A ousada aposta do Vietnã para se juntar às economias tigres da Ásia
No coração de Hanói, sob as icônicas bandeiras vermelhas e o busto dourado de Ho Chi Minh, o secretário-geral do Partido Comunista, To Lam, declarou recentemente o início de uma nova era para o Vietnã. Seu discurso marcou o lançamento da mais ambiciosa reforma econômica do país em décadas: um plano abrangente para transformar o Vietnã na próxima “economia tigre” da Ásia até 2045. O objetivo é integrar o grupo formado por Coreia do Sul, Taiwan, Singapura e Hong Kong, economias de alta renda e competitivas globalmente.
Conteúdo
- A ousada aposta do Vietnã para se juntar às economias tigres da Ásia
- De Doi Moi à ambição de se tornar um tigre: a transformação econômica do Vietnã
- O que significa ser um tigre asiático?
- O novo plano econômico do Vietnã: alta tecnologia, energia verde e protagonismo do setor privado
- 1. Infraestrutura: construindo para o futuro
- 2. Energia: impulsionando o crescimento de forma sustentável
- 3. Reforma institucional: simplificação para ganhar agilidade
- A aposta em alta tecnologia: “Make in Vietnam” e ambições digitais
- Ascensão do setor privado: do crescimento liderado pelo Estado ao empreendedorismo
- Desafios no caminho para se tornar um tigre
- 1. A armadilha da renda média
- 2. Mudanças demográficas
- 3. Mudanças climáticas e riscos ambientais
- 4. Tensões comerciais globais e protecionismo
- O papel do turismo e dos serviços na trajetória de crescimento do Vietnã
- Geopolítica e o equilíbrio diplomático do Vietnã
- Perspectivas de especialistas: otimismo e cautela
- Em resumo
A trajetória do Vietnã, da pobreza devastada pela guerra à condição de estrela econômica em ascensão, é notável. Em 1990, um vietnamita médio podia comprar apenas US$ 1.200 em bens e serviços por ano. Hoje, esse valor ultrapassa US$ 16 mil. Milhões de pessoas saíram da pobreza, e o país se tornou um polo mundial de manufatura. No entanto, à medida que o modelo de crescimento vietnamita, baseado em baixos custos e exportações, começa a perder força, o país enfrenta uma encruzilhada decisiva. Será que conseguirá passar da condição de renda média para se tornar um verdadeiro tigre asiático ou cairá na chamada “armadilha da renda média”, que freou outras economias emergentes?
De Doi Moi à ambição de se tornar um tigre: a transformação econômica do Vietnã
O milagre econômico do Vietnã começou em 1986, com o lançamento do Doi Moi (Renovação), um conjunto de reformas abrangentes que tirou o país de uma economia centralmente planejada e o levou a uma economia orientada pelo mercado. As reformas abriram caminho para a iniciativa privada, o investimento estrangeiro e o comércio global. Nas três décadas seguintes, a economia vietnamita cresceu a uma média de quase 7% ao ano, tornando-se uma das que mais crescem no mundo. Segundo o FMI, a taxa de pobreza caiu de quase 60% no início dos anos 1990 para menos de 14% em 2014.
Entre os principais fatores dessa transformação estão:
- Crescimento impulsionado pelas exportações: o Vietnã se tornou uma potência manufatureira, sobretudo nos setores têxtil, de eletrônicos e de calçados.
- Investimento estrangeiro direto (IED): grandes marcas globais, como Samsung, Apple e Nike, estabeleceram bases de produção no país, atraídas pela mão de obra qualificada e de baixo custo e por políticas estáveis.
- Integração às cadeias globais de suprimentos: o Vietnã ingressou na Asean em 1995 e na Organização Mundial do Comércio em 2007, além de assinar diversos acordos de livre-comércio que abriram novos mercados.
- Localização estratégica: a proximidade com a China e a posição no Leste Asiático fizeram do Vietnã um elo importante nas cadeias globais de suprimentos.
Mas, com o aumento dos custos trabalhistas e a intensificação da concorrência global, os líderes vietnamitas reconhecem que o modelo antigo está perdendo fôlego. A próxima etapa exige avançar na cadeia de valor, investir em tecnologia e construir uma economia mais resiliente e inovadora.
O que significa ser um tigre asiático?
O termo “tigre asiático” se refere às quatro economias — Coreia do Sul, Taiwan, Singapura e Hong Kong — que se industrializaram rapidamente e registraram taxas de crescimento excepcionalmente altas entre as décadas de 1960 e 1990. Essas economias se transformaram de sociedades agrárias de baixa renda em líderes globais nos setores de manufatura, tecnologia e finanças. O sucesso foi construído com base na industrialização voltada às exportações, no investimento em educação e infraestrutura e em uma governança sólida e pragmática.
O Vietnã pretende repetir essa trajetória, mas com características próprias. Diferentemente dos tigres originais, sua economia é mais diversificada e não pode depender de um único setor. O governo está fazendo “várias grandes apostas” em setores de alta tecnologia, transformação digital e energia verde, além de investir fortemente em infraestrutura e reformas institucionais.
O novo plano econômico do Vietnã: alta tecnologia, energia verde e protagonismo do setor privado
O plano de transformação do Vietnã se apoia em três pilares: infraestrutura, energia e reforma institucional. Cada um traz oportunidades e riscos.
1. Infraestrutura: construindo para o futuro
O governo está investindo US$ 67 bilhões em uma ferrovia de alta velocidade entre o norte e o sul do país, que reduziria para menos de sete horas o tempo de viagem entre Hanói e Ho Chi Minh. O projeto busca integrar mercados, reduzir custos logísticos e impulsionar o desenvolvimento regional. Também há planos para construir novas usinas nucleares civis e modernizar significativamente os portos e a infraestrutura digital.
2. Energia: impulsionando o crescimento de forma sustentável
A demanda por eletricidade no Vietnã cresce de 8% a 10% ao ano. Para atender a essa necessidade sem aprofundar a dependência do carbono, o país está investindo em energias renováveis e energia nuclear. A meta é atrair empresas de manufatura de alta tecnologia e serviços avançados, que precisam de energia confiável e de baixa emissão de carbono.
3. Reforma institucional: simplificação para ganhar agilidade
O Vietnã está consolidando ministérios, reduzindo níveis burocráticos e fundindo províncias para criar economias regionais mais fortes. Nos termos da Resolução 68, as empresas privadas passaram a ser consideradas a força mais importante da economia — uma mudança significativa em relação à dependência anterior de empresas estatais. O governo está promovendo a formação de “campeãs nacionais”: empresas locais incentivadas a inovar, conquistar grandes contratos e se expandir internacionalmente, com a meta de que pelo menos 20 alcancem escala global até 2030.
A aposta em alta tecnologia: “Make in Vietnam” e ambições digitais
O Vietnã está apostando alto em setores de alta tecnologia para impulsionar sua próxima fase de crescimento. A estratégia “Make in Vietnam” está transformando o setor de tecnologia da informação e comunicação (TIC) do país, que deixa de se concentrar na terceirização e na montagem para criar produtos inovadores e de alto valor agregado. Em 2024, o setor de tecnologia digital gerou US$ 152 bilhões em receita e empregou mais de 1,2 milhão de pessoas.
Entre as principais conquistas estão:
- Semicondutores e eletrônicos: empresas como a Samsung fizeram do Vietnã sua maior base de produção. O país também está atraindo investimentos da Intel, da Amkor e da Marvell no setor de semicondutores.
- Software e serviços digitais: empresas como FPT e Viettel estão se expandindo globalmente, e a FPT pretende alcançar US$ 5 bilhões em receita com exportações de software até 2030.
- Startups e inovação: o ecossistema vietnamita de startups de tecnologia conta com quatro unicórnios e atraiu US$ 2,5 bilhões em investimentos de capital de risco até 2025.
O governo apoia essa iniciativa com incentivos fiscais, financiamento para pesquisa e zonas econômicas especiais em cidades como Ho Chi Minh e Da Nang. O objetivo é transformar o Vietnã em um centro global de finanças e inovação, capaz de rivalizar com os polos regionais.
Ascensão do setor privado: do crescimento liderado pelo Estado ao empreendedorismo
Durante décadas, o crescimento do Vietnã foi impulsionado por empresas estatais e multinacionais estrangeiras. Agora, o governo está voltando sua atenção para o setor privado nacional. Estão sendo introduzidas políticas para facilitar o acesso das empresas privadas a empréstimos, a contratos governamentais e à expansão no exterior. A expectativa é fomentar uma nova geração de empresas vietnamitas capazes de competir globalmente.
Os desafios, porém, persistem. Muitas empresas locais têm dificuldade para obter capital e continuam nos segmentos de menor valor das cadeias de suprimentos. A resistência de grupos com interesses consolidados em empresas estatais e em setores do Partido Comunista pode desacelerar as reformas. Ainda assim, o compromisso do governo com o crescimento liderado pelo setor privado representa uma mudança significativa na estratégia econômica.
Desafios no caminho para se tornar um tigre
Apesar do progresso impressionante, o Vietnã enfrenta obstáculos consideráveis para se tornar um tigre asiático.
1. A armadilha da renda média
Muitos países em desenvolvimento crescem rapidamente durante a industrialização, mas acabam estagnados antes de atingir a condição de alta renda — fenômeno conhecido como “armadilha da renda média”. Para evitá-la, o Vietnã precisa deixar de depender da mão de obra barata e da acumulação de capital e aumentar a produtividade por meio da tecnologia e da inovação. Estudos acadêmicos destacam a necessidade de políticas setoriais equilibradas, voltadas tanto para a agricultura quanto para os demais setores, a fim de elevar a produtividade.
2. Mudanças demográficas
A “janela demográfica de ouro” do Vietnã — período em que a população em idade ativa supera amplamente o número de dependentes — começará a se fechar até 2039. A população economicamente ativa deve atingir seu pico em breve, o que pode reduzir a produtividade e sobrecarregar os serviços sociais. Para compensar a falta de mão de obra e promover o envelhecimento saudável, o governo está ampliando os serviços de saúde, elevando a idade de aposentadoria e incentivando mais mulheres a ingressar no mercado de trabalho.
3. Mudanças climáticas e riscos ambientais
O Vietnã é um dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas. Inundações, elevação do nível do mar e eventos climáticos extremos ameaçam o delta do Mekong — celeiro de arroz do país e polo exportador. Se não conseguir se adaptar, o país poderá perder até 14,5% do PIB por ano até 2050, e até um milhão de pessoas poderão cair em situação de pobreza extrema até 2030. O governo está investindo em resiliência e energia verde, mas os riscos são consideráveis.
4. Tensões comerciais globais e protecionismo
O Vietnã se beneficiou das tensões comerciais entre Estados Unidos e China, e os EUA se tornaram seu maior mercado de exportação. Esse sucesso, porém, atraiu atenção. Em 2024, o Vietnã registrou superávit comercial de US$ 123,5 bilhões com os EUA, o que levou à adoção de novas tarifas. Os EUA impuseram tarifas de até 20% sobre a maioria dos produtos vietnamitas, com alíquotas ainda maiores para produtos reexportados por terceiros países. Embora o Vietnã esteja negociando para lidar com essas pressões, a era do crescimento fácil impulsionado pelas exportações pode estar chegando ao fim.
O ex-embaixador dos EUA Daniel Kritenbrink comentou: “Desde que as tarifas do Vietnã sejam comparáveis às de seus vizinhos, o país conseguirá administrar a situação.”
Para sustentar o crescimento, o Vietnã precisa diversificar sua economia, avançar na cadeia de valor e fortalecer a demanda interna.
O papel do turismo e dos serviços na trajetória de crescimento do Vietnã
O setor de turismo se tornou um pilar fundamental da economia vietnamita, contribuindo com quase 10% do PIB e sustentando milhões de empregos. O rico patrimônio cultural do país, suas paisagens deslumbrantes e sua reputação de segurança fizeram dele um dos principais destinos para viajantes internacionais. Somente no primeiro trimestre de 2024, o Vietnã recebeu mais de 4,6 milhões de turistas estrangeiros — um aumento de 72% em relação ao ano anterior.
A infraestrutura eficiente, as políticas de visto simplificadas e a atenção à hospitalidade diferenciam o Vietnã de muitos concorrentes regionais. O investimento do governo no turismo faz parte de uma estratégia mais ampla para diversificar a economia e gerar empregos além da manufatura.
Geopolítica e o equilíbrio diplomático do Vietnã
A localização estratégica entre China e EUA confere ao Vietnã uma influência geopolítica singular. O país mantém uma política externa equilibrada e considera as duas potências parceiras estratégicas abrangentes. Essa abordagem ajudou o Vietnã a atrair investimentos de várias fontes sem depender excessivamente de um único parceiro.
No entanto, as mudanças no cenário global — marcadas pelo avanço do protecionismo, pela reorganização das cadeias de suprimentos e pela concorrência tecnológica — trazem novos desafios. A capacidade do Vietnã de lidar com essas dinâmicas será crucial para dar continuidade à sua ascensão.
Perspectivas de especialistas: otimismo e cautela
Investidores e analistas estão, em geral, otimistas com as perspectivas do Vietnã. A VinaCapital, uma importante gestora de investimentos, destaca a força de trabalho jovem e familiarizada com tecnologia, a classe média em expansão e as políticas macroeconômicas estáveis do país. O mercado de ações é visto como subvalorizado, com forte crescimento dos lucros das empresas e possibilidade de o FTSE reclassificar o país como mercado emergente em 2025 — um evento que poderia atrair expressivos fluxos de capital global.
Em um recente fórum de gestão de patrimônio, um representante da VinaCapital afirmou: “A posição geopolítica do Vietnã, suas políticas estáveis e suas reformas econômicas fazem dele a próxima economia tigre da Ásia, e os investidores devem prestar atenção.”
Também há, porém, ressalvas. O New York Times e outros observadores alertam que a era do crescimento extraordinário impulsionado pelas exportações pode ter acabado, pois a automação, o protecionismo e as mudanças na economia global reduzem a eficácia do modelo antigo. Para ter sucesso, o Vietnã precisa se concentrar no desenvolvimento do mercado interno, na modernização dos serviços e na criação de empregos melhores para sua crescente classe média.
Em resumo
- O Vietnã está promovendo a mais ambiciosa reforma econômica em décadas, com o objetivo de se tornar a próxima economia tigre da Ásia até 2045.
- A transformação do país começou com as reformas Doi Moi, em 1986, que abriram caminho para a iniciativa privada, o investimento estrangeiro e o comércio global.
- A nova estratégia vietnamita se concentra em setores de alta tecnologia, energia verde, infraestrutura e crescimento liderado pelo setor privado.
- Entre os principais desafios estão o risco da armadilha da renda média, as mudanças demográficas, as mudanças climáticas e as tensões comerciais globais.
- O governo está investindo em inovação, transformação digital e reforma institucional para sustentar o crescimento.
- O turismo e os serviços têm um papel cada vez mais importante na diversificação da economia.
- A abordagem geopolítica equilibrada do Vietnã e sua integração às cadeias globais de suprimentos atraíram investimentos estrangeiros significativos.
- Especialistas estão otimistas com as perspectivas do Vietnã, mas alertam que o sucesso exigirá reformas contínuas, resiliência e adaptação a um cenário global em transformação.






