Europa se torna novo campo de testes para táxis autônomos chineses
Empresas chinesas de direção autônoma estão avançando na Europa por meio de parcerias com empresas locais de mobilidade, montadoras e operadoras de transporte. Os planos vão de testes supervisionados nas ruas a serviços públicos de robotáxi, com início previsto para 2027, sujeito à aprovação regulatória.
Conteúdo
- Europa se torna novo campo de testes para táxis autônomos chineses
- WeRide mira a Dinamarca com frota elétrica
- Zagreb já abriu o serviço aos passageiros
- Londres e Luxemburgo serão os próximos grandes testes
- Por que as parcerias locais são centrais para a estratégia
- Vias europeias exigirão novo treinamento técnico
- Concorrência vai além das empresas chinesas
- Regulamentação determinará a velocidade de expansão dos serviços
- O que você precisa saber
WeRide, Apollo Go, da Baidu, e Pony.ai estão entre as principais empresas que buscam espaço no emergente mercado europeu de mobilidade autônoma. Os projetos dão às empresas chinesas acesso a novas vias, padrões de trânsito e clientes, enquanto os parceiros europeus contribuem com conhecimento operacional local, experiência regulatória e redes consolidadas de transporte por aplicativo.
A expansão ocorre enquanto governos europeus trabalham para estabelecer regras mais uniformes para veículos automatizados. Dezoito países-membros da União Europeia assinaram em junho uma declaração em apoio a grandes áreas de testes transfronteiriços para veículos autônomos no transporte público, de cargas e na logística. O plano prevê princípios comuns de aprovação e licenças coordenadas, o que pode facilitar os testes de veículos entre fronteiras nacionais.
Os robotáxis usam câmeras, radar, lidar e software para identificar vias, veículos, pedestres e placas de trânsito. A autonomia de nível 4 significa que um veículo pode circular sem motorista humano em áreas aprovadas e sob condições definidas. Isso não significa que possa operar em qualquer lugar, sob todo tipo de condição climática ou situação viária.
WeRide mira a Dinamarca com frota elétrica
A WeRide informou em 3 de agosto que firmou uma parceria estratégica com a GreenMobility, empresa dinamarquesa de mobilidade elétrica compartilhada. As companhias pretendem lançar um serviço público de robotáxi na Dinamarca no primeiro semestre de 2027, desde que recebam as aprovações necessárias.
A Dinamarca será o primeiro mercado nórdico da WeRide e o sexto na Europa. O serviço planejado usará o GXR, um veículo elétrico de nível 4 em conformidade com as normas da União Europeia, baseado na plataforma SuperVAN, da Farizon. O veículo conta com mais de 20 sensores, incluindo lidar, câmeras de alta resolução e um sistema de navegação de alta precisão.
A GreenMobility contribuirá com sua experiência na operação de uma frota compartilhada de carros elétricos e na gestão de milhões de viagens na Dinamarca. A WeRide fornecerá o sistema de direção autônoma e os veículos. Os testes e a implantação estão previstos em cooperação com a Direção Rodoviária Dinamarquesa e a Autoridade de Transportes da Dinamarca.
O diretor-executivo do Grupo GreenMobility, Kasper Gjedsted, disse que a parceria levará a experiência da empresa na operação de veículos compartilhados para a mobilidade autônoma. O fundador e diretor-executivo da WeRide, Tony Han, descreveu o projeto como um modelo que poderá ser replicado em outros mercados internacionais.
O lançamento na Dinamarca ainda é um plano, e não um serviço comercial. A WeRide anunciou projetos em vários países europeus, embora as operações comerciais ainda não tenham começado na maioria desses mercados.
Zagreb já abriu o serviço aos passageiros
A Pony.ai deu até agora o passo comercial mais avançado na Europa. Em abril, a empresa iniciou um serviço de robotáxi em Zagreb com a empresa croata de mobilidade Verne e a Uber. O serviço está disponível pelo aplicativo da Verne, enquanto a integração ao aplicativo da Uber está prevista para uma etapa posterior.
A Pony.ai fornece a tecnologia de direção autônoma, a Verne é proprietária da frota e gerencia as operações diárias, e a Uber oferece acesso à sua plataforma global de transporte por aplicativo. Nos primeiros meses, os veículos circularam com operadores treinados a bordo, enquanto o serviço acumulava experiência operacional e concluía sua implantação inicial.
As empresas descrevem Zagreb como o primeiro serviço comercial de robotáxi da Europa aberto ao público. Elas planejam ampliar a frota para milhares de veículos nos próximos anos e usar a capital croata como base para expandir as operações pelo continente.
O diretor-executivo da Pony.ai, James Peng, disse que a parceria com a Verne avançou rapidamente porque as duas empresas eram flexíveis e tinham abordagens compatíveis. Ele afirmou que a empresa atualizava o software diariamente durante a fase inicial de implantação e que havia observado forte adesão dos moradores locais.
Nosso modelo aprende por conta própria, então se adapta rapidamente aos estilos de direção e à infraestrutura europeus, disse Peng.
Ele citou rotatórias como exemplo de um elemento viário mais comum na Europa do que na China. Ruas estreitas, traçados históricos das cidades e costumes diferentes ao volante também exigem que os veículos aprendam com as condições locais.
Londres e Luxemburgo serão os próximos grandes testes
A Apollo Go, da Baidu, e a Freenow, plataforma europeia de mobilidade pertencente à Lyft, começaram a testar em Londres os veículos autônomos RT6 de sexta geração em 28 de julho. Os primeiros testes estão sendo realizados em Brent, área que combina vias urbanas e suburbanas. Atualmente, há operadores de segurança dentro dos veículos.
As parceiras planejam oferecer viagens ao público em 2027, sujeitas à aprovação. Londres provavelmente será um dos mercados europeus mais exigentes, devido ao trânsito intenso, às ruas sinuosas e estreitas e à circulação pela esquerda. A cidade também conta com extensas redes de ônibus e trens, o que pode reduzir o número de viagens disponíveis para os robotáxis.
A Baidu está desenvolvendo outros projetos na Europa. Na Suíça, a Apollo Go planeja testar veículos elétricos RT6 com a operadora de transporte público PostBus. A expectativa é que as primeiras viagens de mapeamento usem motoristas de segurança e não transportem passageiros. Um serviço aberto ao público, chamado AmiGo, está previsto para o primeiro trimestre de 2027. A ideia é remover os volantes depois que os veículos forem aprovados para operar totalmente sem motorista.
A Pony.ai prepara outro projeto em Luxemburgo com a empresa de transporte por aplicativo Bolt e a montadora Stellantis. A Pony.ai fornecerá o sistema de direção autônoma, a Bolt gerenciará a plataforma para clientes e a Stellantis fornecerá uma van média projetada para permitir a direção de nível 4, além de contribuir com conhecimento em engenharia e fabricação.
Luxemburgo deverá servir como centro europeu de operações e testes da Pony.ai. A posição do país dentro da União Europeia pode ajudar as empresas a desenvolver procedimentos que, posteriormente, poderão ser usados em outros mercados.
Por que as parcerias locais são centrais para a estratégia
Empresas de direção autônoma não podem entrar em um novo país simplesmente enviando veículos e ativando o software. Elas precisam de aprovação das autoridades de transporte, mapas e dados locais de direção, acordos de seguro, instalações de manutenção, acesso a recarga e sistemas para lidar com passageiros e incidentes.
Os parceiros europeus também conhecem as regras de trânsito locais e os hábitos dos clientes. Uma empresa de transporte por aplicativo sabe gerenciar reservas e pagamentos, enquanto uma operadora de frotas pode cuidar da limpeza, dos reparos e da recarga dos veículos. As montadoras podem adaptar os veículos às normas locais de segurança e oferecer capacidade de produção.
Essas parcerias também ajudam a responder às preocupações do público com tecnologias estrangeiras. Empresas chinesas enfrentam questionamentos sobre armazenamento de dados, cibersegurança e uso de câmeras e sensores em espaços públicos. Veículos autônomos podem coletar informações detalhadas sobre ruas, edifícios e pessoas, o que torna a governança de dados uma parte central da aprovação para atuar no mercado.
As regras europeias de privacidade, incluindo o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados, exigem que as empresas controlem a coleta e o processamento de informações pessoais. Os órgãos reguladores também podem exigir relatórios de incidentes, registros dos sistemas e acesso a determinados dados operacionais. As empresas precisam equilibrar a transparência com a necessidade de proteger os sistemas comerciais e a privacidade dos passageiros.
Peng disse que a Pony.ai compartilha com os órgãos reguladores informações operacionais e sobre incidentes quando isso é exigido, enquanto cabe aos governos decidir quais informações serão divulgadas. Ele também disse que a empresa precisa respeitar as regras e os costumes locais para se tornar uma operadora confiável.
Vias europeias exigirão novo treinamento técnico
As empresas chinesas ganharam experiência em grandes cidades e ambientes de trânsito complexos no mercado doméstico. Essa experiência pode ajudar, mas não substitui os testes locais. As vias europeias diferem em sinalização horizontal e vertical, rotatórias, clima, padrões de estacionamento e na combinação entre carros, bicicletas, pedestres e transporte público.
Ron Zheng, sócio sênior da consultoria Roland Berger e responsável pela área automotiva da empresa na Ásia, disse que as companhias precisam adaptar seus algoritmos com dados locais. Segundo ele, as regras de trânsito, as placas e as condições de tráfego misto na Europa diferem bastante das encontradas na China.
Londres apresenta outra dificuldade técnica: os veículos circulam pelo lado oposto da via em relação à maioria das cidades chinesas. Os centros históricos europeus podem ter faixas estreitas e traçados viários irregulares. Um veículo que tenha bom desempenho em vias largas e cuidadosamente mapeadas talvez precise de mais treinamento antes de circular com segurança nessas condições.
As empresas também estão aprendendo a operar sem depender muito de infraestrutura especial. A Pony.ai afirma que seus veículos tomam decisões a bordo e podem continuar funcionando quando os sinais ficam temporariamente indisponíveis. Essa abordagem pode reduzir os custos de implantação, embora mapas locais e comunicações confiáveis continuem sendo úteis para o monitoramento e a gestão da frota.
Concorrência vai além das empresas chinesas
Empresas chinesas estão entrando em um mercado que também atrai concorrentes americanos e europeus. A Waymo, pertencente à Alphabet, planeja realizar testes em Londres com uma pequena frota e espera aceitar passageiros do público após receber aprovação do governo. A britânica Wayve prepara testes de viagens autônomas com a Uber, enquanto a Volkswagen desenvolve o veículo autônomo ID. Buzz AD para projetos de robotáxis e transporte em vans na Europa e nos Estados Unidos.
As montadoras europeias têm ampla experiência em produção de veículos, certificação de segurança e cadeias de suprimentos. As empresas chinesas de tecnologia construíram grandes frotas autônomas na China e costumam desenvolver software por meio de testes rápidos e repetidos. Os projetos atuais combinam essas diferentes vantagens, em vez de depender de uma única empresa para controlar todas as etapas do serviço.
Os robotáxis também podem competir com os robobuses. Analistas afirmam que ônibus automatizados podem ser mais fáceis de implantar em rotas fixas, sobretudo em trajetos curtos entre estações de trem, centros de transporte e áreas residenciais. A WeRide realizou testes de robobuses na Bélgica, na França, na Espanha e na Suíça.
As previsões variam bastante, refletindo as incertezas em torno da regulamentação e da aceitação pública. Uma análise do Boston Consulting Group estimou que cerca de 120 mil robotáxis poderão circular em cidades europeias até 2035. A BloombergNEF prevê cerca de 17 mil veículos na Europa até 2030, com o Reino Unido e a Alemanha respondendo por grande parte desse total.
Regulamentação determinará a velocidade de expansão dos serviços
Os países europeus estão permitindo gradualmente mais testes em vias públicas, embora os sistemas nacionais de aprovação continuem diferentes. Um marco regulatório comum poderia reduzir a duplicação de esforços, mas cada país ainda precisará abordar questões de responsabilidade civil, seguros, certificação de veículos, monitoramento de segurança e proteção de dados.
As autoridades também precisam decidir como um veículo sem motorista deve reagir após uma colisão, como as equipes de suporte remoto podem intervir e quem será responsável em caso de falha de software ou hardware. Os serviços públicos podem começar em áreas restritas, com horários limitados e operadores de segurança, antes de avançar para uma operação sem motorista mais ampla.
O debate político vai além do transporte. Os governos europeus querem atrair investimentos e promover uma mobilidade mais limpa, mas também buscam manter o controle sobre dados sensíveis e tecnologias críticas. As empresas chinesas podem oferecer sistemas maduros e competitivos em preço, embora os parceiros europeus e os órgãos reguladores precisem estabelecer proteções contra uma dependência excessiva de qualquer fornecedor estrangeiro.
Para as empresas envolvidas, a confiança do público será conquistada por experiências cotidianas, não por anúncios de lançamento. Os passageiros avaliarão se os veículos são seguros, confortáveis, disponíveis e acessíveis. Os órgãos reguladores analisarão o desempenho com base em viagens registradas, situações de risco, falhas técnicas e respostas a situações incomuns.
O que você precisa saber
- WeRide e GreenMobility planejam lançar um serviço de robotáxi na Dinamarca no primeiro semestre de 2027, sujeito à aprovação.
- Pony.ai, Verne e Uber abriram ao público um serviço de robotáxi em Zagreb.
- A Apollo Go, da Baidu, está realizando testes em Londres e preparando testes com a PostBus na Suíça.
- Pony.ai, Bolt e Stellantis estão desenvolvendo um projeto-piloto de nível 4 com base em Luxemburgo.
- Parceiros locais são necessários para obter licenças, operar frotas, cumprir as regras de proteção de dados e chegar aos clientes.
- As regras europeias, o traçado das vias e a confiança do público determinarão o ritmo da expansão.






