Meta para 2060 condicionada a financiamento
O Azerbaijão aprovou uma estratégia para alcançar emissões líquidas zero de gases de efeito estufa até 2060, com planos para mudar a forma como a eletricidade é gerada, os edifícios são isolados, os veículos são movidos e as máquinas agrícolas operam. A meta depende da obtenção de financiamento adicional, tecnologia e apoio internacional.
Conteúdo
- Meta para 2060 condicionada a financiamento
- O que a meta para 2035 representa em números
- Quem deve transformar a estratégia em ação?
- Energia solar, eólica e uma rede capaz de transportá-las
- Reduções de metano colocam petróleo e gás em foco
- Edifícios passarão por uma ampla reforma do isolamento térmico
- Carros de passeio e máquinas agrícolas avançam rumo à eletrificação
- Florestas e resíduos completam o quadro de emissões
- Marcos e financiamento ainda pendentes
- Principais pontos
O primeiro-ministro Ali Asadov assinou a Decisão nº 346 do Gabinete de Ministros em Baku, em 21 de outubro de 2026. A aprovação foi anunciada em 22 de outubro. A decisão adota a Estratégia de Desenvolvimento de Longo Prazo de Baixo Carbono e atribui responsabilidades específicas aos ministérios para colocá-la em prática e monitorar o progresso.
A estratégia vincula a meta de 2060 a um objetivo mais próximo: reduzir as emissões líquidas de gases de efeito estufa em 40% até 2035, em comparação com 1990. A Contribuição Nacionalmente Determinada 3.0 do Azerbaijão, seu compromisso climático nacional no âmbito do Acordo de Paris, condiciona essa meta anterior à disponibilidade de recursos financeiros, ao acesso à tecnologia, à capacitação e à capacidade das florestas e de outros ecossistemas de absorver emissões.
Emissões líquidas zero significa reduzir as emissões ao máximo possível e compensar o restante com remoções, inclusive o carbono absorvido pelas florestas ou capturado por meio de tecnologia. Os planos do Azerbaijão abrangem sete setores: energia elétrica, petróleo e gás, edifícios, indústria, transporte, agricultura e uso da terra, e resíduos.
Para as famílias, as mudanças propostas incluem melhor isolamento térmico, aquecimento elétrico e transporte mais limpo. Para as empresas, incluem substituir equipamentos ineficientes, reduzir vazamentos de metano e adaptar processos produtivos. A estratégia prevê que os investimentos nessas mudanças criem empregos e apoiem o crescimento econômico, mas reconhece que atingir a meta exigirá recursos substanciais.
A decisão do gabinete também estabelece uma exigência de prestação de contas: o Ministério da Ecologia e dos Recursos Naturais deve monitorar a implementação e apresentar suas conclusões à Comissão Estatal sobre Mudanças Climáticas a cada dois anos.
O que a meta para 2035 representa em números
O compromisso climático nacional do Azerbaijão estima as emissões líquidas em 82,7 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em 1990 e 69,3 milhões de toneladas em 2022. Dióxido de carbono equivalente é uma unidade de medida comum que permite contabilizar conjuntamente gases com diferentes efeitos sobre o aquecimento global, como metano e dióxido de carbono.
Uma redução de 40% em relação ao valor de 1990 levaria as emissões líquidas a cerca de 49,6 milhões de toneladas em 2035. Com base nos números do documento, o Azerbaijão precisaria reduzir aproximadamente 19,7 milhões de toneladas em relação ao nível de 2022, ou cerca de 28,4%.
O novo compromisso nacional também antecipa o prazo. A contribuição anterior do Azerbaijão previa uma redução de 40% até 2050; a atual antecipa a mesma meta percentual em 15 anos, para 2035.
A metodologia de contabilização também mudou. O governo atualizou sua estimativa de emissões de 1990 com base nas diretrizes mais recentes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas e transferiu de 2016 para 2022 o ano de referência usado nas projeções. A meta de redução continua usando 1990 como referência.
Quem deve transformar a estratégia em ação?
O Ministério da Economia deve coordenar a inclusão de medidas de descarbonização em programas estatais, estratégias, planos de ação nacionais e outros documentos de políticas públicas. Descarbonização significa reduzir os gases de efeito estufa liberados por atividades como gerar energia, fabricar produtos e transportar pessoas.
O Ministério das Finanças recebeu a instrução de financiar as medidas pertinentes, sujeito às disposições da decisão sobre recursos adicionais. A meta para 2060 depende explicitamente de cooperação e apoio financeiro internacionais, transferência de tecnologia, empréstimos em condições favoráveis e investimento privado. Empréstimos em condições favoráveis oferecem termos melhores do que os financiamentos comerciais comuns.
O Ministério da Ecologia e dos Recursos Naturais deve apresentar a estratégia à secretaria da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Também deve organizar atividades de informação pública e apresentações com a participação de instituições científicas, organizações da sociedade civil e outros grupos.
A Decisão nº 346 tem como fundamento jurídico o Artigo 119 da Constituição do Azerbaijão, a lei de 28 de outubro de 2016 que ratifica o Acordo de Paris e o Artigo 4 desse acordo. A decisão transforma a estratégia em uma política nacional aprovada, com ministérios designados para executá-la.
O compromisso climático nacional do Azerbaijão prevê separadamente revisões a cada cinco anos e relatórios de transparência à entidade climática da ONU a cada dois anos. Esses processos internacionais complementam a exigência do gabinete de monitoramento interno.
Energia solar, eólica e uma rede capaz de transportá-las
O roteiro energético começa pela expansão da geração solar e eólica terrestre. As linhas de transmissão e as redes de distribuição devem ser modernizadas para atender à crescente demanda por eletricidade e conectar uma parcela maior de geração renovável.
As redes elétricas são importantes porque novos projetos eólicos e solares precisam de uma via confiável até os consumidores. O compromisso climático nacional também prevê controles na rede para reduzir perdas técnicas, ou seja, a eletricidade perdida durante o transporte pelo sistema.
O armazenamento em baterias é outra parte planejada da transição. As baterias podem armazenar eletricidade quando há oferta abundante e liberá-la quando necessário, ajudando a administrar as variações na geração eólica e solar.
O roteiro também inclui usinas de ciclo combinado a gás vinculadas à produção de hidrogênio azul, além de infraestrutura de captura e armazenamento de carbono. Usinas de ciclo combinado usam turbinas a gás e calor recuperado para gerar eletricidade. O hidrogênio azul é produzido a partir de combustíveis fósseis com captura de carbono para reduzir as emissões geradas durante a produção.
A captura e o armazenamento de carbono consistem em coletar dióxido de carbono e armazená-lo por longo prazo, geralmente no subsolo. O roteiro prevê que as energias renováveis e o armazenamento ganhem importância ao longo do tempo, com apoio de regulamentações, programas de políticas públicas e investimentos.
Carabaque, Zanguezur Oriental e Naquichevão são centrais para as zonas de energia verde da estratégia. O compromisso climático nacional identifica Naquichevão como potencial exportador líquido de energia, ou seja, a região poderia produzir mais energia do que consome e vender o excedente.
Reduções de metano colocam petróleo e gás em foco
O setor de petróleo e gás do Azerbaijão gerou aproximadamente 19,2 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em 2022, cerca de 28% das emissões nacionais, segundo o compromisso climático nacional. Entre as fontes estavam o metano liberado intencionalmente ou por vazamentos, a queima de gás em tochas e a combustão de combustíveis.
O metano é um potente gás de efeito estufa, o que torna a detecção e o reparo de vazamentos uma parte importante das reduções previstas. A estratégia inclui cortes de metano entre as medidas relativamente baratas que podem ser implementadas até 2035 com tecnologias já disponíveis.
O Azerbaijão aderiu ao Compromisso Global do Metano, que prevê uma redução coletiva de 30% nas emissões globais de metano até 2030, em comparação com 2020. O percentual do compromisso é uma meta global compartilhada pelos países participantes.
A SOCAR, estatal petrolífera do Azerbaijão, participa da Carta de Descarbonização do Setor de Petróleo e Gás e aderiu à Parceria 2.0 para o Metano do Setor de Petróleo e Gás do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, um programa de monitoramento e redução de metano.
A carta estabelece metas para acabar com a queima rotineira de gás em tochas até 2030, atingir emissões de metano próximas de zero até 2035 e alcançar emissões líquidas zero nas operações até 2050. A meta operacional se refere às emissões geradas pelas atividades das empresas de petróleo e gás, enquanto a estratégia nacional do Azerbaijão abrange as emissões de toda a economia.
Edifícios passarão por uma ampla reforma do isolamento térmico
O Azerbaijão planeja garantir que todos os edifícios existentes e novos tenham isolamento térmico adequado até 2060. A estratégia aponta os materiais de construção soviéticos mais antigos e seus padrões inferiores de isolamento como motivo para substituir ou modernizar os materiais dos edifícios.
As medidas propostas incluem isolamento térmico avançado e janelas com vidros duplos. Paredes, telhados e janelas mais bem isolados reduzem a transferência de calor e, com isso, a energia necessária para manter os edifícios aquecidos no inverno e frescos no verão.
O compromisso climático nacional apresenta medidas mais próximas, para 2035: isolar edifícios existentes, estabelecer padrões elevados de isolamento para novas construções e incentivar iluminação, eletrodomésticos e ar-condicionado eficientes. Também propõe bombas de calor elétricas e fogões elétricos em edifícios residenciais existentes.
Bombas de calor transferem calor entre um edifício e o ambiente ao redor, em vez de gerar todo o calor diretamente a partir de combustíveis. Os planos incluem incentivos para sua instalação em áreas urbanas e rurais e o uso de eletricidade renovável para alimentá-las.
Para a indústria, a estratégia prevê aprimorar os processos de produção e substituir equipamentos que consomem grandes quantidades de energia ou geram muitas emissões. O compromisso nacional também lista caldeiras elétricas, bombas de calor e detecção e reparo de vazamentos entre as medidas para as atividades industriais.
Carros de passeio e máquinas agrícolas avançam rumo à eletrificação
A estratégia do Azerbaijão busca que veículos elétricos e veículos que utilizem outras fontes alternativas de energia representem 100% da frota de carros de passeio até 2060. Para 2035, prevê o planejamento inicial da retirada de carros com motores de combustão interna e incentivos para ampliar a adoção de veículos elétricos.
O transporte respondeu por 9,3 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em 2022, ou 13% das emissões nacionais. O transporte rodoviário gerou 8,6 milhões de toneladas, correspondentes a 92% do total do setor, segundo o compromisso climático nacional.
A resposta proposta vai além dos carros particulares. As medidas para 2035 incluem modernizar as redes de ônibus, trens e metrô, ampliar o uso de ferrovias e aumentar a participação de veículos elétricos nas frotas de ônibus e caminhões. O documento também inclui biocombustíveis e sua mistura ao combustível de aviação.
Metas anteriores para ônibus no compromisso nacional previam 500 ônibus elétricos em operação em 2025 e 1.100 em 2026, envolvendo a BakuBus e operadoras privadas. Esses números descrevem a expansão planejada da frota.
As máquinas usadas na agricultura, na silvicultura e em outros usos da terra têm sua própria meta de eletrificação. A estratégia prevê acelerar até 2035 a substituição de máquinas de combustão interna e alcançar 100% de eletrificação até 2060, eliminando as emissões desse subsetor de máquinas.
As emissões agrícolas também vêm da pecuária e da produção de cultivos. Por isso, o compromisso nacional inclui a compostagem de esterco junto com as mudanças nas máquinas, refletindo as diferentes fontes que precisam ser enfrentadas.
Florestas e resíduos completam o quadro de emissões
A agricultura emitiu 8 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em 2022. O uso da terra, a mudança no uso da terra e a silvicultura absorveram, em termos líquidos, 5,2 milhões de toneladas naquele ano, levando as emissões líquidas combinadas da agricultura, da silvicultura e de outros usos da terra a 2,8 milhões de toneladas.
As florestas responderam por 3,6 milhões de toneladas dessas remoções em uma área de 1,04 milhão de hectares. O compromisso climático nacional projetava uma expansão de aproximadamente 30 mil hectares de áreas florestais até 2026, elevando a cobertura florestal a 12,3%.
Proteger e restaurar florestas faz parte da estratégia porque as árvores vivas absorvem carbono enquanto crescem. A meta para 2035 do Azerbaijão depende explicitamente, em parte, da capacidade contínua das florestas e de outros ecossistemas de absorver emissões.
Os resíduos geraram 4,9 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em 2022, aproximadamente 7% das emissões nacionais. As medidas previstas incluem triagem, reciclagem e separação dos resíduos no local onde são produzidos, com apoio de programas de conscientização pública.
A estratégia nacional para resíduos também inclui o design de produtos circulares, isto é, a fabricação de produtos que sejam mais fáceis de reutilizar, consertar ou reciclar, reduzindo o descarte de materiais.
Marcos e financiamento ainda pendentes
A estratégia do Azerbaijão vincula as medidas climáticas à criação de empregos, a novas tecnologias e à competitividade econômica. Para alcançar esses benefícios, serão necessários especialistas e trabalhadores capacitados para instalar, operar e manter os novos equipamentos.
O compromisso climático nacional prevê financiamento do governo, de investidores locais e estrangeiros, de parcerias público-privadas, de bancos de desenvolvimento e de fundos de investimento climático. Doações e empréstimos em condições favoráveis fazem parte da combinação proposta. A estratégia também relaciona sua implementação aos acordos de financiamento climático alcançados na COP29, em Baku, e à continuidade da diplomacia climática internacional.
O anúncio da aprovação não especificou o custo total da implementação, um pacote de financiamento já garantido nem as datas das apresentações públicas. Os principais marcos são:
- 21 de outubro de 2026: o primeiro-ministro Ali Asadov assinou a Decisão nº 346, que aprova a estratégia.
- 22 de outubro de 2026: foi anunciada a aprovação da estratégia.
- Até 2035: o Azerbaijão tem como meta uma redução condicional de 40% nas emissões líquidas de gases de efeito estufa em relação aos níveis de 1990.
- Até 2060: a estratégia estabelece a meta condicional de emissões líquidas zero, eletrificação total das máquinas agrícolas e de uso da terra e uma frota de carros de passeio movida a eletricidade ou outras fontes alternativas de energia.
- A cada dois anos: o ministério responsável pelo meio ambiente deve apresentar à Comissão Estatal sobre Mudanças Climáticas os resultados do monitoramento da implementação.
Principais pontos
- O Azerbaijão aprovou uma estratégia nacional que tem como meta alcançar emissões líquidas zero até 2060, condicionada a financiamento adicional, tecnologia e apoio internacional.
- A meta para 2035 reduziria as emissões líquidas a aproximadamente 49,6 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, cálculo baseado no valor oficial de 1990.
- Os planos abrangem energia renovável, redes elétricas, vazamentos de metano, isolamento térmico, transporte, indústria, agricultura, florestas e resíduos.
- O Ministério da Economia deve integrar as medidas às políticas nacionais, enquanto o Ministério das Finanças é responsável pelo financiamento, sujeito às condições da decisão.
- O Ministério do Meio Ambiente deve monitorar a implementação e informar a comissão climática a cada dois anos.






