O motor verde que impulsiona a segunda maior economia do mundo
O setor de energia limpa da China se tornou a principal força por trás da expansão econômica do país. Novos dados mostram que painéis solares, veículos elétricos e tecnologia de baterias responderam por mais de 90% do crescimento dos investimentos no país no ano passado. A análise, realizada pelo Centre for Research on Energy and Clean Air e publicada pelo Carbon Brief, revela que esses setores movimentaram um recorde de 15,4 trilhões de yuans (US$ 2,1 trilhões) em 2025, o equivalente a 11,4% do produto interno bruto (PIB) total da China.
Conteúdo
- O motor verde que impulsiona a segunda maior economia do mundo
- Crescimento recorde em todo o setor de energia limpa
- O paradoxo do carvão: por que a China ainda constrói usinas de combustíveis fósseis
- Repercussões globais: como a tecnologia chinesa está transformando a energia no mundo
- Encruzilhada econômica: do boom industrial à guinada para a infraestrutura
- Implicações geopolíticas em um cenário climático dividido
- O essencial
Para dimensionar esse valor, a economia de energia limpa da China já rivaliza com toda a produção econômica do Brasil ou do Canadá. Se fosse considerada um país independente, seria a oitava maior economia do mundo, com cerca de metade do tamanho da economia da Índia. O valor do setor quase dobrou desde 2022, quando representava apenas 7,3% do PIB, marcando uma das expansões industriais mais rápidas da história econômica moderna.
A importância econômica vai além dos números absolutos. Sem o boom da energia limpa, a China teria crescido apenas 3,5% em 2025, bem abaixo da meta do governo, de cerca de 5%. Em vez disso, esses setores responderam por mais de um terço do crescimento econômico total do país pela segunda vez em três anos, consolidando seu papel como principal motor da recuperação chinesa após a pandemia.
Crescimento recorde em todo o setor de energia limpa
A transformação abrange várias tecnologias ao mesmo tempo. A capacidade de geração eólica e solar mais que dobrou entre 2022 e 2024, saltando de 635 gigawatts para 1.408 gigawatts, segundo pesquisa da Ember. No início de 2025, a capacidade combinada das instalações eólicas e solares superou a do carvão pela primeira vez, um marco que parecia distante poucos anos atrás.
A tecnologia de baterias também registrou crescimento explosivo. Os investimentos na fabricação de baterias aumentaram 35% em relação ao ano anterior, chegando a 277 bilhões de yuans, enquanto a capacidade de armazenamento adicionada alcançou 66 gigawatts somente em 2025, mais de 40% do total instalado no mundo. Os investimentos na rede elétrica chegaram ao recorde histórico de 639,5 bilhões de yuans (US$ 92 bilhões), ajudando a resolver gargalos de transmissão que antes limitavam o aproveitamento da energia renovável.
Os veículos elétricos talvez sejam a transformação mais visível para os consumidores. A China produziu 16,6 milhões de veículos elétricos em 2025, um aumento de 29% em relação ao ano anterior. Eles já representam 48% das vendas de veículos novos, índice que ultrapassou 60% em novembro de 2025. Ao fim do ano, os elétricos correspondiam a 12% dos veículos em circulação nas estradas chinesas, ante apenas 2% cinco anos antes. Até a indústria pesada está se eletrificando: os caminhões elétricos conquistaram 23% do mercado em 2025, contra apenas 8% no ano anterior.
A China atingiu em 2024 sua meta de capacidade eólica e solar para 2030, seis anos antes do previsto, e instalou somente em 2025 mais capacidade solar do que o restante do mundo combinado. A geração solar cresceu 33% em relação ao ano anterior, enquanto a eólica avançou 13%. Com isso, as fontes limpas atenderam a 84% do aumento da demanda por eletricidade em 2024 e, no primeiro semestre de 2025, superaram o crescimento total da demanda, permitindo reduzir em 2% a geração a partir de combustíveis fósseis.
O paradoxo do carvão: por que a China ainda constrói usinas de combustíveis fósseis
Apesar da revolução das energias renováveis, a China colocou em operação 78 gigawatts de nova capacidade de geração a carvão em 2025, o maior volume em uma década. Mais de 50 grandes unidades a carvão, cada uma com capacidade superior a 1 gigawatt, começaram a operar, ante menos de 20 por ano na década anterior. Desenvolvedores apresentaram propostas para construir mais 161 gigawatts em usinas a carvão, e cerca de 290 gigawatts já receberam autorização ou estão em construção.
Essa aparente contradição decorre de preocupações com a segurança energética e da influência política das empresas estatais de carvão. A escassez de energia durante as secas de 2021 e 2022, que interrompeu temporariamente a produção fabril e levou a apagões rotativos, reforçou os temores sobre a confiabilidade da rede elétrica. Assessores do governo chinês descrevem hoje o carvão como uma espécie de “rodinhas de apoio” para a transição energética, oferecendo estabilidade de reserva enquanto o sistema de eletricidade limpa ganha força.
Andreas Sieber, chefe de estratégia política da 350.org, descreveu o momento como um ponto de inflexão histórico.
Este é um ponto de virada histórico: a energia solar deve superar o carvão na China pela primeira vez em 2026. Talvez essa seja a demonstração mais clara até agora de que a energia limpa venceu em custo, escala e qualidade do ar.
Grandes empresas chinesas do setor de carvão, como a CHN Energy e a Shaanxi Coal and Chemical, exercem considerável influência política e promovem narrativas segundo as quais o carvão é essencial para garantir confiabilidade e independência. A Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma afirmou que a geração a carvão continuará sendo essencial para a estabilidade do sistema elétrico nos próximos anos, mesmo com sua substituição por outras fontes.
Essa expansão, porém, cria riscos econômicos. Analistas alertam que a continuidade da construção de usinas a carvão pode deixar ativos encalhados e elevar os custos do sistema, já que a energia renovável oferece eletricidade mais barata que as alternativas fósseis na maioria dos casos. Resta saber se as novas usinas funcionarão como fonte de base ou apenas como reserva nos períodos de pico de demanda.
Repercussões globais: como a tecnologia chinesa está transformando a energia no mundo
O boom doméstico de energia limpa na China está alterando profundamente a economia global do setor energético. As fábricas chinesas produzem hoje cerca de 80% dos painéis solares e 60% das turbinas eólicas do mundo. Essa predominância na fabricação reduziu o custo das tecnologias entre 60% e 90% desde 2010, viabilizando o que a Agência Internacional de Energia chama de “eletricidade mais barata da história”.
Lauri Myllyvirta, principal autor do relatório no Centre for Research on Energy and Clean Air, destacou a disseminação global dessas tecnologias.
Em muitos outros países, as coisas estão acelerando. Vários países africanos importaram muitos painéis solares. Os veículos elétricos estão começando a ser comprados em lugares onde ninguém esperava um avanço desse tipo no ano passado, ou talvez nem nesta década.
Os benefícios vão muito além das fronteiras chinesas. Mais de 90% dos projetos eólicos e solares que entraram em operação no mundo em 2025 geraram eletricidade a um custo inferior ao da alternativa fóssil mais barata disponível. Em toda a África, as importações de painéis solares da China aumentaram 60% nos últimos 12 meses, e 20 países registraram volumes recordes. Países como México, Bangladesh e Malásia superaram os Estados Unidos na adoção de eletricidade renovável, graças à tecnologia chinesa acessível.
Encruzilhada econômica: do boom industrial à guinada para a infraestrutura
Por meio da Iniciativa Cinturão e Rota, o engajamento chinês no setor energético alcançou níveis recordes em 2025, somando US$ 124 bilhões apenas no primeiro semestre. A África se tornou o maior mercado, recebendo investimentos de US$ 61,2 bilhões, um aumento de 283% em relação a 2024. Embora os projetos de combustíveis fósseis tenham predominado nos investimentos no exterior, o engajamento em energia renovável também atingiu um novo recorde, de US$ 21,4 bilhões, ante US$ 12,3 bilhões em 2024.
As empresas chinesas já respondem por 75% dos pedidos de patente em tecnologias de energia limpa no mundo, um aumento expressivo em relação aos apenas 5% registrados em 2000. Essa concentração da capacidade de inovação indica que a China continuará ditando o ritmo das reduções de custos e da implantação de tecnologias no mundo.
A rápida expansão da capacidade de fabricação criou um desafio estrutural: o excesso de capacidade. No fim de 2025, a capacidade anual de fabricação de painéis solares da China chegou a 1.200 gigawatts, enquanto a demanda global ficou em cerca de 650 gigawatts. Esse desequilíbrio provocou uma acirrada disputa de preços, e a receita operacional dos fabricantes caiu 200% entre 2022 e 2024.
Em resposta, Pequim começou a redirecionar os investimentos da capacidade de fabricação para a infraestrutura da rede elétrica e os sistemas de armazenamento. Os investimentos na rede, que nos últimos anos ficaram atrás dos acréscimos de capacidade de geração, dispararam para enfrentar os índices de corte de geração de 30% que afetam algumas províncias ocidentais, onde projetos renováveis aguardam conexão à rede de transmissão. Os investimentos em usinas hidrelétricas reversíveis e armazenamento em baterias também aceleraram fortemente: somente no primeiro semestre de 2025, foram autorizados 15 gigawatts em novos projetos hidrelétricos reversíveis.
Implicações geopolíticas em um cenário climático dividido
Mudanças de política introduzidas em 2025 alteraram a economia da implantação de energias renováveis. O governo revogou as tarifas fixas de aquisição de energia, obrigando novos projetos renováveis a competir em preço com as usinas a carvão existentes em mercados de eletricidade parcialmente desenvolvidos. A mudança desencadeou uma corrida para antecipar instalações, mas gerou incerteza sobre o ritmo de crescimento futuro.
Richard Black, editor do relatório da Ember, explicou a influência global da China.
A China é o motor. E está mudando o cenário energético não apenas dentro do país, mas também em países de todo o mundo.
Enquanto a China acelera sua transição energética, os Estados Unidos seguiram na direção oposta sob o governo Trump, eliminando o apoio federal às energias renováveis e promovendo as exportações de combustíveis fósseis. Essa divergência cria um contraste marcante na liderança climática global. Enquanto Washington se retirou das negociações climáticas internacionais como participante e passou a comparecer como observador, Pequim se posicionou como parceira confiável na cooperação multilateral.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, liderou uma delegação a Pequim no verão de 2025 para coordenar a política climática antes da cúpula da Cop30 no Brasil. A China afirmou que trabalhará com a União Europeia para alcançar resultados ambiciosos na conferência climática, embora persistam tensões comerciais relacionadas às exportações chinesas de veículos elétricos e baterias.
Resta saber se a China reforçará seus compromissos climáticos em sua contribuição nacionalmente determinada revisada, prevista para este ano. Segundo o Climate Action Tracker, as políticas atuais levariam o aquecimento global a cerca de 4 graus Celsius, embora as emissões talvez já tenham atingido o pico em 2025. Para alinhar-se à meta de 1,5 grau do Acordo de Paris, a China teria de reduzir as emissões em 30% até 2035, uma redução considerada improvável por especialistas diante das tendências atuais.
O essencial
- O setor de energia limpa da China movimentou 15,4 trilhões de yuans (US$ 2,1 trilhões) em 2025, o equivalente a 11,4% do PIB, e respondeu por mais de 90% do crescimento dos investimentos
- A capacidade eólica e solar mais que dobrou entre 2022 e 2024, chegando a 1.408 gigawatts e superando a capacidade do carvão no início de 2025
- A China instalou 315 gigawatts de energia solar e 119 gigawatts de energia eólica em 2025, mais do que o restante do mundo combinado
- O país atingiu em 2024, seis anos antes do previsto, sua meta de capacidade de energia renovável para 2030
- Apesar do crescimento das renováveis, a China colocou em operação 78 gigawatts de nova capacidade de geração a carvão em 2025, e outros 290 gigawatts já foram autorizados ou estão em construção
- Fabricantes chineses produzem 80% dos painéis solares e 60% das turbinas eólicas do mundo, reduzindo os custos entre 60% e 90% desde 2010
- Os investimentos em energia limpa chegaram a US$ 625 bilhões em 2024, o equivalente a 31% do total global
- Sem o crescimento da energia limpa, o PIB da China teria avançado apenas 3,5% em 2025, em vez dos 5,0% registrados






