Coreia do Sul recupera mais de 72% dos recursos usados no resgate durante a crise de 1997, após décadas de resiliência econômica

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Coreia do Sul recupera mais de 72% dos recursos usados no resgate durante a crise de 1997, após décadas de resiliência econômica

Um marco na recuperação dos recursos públicos

A Coreia do Sul alcançou um marco importante em sua longa jornada para resolver as obrigações financeiras remanescentes da crise financeira asiática de 1997-1998. O governo anunciou que recuperou 72,5% dos recursos públicos injetados para estabilizar o setor bancário nacional. Segundo dados divulgados na terça-feira pela Comissão de Serviços Financeiros, Seul recuperou 122,1 trilhões de won (83,4 bilhões de dólares) dos 168,7 trilhões de won destinados a socorrer instituições financeiras em dificuldades durante o período mais sombrio da história econômica moderna do país.

Conteúdo
  1. Um marco na recuperação dos recursos públicos
  2. A crise de 1997 e a intervenção do FMI
  3. Da humilhação nacional à recuperação antecipada
  4. Como os recursos estão sendo recuperados
  5. Transformação estrutural e abertura econômica
  6. O custo social e a divisão entre gerações
  7. Lições para a gestão de crises
  8. Principais pontos

A taxa de recuperação representa um aumento de 0,5 ponto percentual em relação ao ano anterior, sinalizando um avanço constante na reversão da enorme intervenção estatal que impediu um colapso total há quase três décadas. O resultado é um indicador mensurável da distância percorrida pela quarta maior economia da Ásia desde que esteve à beira da insolvência soberana, em dezembro de 1997, quando a escassez de reservas cambiais e uma sucessão de falências empresariais levaram Seul a buscar o maior pacote de resgate da história do Fundo Monetário Internacional.

A recuperação constante desses recursos contrasta fortemente com a situação de 2014, quando o governo havia recuperado apenas 65,2% do valor desembolsado. Os 7,3 pontos percentuais adicionais recuperados na última década refletem esforços contínuos para liquidar ativos, privatizar bancos recapitalizados e cobrar empréstimos inadimplentes adquiridos durante a crise. Autoridades financeiras manifestaram satisfação com o avanço e observaram que a recuperação demonstra a viabilidade de longo prazo das medidas de estabilização adotadas durante a emergência.

Os recursos do resgate, inicialmente aplicados entre novembro de 1997 e o fim de 1998, serviram de linha de vida para uma economia à beira do colapso. Na época, a Coreia do Sul enfrentava não apenas uma falta de liquidez, mas uma crise de solvência que ameaçava toda a estrutura financeira construída ao longo das três décadas anteriores de rápida industrialização. Os dados atuais de recuperação validam as difíceis decisões dos formuladores de políticas de usar dinheiro dos contribuintes para sustentar o sistema, enquanto os esforços de cobrança em andamento continuam devolvendo recursos aos cofres públicos.

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A crise de 1997 e a intervenção do FMI

Para compreender a importância dos números atuais de recuperação, é preciso lembrar a gravidade da crise que exigiu uma intervenção governamental tão extraordinária. No fim de 1997, a economia sul-coreana, celebrada havia muito como o Milagre do Rio Han por transformar uma nação devastada pela guerra em uma potência industrial, enfrentou um colapso catastrófico. A crise começou na Tailândia, com a desvalorização do baht em julho de 1997, mas logo se espalhou para a Coreia do Sul por efeito de contágio e expôs fragilidades fundamentais do modelo econômico sul-coreano.

Investidores estrangeiros, ao testemunharem falências consecutivas de grandes chaebols (conglomerados industriais) e a instabilidade financeira em todo o Leste Asiático, perderam a confiança nas instituições sul-coreanas. Bancos estrangeiros se recusaram a renovar linhas de crédito de curto prazo, e a fuga de capitais se acelerou drasticamente. Em meados de dezembro de 1997, as reservas cambiais da Coreia do Sul haviam despencado de aproximadamente 30 bilhões de dólares para cerca de 4 bilhões de dólares, enquanto a dívida externa chegava a 153 bilhões de dólares. O won sul-coreano, mantido dentro de uma faixa estreita em relação ao dólar, perdeu metade de seu valor em poucas semanas, ultrapassando 2.000 won por dólar na véspera de Natal.

Em 3 de dezembro de 1997, Seul assinou com o FMI um acordo de assistência financeira de três anos, no valor total de 58 bilhões de dólares. O pacote incluía recursos do próprio FMI (21 bilhões de dólares), do Banco Mundial e do Banco Asiático de Desenvolvimento (14 bilhões de dólares), além de contribuições bilaterais dos Estados Unidos, do Japão, da Alemanha e do Canadá (20 bilhões de dólares). O pacote superou até mesmo os 50 bilhões de dólares concedidos ao México durante a crise da tequila, em 1994, tornando-se a maior intervenção do Fundo até então.

O resgate veio acompanhado de condições rigorosas que transformariam a sociedade sul-coreana. O FMI exigiu medidas de austeridade, incluindo juros altos, redução dos gastos públicos, liberalização comercial e amplas reformas estruturais nos setores financeiro e empresarial. As reformas do mercado de trabalho facilitaram as demissões pelas empresas e puseram fim às garantias de emprego vitalício que antes definiam a cultura de trabalho sul-coreana.

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Da humilhação nacional à recuperação antecipada

O período imediatamente posterior ao resgate ficou conhecido entre os sul-coreanos como os dias do FMI, uma fase de profunda vergonha nacional e dificuldades econômicas. Em 1998, a economia encolheu 6,7%, seu pior resultado desde a Guerra da Coreia. O desemprego subiu de 2,6% para 6,8%, e mais de um milhão de sul-coreanos perderam o emprego entre outubro de 1997 e julho de 1998. Grandes conglomerados, como Kia e Daewoo, faliram ou precisaram passar por uma reestruturação profunda, enquanto o Halla Group, o 12º maior chaebol, sucumbiu sob uma dívida de 5,3 bilhões de dólares.

A crise também provocou notáveis demonstrações de solidariedade cívica. Na campanha nacional de arrecadação de ouro do início de 1998, 3,51 milhões de cidadãos doaram ou venderam 227 toneladas de joias de ouro, incluindo alianças de casamento e heranças de família, para reforçar as reservas nacionais. Esse sacrifício coletivo arrecadou aproximadamente 2 bilhões de dólares e simbolizou o compromisso da população com a recuperação do país. Na época, o diretor de um orfanato lamentou a mudança nas circunstâncias e observou que as doações haviam cessado.

Nenhuma instituição se ofereceu para dar presentes às crianças.

Contra as expectativas, a Coreia do Sul quitou os empréstimos do FMI antes do prazo. O governo encerrou a linha especial de assistência de 13,5 bilhões de dólares em setembro de 1999 e, em seguida, pagou o empréstimo stand-by restante de 6 bilhões de dólares em 23 de agosto de 2001. A quitação antecipada, viabilizada por rápidas reformas estruturais e pela recuperação impulsionada pelas exportações, permitiu que o país deixasse o programa do FMI três anos antes do previsto. Na cerimônia que marcou o pagamento final, o presidente do Banco da Coreia, Chon Chol-hwan, agradeceu aos cidadãos e reconheceu que o país ainda enfrentava fragilidades estruturais arraigadas.

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Como os recursos estão sendo recuperados

Os 168,7 trilhões de won em recursos públicos originalmente empregados tiveram várias finalidades durante a resolução da crise. O governo injetou capital em bancos insolventes, comprou empréstimos inadimplentes e forneceu liquidez para evitar o colapso total do mercado. A recuperação desses recursos ocorreu por diversos meios, incluindo a venda de instituições financeiras reestruturadas a investidores privados, o pagamento por bancos recapitalizados que voltaram a ser lucrativos e a liquidação de ativos apreendidos de devedores inadimplentes.

O avanço até a atual taxa de recuperação de 72,5% tem sido gradual, mas constante. Dados de 2014 indicavam uma taxa de recuperação de 65,2% naquele momento, o que significa que o governo recuperou mais 7,3 pontos percentuais na década seguinte. A Comissão de Serviços Financeiros informou que o governo recuperou 2,4 trilhões de won apenas no quarto trimestre do período mais recente analisado, demonstrando que a resolução de ativos continua avançando.

Analistas financeiros observam que a recuperação integral dos 27,5% restantes apresenta desafios importantes, pois alguns ativos ficaram presos em mercados com pouca liquidez ou perderam valor ao longo do prolongado processo de resolução. Garantias imobiliárias de bancos comerciais falidos e títulos corporativos emitidos por chaebols que posteriormente quebraram continuam difíceis de monetizar por completo. Ainda assim, a trajetória atual indica que a Coreia do Sul poderá, eventualmente, recuperar quase todo o dinheiro dos contribuintes destinado à estabilização financeira, um resultado raro entre os países que realizaram grandes resgates do setor financeiro.

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Transformação estrutural e abertura econômica

A crise e o programa subsequente do FMI forçaram uma reestruturação fundamental da economia sul-coreana. Na esteira dos acontecimentos na Tailândia, o governo fechou 56 financeiras insolventes e adotou medidas semelhantes no país, encerrando as atividades de bancos comerciais inviáveis que haviam recorrido a empréstimos arriscados de curto prazo no exterior. As reformas do setor financeiro eliminaram limites às taxas de juros, desregulamentaram o câmbio e fortaleceram a supervisão prudencial.

A reestruturação empresarial teve como alvo o sistema dos chaebols, que impulsionou a industrialização sul-coreana, mas acumulou níveis perigosos de endividamento. Um vice-presidente de uma empresa de um conglomerado que cambaleava sob uma dívida de 1 bilhão de dólares explicou a corrupção que permeava o sistema.

Todos conheciam o problema. Mas os banqueiros eram muito fracos e emprestavam dinheiro a empresários por recomendação de autoridades do governo. Os empresários, por sua vez, cuidavam dos interesses dessas autoridades.

O programa do FMI exigiu transparência contábil, o fim das garantias cruzadas de dívidas entre empresas afiliadas e a redução dos índices de alavancagem. Essas reformas abriram setores antes fechados ao investimento estrangeiro, permitindo que bancos internacionais estabelecessem operações no país e que investidores estrangeiros adquirissem participações em empresas sul-coreanas.

Os resultados dessas mudanças foram transformadores. A Coreia do Sul deixou de ser uma economia devastada pela crise, com 20,4 bilhões de dólares em reservas cambiais, e tornou-se a 14ª maior economia do mundo, com 384,46 bilhões de dólares em reservas, ocupando o nono lugar no ranking global. A proporção entre dívida externa de curto prazo e reservas caiu de 286,1% em 1997 para 30,8% em 2017. As classificações de crédito soberano melhoraram: dos níveis B+ ou B- durante a crise para notas elevadas, como AA ou Aa2, atualmente.

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O custo social e a divisão entre gerações

Apesar do sucesso macroeconômico, a crise de 1997 criou divisões sociais duradouras que continuam moldando a sociedade sul-coreana. As reformas do mercado de trabalho implementadas como condição do FMI disseminaram o emprego não regular e criaram um sistema de dois níveis, que separa trabalhadores efetivos, com emprego estável e bons salários, de trabalhadores temporários, com salários menores e menos benefícios.

Essa transformação deu origem ao que a imprensa sul-coreana chama de geração que desistiu de sete coisas: amor, casamento, filhos, casa própria, sonhos pessoais, relações humanas estáveis e esperança. O desemprego entre os jovens está em aproximadamente 9,9%, mais de três vezes a taxa geral, e 410 mil sul-coreanos na faixa dos 20 anos estão atualmente sem trabalho. O tempo médio de permanência no primeiro emprego caiu para pouco mais de um ano, enquanto 58% da população de 15 a 29 anos não tem emprego remunerado.

A desigualdade de renda aumentou significativamente desde a crise. Segundo uma pesquisa do Instituto de Desenvolvimento da Coreia, a renda dos 10% mais pobres dos domicílios caiu mais de 20% durante a crise, enquanto a dos 10% mais ricos aumentou 10%. Em sua primeira proposta orçamentária, o presidente Moon Jae-in lembrou os dias sombrios que abalaram a vida dos sul-coreanos e prometeu enfrentar a desigualdade estrutural decorrente da crise cambial.

A crise abalou a vida de todos os sul-coreanos, e a estrutura socioeconômica transformada pela crise cambial prejudicou o cotidiano das pessoas.

Muitos sul-coreanos ainda consideram esse período o pior trauma econômico de que se lembram. Pesquisas indicam que mais de 60% da população acredita que a crise afetou negativamente suas vidas, e mais de 80% apontam os problemas de emprego como uma questão que ainda precisa ser resolvida. A divisão entre trabalhadores regulares e irregulares continua sendo uma questão política central, e governos sucessivos tentam enfrentar a precarização do emprego sem prejudicar a competitividade das empresas.

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Lições para a gestão de crises

A experiência sul-coreana oferece lições importantes para a gestão de crises financeiras internacionais. A coordenação da rolagem da dívida no fim de 1997, combinada a juros inicialmente elevados e depois reduzidos de forma estratégica, conseguiu estabilizar a taxa de câmbio e restaurar a confiança do mercado. A rápida implementação de reformas estruturais, embora dolorosa, permitiu uma recuperação mais veloz do que a observada em outros países afetados pela crise.

No entanto, críticos, entre eles economistas sul-coreanos, questionaram se a política de juros altos não aprofundou inicialmente a crise, em vez de resolvê-la, ao acelerar as falências empresariais. A estratégia de reestruturação voltada inicialmente aos bancos negligenciou as empresas de investimento, permitindo que chaebols frágeis, como a Daewoo, emitissem títulos corporativos por esses canais menos supervisionados. Isso acabou provocando novas restrições ao crédito quando os títulos venceram.

O caso sul-coreano demonstra que a resolução rápida de uma crise exige não apenas estabilização macroeconômica, mas também uma reestruturação fundamental dos setores empresarial e financeiro. O acúmulo posterior de reservas cambiais substanciais e os acordos de swap cambial com grandes parceiros comerciais, incluindo renovações recentes com a China e o Canadá, refletem o aprendizado institucional com a vulnerabilidade de 1997.

Principais pontos

  • A Coreia do Sul recuperou 72,5% (122,1 trilhões de won ou 83,4 bilhões de dólares) dos 168,7 trilhões de won em recursos públicos usados para socorrer empresas financeiras durante a crise financeira asiática de 1997-1998.
  • A taxa de recuperação aumentou 0,5 ponto percentual em relação ao ano anterior, segundo dados da Comissão de Serviços Financeiros divulgados em fevereiro de 2026.
  • A crise de 1997 obrigou a Coreia do Sul a aceitar um pacote de resgate de 58 bilhões de dólares do FMI, o maior da história do Fundo até então, após o colapso do won e o esgotamento das reservas cambiais.
  • A Coreia do Sul quitou todos os empréstimos do FMI até agosto de 2001, três anos antes do prazo, registrando uma das recuperações mais rápidas entre as economias emergentes afetadas por crises.
  • Embora os indicadores macroeconômicos tenham melhorado drasticamente, e as reservas cambiais tenham crescido de 20,4 bilhões para 384,46 bilhões de dólares, a crise deixou desigualdades sociais duradouras e um mercado de trabalho dividido entre trabalhadores regulares e irregulares.
  • O fenômeno da geração que desistiu de sete coisas reflete o desemprego juvenil persistente e as condições precárias de trabalho decorrentes das reformas trabalhistas implementadas durante a crise.
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