O K-pop entra na era da inteligência artificial

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A transformação digital da cultura idol

A inteligência artificial se consolidou como um componente fundamental da indústria do K-pop. As grandes agências de entretenimento já não veem essa tecnologia como um experimento futurista, mas como uma evolução necessária para a produção musical, o desenvolvimento de artistas e o engajamento dos fãs. Essa mudança ocorre três anos após a aceleração da comercialização global da IA generativa, que obrigou uma indústria conhecida pela perfeição impecável a se adaptar a uma nova realidade digital. A resposta das gigantes do entretenimento da Coreia do Sul foi rápida e abrange desde grupos pop virtuais com vocais gerados por computador até robôs humanoides capazes de executar coreografias complexas no palco.

Conteúdo
  1. A transformação digital da cultura idol
  2. Hybe e a mudança estratégica para a Enter-Tech
  3. SM Entertainment e a narrativa do metaverso
  4. JYP e YG atravessam a transição digital
  5. Plave e o sucesso comercial dos idols virtuais
  6. Além das telas: a ascensão dos idols robôs
  7. Como a IA fortalece o fandom
  8. Desafios de direitos autorais e soluções com blockchain
  9. Pontos principais

A integração da IA ao K-pop reflete uma estratégia nacional mais ampla. A Coreia do Sul está investindo agressivamente em infraestrutura digital, incluindo o compromisso de garantir 260 mil GPUs para apoiar o que líderes do setor chamam de "IA soberana". Essa enorme base computacional permite que empresas locais desenvolvam modelos próprios, em vez de depender exclusivamente de tecnologias estrangeiras. Com isso, a indústria do K-pop está aproveitando esses recursos para superar limitações físicas, reduzir custos de produção e criar novas formas de entretenimento que combinam criatividade humana e eficiência das máquinas. Essa transformação deu origem ao termo "Enter-Tech", uma fusão de entretenimento e tecnologia que rapidamente se torna o modelo de negócios padrão das grandes agências.

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Hybe e a mudança estratégica para a Enter-Tech

Entre as agências das "Big Four" do setor, a Hybe se posicionou como a mais agressiva na inovação tecnológica. A empresa adotou formalmente o termo "Enter-Tech" sob a liderança do presidente Bang Si-hyuk, que considera a IA essencial para a sobrevivência da indústria no longo prazo. No início de 2023, a Hybe adquiriu participação majoritária na Supertone, uma startup de áudio com IA. A aquisição deu à empresa acesso a ferramentas avançadas de síntese de voz e design de som, que logo foram colocadas em prática.

Uma demonstração marcante dessa tecnologia foi "Masquerade", o single de estreia de Midnatt, alter ego do artista Lee Hyun. A faixa usou IA para corrigir a pronúncia e a entonação em seis idiomas, incluindo coreano, inglês, japonês e espanhol. Isso permitiu um lançamento global simultâneo, com qualidade vocal próxima à de falantes nativos, sem que o artista precisasse gravar versões separadas para cada mercado. A IA também modificou o timbre de Lee para que ele interpretasse um trecho feminino, mantendo sua identidade vocal.

A Hybe ampliou seu portfólio virtual em junho de 2024, com a estreia do Syndi8. O grupo é formado por quatro integrantes, Canary, Next, Goyo e Raven, cujos vocais são inteiramente gerados por IA. O grupo existe em um universo fictício chamado Nansy Land, onde a voz é uma fonte de poder. Os coprodutores Deja e Han disseram que o projeto foi inspirado pela paixão por tecnologia e busca se conectar com fãs do mundo todo por meio de uma visão de mundo fantástica.

Não sei por quanto tempo artistas humanos serão os únicos capazes de satisfazer as necessidades e os gostos das pessoas. Isso está se tornando um fator-chave na minha atuação e uma estratégia para a Hybe.

Bang Si-hyuk fez essas declarações em entrevista à Billboard, enfatizando que a inovação tecnológica é crucial para superar os limites físicos dos artistas humanos. Ele também defendeu publicamente a construção de um consenso social sobre o uso ético da IA, pedindo que a sociedade se envolva com a tecnologia em vez de rejeitá-la. Kyogu Lee, fundador e CEO da Supertone, expressou opinião semelhante na conferência "Brainstorm AI Singapore", argumentando que a IA amplia as possibilidades criativas, em vez de substituir os artistas.

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SM Entertainment e a narrativa do metaverso

Enquanto a Hybe se concentrou em aquisições tecnológicas, a SM Entertainment adotou uma abordagem conceitual e narrativa para incorporar a IA. Já na década de 2010, o fundador Lee Soo-man apresentou sua visão de "um mundo de robôs e avatares". Essa filosofia se concretizou em 2020, com a estreia do grupo feminino Aespa. O conceito do grupo gira em torno de quatro integrantes humanas e seus avatares de IA correspondentes, conhecidos como "ae", que existem em uma narrativa ambientada no metaverso. Essa abordagem narrativa incorporou a inteligência artificial diretamente à identidade e à mitologia do grupo.

A estratégia da SM vai além dos videoclipes e alcança o ecossistema mais amplo de criação de conteúdo. A empresa tem explorado como a IA pode facilitar conexões mais profundas entre idols e fãs. Lee Soo-man pediu ao setor criativo que amplie a adoção da IA, argumentando que a IA generativa pode trazer nova energia ao entretenimento. Ele acredita que as tecnologias de IA e de chatbots estão revolucionando a velocidade da comunicação entre criadores e consumidores. No entanto, Lee também reconhece os desafios, sobretudo em relação à violação de direitos autorais e às perdas econômicas para os criadores. Para enfrentar esses riscos, ele defende a integração da tecnologia blockchain para proteger os direitos de propriedade intelectual, por meio de sistemas unificados de contratos inteligentes para o pagamento de royalties e a gestão de licenças de conteúdo.

O apoio do governo a iniciativas como essas cria um ambiente propício para tais experimentos. Com o Ministério das Pequenas e Médias Empresas e Startups colaborando ativamente com gigantes da tecnologia como a NVIDIA, há um esforço coordenado para construir uma base soberana de IA. Esse apoio permite que empresas como a SM assumam riscos criativos, sabendo que a infraestrutura tecnológica mais ampla está sendo modernizada para atender a aplicações de alta largura de banda e uso intensivo de IA.

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JYP e YG atravessam a transição digital

A JYP Entertainment entrou na corrida da IA mais tarde que suas concorrentes, mas recentemente sinalizou um compromisso sério. Em dezembro de 2024, a empresa rebatizou sua subsidiária JYP360 como Blue Garage, colocando a IA e a tecnologia de plataformas no centro de sua expansão comercial. Em setembro de 2025, a JYP anunciou oficialmente planos para desenvolver seus próprios artistas de IA e iniciou campanhas de recrutamento em larga escala para encontrar os profissionais necessários. Embora ainda não tenham surgido produtos concretos dessa reorganização, as mudanças estruturais indicam uma clara guinada rumo à integração digital.

A YG Entertainment adotou uma estratégia mais conservadora, baseada em parcerias. Em vez de investir pesado no desenvolvimento interno de IA, a YG usa sua subsidiária YG Plus para cuidar da distribuição de propriedades intelectuais já consolidadas e impulsionadas pela tecnologia. Um exemplo de destaque é o Plave, um grupo de idols virtuais de grande sucesso. Ao fazer parceria com a Vlast, startup responsável pelo Plave, a YG obtém acesso comercial ao mercado de idols virtuais e a dados valiosos, sem assumir os riscos tecnológicos diretos associados ao desenvolvimento.

Essa abordagem cautelosa reflete o sentimento de muitas empresas coreanas. Uma pesquisa do Ministério do Comércio, Indústria e Energia constatou que, embora 37,1% das empresas coreanas usem IA, muitas apontam a falta de profissionais qualificados e os altos custos de investimento como grandes obstáculos. O modelo da YG permite que a empresa participe do boom da IA e, ao mesmo tempo, reduza o impacto dessas barreiras específicas. A estratégia reflete a compreensão pragmática de que nem toda agência precisa desenvolver a tecnologia, mas todas precisam utilizá-la.

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Plave e o sucesso comercial dos idols virtuais

O Plave é um exemplo emblemático da viabilidade comercial dos idols virtuais. Desde sua estreia, em março de 2023, o grupo combina performances humanas com tecnologia de ponta. Artistas reais usam trajes de captura de movimento que traduzem seus movimentos em personagens 3D exibidos ao vivo. Em seguida, a IA aprimora esses movimentos, especialmente as expressões faciais, para superar o "vale da estranheza", que muitas vezes faz personagens digitais parecerem inquietantes ou sem vida.

Os resultados impressionam para os padrões tradicionais do K-pop. Em março de 2024, o Plave se tornou o primeiro grupo de idols virtuais a conquistar o primeiro lugar em um programa musical local, o "Show! Music Core", da MBC. Seu segundo EP, "Asterum: 134-1", liderou as paradas "Hot 100" e "Top 100" da Melon e vendeu mais de 560 mil cópias na primeira semana. O grupo também mostrou ser capaz de atrair público para eventos ao vivo. Os ingressos para um show para fãs no Olympic Hall, em abril de 2024, se esgotaram; depois, dois shows extras no Gocheok Sky Dome atraíram 40 mil fãs. Menos de dois anos após a estreia, o Plave se apresentou no KSPO Dome, amplamente considerado um palco dos sonhos para artistas coreanos, e iniciou sua primeira turnê pela Ásia.

Esse sucesso demonstra que os fãs estão dispostos a investir emocional e financeiramente em artistas que não existem no mundo físico. Ele confirma a hipótese de que a qualidade da performance e a força da narrativa podem superar a ausência física do idol. O modelo adotado pelo Plave, que combina talento artístico humano com aprimoramento digital, oferece um meio-termo entre grupos inteiramente humanos e criações totalmente geradas por IA.

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Além das telas: a ascensão dos idols robôs

Enquanto os idols virtuais dominam as telas, a Galaxy Corporation está levando a IA para o mundo físico. Responsável pela carreira do ícone do K-pop G-Dragon, a Galaxy Corporation se posicionou como uma empresa de avatares do metaverso, com foco em robótica humanoide. A empresa está desenvolvendo robôs projetados para se apresentar em palcos reais, interagir com fãs em eventos e existir fora dos limites de um monitor.

Na conferência de startups "ComeUp 2025", em Seul, o CEO da Galaxy Corporation, Choi Yong-ho, apresentou o roteiro da empresa. Um robô humanoide executou no palco uma dança coreografada ao som do sucesso "Power", de G-Dragon, dando uma amostra desse possível futuro. Choi prevê uma era em que idols reais, virtuais e robôs coexistirão em um ecossistema de entretenimento hiperconvergente. Ele acredita que as conquistas atuais representam apenas uma fração do que é possível.

Estamos apenas em 1% ou 10% do que é possível. Continuaremos desafiando o que antes parecia impossível para criar um novo futuro.

Essa integração física da IA representa a próxima fronteira. Diferentemente dos avatares virtuais, os idols robôs podem ocupar espaço físico, apertar mãos e executar acrobacias que poderiam ser perigosas para seres humanos. Embora a tecnologia ainda esteja em seus primeiros estágios, a ambição de criar artistas autônomos evidencia o esforço da indústria para superar as limitações biológicas. Esse desenvolvimento conta com o apoio de avanços mais amplos em robótica e manufatura na Coreia do Sul, onde conglomerados como Hyundai e Samsung investem pesado em tecnologias de IA física.

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Como a IA fortalece o fandom

A influência da IA vai além da criação de idols e chega à gestão da interação com os fãs. Startups como a BIGC estão desenvolvendo ferramentas especializadas para aproximar artistas e públicos globais. A BIGC opera uma plataforma de "espaço digital completo" e lançou recentemente o BIGC AI+, o primeiro agente de IA projetado especificamente para a indústria do entretenimento. O serviço aproveita três anos de dados operacionais para oferecer recursos como legendas multilíngues em tempo real e moderação de conteúdo.

Por exemplo, o recurso "AI Caption" traduz automaticamente a fala dos artistas em legendas em 12 idiomas durante transmissões ao vivo. Outro recurso, o "Artist Protector", detecta e corrige linguagem ofensiva nos chats entre fãs e artistas, ajudando a manter um ambiente positivo. Jungwoo Kim, diretor de tecnologia da BIGC, explicou que a IA não serve apenas para automatizar tarefas, mas também para aprofundar a conexão emocional entre fãs e artistas. A empresa planeja integrar essa tecnologia a jogos para fãs e serviços de comércio global, a fim de criar um novo paradigma para a exportação de conteúdo.

Essas ferramentas enfrentam os desafios logísticos de uma base global de fãs. As barreiras linguísticas e os fusos horários muitas vezes dificultam a interação em tempo real, mas agentes de IA podem oferecer respostas e traduções instantâneas, tornando a experiência dos fãs mais próxima e imediata. Com a globalização crescente do setor, a capacidade de gerenciar milhões de interações simultaneamente por meio da IA se tornará uma necessidade competitiva, e não um luxo.

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Desafios de direitos autorais e soluções com blockchain

Apesar do entusiasmo, a rápida adoção da IA traz desafios jurídicos e éticos significativos. A facilidade com que a IA pode imitar vozes e gerar imagens levanta preocupações sobre violação de direitos autorais e deepfakes. Lee Soo-man alertou que a IA coloca os criadores em clara desvantagem econômica, já que empresas de IA frequentemente lucram com a propriedade intelectual de artistas sem a devida remuneração. O risco de vazamentos de dados e desinformação também é considerável.

Para reduzir esses riscos, líderes do setor estão voltando os olhos para a tecnologia blockchain. Ao criar um registro imutável de titularidade e transações, a blockchain poderia garantir que artistas e roteiristas recebam royalties sempre que seus trabalhos forem usados para treinar modelos ou gerar conteúdo com IA. Lee pediu a criação de padrões operacionais mínimos globais para sistemas de contratos inteligentes relacionados aos royalties de conteúdo. Isso criaria uma estrutura transparente para que empresas de IA e criadores possam colaborar de forma justa.

O governo também está atento a essas questões. O Banco da Coreia observou que a adoção da IA está remodelando o mercado de trabalho, com possibilidade de substituir trabalhadores mais jovens e, ao mesmo tempo, criar oportunidades para quem tem habilidades de gestão. Essa mudança social exige uma abordagem regulatória equilibrada, que proteja trabalhadores e artistas sem frear a inovação. À medida que o K-pop continua a exportar sua cultura para o mundo todo, os marcos legais estabelecidos na Coreia do Sul podem servir de referência para a indústria global do entretenimento.

Pontos principais

  • Grandes agências de K-pop, como Hybe, SM, JYP e YG, estão integrando a IA à produção musical, ao desenvolvimento de artistas e ao engajamento dos fãs.
  • A Hybe adquiriu a Supertone para criar vocais gerados por IA para artistas como Midnatt e lançou o grupo inteiramente virtual Syndi8.
  • A SM Entertainment foi pioneira no uso conceitual da IA com o grupo Aespa e seus avatares de IA, conhecidos como "ae".
  • O Plave, grupo de idols virtuais que usa captura de movimento e IA, alcançou sucesso comercial com vitórias em programas musicais e altas vendas de álbuns.
  • A Galaxy Corporation está desenvolvendo idols robôs humanoides e apresentou um robô físico dançando ao som da música de G-Dragon.
  • Startups como a BIGC estão lançando agentes de IA para oferecer tradução em tempo real e moderação para comunidades globais de fãs.
  • Líderes do setor defendem a integração da blockchain para proteger os direitos autorais e garantir uma remuneração justa aos criadores.
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