu discurso não especificou as datas de início e término da iniciativa nem metas mensuráveis de execução.
O teste é a implementação, não outra declaração
A ênfase em resultados práticos responde a uma preocupação expressa em avaliações anteriores da gestão regional da água. Akram Umarov, professor associado da Universidade de Economia Mundial e Diplomacia, em Tashkent, descreveu a distância entre discussão e ação:
A ineficiência no uso da água é dramática, e o desperdício de água é enorme na região.
Umarov acrescentou:
Há muitas conversas, mas não há implementação.
Essas declarações foram feitas em uma avaliação anterior, não em resposta às decisões de outubro de 2026. O novo acordo sazonal demonstra a continuidade da coordenação, mas, por si só, não comprova que as perdas na irrigação tenham diminuído ou que o monitoramento automatizado esteja completo.
Reportagens anteriores também relacionaram a pressão agrícola a novos investimentos no algodão uzbeque, após o fim de um boicote internacional que durou 11 anos. Esse histórico contextualiza o alerta do presidente sobre a demanda agrícola, mas os anúncios de Avaza não foram acompanhados de novos dados sobre área plantada, metas de produção ou estimativas de demanda de água.
A distinção prática está entre regras acordadas e resultados comprovados. Limites aprovados, estações de medição confiáveis, sistemas de contabilização funcionais e reduções verificadas de perdas são etapas distintas. As reuniões de outubro abordaram os quatro pontos, mas divulgaram decisões firmes principalmente sobre os limites sazonais e os cronogramas dos reservatórios.
Propostas para o ar limpo coexistem com a expansão industrial
Mirziyoyev também propôs criar o Consórcio Internacional Ar Limpo da Ásia Central, com um programa-piloto de modernização ambiental para zonas industriais, polos agrícolas e centros de transporte. O discurso apontou esses locais como áreas de carga ambiental especialmente elevada, mas não especificou localidades, poluentes, orçamentos ou data de início.
A proposta vem acompanhada de planos de cooperação industrial mais estreita, apoio a investimentos conjuntos e redes integradas de transporte. O texto oficial do discurso em uzbeque também registra a oferta do Uzbequistão para sediar a primeira reunião de um Conselho para o Desenvolvimento da Infraestrutura proposto.
O presidente propôs coordenar a geração e o armazenamento de energia, além dos corredores energéticos, por meio de um Conceito Conjunto para o Potencial Energético de Baixo Carbono. Também sugeriu uma infraestrutura computacional compartilhada, baseada em centros nacionais de dados interligados, e um atlas regional de profissões e competências em demanda.
Essas propostas ampliam o debate sobre a água: o mesmo discurso defende a expansão da atividade econômica e a redução da pressão ambiental. No entanto, ele não atribui necessidades de água aos projetos industriais propostos nem estabelece condições ambientais para sua aprovação. Essas relações precisarão ser definidas em decisões posteriores de planejamento e investimento.
Próximos marcos
Os acordos de 2026 formam uma sequência de coordenação de reservatórios, planejamento da automação e compromissos políticos mais amplos. As principais datas são:
- Maio de 2026: Tadjiquistão, Uzbequistão e Cazaquistão acordaram o cronograma de operação do reservatório de Bahri Tojik para o período de junho a agosto.
- Agosto de 2026: Uma decisão divulgada apoiou o desenvolvimento da contabilização automatizada da água ao longo do Syr Dária.
- 7 de outubro de 2026: A comissão de água se reuniu em Avaza e aprovou limites sazonais de retirada e cronogramas projetados para os reservatórios.
- 8 de outubro de 2026: Mirziyoyev pediu ação conjunta sobre água, clima e poluição do ar na reunião de líderes.
- Dezembro de 2026: A Conferência da ONU sobre a Água está prevista para Abu Dhabi.
- 2027: O Uzbequistão deverá assumir a presidência do fundo do Mar de Aral.
- Março de 2027: O 11º Fórum Mundial da Água está previsto para Riade.
As autoridades de água discutiram os preparativos para os dois encontros internacionais. A próxima reunião da comissão no Uzbequistão é outro marco esperado, embora sua data ainda não tenha sido especificada.
As questões pendentes são concretas: os volumes destinados a cada país, os resultados da investigação de Kerki, o cronograma de implantação da contabilização automatizada, o financiamento das melhorias na irrigação e os arranjos para a participação afegã. A divulgação desses detalhes permitiria avaliar o progresso para além dos compromissos anunciados em Avaza.
Pontos principais
- Autoridades da Ásia Central aprovaram limites de retirada de água dos rios Amu Dária e Syr Dária para o período 2026–2027, fora da principal temporada de cultivo.
- Especialistas receberam a instrução de investigar as medições inconsistentes de vazão em Kerki.
- Chardara recebeu 3,69 bilhões de metros cúbicos durante a temporada de cultivo de 2026, cerca de 29,5% acima da previsão.
- Mirziyoyev pediu monitoramento digital, modernização da irrigação e diálogo contínuo sobre água com o Afeganistão.
- As estimativas do possível impacto do canal de Qosh Tepa divergem e não são diretamente comparáveis.
- O Uzbequistão presidirá o Fundo Internacional para Salvar o Mar de Aral em 2027.
- O financiamento, os cronogramas dos projetos e vários detalhes técnicos ainda não foram especificados.






