Aliança entre EUA e Coreia do Sul é posta à prova: tarifas, diplomacia transacional e o futuro de uma parceria crucial

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Aliança entre EUA e Coreia do Sul é posta à prova: tarifas, diplomacia transacional e o futuro de uma parceria crucial

A aliança entre EUA e Coreia do Sul em uma encruzilhada

A aliança entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul há muito é um pilar da segurança e da estabilidade econômica no Nordeste Asiático. Mas, em 2025, essa parceria enfrenta uma incerteza sem precedentes. Uma nova onda de tarifas dos EUA, a guinada para uma diplomacia transacional sob o presidente Donald Trump e as crescentes pressões regionais estão forçando Seul a repensar sua posição estratégica e seu futuro econômico. Enquanto os dois países navegam por um cenário global em rápida transformação, a própria definição e a durabilidade da aliança estão sendo postas à prova.

Conteúdo
  1. A aliança entre EUA e Coreia do Sul em uma encruzilhada
  2. Como chegamos até aqui? O caminho para as tensões tarifárias
  3. Os termos do acordo: a que a Coreia do Sul cedeu?
  4. Diplomacia transacional: um novo normal?
  5. Impactos econômicos: vencedores, perdedores e incertezas
  6. Dilemas de segurança: Coreia do Norte, China e pressões sobre a aliança
  7. Política interna e os limites da liderança
  8. Implicações regionais: alianças em transformação e cálculos estratégicos
  9. O que vem pela frente: a aliança vai resistir?
  10. Em resumo

Como chegamos até aqui? O caminho para as tensões tarifárias

Ao longo de décadas, a aliança entre EUA e Coreia do Sul evoluiu de um pacto militar da Guerra Fria para uma parceria estratégica abrangente. Os dois países aprofundaram a cooperação em comércio, tecnologia e segurança, com os EUA oferecendo proteção contra as ameaças norte-coreanas e a Coreia do Sul despontando como potência econômica global. No entanto, a aliança também passou por períodos de tensão — em torno de desequilíbrios comerciais, do compartilhamento dos custos de defesa e de abordagens divergentes para a diplomacia regional.

A crise mais recente começou no início de 2025, quando o presidente Trump anunciou tarifas abrangentes sobre importações de dezenas de países, incluindo a Coreia do Sul. A ameaça inicial: uma tarifa de 25% sobre todas as exportações sul-coreanas para os EUA, com alíquotas ainda mais altas para aço e alumínio. Segundo Trump, a justificativa era reativar a indústria manufatureira americana, reduzir os déficits comerciais e financiar os recentes cortes de impostos. Mas, para a Coreia do Sul, uma economia impulsionada pelas exportações, na qual os embarques para os EUA representam quase um quinto do total exportado, os riscos eram existenciais.

As negociações foram tensas e prolongadas. A Coreia do Sul, já abalada pela turbulência política interna e por uma economia em ritmo lento, correu para evitar o pior cenário. Por fim, poucas horas antes do prazo de 1º de agosto, Seul e Washington chegaram a um acordo: os EUA imporiam uma tarifa de 15% sobre as importações sul-coreanas — abaixo dos 25% ameaçados — em troca de um pacote de investimentos de US$ 350 bilhões da Coreia do Sul em setores industriais americanos, além de US$ 100 bilhões em compras de energia ao longo dos próximos 3,5 anos. Setores sensíveis, como arroz e carne bovina, foram protegidos de novas concessões, uma vitória importante para os negociadores de Seul.

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Os termos do acordo: a que a Coreia do Sul cedeu?

O acordo final, segundo diversos veículos, tem amplo alcance:

  • Tarifa de 15%: As exportações sul-coreanas para os EUA — incluindo carros e semicondutores — estarão sujeitas a uma tarifa de 15%, igual à alíquota obtida pelo Japão e pela União Europeia. Já o aço e o alumínio serão tributados em 50%.
  • Investimento de US$ 350 bilhões: A Coreia do Sul se comprometeu a investir US$ 350 bilhões em projetos nos EUA, sendo US$ 200 bilhões destinados a setores estratégicos, como semicondutores, baterias e biofármacos, e US$ 150 bilhões a uma iniciativa de construção naval chamada "Make America Shipbuilding Great Again". A iniciativa busca fortalecer tanto a capacidade industrial dos EUA quanto o próprio setor naval sul-coreano.
  • US$ 100 bilhões em compras de energia: Seul concordou em comprar US$ 100 bilhões em gás natural liquefeito (GNL), petróleo bruto e outros produtos energéticos dos EUA ao longo dos próximos quatro anos.
  • Status de nação mais favorecida: Os EUA concederam à Coreia do Sul o tratamento de nação mais favorecida em setores importantes, oferecendo alguma previsibilidade para futuras decisões tarifárias.

O presidente sul-coreano Lee Jae-myung classificou o resultado como um "grande avanço", ressaltando que ele restabeleceu a previsibilidade para os exportadores coreanos e está alinhado às ambições industriais dos dois países. Ainda assim, o acordo também suspende o regime de tarifas quase nulas estabelecido pelo Acordo de Livre Comércio entre Coreia do Sul e EUA de 2012, marcando uma mudança significativa na relação econômica.

Diplomacia transacional: um novo normal?

O que diferencia este episódio não é apenas a dimensão das tarifas ou do pacote de investimentos, mas também a abordagem diplomática por trás dele. A agenda "America First" do presidente Trump reformulou a política externa dos EUA como uma série de trocas transacionais, nas quais questões econômicas e de segurança se misturam e cada concessão é contabilizada como uma obrigação. Espera-se que os aliados "paguem sua parte justa" — seja em gastos com defesa, concessões comerciais ou alinhamento estratégico.

Essa mudança inquietou muitos em Seul. Autoridades sul-coreanas e líderes empresariais temem que compromissos de segurança — como a presença de tropas dos EUA na península — possam ser usados como moeda de troca para obter novas concessões econômicas. Trump sugeriu abertamente que a Coreia do Sul deveria pagar mais pelas garantias de defesa dos EUA e chegou a aventar a possibilidade de retirar as tropas americanas caso Seul não atenda às exigências. Segundo os críticos, essa abordagem corrói a confiança e transforma alianças de longa data em relações de conveniência.

Keum Hye-yoon, pesquisadora do Instituto Coreano de Política Econômica Internacional, explicou: "A política tarifária de Trump se baseia em expectativas unilaterais e pode impor custos às empresas americanas e sul-coreanas."

A opinião pública na Coreia do Sul se deteriorou. Uma pesquisa do Pew Research Center constatou que a proporção de sul-coreanos com uma visão favorável dos EUA caiu de 77% em 2024 para 61% em 2025, refletindo o crescente ressentimento diante do que muitos consideram um tratamento injusto por parte de um suposto aliado.

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Impactos econômicos: vencedores, perdedores e incertezas

O impacto econômico das novas tarifas e dos compromissos de investimento já está sendo sentido. Fabricantes sul-coreanos — especialmente nos setores automotivo, siderúrgico, de semicondutores e farmacêutico — relataram interrupções. As exportações caíram 2,2% nos primeiros 20 dias de julho em relação ao mesmo período do ano anterior, e algumas linhas de produção foram fechadas, gerando conflitos trabalhistas. Pequenas e médias empresas, que não têm recursos para transferir a produção ou diversificar mercados, são particularmente vulneráveis.

Analistas alertam que os custos das tarifas provavelmente serão repassados aos consumidores dos EUA, elevando os preços de carros, eletrônicos e outros produtos. O S&P 500 caiu e os rendimentos dos títulos do Tesouro subiram após o anúncio, sinalizando nervosismo nos mercados. Os críticos também argumentam que usar a receita das tarifas para compensar cortes de impostos pode transferir a carga tributária para os americanos comuns.

Para a Coreia do Sul, o acordo oferece algum fôlego, mas a um preço alto. O investimento de US$ 350 bilhões é inferior ao compromisso de US$ 550 bilhões do Japão com os EUA, mas ainda representa uma saída significativa de capital. Também há dúvidas sobre se o volume de investimentos supera as reservas atuais da Coreia do Sul, levando o governo a minimizar o valor total por razões políticas internas.

Dilemas de segurança: Coreia do Norte, China e pressões sobre a aliança

Embora o comércio e a economia tenham dominado as manchetes, a dimensão de segurança da aliança entre EUA e Coreia do Sul continua tão crucial quanto sempre. Os dois países estão se preparando para o exercício militar anual Ulchi Freedom Shield, que envolve milhares de soldados e tem como objetivo dissuadir uma agressão norte-coreana. A Coreia do Norte, por sua vez, denunciou as manobras como ensaios de invasão e intensificou suas próprias demonstrações militares, incluindo testes de mísseis e ameaças nucleares.

Ao mesmo tempo, o foco do governo Trump na divisão dos encargos e na flexibilidade estratégica levantou dúvidas sobre o futuro da presença militar dos EUA na Coreia do Sul. Alguns funcionários americanos sugeriram que as forças dos EUA poderiam ser realocadas para lidar com ameaças regionais mais amplas, como um possível conflito em torno de Taiwan, deixando Seul com uma parcela maior do ônus da defesa contra Pyongyang.

O coronel Ryan Donald, diretor de relações públicas das Forças dos EUA na Coreia, declarou: "A aliança está concentrada em garantir sua sustentabilidade e dissuadir de forma convincente a agressão da Coreia do Norte, além de enfrentar desafios mais amplos de segurança regional."

A Coreia do Sul também precisa manter um equilíbrio delicado com a China, seu maior parceiro comercial. Os EUA têm pressionado por uma cooperação trilateral mais estreita com o Japão e por um alinhamento mais próximo de Seul com os esforços de Washington para conter Pequim. Mas cada iniciativa para tranquilizar Washington é analisada por Pequim, deixando a Coreia do Sul entre seu garantidor de segurança e sua fonte vital de sustento econômico.

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Política interna e os limites da liderança

O momento da crise tarifária dificilmente poderia ser pior para a Coreia do Sul. O presidente Lee Jae-myung tomou posse em junho de 2025 em meio a uma crise de legitimidade, após o impeachment de seu antecessor. Seu governo está sob pressão para promover a recuperação econômica, combater o desemprego entre os jovens e aprovar reformas na governança corporativa. Mas, como observam especialistas, a capacidade de Lee de cumprir essas promessas é limitada por forças fora de seu controle — guerras comerciais globais, a competição tecnológica entre EUA e China e os impulsos imprevisíveis de Washington.

Os poderosos chaebols sul-coreanos (conglomerados familiares), como Samsung, Hyundai e LG, são tanto um trunfo quanto um obstáculo. Eles têm capacidade para investir em setores industriais dos EUA e apoiar as negociações do governo, mas seu domínio também sufoca a inovação e limita a flexibilidade do restante da economia. Lee prometeu reformas obrigatórias de governança, mas iniciativas anteriores para conter os chaebols enfrentaram forte resistência.

Enquanto isso, a crise política em Seul deixou o governo com pouca margem de negociação. Com líderes importantes ocupados ou afastados, burocratas e empresários tiveram de preencher o vazio, muitas vezes com resultados mistos. A ausência de uma voz forte e unificada dificultou que a Coreia do Sul resistisse às exigências dos EUA ou se coordenasse com outros aliados submetidos a pressões semelhantes.

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Implicações regionais: alianças em transformação e cálculos estratégicos

O acordo tarifário entre EUA e Coreia do Sul não acontece isoladamente. As novas tarifas de Trump atingiram não apenas a Coreia do Sul, mas também o Japão, a União Europeia e dezenas de outros países, com alíquotas que variam de 10% a 50%. A medida desencadeou uma onda de retaliações, volatilidade nos mercados e crescente ceticismo quanto ao futuro do sistema global de comércio.

Para a Coreia do Sul, a experiência de coerção econômica não é nova. Nos últimos anos, Seul sofreu pressões da China por causa da instalação de sistemas de defesa antimísseis e do Japão em razão de restrições às exportações. Em cada ocasião, a Coreia do Sul respondeu diversificando o comércio, investindo em pesquisa e desenvolvimento e apoiando os setores afetados. A crise atual pode acelerar os esforços para diversificar os mercados de exportação, estreitar os laços com o Sudeste Asiático e adotar políticas econômicas e de segurança mais autônomas.

A realidade, porém, é que as opções da Coreia do Sul são limitadas. Sua economia depende mais do comércio do que a do Japão, e sua segurança está indissociavelmente ligada à aliança com os EUA. Embora alguns em Seul defendam um maior engajamento com a China ou estratégias de equilíbrio, os riscos de afastar Washington ou provocar Pequim são altos. O desafio para o presidente Lee e seus sucessores será administrar essas pressões concorrentes sem sacrificar os principais interesses nacionais.

O que vem pela frente: a aliança vai resistir?

Enquanto o presidente Lee se prepara para uma cúpula de alto risco com o presidente Trump, o futuro da aliança entre EUA e Coreia do Sul está em jogo. O foco imediato será implementar o acordo tarifário, administrar os compromissos de investimento e tratar de questões ainda pendentes, como a divisão dos custos de defesa e a política para a Coreia do Norte. Mas a questão mais ampla é se a aliança conseguirá se adaptar a uma nova era de diplomacia transacional, competição entre grandes potências e turbulência política interna.

Especialistas alertam que alianças baseadas exclusivamente em narrativas históricas ou afinidades ideológicas já não são suficientes. Em uma era na qual interesses econômicos e de segurança estão cada vez mais interligados, Washington e Seul precisarão adotar políticas pragmáticas, orientadas por seus interesses. Para os EUA, priorizar ganhos de curto prazo em detrimento de aliados de confiança pode acabar comprometendo seus próprios objetivos estratégicos. Para a Coreia do Sul, o caminho adiante exigirá resiliência, capacidade de adaptação e disposição para se relacionar com vários parceiros em um mundo complexo e incerto.

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Em resumo

  • A aliança entre EUA e Coreia do Sul enfrenta seu maior teste em décadas, com novas tarifas e uma abordagem transacional da diplomacia abalando a confiança e a cooperação.
  • A Coreia do Sul escapou por pouco de uma tarifa de 25% ao aceitar uma alíquota de 15% e um pacote de investimentos de US$ 350 bilhões em setores industriais dos EUA, além de US$ 100 bilhões em compras de energia.
  • O acordo marca um afastamento do regime de tarifas quase nulas do passado e reflete uma tendência mais ampla de nacionalismo econômico e alianças condicionais.
  • A economia sul-coreana, impulsionada pelas exportações, é vulnerável a choques externos, e as novas tarifas já provocaram interrupções em setores importantes.
  • As preocupações de segurança continuam sendo prioritárias, em meio a exercícios militares em andamento e à incerteza sobre o futuro da presença de tropas dos EUA na península.
  • A turbulência política interna e os desafios estruturais da economia limitam a capacidade de Seul de responder de forma eficaz às exigências dos EUA.
  • A dinâmica regional — incluindo as ambições nucleares da Coreia do Norte e a assertividade econômica da China — complica os cálculos estratégicos da Coreia do Sul.
  • O futuro da aliança dependerá do diálogo pragmático, da confiança mútua e da capacidade de adaptação a um ambiente global em rápida transformação.
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