A aposta da China na "moeda forte": Xi Jinping promove o yuan para desafiar o domínio do dólar em meio à incerteza global

11 min de leitura
A aposta da China na "moeda forte": Xi Jinping promove o yuan para desafiar o domínio do dólar em meio à incerteza global

Um discurso oportuno em meio à turbulência dos mercados

Quando a principal revista ideológica do Partido Comunista Chinês publicou declarações do presidente Xi Jinping feitas originalmente em 2024, o momento pareceu calculado para tirar proveito da aguda instabilidade financeira. O dólar havia caído ao menor nível em quatro anos ante uma cesta das principais moedas, pressionado por políticas comerciais erráticas e ameaças à independência institucional por parte do governo Trump. Os preços do ouro haviam disparado para recordes acima de US$ 5.500 a onça, enquanto investidores buscavam proteção fora dos ativos tradicionais dos Estados Unidos. A desvalorização do dólar se aproximou de 11% ante a cesta dos principais parceiros comerciais dos Estados Unidos desde a posse de Trump, refletindo a preocupação generalizada com os rumos da política econômica americana. Nesse cenário de sentimento que analistas descrevem como "Venda América", as palavras de Xi delinearam uma visão para transformar o renminbi de moeda nacional em uma potência global.

Conteúdo
  1. Um discurso oportuno em meio à turbulência dos mercados
  2. O projeto de uma moeda poderosa
  3. Construção de uma infraestrutura financeira alternativa
  4. Moeda digital e sistemas internacionais
  5. Avanços na liquidação do comércio
  6. Os limites do controle
  7. Estratégia geopolítica e declínio gradual
  8. Cenários futuros e obstáculos persistentes
  9. Principais pontos

Nas páginas da Qiushi, Xi fez uma pergunta retórica que definiu seu objetivo estratégico. Perguntou o que caracteriza uma potência financeira e respondeu que ela precisa de uma moeda forte, amplamente usada no comércio internacional, nos investimentos e nos mercados de câmbio, e que tenha o status de moeda de reserva global. Essa definição contesta diretamente a posição ocupada pelo dólar desde que o Acordo de Bretton Woods estabeleceu sua supremacia, há mais de oito décadas.

A publicação dessas declarações coincide com um período de vulnerabilidade incomum para a hegemonia financeira americana. As políticas tarifárias do presidente Donald Trump abalaram a confiança no crescimento econômico dos Estados Unidos, enquanto sua decisão de indicar Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve, após repetidos confrontos com o atual presidente, Jerome Powell, trouxe nova incerteza à política monetária. A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, defendeu abertamente que o euro assuma um papel maior nas finanças globais, refletindo o desejo mais amplo de diversos países de reduzir a dependência do dólar.

A China acompanha há mais de uma década como esses acontecimentos criam oportunidades que vem buscando. Desde 2010, Pequim promove a internacionalização do renminbi, mas os avanços foram limitados enquanto o dólar manteve sua aura de invencibilidade. Agora, com a participação do dólar nas reservas cambiais globais caindo de 71% em 2000 para cerca de 57% atualmente, e a do renminbi subindo para 2,4%, os líderes chineses percebem uma oportunidade para acelerar sua campanha.

Publicidade

O projeto de uma moeda poderosa

A visão de Xi se apoia em três pilares institucionais que sustentariam o status de moeda de reserva. Primeiro, a China precisa de um banco central poderoso, capaz de implementar uma política monetária eficaz e atrair fluxos globais de capital. Segundo, o país deve desenvolver instituições financeiras competitivas internacionalmente e capazes de operar sem entraves além das fronteiras. Terceiro, cidades como Xangai e Shenzhen precisam se transformar em verdadeiros centros financeiros internacionais, capazes de influenciar os preços globais e atrair investimentos contínuos do exterior.

Analistas observam que alcançar esses objetivos exigiria mudanças fundamentais na estrutura financeira da China. O país teria de permitir que o renminbi flutuasse livremente de acordo com as forças do mercado, em vez de fixar sua cotação diariamente pelo banco central, e autorizar a circulação de capital entre países sem aprovação do governo. Essa liberalização enfraqueceria o modelo de comando e controle que orienta a gestão econômica do Partido Comunista, criando um paradoxo no cerne das ambições monetárias do país.

Esse plano representa mais do que uma ambição simbólica. Ele sinaliza uma mudança em relação à antiga relutância de Pequim em contestar abertamente o domínio do dólar. Durante anos, a China se beneficiou enormemente do sistema global vigente, embora se ressentisse discretamente da capacidade de Washington de usar a infraestrutura financeira como arma por meio de sanções. O congelamento das reservas cambiais da Rússia em 2022 demonstrou a vulnerabilidade das economias dependentes do dólar e acelerou os esforços da China para buscar alternativas que funcionem independentemente dos sistemas controlados pelos Estados Unidos.

No entanto, a distância entre a ambição e a realidade continua grande. Segundo dados do Fundo Monetário Internacional, o renminbi representa aproximadamente 1,93% das reservas cambiais globais, ante 57% do dólar e 20% do euro. No financiamento do comércio global, o yuan ultrapassou brevemente o euro no ano passado e se tornou a segunda moeda mais usada, mas sua fatia de 5,8% do mercado é pequena diante do domínio de 82% do dólar.

Publicidade

Construção de uma infraestrutura financeira alternativa

Moeda digital e sistemas internacionais

A China construiu uma arquitetura financeira paralela para reduzir a dependência de sistemas baseados no dólar. No centro dela está o Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços (CIPS), uma alternativa à rede de mensagens SWIFT, que domina o sistema bancário internacional. Nos últimos meses, o CIPS se expandiu para centros financeiros offshore na África, no Oriente Médio e na Ásia Central. O Standard Bank, maior credor da África em ativos, tornou-se o primeiro do continente a se conectar diretamente ao CIPS, permitindo que empresas liquidem pagamentos com a China em renminbi, sem conversão para dólares.

Complementando o CIPS está o yuan digital, conhecido como Pagamento Eletrônico em Moeda Digital (DCEP). O Banco Popular da China liderou testes em larga escala dessa moeda digital de banco central, que opera em uma estrutura de dois níveis, permitindo que bancos comerciais distribuam carteiras digitais aos usuários finais. O sistema possibilita transações sem conexão à internet por meio de comunicação por campo de proximidade e foi integrado a plataformas de pagamento existentes, como Alipay e WeChat Pay.

Os acordos de swap cambial são outro componente dessa estratégia. Pequim firmou acordos desse tipo com cerca de 50 países, permitindo que bancos centrais troquem moedas locais por yuans quando necessário. Esses swaps fornecem liquidez essencial a países sujeitos a sanções dos Estados Unidos, como Rússia e Irã, e também apoiam parceiros comerciais como Argentina, Paquistão e Turquia. O mecanismo permite que o comércio bilateral contorne totalmente a conversão para dólares, com liquidação em moedas locais ou em renminbi.

Publicidade

Avanços na liquidação do comércio

Os avanços mais concretos na internacionalização do renminbi ocorreram na liquidação do comércio. Quase um terço dos US$ 6,2 trilhões do comércio global da China já é liquidado em yuans, ante 20% em 2022. Ao incluir todos os pagamentos transfronteiriços, como compras de títulos e investimentos estrangeiros, a participação do yuan sobe para 53%. Em 2023, a moeda ultrapassou o dólar pela primeira vez no comércio da China.

Acordos bilaterais se multiplicaram pelo Sul Global. Brasil e China agora liquidam vendas de soja usando o real e o yuan. Os Emirados Árabes Unidos e a China comercializam gás natural liquefeito em yuans. Índia e Rússia ampliaram o uso de rúpias e rublos no comércio bilateral. O comércio de energia entre Rússia e China ocorre agora predominantemente em renminbi, uma necessidade imposta pelas sanções ocidentais que, ainda assim, impulsionou os objetivos monetários de Pequim.

Os empréstimos concedidos pela China ao exterior também passaram a ser denominados mais frequentemente em yuans. Os ativos em yuan mantidos no exterior por bancos chineses quadruplicaram em cinco anos, chegando a US$ 480 bilhões, uma parcela crescente da carteira de empréstimos de cerca de US$ 1 trilhão da Iniciativa Cinturão e Rota. Países como Quênia, Angola e Etiópia converteram dívidas existentes em dólares em obrigações em yuans para aproveitar taxas de juros de 200 a 300 pontos-base abaixo das praticadas em dólares.

Publicidade

Os limites do controle

Apesar desses avanços, limitações estruturais impedem que o renminbi alcance o verdadeiro status de moeda de reserva. A China mantém controles rígidos de capital que limitam o livre fluxo de dinheiro para dentro e para fora do país. Transações transfronteiriças exigem aprovação do governo, e o Banco Popular da China administra diariamente a taxa de câmbio dentro de estreitas bandas de negociação. Essa conta de capital fechada contraria os requisitos de uma moeda de reserva, que precisa ser plenamente conversível e flutuar livremente para atrair investidores globais em busca de liquidez e estabilidade.

A aversão do Partido Comunista Chinês ao risco financeiro cria uma tensão fundamental. A liberalização plena exporia o sistema financeiro doméstico a ataques especulativos e reduziria a capacidade de Pequim de direcionar o crédito na economia. Atualmente, bancos estatais canalizam capital de acordo com prioridades políticas, um mecanismo ao qual o partido não está disposto a renunciar. Sem sistemas jurídicos transparentes, mercados financeiros profundos e líquidos e conversibilidade plena, o renminbi não pode funcionar como uma verdadeira reserva de valor para bancos centrais do mundo todo.

Analistas sugerem que Pequim prefere essa abordagem controlada. Ao manter uma supervisão rígida e ampliar a liquidação comercial, a China obtém os benefícios de reduzir sua exposição ao dólar sem a volatilidade dos mercados de capitais abertos. A estratégia prioriza a utilidade transacional para o comércio, em vez da profundidade dos mercados financeiros necessária para alcançar o status de moeda de reserva.

Publicidade

Estratégia geopolítica e declínio gradual

A estratégia da China parece não ter como objetivo derrubar o dólar imediatamente, mas se preparar para um longo período de fragmentação. Ao incorporar o renminbi ao comércio com países sancionados e economias em desenvolvimento, Pequim cria uma rede de relações bilaterais capaz de resistir a um possível desacoplamento futuro dos sistemas financeiros ocidentais. Isso funciona como uma proteção contra cenários em que a própria China possa enfrentar sanções coordenadas, especialmente em relação a Taiwan ou a outros focos de tensão.

Enquanto isso, o declínio do dólar segue o que alguns analistas descrevem como uma trajetória de desgaste gradual, e não de colapso repentino. Os bancos centrais dobraram as compras de ouro desde 2022, diversificando seus ativos para além do dólar, enquanto a China reduziu suas reservas em títulos do Tesouro americano ao menor nível desde 2008, agora abaixo de US$ 731 bilhões. Essas medidas refletem a perda de confiança na estabilidade política e na gestão fiscal dos Estados Unidos, cuja dívida nacional ultrapassa US$ 38 trilhões, com quase metade precisando ser refinanciada nos próximos dois anos.

Comentários recentes do presidente Trump, que acolheu a desvalorização do dólar ao afirmar que ela torna as exportações dos Estados Unidos mais competitivas, alarmaram ainda mais os investidores estrangeiros. Embora o secretário do Tesouro, Scott Bessent, tenha reafirmado posteriormente o compromisso com uma política de dólar forte, a contradição evidencia a imprevisibilidade das políticas que impulsiona a diversificação.

Publicidade

Cenários futuros e obstáculos persistentes

A indicação de Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve acrescenta novas variáveis. Warsh ganhou reputação de defensor rigoroso do combate à inflação durante seu período anterior no Fed, embora recentemente tenha moderado suas posições para se alinhar às demandas por juros mais baixos. Sua possível liderança coincide com especulações sobre o Acordo de Mar-a-Lago, um plano teórico de desvalorização controlada do dólar elaborado por Stephen Miran, assessor econômico de Trump. Essa desvalorização administrada poderia tornar as exportações mais competitivas, mas corre o risco de provocar uma fuga de capitais dos mercados dos Estados Unidos em um momento delicado para o financiamento do governo.

Para a China, o objetivo imediato continua sendo ampliar gradualmente o uso do renminbi, não substituir o dólar. A participação da moeda nos pagamentos do comércio global cresceu de 1,9% para 8,4% desde 2020, e seu uso no comércio bilateral continua aumentando. Mas, sem as bases institucionais de mercados de capitais abertos e transparência jurídica, ela serve principalmente como moeda de liquidação comercial, e não como ativo de reserva para investimentos.

Os países do BRICS continuam explorando sistemas de pagamento compartilhados e possíveis moedas digitais capazes de contornar tanto o dólar quanto o SWIFT. China e Rússia promovem essas alternativas, embora Trump tenha ameaçado impor tarifas de 100% a qualquer iniciativa de moeda do BRICS. Essas tensões sugerem que o sistema financeiro global está entrando em uma fase de multipolaridade contestada, na qual o dólar mantém sua predominância, mas perde espaço nas margens para alternativas regionais.

Principais pontos

  • O discurso de Xi Jinping de 2024, publicado na revista Qiushi, apresenta as ambições de fazer do renminbi uma moeda de reserva global, forte e amplamente usada no comércio internacional.
  • O dólar caiu ao menor nível em quatro anos em meio à preocupação com as políticas comerciais do governo Trump e as mudanças na liderança do Federal Reserve, abrindo espaço para a promoção do renminbi.
  • Quase 33% dos US$ 6,2 trilhões do comércio da China já são liquidados em yuans, e os pagamentos transfronteiriços chegam a 53%, embora a moeda represente apenas 2,4% das reservas globais.
  • A China expandiu o Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços (CIPS) para a África e o Oriente Médio e avançou no desenvolvimento do yuan digital (DCEP) para reduzir a dependência do SWIFT e dos sistemas baseados no dólar.
  • Controles rígidos de capital, taxas de câmbio administradas e contas de capital fechadas impedem que o renminbi alcance a conversibilidade plena necessária para se tornar uma verdadeira moeda de reserva.
  • Bancos centrais do mundo todo estão diversificando suas reservas com ouro e reduzindo a exposição ao dólar. A China reduziu suas reservas em títulos do Tesouro americano para menos de US$ 731 bilhões, o menor nível desde 2008.
Compartilhar esta matéria

Você também pode gostar