Vasta campanha chinesa de mapeamento submarino ameaça acabar com a vantagem dos submarinos dos EUA

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Vasta campanha chinesa de mapeamento submarino ameaça acabar com a vantagem dos submarinos dos EUA

A pesquisa silenciosa: mapeando o campo de batalha sob as ondas

A China iniciou uma ampla campanha de reconhecimento submarino nos oceanos Pacífico, Índico e Ártico, mobilizando dezenas de navios de pesquisa para mapear o fundo do mar e monitorar as condições da água perto de instalações militares dos Estados Unidos e de pontos estratégicos de estrangulamento marítimo. A operação representa um dos esforços mais abrangentes de levantamento do leito marinho da história naval recente. Ela reúne dados detalhados sobre o relevo submarino, a temperatura, a salinidade e as correntes, informações que, segundo especialistas navais, seriam cruciais em futuros cenários de guerra submarina.

Conteúdo
  1. A pesquisa silenciosa: mapeando o campo de batalha sob as ondas
  2. Uma frota de observadores
  3. Por que o leito marinho importa
  4. A iniciativa Oceano Transparente
  5. Foco nos pontos estratégicos de estrangulamento
  6. Projeção de poder no oceano Índico
  7. Fusão civil-militar na prática
  8. Reação regional e preocupações com soberania
  9. Capacidades submarinas de nova geração
  10. Em resumo

A escala da iniciativa alarmou analistas de defesa ocidentais, que observam que, durante décadas, a Marinha dos EUA manteve uma vantagem assimétrica no conhecimento do campo de batalha submarino. Ryan Martinson, professor associado especializado em estratégia marítima chinesa na Escola de Guerra Naval dos EUA, descreveu como francamente impressionante a dimensão da pesquisa científica marinha de Pequim. Os esforços da China agora ameaçam corroer essa vantagem histórica e criar um ambiente mais disputado sob as ondas, onde os submarinos americanos tradicionalmente operavam com relativa impunidade.

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Uma frota de observadores

No centro da operação está o Dong Fang Hong 3, navio de pesquisa operado pela Universidade Oceânica da China, que passou 2024 e 2025 realizando levantamentos repetidos perto de Taiwan, do reduto americano de Guam e de trechos estratégicos do oceano Índico. Dados de rastreamento de navios analisados pela Reuters mostram a embarcação navegando de um lado para outro em linhas estreitas, padrão que indica um mapeamento sistemático do leito marinho. Em outubro de 2024, o navio inspecionou sensores oceânicos potentes, capazes de identificar objetos submarinos perto do Japão, e voltou ao mesmo local em maio de 2025. Em março de 2025, cruzava as águas entre Sri Lanka e Indonésia, cobrindo as rotas de acesso ao estreito de Malaca, um dos pontos de estrangulamento mais importantes do mundo para o comércio marítimo.

O Dong Fang Hong 3 não atua sozinho. Uma análise de mais de cinco anos de dados de movimentação da Starboard Maritime Intelligence mostra que 42 navios de pesquisa chineses estiveram ativos nos três oceanos. Pelo menos oito realizaram operações confirmadas de mapeamento do leito marinho, enquanto outros dez transportam equipamentos especializados capazes de fazer esse tipo de trabalho. As embarcações pertencem a órgãos estatais chineses, como o Ministério dos Recursos Naturais, ou a instituições de pesquisa ligadas ao Estado. Embora os navios às vezes desliguem seus sistemas de rastreamento — o que significa que a dimensão total das atividades provavelmente supera o que os analistas conseguem documentar —, a atividade visível por si só abrange águas militarmente sensíveis ao redor das Filipinas, do Havaí e das instalações americanas no atol de Wake, no norte do Pacífico.

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Por que o leito marinho importa

Para compreender o valor estratégico desse mapeamento, é preciso saber como os submarinos operam e combatem. Essas embarcações navegam e se escondem a poucas centenas de metros da superfície, onde o relevo submarino, a temperatura da água, a salinidade e as correntes determinam sua visibilidade para os sistemas de detecção. As ondas sonoras usadas em sistemas de sonar se curvam e ricocheteiam de maneiras diferentes conforme o contorno do leito marinho e a densidade da água. Essas propriedades acústicas criam zonas de sombra onde os submarinos podem se ocultar — ou revelar sua posição a adversários com conhecimento ambiental detalhado.

Tom Shugart, ex-comandante de submarino dos EUA e atualmente ligado ao Center for a New American Security, explicou que a propagação das ondas sonoras varia conforme o relevo submarino. Camadas de temperatura e variações de salinidade afetam a forma como o som se propaga na água. Isso significa que operações idênticas de submarinos podem passar despercebidas em um local e ser detectadas em outro. Os comandantes precisam de dados precisos para evitar colisões com montes submarinos e identificar os melhores locais para se esconder.

Os dados de levantamento das embarcações poderiam ser potencialmente inestimáveis na preparação do campo de batalha. Qualquer submarinista militar competente dedica muito esforço a compreender o ambiente em que opera.

Peter Scott, ex-chefe da força submarina australiana, ressaltou esse ponto à Reuters, observando que a coleta de dados cumpre funções essenciais tanto para o emprego ofensivo de submarinos quanto para operações de guerra antissubmarino.

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A iniciativa Oceano Transparente

Por volta de 2014, Wu Lixin, cientista da Universidade Oceânica, propôs um projeto ambicioso para criar o que pesquisadores chineses chamam de oceano transparente. A ideia prevê a instalação de extensas redes de sensores, boias e conjuntos de equipamentos submarinos para monitorar em tempo real as condições da água e os movimentos sob a superfície. Segundo declarações oficiais de autoridades de Shandong, o projeto recebeu rapidamente pelo menos US$ 85 milhões em apoio do governo provincial.

O projeto começou no mar do Sul da China, onde a Universidade Oceânica afirma ter construído um sistema de observação que cobre a bacia de águas profundas. Registros de órgãos do governo chinês mostram que a rede se expandiu desde então para os oceanos Pacífico e Índico, com centenas de sensores instalados a leste do Japão, a leste das Filipinas e ao redor de Guam. No oceano Índico, documentos descrevem uma rede de sensores que contorna a Índia e o Sri Lanka, incluindo instalações ao longo da Dorsal dos 90 Graus Leste, uma das mais extensas cadeias de montanhas submarinas do mundo.

O contra-almirante Mike Brookes, comandante do Escritório de Inteligência Naval dos EUA, afirmou em depoimento a uma comissão do Congresso que a China está construindo redes de vigilância submarina para reunir dados hidrográficos, otimizar o desempenho do sonar e permitir o monitoramento contínuo de submarinos que atravessam vias estratégicas, como o mar do Sul da China. Embora alguns especialistas navais recomendem cautela diante de alegações de transmissão de dados submarinos em tempo real, dadas as dificuldades técnicas, até mesmo dados com atraso fornecem informações valiosas sobre as operações de submarinos adversários.

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Foco nos pontos estratégicos de estrangulamento

A China concentrou seus levantamentos oceânicos mais abrangentes a leste das Filipinas, região localizada ao longo da Primeira Cadeia de Ilhas. Esse conjunto de territórios, controlado em grande parte por aliados dos Estados Unidos, vai das ilhas japonesas, ao norte, passa por Taiwan e chega a Bornéu, ao sul, formando uma barreira natural entre os mares costeiros da China e o Pacífico aberto. Peter Leavy, ex-adido naval da Austrália nos EUA e atual presidente do Instituto Naval Australiano, observou que a China parece paranoica com a possibilidade de ficar confinada por essa cadeia. O mapeamento extensivo indica o desejo de compreender suficientemente o domínio marítimo para alcançar o alto-mar.

Os dados de rastreamento mostram que embarcações chinesas também mapearam as águas ao redor de Guam, onde ficam estacionados submarinos nucleares americanos, e do Havaí, outro importante centro regional. Navios examinaram uma dorsal submarina ao norte de uma base naval em Papua-Nova Guiné à qual os EUA obtiveram acesso recentemente e fizeram reconhecimento na região da Ilha Christmas, território australiano situado em rotas entre o mar do Sul da China e uma importante base de submarinos da Austrália. Esse padrão sugere que Pequim se prepara para operações muito além de seu litoral imediato, desenvolvendo a capacidade de contestar a supremacia submarina americana em toda a região do Indo-Pacífico.

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Projeção de poder no oceano Índico

As ambições oceanográficas da China vão muito além do Pacífico. Embarcações chinesas mapearam grandes extensões do oceano Índico, rota essencial para as importações chinesas de petróleo e outros recursos do Oriente Médio e da África. Jennifer Parker, professora adjunta de defesa e segurança da Universidade da Austrália Ocidental e ex-oficial australiana de guerra antissubmarino, observou que a China tem vulnerabilidades importantes relacionadas à dependência do comércio marítimo. O amplo levantamento indica que Pequim provavelmente realizará mais operações submarinas no oceano Índico para proteger essas rotas de abastecimento e, ao mesmo tempo, monitorar as atividades navais de potências regionais, incluindo a Índia.

A rede de sensores ao longo da Dorsal dos 90 Graus Leste fica sobre a rota de acesso ao estreito de Malaca, por onde passa grande parte do petróleo que abastece a China. Essa localização permite ao país monitorar tanto as vulnerabilidades de sua própria rota de abastecimento quanto possíveis deslocamentos de submarinos adversários por esse ponto de estrangulamento essencial. Embarcações chinesas também mapearam o leito marinho a oeste e ao norte do Alasca, uma rota marítima essencial para o Ártico, onde Pequim declarou a ambição de se tornar uma grande potência polar até a década de 2030.

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Fusão civil-militar na prática

A integração da pesquisa científica civil ao desenvolvimento de tecnologia militar tornou-se um foco central do governo chinês sob a liderança do presidente Xi Jinping. Pequim chama essa abordagem de fusão civil-militar, e ela está presente nas atividades de instituições como a Universidade Oceânica da China. Em 2021, o presidente da universidade celebrou publicamente os estreitos laços da instituição com a Marinha chinesa e seu compromisso com a construção de uma potência marítima e a defesa nacional.

Zhou Chun, pesquisador da Universidade Oceânica que supervisiona as redes de sensores dos oceanos Índico e Pacífico, explicitou essa ligação em um comunicado à imprensa de 2025. Ele afirmou que seu trabalho lhe mostrou o rápido desenvolvimento da defesa marítima e das capacidades militares de seu país e prometeu transformar as conquistas científicas e tecnológicas mais avançadas em novos tipos de capacidades de combate para as forças militares no mar. Wu, fundador do programa de mapeamento, agora supervisiona a rede por meio do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia Marinha de Qingdao, que tem entre seus parceiros a Academia de Submarinos da Marinha chinesa.

Reação regional e preocupações com soberania

Essa ampla atividade de coleta de dados provocou respostas significativas em toda a região do Indo-Pacífico, enquanto as potências regionais avaliam questões de soberania marítima e segurança. A Índia, que há muito busca se posicionar como provedora regional de serviços hidrográficos, demonstra preocupação especial com as atividades de pesquisa chinesas no oceano Índico, sobretudo perto da baía de Bengala, onde está baseada a frota indiana de submarinos nucleares.

O Sri Lanka impôs uma moratória de 12 meses às visitas de navios de pesquisa estrangeiros depois que a presença de embarcações chinesas — mais recentemente, o Shi Yan 6, em outubro de 2023 — provocou fortes protestos de Nova Délhi. O governo cingalês decidiu cancelar um acordo entre um instituto chinês e uma universidade local que havia facilitado o acesso da China às águas e aos dados hidrográficos do Sri Lanka. Também criou uma nova agência vinculada ao Ministério da Defesa para supervisionar pesquisas hidrográficas, numa tentativa de estabelecer controle soberano sobre informações relativas ao próprio domínio marítimo.

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Capacidades submarinas de nova geração

Avanços técnicos recentes sugerem que a China está deixando para trás a mera coleta de dados e se preparando ativamente para transformar o leito marinho em um campo de batalha. Cientistas chineses testaram com sucesso a ignição de um motor de foguete sólido a 200 metros de profundidade, muito além dos cerca de 30 metros em que geralmente são disparados mísseis convencionais lançados por submarinos. Engenheiros do Instituto de Engenharia Mecanoelétrica e do Laboratório-Chave de Equipamentos Submarinos Inteligentes publicaram resultados na revista científica chinesa Tactical Missile Technology, descrevendo uma plataforma experimental para simular ambientes de águas profundas. Caso seja incorporada a sistemas operacionais, essa tecnologia poderá permitir a instalação de plataformas de lançamento de mísseis fixadas no fundo do mar, ampliando as opções estratégicas de Pequim.

Analistas também alertam que o conhecimento detalhado do leito marinho permite desenvolver capacidades para interromper infraestruturas submarinas. Taiwan depende quase inteiramente de cabos submarinos para se conectar à internet, o que torna a ilha especialmente vulnerável a um isolamento digital por meio do corte deliberado desses cabos. Jason Hsu, pesquisador citado em análises de defesa, afirma que o Exército de Libertação Popular poderia cortar conjuntos de cabos estratégicos e reduzir a largura de banda em até 99%, isolando Taiwan e prejudicando a coordenação entre aliados. O Tansuo Yi Hao, outro navio de pesquisa chinês, deu a volta na Austrália e fez uma pausa sobre a Fossa Diamantina, onde poderia eventualmente realizar a manutenção de sensores acústicos no leito marinho ou coletar informações sobre cabos submarinos. O primeiro-ministro Anthony Albanese declarou publicamente que preferia que essas embarcações não estivessem em águas australianas.

Em resumo

  • A China mobilizou 42 navios de pesquisa nos oceanos Pacífico, Índico e Ártico para mapear sistematicamente o leito marinho e monitorar as condições ambientais em águas estrategicamente sensíveis.
  • O projeto Oceano Transparente, financiado com pelo menos US$ 85 milhões pela província de Shandong, instalou centenas de sensores que fornecem dados para otimizar a detecção e a ocultação de submarinos.
  • Os levantamentos se concentram em áreas de importância militar, como a Primeira Cadeia de Ilhas, as águas próximas a Guam e ao Havaí, as rotas de acesso ao estreito de Malaca e as proximidades de instalações australianas para submarinos.
  • A fusão civil-militar permite que navios de pesquisa civis coletem dados de uso duplo, que apoiam operações navais, o posicionamento de armas no leito marinho e possíveis ações para interromper infraestruturas.
  • Potências regionais, incluindo Índia, Sri Lanka e Austrália, estão impondo restrições ou reforçando o monitoramento em resposta a preocupações com soberania e ameaças à segurança.
  • Testes avançados de ignição de foguetes em águas profundas e redes de sensores indicam que a China está preparando o leito marinho como um domínio ativo para futuras operações militares.
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