Murais de antiga tumba chinesa revelam o cotidiano na dinastia Tang e um misterioso estrangeiro loiro

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Murais de antiga tumba chinesa revelam o cotidiano na dinastia Tang e um misterioso estrangeiro loiro

Descoberta inesperada sob uma estrada em Shanxi

Em 2018, equipes de obras que trabalhavam na reconstrução de uma estrada em uma encosta de Taiyuan, capital da província de Shanxi, no norte da China, desenterraram algo que despertaria o interesse de arqueólogos e historiadores. Durante escavações ao longo da antiga estrada Jinci, nos arredores da cidade, os trabalhadores encontraram alvenaria de tijolos que indicava a presença de uma estrutura soterrada. Arqueólogos do Instituto de Pesquisa da Cidade Antiga de Jinyang, ligado ao Instituto de Pesquisa e Proteção de Relíquias Culturais de Taiyuan, foram imediatamente chamados ao local. O que encontraram foi uma tumba excepcionalmente bem preservada, que remonta ao século VIII. Suas paredes internas eram adornadas com murais vibrantes que permaneceram escondidos dos olhos humanos por quase treze séculos.

Conteúdo
  1. Descoberta inesperada sob uma estrada em Shanxi
  2. O estilo artístico de uma época
  3. Cenas do cotidiano na dinastia Tang
  4. O estrangeiro loiro e barbado da Ásia Central
  5. Conexões com a Rota da Seda e intercâmbio cultural
  6. Importância para a arqueologia e a compreensão histórica
  7. Principais pontos

De acordo com relatos oficiais da Xinhua, as escavações revelaram uma tumba de câmara única, feita de tijolos, com uma passagem inclinada que levava a um corredor de entrada e a uma porta decorada. Embora modesta em tamanho, a estrutura guardava tesouros muito mais valiosos do que ouro ou jade. Um epitáfio encontrado na câmara funerária forneceu informações históricas essenciais: identificou os ocupantes como um homem de 63 anos, morto em 736 d.C., e sua esposa. O casal foi sepultado junto naquele mesmo ano, em uma estrutura que acabaria por proporcionar uma das descobertas arqueológicas mais importantes sobre o cotidiano durante a dinastia Tang.

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O estilo artístico de uma época

Os murais cobrem quase todas as superfícies imagináveis da tumba, com exceção do chão, e apresentam uma abordagem artística característica conhecida como estilo das “figuras sob a árvore”. Essa técnica, que surgiu durante a dinastia Han e permaneceu especialmente popular na região de Shanxi ao longo do período Tang, retrata figuras humanas bidimensionais realizando diversas atividades sob árvores representadas artisticamente. As pinturas usam contornos pretos marcantes e pouco sombreamento sobre fundos brancos impecáveis, criando uma estética visual sóbria, mas elegante, característica de boa parte da arte secular da época.

Long Zhen, diretor do Instituto de Pesquisa da Cidade Antiga de Jinyang, observou semelhanças notáveis entre esses murais e os encontrados na tumba de Wang Shenzi, governante do século IX e fundador do reino de Min durante o período posterior das Cinco Dinastias e Dez Reinos. Os paralelos estilísticos são tão evidentes que os pesquisadores especulam que o mesmo artista renomado possa ter trabalhado nas duas tumbas, apesar das décadas que separam sua criação. Essa possível ligação indicaria a existência de muralistas profissionais que viajavam entre encomendas ou mantinham ateliês a serviço de famílias da elite ao longo de gerações. O teto abobadado da câmara se afasta das cenas terrenas retratadas abaixo e apresenta o que parece ser um dragão ou uma fênix, criaturas míticas que simbolizam poder, autoridade e imortalidade na cosmologia tradicional chinesa.

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Cenas do cotidiano na dinastia Tang

Ao contrário de muitas tumbas imperiais ou aristocráticas, que costumam retratar grandes acontecimentos históricos, criaturas míticas em palácios celestiais ou cenas da vida na corte, esta câmara funerária oferece um retrato inesperadamente íntimo do cotidiano das classes letradas ou da pequena aristocracia. Os murais apresentam uma série de cenas domésticas em que homens e mulheres realizam tarefas agrícolas e domésticas rotineiras, essenciais para a vida na China do século VIII. Na parede sudeste, cenas detalhadas mostram homens empurrando pesadas mós para moer grãos, enquanto mulheres operam moinhos de pedra menores para produzir farinha fina para cozinhar.

Outros painéis retratam homens socando arroz com pilões de madeira e fazendo macarrão à mão, atividades essenciais para o preparo e o armazenamento de alimentos em uma época anterior aos métodos modernos de conservação. Particularmente intrigantes são as representações inovadoras da retirada de água: mulheres usam o que parece ser um engenhoso mecanismo com laranjas presas a uma árvore para tirar água de um poço profundo. Esse detalhe específico sugere que os donos da tumba possuíam terras com pomares e recorriam a soluções engenhosas para os desafios cotidianos.

Outras cenas mostram uma mulher com um vestido de cores vivas conduzindo quatro cavalos, enquanto um homem barbado está por perto com um chicote na mão, sugerindo que o casal mantinha um rebanho considerável. Um homem idoso aparece repetidamente pela câmara, retratado em diferentes momentos da vida: estendendo a mão para uma cobra, carregando um machado e feixes de lenha, segurando tigelas cerimoniais junto ao peito e apontando para árvores floridas. Os arqueólogos acreditam que essas figuras recorrentes representam os próprios donos da tumba, retratados em diferentes etapas da vida, e não trabalhadores anônimos ou representações genéricas da vida após a morte.

Victor Xiong, professor de história da Universidade de Western Michigan que examinou as descobertas, contextualizou a importância dessas representações.

Os murais apresentam representações inéditas de tarefas cotidianas e do trabalho agrícola durante a dinastia Tang.

A especificidade das atividades, incluindo técnicas particulares de processamento de grãos e o singular dispositivo de elevação de água com laranjas, sugere que não se trata de cenas genéricas, mas de retratos fiéis das rotinas e responsabilidades que definiam a vida terrena do casal.

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O estrangeiro loiro e barbado da Ásia Central

Entre as cenas familiares da vida doméstica dos chineses han, há uma figura que se distingue imediatamente das demais por sua aparência física marcante. Pintado na parede sudoeste, um homem de cabelos claramente loiros e barba cheia conduz camelos e cavalos por uma paisagem montanhosa pontilhada de árvores. Seus traços faciais, suas roupas e seu porte diferem muito dos das outras figuras da tumba, identificando-o de imediato como estrangeiro aos olhos da sociedade chinesa da dinastia Tang.

Com base em suas características físicas e vestimentas, especialistas identificaram o indivíduo como um “ocidental”, muito provavelmente um sogdiano da Ásia Central. Os sogdianos eram um antigo povo iraniano que formou prósperas comunidades de comerciantes no território que hoje corresponde ao Tajiquistão e ao Uzbequistão, sobretudo nas proximidades da cidade-oásis de Samarcanda. No auge da dinastia Tang, esses comerciantes habilidosos atuavam como os principais intermediários na vasta rede de rotas comerciais conhecida coletivamente como Rota da Seda, promovendo a troca de mercadorias, ideias e cultura entre a China, a Índia, a Pérsia e o Império Bizantino.

A presença desse comerciante da Ásia Central em uma tumba de uma província chinesa sugere a existência de importantes vínculos culturais e comerciais que iam muito além da região de Taiyuan. Registros históricos chineses e extensas evidências arqueológicas indicam que alguns sogdianos tinham cabelos e olhos claros, inclusive loiros, resultado de milênios de miscigenação entre populações indo-iranianas, túrquicas, tocarianas e diversos povos nômades das estepes da Ásia Central. Estudos recentes de DNA antigo em sítios arqueológicos como Samarcanda e Panjikent confirmam essa ancestralidade complexa, que combina componentes genéticos da Eurásia ocidental, vindos das estepes e do planalto iraniano, com elementos da Eurásia oriental.

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Conexões com a Rota da Seda e intercâmbio cultural

A representação do comerciante sogdiano segurando as rédeas de um camelo asiático e de vários cavalos remete diretamente às redes comerciais que marcaram o caráter cosmopolita e o alcance internacional da dinastia Tang. Durante essa era de ouro, que durou de 618 a 907 d.C., o Império Chinês atingiu sua maior extensão territorial e se tornou um centro do comércio internacional, atraindo comerciantes, diplomatas e missionários religiosos de todo o mundo conhecido. Conhecidos em toda a Ásia por seu domínio de idiomas, suas habilidades matemáticas e seu talento comercial, os sogdianos atuavam como tradutores, comerciantes, prestamistas e intermediários culturais em rotas que se estendiam do mar Mediterrâneo ao oceano Pacífico.

Escrita com um alfabeto próprio derivado do aramaico, a língua sogdiana serviu por séculos como língua franca do comércio na Ásia Central, enquanto sua arte refletia uma sofisticada combinação de influências greco-budistas, persas e chinesas. A presença dessa figura em um contexto funerário particular sugere que as interações com comerciantes estrangeiros eram comuns o suficiente e tinham importância econômica a ponto de serem incorporadas permanentemente à visão que os donos da tumba tinham da vida após a morte. Murais semelhantes, com figuras estrangeiras, foram descobertos em outras províncias chinesas, como Xinjiang, Shandong, Shaanxi e Gansu. Isso indica que a presença de indivíduos não han na arte da dinastia Tang não era exclusiva desta tumba de Shanxi, mas fazia parte de um padrão mais amplo de registro cultural que refletia a diversidade populacional da dinastia.

Perto da entrada da tumba, figuras retratadas como guardiões ou porteiros vestem túnicas amarelas características e trazem espadas presas à cintura, sugerindo as funções de proteção atribuídas a esses personagens nas tradições funerárias da dinastia Tang. Eles aparecem ao lado de porteiros representados segurando objetos cerimoniais ou o próprio caixão, compondo uma recepção formal para os visitantes da vida após a morte e protegendo o falecido de danos espirituais.

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Importância para a arqueologia e a compreensão histórica

O excepcional estado de conservação desses murais oferece aos arqueólogos uma oportunidade extraordinariamente rara de estudar as técnicas artísticas, a composição dos pigmentos e as estruturas sociais da China do século VIII. A tumba se soma a outras descobertas importantes, como as mundialmente famosas Grutas de Mogao, perto de Dunhuang, onde murais que se estendem por cerca de 25 quilômetros demonstram a riqueza da arte budista e da devoção religiosa ao longo da Rota da Seda. Mas, ao contrário dos temas predominantemente religiosos que ocupam as grutas de Mogao, esta tumba de Shanxi se concentra quase exclusivamente na vida secular, oferecendo informações valiosas sobre as rotinas, as roupas e os arranjos domésticos de proprietários de terras da classe média ou de famílias da pequena aristocracia, em vez de cortes imperiais ou comunidades monásticas.

A descoberta desafia antigas suposições sobre a homogeneidade cultural da sociedade provincial da dinastia Tang e demonstra de forma conclusiva que até mesmo funcionários ou proprietários de terras relativamente modestos mantinham vínculos diretos ou indiretos com redes de comércio internacional que se estendiam por milhares de quilômetros. A inclusão do comerciante sogdiano ao lado de cenas domésticas íntimas sugere que o comércio exterior estava tão integrado à vida econômica cotidiana que merecia ser representado na morada eterna dos falecidos.

À medida que os pesquisadores continuam analisando as misturas específicas de pigmentos, as técnicas de pincelada e as soluções de composição usadas nos murais, cada detalhe acrescenta nuances e profundidade à compreensão de como os chineses da dinastia Tang viam a si mesmos e seu lugar em um mundo vasto e interconectado. A tumba é uma prova material de que a globalização, frequentemente considerada um fenômeno exclusivamente moderno, impulsionado pela tecnologia digital e pelas viagens de avião, tem raízes antigas que remontam a mais de um milênio e conectam pessoas comuns em diferentes continentes pelas linguagens universais do comércio e da arte.

Principais pontos

  • A tumba foi descoberta em 2018 durante obras rodoviárias em Taiyuan, na província de Shanxi, embora os detalhes da descoberta só tenham sido divulgados recentemente
  • Um epitáfio identifica o dono da tumba como um homem de 63 anos que morreu em 736 d.C., em meados da dinastia Tang, e foi sepultado ao lado da esposa em uma câmara de tijolos com uma passagem inclinada
  • Murais cobrem quase todas as superfícies no estilo das “figuras sob a árvore”, popular na região, e retratam tarefas cotidianas, como moer grãos, fazer macarrão, socar arroz e buscar água com dispositivos inovadores
  • Uma figura retratada de maneira singular, com cabelos loiros e barba, parece representar um comerciante sogdiano da Ásia Central, mais especificamente da região que hoje corresponde ao Tajiquistão e ao Uzbequistão, o que indica conexões extensas com a Rota da Seda
  • O estilo artístico é muito semelhante ao dos murais da tumba de Wang Shenzi, do fim do século IX, o que levanta a possibilidade de que as duas obras tenham sido criadas pelo mesmo pintor renomado
  • A descoberta oferece raras evidências visuais do cotidiano no século VIII e documenta o intercâmbio cultural entre os chineses han e os comerciantes da Ásia Central no auge do cosmopolitismo da dinastia Tang
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