Escala histórica sinaliza expansão estratégica de Pequim no Hemisfério Ocidental
O navio-hospital Silk Road Ark, da Marinha do Exército de Libertação Popular (ELP) da China, chegou na última terça-feira ao porto de Montevidéu, no Uruguai, para uma escala técnica de quatro dias. Foi a primeira visita de um navio militar chinês a essa nação sul-americana, estrategicamente situada entre Brasil e Argentina. A escala, noticiada pela agência estatal chinesa Xinhua, chamou bastante atenção por ocorrer em meio à intensificação da disputa geopolítica entre China e Estados Unidos por influência na América Latina.
Conteúdo
- Escala histórica sinaliza expansão estratégica de Pequim no Hemisfério Ocidental
- Importância estratégica do Uruguai na disputa
- Estratégia naval da China: de navios-hospital a ambições globais
- Resposta dos EUA à crescente influência chinesa
- Fundamentos econômicos da disputa estratégica
- O futuro da disputa entre EUA e China na América Latina
- Principais pontos
Analistas interpretaram a visita inaugural como um sinal de que os esforços de Pequim para ampliar seus intercâmbios militares no Hemisfério Ocidental não foram afetados pela recente incursão militar dos Estados Unidos na Venezuela, no início deste mês. A visita naval chinesa ocorreu em um período particularmente delicado para as relações regionais, menos de duas semanas após os EUA capturarem o líder venezuelano Nicolás Maduro, como parte das tentativas do presidente Donald Trump de restaurar a influência estratégica de Washington na região.
"A escala indica que os intercâmbios navais da China com países sul-americanos não foram afetados", afirmou Cui Shoujun, professor e vice-diretor do Instituto de Estudos de Desenvolvimento Internacional da Universidade Renmin. A declaração ressalta a determinação das autoridades chinesas em manter sua aproximação militar apesar dos esforços recentes dos EUA para reafirmar sua hegemonia nas Américas.
Importância estratégica do Uruguai na disputa
A localização estratégica do Uruguai entre as duas maiores economias da América do Sul, Brasil e Argentina, confere ao país particular importância econômica e geopolítica. O país ganhou relevância à medida que a China aprofunda seu alinhamento econômico e diplomático na região. Nos últimos anos, o Uruguai aderiu à Iniciativa Cinturão e Rota da China e estabeleceu o que Pequim descreve como uma "parceria estratégica abrangente" com a potência asiática.
Durante uma reunião com o vice-primeiro-ministro chinês Ding Xuexiang, em novembro passado, o presidente uruguaio Yamandú Orsi manifestou disposição para aprofundar a coordenação com a China e apoiar o que chamou de "sistema internacional de comércio livre e aberto e multilateralismo". Esse alinhamento com a visão chinesa ocorre enquanto o presidente Trump faz da hegemonia dos EUA no Hemisfério Ocidental uma prioridade de política externa. A estratégia de segurança nacional do governo pede explicitamente que se limite a presença de países de fora da região.
"Os Estados Unidos acreditam que o alinhamento do México com o império americano é automático. Não acho que seja tão simples", comentou Ricardo Monreal, líder parlamentar do partido governista mexicano Morena, refletindo sentimentos mais amplos na região sobre a resistência à dominação externa.
Estratégia naval da China: de navios-hospital a ambições globais
O Silk Road Ark não é um navio militar qualquer: é um dos três navios-hospital chineses de 10 mil toneladas, que oferecem atendimento médico e são enviados regularmente desde 2010 em missões "Harmony" pela África, pelas Américas, pela Ásia e pelo Pacífico. Essa missão específica, batizada de "Harmony 2025", começou em setembro passado e representa a estratégia chinesa de construir influência e relações internacionais por meio da diplomacia médico-militar.
Com uma Marinha de mais de 370 embarcações, a maior do mundo em número de cascos, a China conduz um ambicioso esforço de modernização sob o presidente Xi Jinping, com o objetivo de transformar o Exército de Libertação Popular em uma "força militar de classe mundial", capaz de realizar operações globais. Xi instruiu o ELP a alcançar esse patamar até 2049, com metas intermediárias que incluem desenvolver capacidades para a reunificação com Taiwan até 2027 e concluir a modernização até 2035.
Sob a liderança de Xi, as Forças Armadas chinesas deixaram de ter foco predominantemente terrestre e passaram a priorizar os domínios marítimo, aéreo, espacial, cibernético e eletromagnético. A Marinha do ELP busca especificamente desenvolver capacidade de "águas azuis", que permita operar globalmente, muito além das águas costeiras tradicionais da China. Entre 2014 e 2018, a China lançou navios militares com uma tonelagem total superior à das frotas de muitas das principais marinhas do mundo somadas.
A China realizará ativamente intercâmbios e cooperação militares com países [da América Latina e do Caribe], ampliará os intercâmbios amistosos entre autoridades de defesa e lideranças militares dos dois lados, fortalecerá o diálogo sobre políticas e criará mecanismos de reuniões de trabalho.
Essa declaração, extraída do Documento de Política da China para a América Latina e o Caribe, publicado em dezembro passado, explicita as intenções de Pequim de aprofundar os laços militares com os países da região. O documento ressaltou que a relação entre China e América Latina "não está subordinada a nenhum terceiro", contestando diretamente a interpretação da Doutrina Monroe que historicamente definiu as relações dos EUA com o hemisfério.
Resposta dos EUA à crescente influência chinesa
Os Estados Unidos responderam à expansão da presença chinesa na América Latina com uma combinação de pressão diplomática, iniciativas econômicas e demonstrações de força militar. Após anos de negligência na região, segundo autoridades americanas, o governo Trump tem buscado "reafirmar e fazer valer a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental". Como afirma a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA: "Impediremos que concorrentes de fora do hemisfério posicionem forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou possuam ou controlem ativos estrategicamente vitais, em nosso hemisfério."
Entre as medidas concretas dessa retomada de atenção estão planos para modernizar bases militares americanas próximas a projetos de infraestrutura chineses em expansão na região. O Pentágono anunciou uma possível venda de US$ 1,5 bilhão para modernizar instalações próximas ao meg porto da China no Peru, uma medida que, segundo autoridades, "não alteraria o equilíbrio militar regional", apesar de suas claras implicações estratégicas.
Autoridades americanas também manifestaram preocupação com a estratégia chinesa de Fusão Militar-Civil, que busca integrar sistematicamente tecnologias civis a aplicações militares. Como explicou um ex-funcionário dos EUA: "Os textos estratégicos chineses deixam claro que o objetivo da estratégia do Partido Comunista Chinês não é apenas adquirir poder e influência para a China no cenário mundial, mas, na verdade, deslocar o poder e a influência dos EUA para recuperar a posição e o papel geopolíticos centrais que a China acredita ter perdido por causa do imperialismo ocidental."
Essa disputa centrada em tecnologia se estende para além da América Latina, alcançando outras regiões onde China e Estados Unidos competem por influência. No Sudeste Asiático, por exemplo, o USS Cincinnati fez recentemente uma visita de amizade à Base Naval de Ream, no Camboja, a primeira vez que um navio de guerra da Marinha dos EUA atracou na instalação desde a conclusão de sua reforma financiada pela China. Da mesma forma, as Filipinas continuam reforçando suas capacidades militares com novas embarcações de patrulha, projetadas para conter a postura assertiva da China no Mar da China Meridional.
Fundamentos econômicos da disputa estratégica
A crescente presença militar chinesa na América Latina está profundamente ligada à expansão econômica do país na região por meio da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI, na sigla em inglês). Lançada pelo presidente Xi Jinping em 2013, a iniciativa ampliou seu foco original na Ásia para incluir a África, a Oceania e a América Latina, expandindo significativamente a influência econômica e política da China.
"A China teve bastante sucesso em redesenhar os mapas do comércio mundial de formas que colocam o país no centro, e não os EUA ou a Europa", explica David Sacks, especialista em relações entre EUA e China do Conselho de Relações Exteriores (CFR). Até o momento, 147 países, que representam dois terços da população mundial e 40% do PIB global, aderiram a projetos da BRI ou manifestaram interesse em fazê-lo.
Os custos estimados são impressionantes. A China já gastou cerca de US$ 1 trilhão em iniciativas relacionadas à BRI, e especialistas preveem que as despesas totais ao longo da iniciativa podem chegar a US$ 8 trilhões. Essa enorme infraestrutura de investimentos, que inclui portos, ferrovias, oleodutos e gasodutos e redes de telecomunicações, cria dependências e influência que vão além da economia e alcançam áreas estratégicas.
Para a China, a BRI cumpre vários objetivos: criar novas conexões comerciais, desenvolver mercados de exportação, aumentar a renda chinesa e exportar o excesso de capacidade produtiva do país. A iniciativa também ajuda a desenvolver as regiões ocidentais da China, historicamente negligenciadas em favor do litoral leste, e garante o abastecimento de energia a longo prazo vindo da Ásia Central e do Oriente Médio por rotas que as Forças Armadas dos EUA não conseguem interromper facilmente.
O futuro da disputa entre EUA e China na América Latina
Enquanto o Silk Road Ark reabastece em Montevidéu e se prepara para as próximas escalas, provavelmente no Peru e no Chile, antes de seguir para Papua-Nova Guiné, a disputa estratégica mais ampla entre China e Estados Unidos na América Latina não dá sinais de arrefecimento. A missão do navio-hospital chinês é apenas uma parte da abordagem multifacetada de Pequim para ampliar sua influência em uma região tradicionalmente dominada pelos Estados Unidos.
Os Estados Unidos tentaram contrabalançar os investimentos chineses em infraestrutura com iniciativas próprias. O presidente Joe Biden, em parceria com o Grupo dos Sete, lançou a Iniciativa Reconstruir um Mundo Melhor (B3W, na sigla em inglês), posteriormente rebatizada de Parceria para Infraestrutura e Investimento Global. No entanto, esses esforços enfrentaram dificuldades: apenas um ano após o anúncio da B3W, os compromissos somavam somente US$ 6 milhões, evidenciando o desafio de competir com os enormes recursos financeiros da China e seu horizonte de investimentos de longo prazo.
Os próprios países da região se veem em meio à disputa entre essas potências e buscam equilibrar as relações com China e Estados Unidos enquanto defendem seus interesses nacionais. O Brasil, por exemplo, mantém relações estreitas com ambas as potências como economia emergente e integrante do grupo BRICS, formado por países em desenvolvimento.
"Temos grande interesse em manter boas relações com os Estados Unidos, que isso fique claro", afirmou Celso Amorim, principal assessor do presidente brasileiro Lula. "Mas essas relações precisam se basear no respeito mútuo e ser conduzidas por meio do diálogo." Essa postura equilibrada reflete a complexa navegação diplomática exigida dos países latino-americanos no atual cenário geopolítico.
Principais pontos
- A primeira visita de um navio militar chinês ao Uruguai, com o navio-hospital Silk Road Ark, marca uma expansão significativa da presença militar de Pequim na América Latina
- A visita ocorre em meio à intensificação da disputa entre EUA e China por influência regional, pouco depois de uma operação militar americana na Venezuela
- O Uruguai fortaleceu seus laços econômicos e diplomáticos com a China, aderindo à Iniciativa Cinturão e Rota e estabelecendo uma parceria estratégica abrangente
- Os três navios-hospital chineses realizam regularmente missões "Harmony" pelo mundo desde 2010, combinando diplomacia médica e aproximação estratégica
- Os EUA voltaram a concentrar esforços no Hemisfério Ocidental, inclusive com a modernização de bases militares próximas a projetos chineses de infraestrutura
- Os investimentos da Iniciativa Cinturão e Rota na América Latina somam US$ 1 trilhão até agora, criando dependência econômica e influência estratégica
- Os países da região tentam equilibrar as relações com as duas potências enquanto defendem seus próprios interesses nacionais
- A China pretende desenvolver uma Marinha de "águas azuis", capaz de realizar operações globais, como parte de suas metas de modernização militar






