Interesse de Seul nas terras raras da Mongólia testa os limites da diplomacia de recursos

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Interesse de Seul nas terras raras da Mongólia testa os limites da diplomacia de recursos

Um acordo sobre minerais com consequências para além do comércio

A Coreia do Sul está recorrendo à Mongólia em busca de terras raras e outros minerais críticos, enquanto a China aperta o controle sobre as cadeias globais de abastecimento. A parceria promete novo acesso a materiais necessários para veículos elétricos, semicondutores, drones, robótica e equipamentos militares. Também coloca a Mongólia no centro de uma disputa que envolve China, Rússia e Estados Unidos.

Conteúdo
  1. Um acordo sobre minerais com consequências para além do comércio
  2. Por que as terras raras são tão valiosas?
  3. O que a Mongólia oferece à parceria?
  4. A Mongólia pode deixar de exportar matérias-primas?
  5. Por que a geografia é a maior preocupação de Seul?
  6. O acordo também faz parte de uma estratégia dos EUA para as cadeias de abastecimento?
  7. Como a Mongólia equilibra as relações com os vizinhos?
  8. Que lições vêm do urânio e de outros minerais?
  9. O que pode determinar o sucesso do acordo?
  10. Em resumo

Os presidentes da Coreia do Sul e da Mongólia assinaram um Acordo de Parceria Econômica Abrangente em 11 de julho. O acordo elimina tarifas de 2% a 5% sobre as importações mongóis de cobre, molibdênio e terras raras. Um centro conjunto de pesquisa, em funcionamento desde dezembro, estuda os depósitos da Mongólia e possíveis rotas de exportação.

Para Seul, o acordo faz parte de um esforço mais amplo para reduzir a dependência dos fornecimentos chineses. Atualmente, a Coreia do Sul preside uma coalizão de 17 países lançada por Washington para diversificar o acesso a minerais críticos. O acordo tem uma dimensão comercial, mas seu objetivo mais amplo está estreitamente ligado à relação de segurança entre a Coreia do Sul e os Estados Unidos.

Essa ligação pode colocar a Mongólia em uma posição delicada. Há muito tempo, o país tenta equilibrar as relações com seus dois grandes vizinhos e, ao mesmo tempo, estreitar laços com o que chama de terceiros vizinhos, entre eles a Coreia do Sul, os Estados Unidos, o Japão e países europeus.

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Por que as terras raras são tão valiosas?

As terras raras são um grupo de 17 metais. O nome não significa que elas não existam na crosta terrestre. A dificuldade está em encontrar depósitos concentrados e separar os elementos das rochas ao redor. O processamento pode exigir tecnologia complexa, grandes quantidades de energia e controles rigorosos sobre os resíduos.

Pequenas quantidades de terras raras são essenciais para ímãs permanentes potentes. Esses ímãs ajudam os motores de veículos elétricos a funcionar com eficiência e também são usados em turbinas eólicas, equipamentos de informática, máquinas de precisão, aeronaves, mísseis, caças e drones. Outros minerais críticos, como cobre, tungstênio e molibdênio, são usados em sistemas de energia, equipamentos aeroespaciais, ferramentas e na produção de itens de defesa.

A China ocupa uma posição dominante no setor. Estimativas citadas na pesquisa atribuem ao país cerca de 59% da mineração mundial de terras raras e aproximadamente 90% da capacidade de refino e processamento. A China também produz a maior parte dos ímãs permanentes que contêm neodímio e disprósio, dois elementos usados em motores de alto desempenho e outros equipamentos avançados.

Entre 2020 e 2023, cerca de 70% dos compostos e metais de terras raras importados pelos Estados Unidos vieram da China, segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos. Essa dependência transformou o abastecimento de minerais em uma questão de segurança, além de uma preocupação comercial.

O que a Mongólia oferece à parceria?

A Mongólia é um dos países mais ricos em recursos minerais do mundo. Já foram identificados mais de 80 tipos de minerais, incluindo cobre, ouro, urânio e terras raras. Relatórios baseados em levantamentos existentes colocam o país entre os dez primeiros do mundo em recursos minerais.

O país tem seis depósitos de terras raras registrados e 26 ocorrências conhecidas. Uma estimativa calcula suas reservas de terras raras em cerca de 31 milhões de toneladas, ou aproximadamente 16% do total mundial. A Mongólia também tem reservas estimadas de 55 milhões de toneladas de cobre e 175 bilhões de toneladas de carvão. A mina de Oyu Tolgoi, no sul da região de Gobi, está entre as maiores operações de cobre e ouro do mundo.

Esses números vêm acompanhados de uma ressalva importante. A Mongólia é cerca de 16 vezes maior que a Coreia do Sul, mas aproximadamente 55% de seu território ainda não foi explorado em detalhe. As estimativas de reservas podem mudar à medida que os levantamentos geológicos avançarem.

A mineração já domina a economia mongol. Em 2024, o setor respondeu por cerca de 27% do produto interno bruto, 70,9% da produção industrial e 87,2% das exportações. O governo quer usar novos projetos minerais para atrair investimentos e, ao mesmo tempo, reduzir a dependência das vendas de carvão e matérias-primas.

A Mongólia pode deixar de exportar matérias-primas?

Autoridades mongóis dizem que o objetivo é desenvolver capacidade local de processamento, em vez de simplesmente enviar minério bruto para o exterior. O embaixador Sukhee Sukhbold defendeu a combinação da tecnologia e dos investimentos coreanos com os recursos minerais da Mongólia, para que os dois países possam produzir juntos materiais de maior valor agregado.

Estamos exportando minerais brutos para a China e simplesmente vendendo-os como estão. Mas o mundo precisa de mais produtos processados. Por que exportamos apenas matérias-primas? Precisamos processá-las e produzir os produtos de que o mundo precisa.

Processar o minério na própria Mongólia poderia reduzir o volume que precisa atravessar territórios estrangeiros. Tungstênio, molibdênio e terras raras poderiam ser transformados em concentrados ou produtos intermediários antes do transporte. Essas etapas tornariam o transporte mais eficiente e poderiam gerar empregos e competências industriais na Mongólia.

Especialistas sul-coreanos estudam se é possível construir usinas de processamento perto das minas mongóis. Os materiais acabados poderiam então ser transportados por via aérea em volumes menores, embora o frete aéreo seja caro e mais adequado a produtos refinados do que a grandes quantidades de minério. Um primeiro carregamento de concentrado de tungstênio mongol foi enviado de avião à Coreia do Sul em 27 de junho, segundo o professor Song Byeong Gu, da Universidade Dankook.

O plano enfrenta limitações práticas. Usinas de processamento precisam de eletricidade confiável, água, estradas, trabalhadores qualificados e salvaguardas ambientais. Os invernos rigorosos da Mongólia, as grandes distâncias e a infraestrutura limitada podem elevar os custos de construção e operação. Uma usina, por si só, não elimina todos os riscos de uma cadeia de abastecimento que ainda depende dos países vizinhos para obter equipamentos, combustível e algumas conexões de transporte.

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Por que a geografia é a maior preocupação de Seul?

A Mongólia não tem litoral. Até 90% de suas exportações, incluindo minerais, precisam passar por redes ferroviárias e portos chineses ou russos antes de chegar aos mercados globais. Isso deixa o país com menos opções do que os fornecedores costeiros.

Especialistas sul-coreanos alertam que a China ou a Rússia poderiam atrasar embarques, elevar custos alfandegários ou criar barreiras administrativas caso concluíssem que os minerais mongóis estão sendo redirecionados aos Estados Unidos ou ao Japão. O professor Jang Jae Hyuk, da Universidade de Estudos Estrangeiros de Hankuk, descreveu a fronteira como um grave gargalo logístico.

Se a China quisesse se opor aos Estados Unidos, poderia elevar drasticamente os custos alfandegários ou simplesmente atrasar as coisas na fronteira.

Uma disputa não precisaria de um embargo formal para causar danos. Atrasos em passagens de fronteira, inspeções mais rigorosas, mudanças no acesso ferroviário ou custos de seguro mais altos poderiam tornar um projeto comercialmente inviável. Empresas que dependem de apenas uma ou duas rotas estão especialmente expostas a esse tipo de pressão.

As conexões ferroviárias pela Rússia também envolvem riscos políticos e comerciais. Moscou continua sendo um parceiro essencial de trânsito para a Mongólia, enquanto sua relação mais próxima com Pequim aumentou a importância da cooperação trilateral. A China instou a Rússia e a Mongólia a fortalecer os laços em energia, finanças e infraestrutura e a resistir ao que o presidente chinês, Xi Jinping, descreveu como interferência externa.

O acordo também faz parte de uma estratégia dos EUA para as cadeias de abastecimento?

Alguns analistas veem o acordo entre Coreia do Sul e Mongólia como parte de um arranjo mais amplo entre três países, que envolve Washington. A Coreia do Sul poderia importar minerais mongóis, processar parte deles no país e, então, fornecer materiais a fabricantes americanos no âmbito da aliança cada vez mais estreita entre Seul e Washington.

Essa possibilidade dá ao acordo uma dimensão estratégica. Se a China acreditar que os recursos mongóis estão sendo usados para enfraquecer sua posição ou apoiar a produção de defesa americana, Pequim poderá exercer pressão por meio do comércio ou das rotas de trânsito. A Rússia também poderá se opor se considerar o arranjo parte de um esforço ocidental mais amplo para reduzir sua influência na região.

A Coreia do Sul já apoia projetos destinados a criar capacidade de processamento fora da China. Os Estados Unidos adquiriram uma participação de 10,59% na Korea Zinc, a maior fundição de zinco do mundo. A Korea Zinc e o governo americano apoiam uma instalação integrada de metais e minerais críticos no Tennessee, com investimento estimado em US$ 7,4 bilhões.

Outras empresas coreanas estão desenvolvendo projetos relacionados. A LS Cable and System negocia a construção de uma usina de ímãs permanentes de terras raras na Virgínia, enquanto a Posco International firmou parceria com a ReElement Technologies para uma instalação de separação e refino em Indiana. Esses projetos mostram que o interesse de Seul na Mongólia está ligado a uma tentativa mais ampla de construir uma rede de abastecimento que vá da mineração à fabricação final.

Como a Mongólia equilibra as relações com os vizinhos?

A política de terceiros vizinhos da Mongólia busca ampliar suas opções diplomáticas e econômicas sem provocar a China ou a Rússia. Sua geografia torna inevitável manter relações estreitas com ambos os vizinhos. A China é o maior parceiro comercial da Mongólia e um dos principais destinos de suas exportações minerais. A Rússia continua sendo importante para o fornecimento de combustível, o transporte e as conexões de energia.

A Coreia do Sul tornou-se parceira estratégica da Mongólia em 2021. O comércio bilateral cresceu de cerca de US$ 2,7 milhões, quando as relações diplomáticas começaram em 1990, para mais de US$ 600 milhões nos últimos anos. A cooperação agora inclui mineração, infraestrutura, saúde, turismo e educação.

A relação também recebeu apoio da assistência coreana ao desenvolvimento. Grupos coreanos trabalharam em instalações médicas, recursos hídricos e infraestrutura urbana. Um consórcio coreano concluiu o projeto básico da primeira linha de metrô de Ulaanbaatar, cuja construção deve começar em 2026.

Para Ulaanbaatar, a cooperação com Seul dá acesso a tecnologia e investimentos sem exigir alinhamento político exclusivo. O embaixador afirmou que a Mongólia busca manter diálogo e comércio com todos os parceiros, em vez de classificar os países em categorias fixas. Esse equilíbrio será posto à prova se as exportações minerais ficarem diretamente vinculadas à disputa entre Estados Unidos e China.

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Que lições vêm do urânio e de outros minerais?

A questão das terras raras faz parte de um esforço mais amplo da Mongólia para diversificar seu setor de mineração. Urânio, cobre e outros minerais atraem o interesse de países que buscam novos fornecedores para energia, indústria e tecnologia.

Estima-se que a Mongólia tenha cerca de 190 mil toneladas de recursos de urânio identificados, com recursos totais que podem chegar a 1,5 milhão de toneladas. O desenvolvimento proposto do depósito de Zuuvch Ovoo com a empresa francesa Orano deve exigir cerca de US$ 1,6 bilhão em investimentos, com início da produção previsto para aproximadamente 2028.

Os projetos de urânio avançaram lentamente na Mongólia por causa de disputas sobre licenças, mudanças na legislação e preocupações da população com contaminação da água, exposição à radiação e danos às pastagens. Essas dificuldades servem de alerta para os projetos de terras raras. Os investidores precisarão de regras previsíveis, padrões ambientais claros e maior confiança da população para que a Mongólia se torne uma fornecedora estável.

O Cazaquistão é um exemplo de como políticas consistentes e conhecimento técnico podem transformar reservas minerais em produção sustentada. As autoridades mongóis estudam essa experiência enquanto buscam atrair capital estrangeiro e, ao mesmo tempo, manter uma parcela maior da receita pública por meio de um fundo soberano.

O que pode determinar o sucesso do acordo?

A parceria dependerá de mais do que a assinatura de um acordo comercial. Levantamentos geológicos precisam confirmar que os depósitos são suficientemente grandes e adequados à extração comercial. Em seguida, governos e empresas terão de financiar minas, usinas de processamento, estradas, sistemas de energia e acordos de fronteira.

As preocupações ambientais também influenciarão o apoio da população. O processamento de terras raras pode gerar resíduos tóxicos quando mal administrado, enquanto a mineração pode afetar o abastecimento de água e as áreas de pastagem. As comunidades rurais da Mongólia esperarão consultas transparentes e uma parcela justa dos benefícios econômicos.

Seul também precisa decidir quanto risco está disposta a aceitar. Comprar minério da Mongólia pode reduzir a dependência direta da China, mas não cria uma cadeia de abastecimento totalmente independente enquanto o acesso ferroviário e portuário continuar sob controle chinês e russo. Construir capacidade de processamento na Mongólia pode reduzir o volume dos embarques, embora não elimine completamente a exposição política.

Para a Mongólia, a questão central é saber se as parcerias estrangeiras podem apoiar o desenvolvimento industrial, em vez de repetir um padrão de exportação de matérias-primas com pouco valor agregado local. Para a Coreia do Sul, a questão é saber se uma nova fonte promissora pode ser conectada a um transporte seguro e a um processamento confiável. Para Washington, a parceria é uma peça de uma tentativa maior de reduzir a influência da China sobre os materiais usados na economia moderna.

Em resumo

  • Coreia do Sul e Mongólia assinaram um acordo que elimina tarifas sobre as importações mongóis de cobre, molibdênio e terras raras.
  • A Mongólia tem grandes depósitos de terras raras, cobre, ouro, urânio e carvão, embora boa parte de seu território ainda tenha sido pouco estudada.
  • A China controla cerca de 59% da mineração de terras raras e 90% da capacidade de refino e processamento.
  • Até 90% das exportações mongóis precisam passar por redes de transporte chinesas ou russas.
  • A Coreia do Sul estuda a construção de usinas de processamento na Mongólia e alternativas para transportar materiais refinados.
  • A parceria apoia a política mongol de terceiros vizinhos e, ao mesmo tempo, aproxima Seul da estratégia de Washington para minerais críticos.
  • Salvaguardas ambientais, regras estáveis e trânsito confiável determinarão se o acordo se tornará uma parceria industrial duradoura.
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