O combate da China ao comportamento de manada: um divisor de águas para os investimentos em tecnologia
Em 1º de agosto de 2025, o órgão de planejamento estatal da China fez um anúncio decisivo: combater o “comportamento de manada” em setores emergentes, especialmente em áreas como veículos elétricos (VEs), baterias e energia solar. A medida mira o fluxo crescente de capital para esses setores em alta, nos quais empresas de todos os portes têm investido em peso, alimentando guerras de preços, excesso de capacidade e margens em queda. Essa competição frenética, conhecida na China como neijuan (involução), tornou-se um grande passivo tanto para as empresas quanto para a economia em geral.
Conteúdo
- O combate da China ao comportamento de manada: um divisor de águas para os investimentos em tecnologia
- Por que a China está trocando velocidade por qualidade?
- Como a nova abordagem da China está redesenhando o Sudeste Asiático?
- Singapura, Indonésia, Vietnã e Tailândia: os novos polos
- Do crescimento caótico à inovação sustentável
- Desafios e oportunidades para o Sudeste Asiático
- A Rota da Seda Digital e a Iniciativa Cinturão e Rota: novos pilares de cooperação
- Tecnologia verde e finanças sustentáveis
- Tensões geopolíticas: a guerra tecnológica entre Estados Unidos e China e seus impactos
- O que o futuro reserva para o ecossistema tecnológico do Sudeste Asiático?
- Em resumo
Autoridades alertaram contra a imitação cega e os cortes autodestrutivos de preços, enfatizando que a concorrência precisa ter limites e que a inovação deve seguir uma ordem. O próprio presidente Xi Jinping pediu que se rompa o ciclo de involução e se elevem os padrões. As novas regras buscam evitar ciclos caóticos de expansão e retração e impor disciplina aos investimentos, sem deixar de incentivar a inovação. Não se trata de um recuo para dentro, mas de um reajuste estratégico — que já está transformando a maneira como o capital chinês circula pelo mundo, com o Sudeste Asiático na linha de frente dessa mudança.
Por que a China está trocando velocidade por qualidade?
Durante anos, o modelo de crescimento da China em tecnologia e manufatura foi marcado pela rápida expansão, pela concorrência agressiva de preços e pela busca incessante por participação de mercado. Embora tenha sido bem-sucedida em criar escala, essa abordagem levou ao excesso de capacidade, a margens reduzidíssimas e a uma corrida para oferecer produtos de qualidade cada vez menor. A nova posição do governo sinaliza uma guinada para um desenvolvimento de alta qualidade, no qual padrões, sustentabilidade e viabilidade de longo prazo importam mais do que a velocidade pura e simples.
O combate de Pequim busca conter os excessos especulativos no país, preparando as empresas chinesas para expandir no exterior de forma mais seletiva e sustentável. Ao esfriar os fluxos de “dinheiro quente” que antes alimentavam ondas erráticas de investimento, a China incentiva suas empresas a buscar parcerias industriais de longo prazo, sobretudo no Sudeste Asiático. A mensagem é clara: a era do crescimento a qualquer custo acabou; o futuro pertence a quem consegue oferecer soluções duradouras, inovadoras e responsáveis.
Como a nova abordagem da China está redesenhando o Sudeste Asiático?
Nos últimos anos, o Sudeste Asiático se tornou um polo de atração para os investimentos chineses em tecnologia. Os consumidores jovens da região, conectados principalmente pelo celular, a rápida urbanização e as políticas nacionais favoráveis criaram um ambiente propício à transformação digital. O dinheiro chinês tem chegado em peso à região, com gigantes da tecnologia como Alibaba, Tencent, ByteDance e SenseTime investindo bilhões em computação em nuvem, inteligência artificial, comércio eletrônico e infraestrutura digital.
Mas a natureza desses investimentos está mudando. Em vez de capital especulativo e errático atrás da última moda, as empresas chinesas agora fazem movimentos mais deliberados: constroem bases de produção, formam joint ventures e integram cadeias de suprimentos. Essa mudança é particularmente visível em setores como veículos elétricos, tecnologia verde e finanças digitais, nos quais as empresas chinesas não exportam apenas produtos, mas ecossistemas industriais inteiros.
Por exemplo, a Changan Automobile inaugurou recentemente sua primeira fábrica de veículos de nova energia (NEVs, na sigla em inglês) fora da China, em Rayong, na Tailândia, com um investimento de quase US$ 900 milhões para estabelecer operações de produção, pesquisa e desenvolvimento e serviços locais. Isso representa uma transição das simples exportações para a exportação de ecossistemas completos, capital e tecnologia. Tendências semelhantes estão ocorrendo nos setores de eletrônicos, baterias de lítio e materiais avançados, com empresas chinesas transferindo operações de montagem, produção de componentes e serviços para o Sudeste Asiático.
Singapura, Indonésia, Vietnã e Tailândia: os novos polos
Singapura despontou como o principal destino dos investimentos chineses em tecnologia, atraindo mais de US$ 13 bilhões em 2023 — um aumento de 57,9% em relação ao ano anterior. Os pontos fortes da cidade-Estado em finanças, serviços de alto valor agregado e infraestrutura digital fazem dela um polo natural para operações regionais. Indonésia e Vietnã também são atores importantes: a Indonésia aproveita suas vastas reservas de níquel para produzir baterias de veículos elétricos, enquanto o Vietnã se consolida como potência na fabricação de eletrônicos.
Já a Tailândia busca se tornar o polo de produção de veículos elétricos do Sudeste Asiático. Mais de US$ 3 bilhões foram investidos em fábricas tailandesas de veículos elétricos nos últimos anos, e marcas chinesas já detêm mais de 70% do mercado local. Essa onda de investimentos está ajudando a construir cadeias de suprimentos integradas e a promover a transferência de tecnologia, apoiando as ambições industriais da região.
Do crescimento caótico à inovação sustentável
O combate ao comportamento de manada representa uma mudança fundamental: do crescimento caótico e de curto prazo para a inovação sustentável. No passado, empresas chinesas frequentemente cortavam preços para conquistar participação de mercado, sacrificando qualidade e lucros. Agora, autoridades alertam que essa concorrência extrema é autodestrutiva e insustentável. A nova política favorece empresas mais fortes, com estratégias de longo prazo, e as incentiva a se alinhar aos planos de desenvolvimento locais e a formar parcerias mais profundas.
Essa abordagem já está produzindo resultados. Na Indonésia, empresas chinesas agora controlam cerca de 75% da capacidade de refino de níquel — um processo essencial para as baterias de veículos elétricos. Mas não se trata apenas de extração de recursos: o processo envolve a construção de fundições, a transferência de tecnologia e o estabelecimento de parcerias de longo prazo que apoiem a industrialização local. No Vietnã, os investimentos voltados à exportação impulsionaram o setor de eletrônicos e ampliaram sua participação no mercado global; na Malásia e na Tailândia, o investimento estrangeiro direto (IED) impulsiona o crescimento dos setores automotivo e eletrônico.
Desafios e oportunidades para o Sudeste Asiático
Embora os investimentos chineses estejam ajudando a industrializar o Sudeste Asiático, os benefícios variam conforme o país e o setor. Investimentos intensivos em capital e voltados a recursos naturais muitas vezes atendem às necessidades da própria China, enquanto projetos direcionados à exportação podem ajudar as indústrias locais a avançar na cadeia de valor. A inovação, porém, continua sendo um desafio. A maior parte das atividades de pesquisa e desenvolvimento está concentrada em Singapura e, embora os pedidos de patente estejam aumentando, o Sudeste Asiático ainda é sobretudo uma base de manufatura, e não um polo de inovação.
Para aproveitar plenamente os investimentos estrangeiros, os países do Sudeste Asiático precisam enfrentar problemas estruturais, fortalecer as instituições, desenvolver cadeias de suprimentos locais e promover a qualificação profissional e a transferência de tecnologia. Só então a região poderá ir além da montagem e se tornar um verdadeiro centro de inovação.
A Rota da Seda Digital e a Iniciativa Cinturão e Rota: novos pilares de cooperação
A Rota da Seda Digital (DSR, na sigla em inglês) da China e a Iniciativa Cinturão e Rota (BRI, na sigla em inglês), em evolução, são centrais para sua estratégia no Sudeste Asiático. A DSR, um dos principais pilares da BRI, tem como foco ampliar a infraestrutura digital e a cooperação tecnológica. Diferentemente da BRI tradicional, liderada por empresas estatais, a DSR é impulsionada principalmente por gigantes privadas da tecnologia, como Huawei, Tencent, Alibaba e ZTE, muitas vezes com apoio político de Pequim.
Entre 2017 e 2020, Indonésia, Singapura e Malásia foram os principais destinos dos projetos da DSR, sobretudo nos setores de telecomunicações, 5G, centros de dados, tecnologia financeira e comércio eletrônico. Empresas chinesas lançaram hospitais inteligentes, construíram centros de dados e assinaram vários acordos com parceiros locais. Gigantes do comércio eletrônico, como Alibaba e TikTok, ampliaram seus investimentos, embora enfrentem desafios regulatórios, como as restrições impostas pela Indonésia às vendas pelas redes sociais.
A DSR não se limita aos negócios: também busca estabelecer padrões e moldar a ordem digital global. A China usa a iniciativa para promover seus modelos de privacidade e segurança de dados e incentivar a adoção de padrões tecnológicos chineses. No entanto, a resistência local e a concorrência do Japão, dos Estados Unidos e de outros atores limitaram a capacidade da China de impor plenamente suas normas na região.
Tecnologia verde e finanças sustentáveis
A BRI no Sudeste Asiático também está evoluindo, com ênfase crescente em conectividade digital, desenvolvimento verde e finanças sustentáveis. Essa mudança responde, em parte, às críticas sobre a sustentabilidade da dívida e as preocupações ambientais. Os países do Sudeste Asiático estão se tornando mais seletivos e buscam projetos alinhados a seus próprios objetivos de desenvolvimento, que ofereçam benefícios concretos. A China está se adaptando ao promover joint ventures, melhorar a transparência e dialogar com atores locais.
Tensões geopolíticas: a guerra tecnológica entre Estados Unidos e China e seus impactos
A transformação do cenário tecnológico do Sudeste Asiático ocorre em meio à intensificação da rivalidade entre Estados Unidos e China. Os Estados Unidos adotam uma estratégia de “contenção tecnológica e de recursos”, restringindo o acesso da China a tecnologias avançadas e minerais essenciais. Essa abordagem mira as cadeias de suprimentos e os insumos produtivos — como semicondutores e terras raras — em vez de depender da dissuasão militar.
Para os países do Sudeste Asiático, isso cria oportunidades e riscos. Países como Vietnã, Indonésia e Filipinas têm grandes reservas de terras raras e capacidade estratégica de manufatura, o que os torna parceiros atraentes tanto para a China quanto para os Estados Unidos. No entanto, um alinhamento muito estreito com um dos lados pode comprometer o acesso a mercados e investimentos do outro. Navegar nesse cenário exige clareza estratégica e habilidade diplomática.
Enquanto isso, a guerra tecnológica entre Estados Unidos e China está atraindo investimentos para o Sudeste Asiático, sobretudo em inteligência artificial e fabricação de chips. Empresas multinacionais, governos e startups correm para estabelecer polos de inteligência artificial e fábricas de chips na Malásia e no Vietnã, transformando economias locais e criando novos centros de inovação.
O que o futuro reserva para o ecossistema tecnológico do Sudeste Asiático?
Com a guinada da China para a qualidade e a sustentabilidade, o Sudeste Asiático está em posição de se beneficiar de uma cooperação mais estável, estratégica e mutuamente vantajosa. A economia digital da região está em plena expansão: a inteligência artificial deve contribuir com US$ 120 bilhões para o PIB até 2027, e a previsão é que o mercado de computação em nuvem ultrapasse US$ 512 bilhões até 2033. Tecnologias chinesas estão cada vez mais integradas às empresas locais, de serviços de computação em nuvem e verificação com inteligência artificial a ferramentas de identidade digital e pagamentos internacionais.
Os desafios, porém, permanecem. As empresas chinesas precisam lidar com o domínio consolidado das empresas ocidentais de tecnologia, obstáculos regulatórios e questões de confiança relacionadas à privacidade de dados e à soberania digital. Muitos governos e empresas estão adotando estratégias híbridas, que combinam infraestruturas ocidentais e chinesas. Construir confiança por meio de parcerias, transparência e iniciativas de código aberto será fundamental para o sucesso de longo prazo.
Para o Sudeste Asiático, o desafio é ir além de uma base de manufatura e se tornar um verdadeiro centro de inovação. Isso exigirá investimentos em pesquisa e desenvolvimento, qualificação profissional e cadeias de suprimentos locais, além de políticas que promovam a produtividade, efeitos positivos de transbordamento e transferência de tecnologia.
Em resumo
- O combate da China ao comportamento de manada marca a transição de um crescimento caótico e especulativo para uma inovação de alta qualidade e sustentável em tecnologia e manufatura.
- O Sudeste Asiático é o principal beneficiário desse reajuste estratégico, com empresas chinesas investindo em veículos elétricos, tecnologia verde, infraestrutura digital e cadeias de suprimentos integradas.
- Singapura, Indonésia, Vietnã e Tailândia estão despontando como polos importantes dos investimentos chineses, cada um aproveitando seus pontos fortes.
- A Rota da Seda Digital e a Iniciativa Cinturão e Rota estão evoluindo para priorizar a conectividade digital, o desenvolvimento verde e as finanças sustentáveis.
- As tensões geopolíticas, especialmente a guerra tecnológica entre Estados Unidos e China, estão atraindo investimentos para o Sudeste Asiático e criando novas oportunidades e riscos.
- O Sudeste Asiático precisa enfrentar desafios estruturais e investir em inovação para aproveitar plenamente os investimentos estrangeiros e se tornar uma potência tecnológica global.






