Mais de 90 resgates colocam um primata desaparecido de volta no radar científico
Mais de 90 lóris-lentos-de-Bangka resgatados entre 2015 e 2025 confirmaram que um primata venenoso, considerado possivelmente extinto, ainda sobrevive na ilha indonésia de Bangka. Os animais vieram das quatro regências da ilha e da cidade de Pangkal Pinang. Após tratamento e recuperação, 86 foram soltos em sete áreas de floresta.
Conteúdo
- Mais de 90 resgates colocam um primata desaparecido de volta no radar científico
- Como o conhecimento local chegou aos registros científicos
- Um século de registros, reconhecimento e resgates
- O que os locais dos resgates revelam
- Resgate em Batu Rusa mostra o perigo dos fios elétricos
- Como dois lóris voltaram ao Monte Maras
- Um pequeno primata com uma mordida perigosa
- A perda de florestas ameaça a sobrevivência
- Próximos passos para as equipes de conservação
- Principais pontos
Os resultados, publicados na revista científica Spixiana e anunciados pela organização de conservação Re:wild em 20 de outubro de 2026, são fruto de uma década de trabalho do Centro de Resgate de Animais Silvestres Alobi. Moradores e autoridades locais acionavam os resgatistas quando encontravam os pequenos primatas em jardins, casas, plantações, estradas e fios elétricos.
Para os cientistas, esses registros preenchem uma lacuna que remontava à década de 1930. Para quem vive em Bangka, na costa sudeste de Sumatra, o animal continuava sendo um vizinho conhecido, embora cada vez mais vulnerável.
O anúncio da redescoberta da Re:wild descreve como a Alobi se uniu a pesquisadores do Haus des Meeres Aqua Terra Zoo, em Viena, e da Arca de Reprodução para Conservação Taman Safari Prigen, da Indonésia, para analisar os registros. Os resultados recolocam a espécie no radar científico e revelam os riscos que ela enfrenta fora das florestas cada vez menores da ilha.
Timon Glaw, autor do estudo e pós-graduando em conservação da natureza e gestão da biodiversidade no Haus des Meeres, resumiu a principal conclusão:
O lóris-lento-de-Bangka ainda está vivo.
A tarefa imediata é garantir que continue assim. Desmatamento, ferimentos causados por eletricidade, estradas, expansão de áreas habitadas e tráfico de animais de estimação ameaçam os animais que sobreviveram por décadas com pouca atenção científica.
Como o conhecimento local chegou aos registros científicos
Os registros de resgate da Alobi se tornaram a base do estudo após uma conversa em Java. Durante uma visita à Arca de Reprodução para Conservação Taman Safari Prigen, Glaw soube pelo conservacionista Jochen Menner que o lóris-lento-de-Bangka era classificado como criticamente ameaçado e possivelmente extinto.
Menner colocou Glaw em contato com a Alobi. O centro de resgate já tinha registros documentados de encontros com a espécie, incluindo os locais onde os animais haviam sido encontrados e o que ocorreu durante os cuidados. A reunião desses registros permitiu que as organizações parceiras documentassem a sobrevivência da espécie em várias partes de Bangka.
Benji Barca, gerente do programa de expedições da Re:wild, atribuiu o mérito aos resgatistas e às pessoas que os alertaram:
A equipe da Alobi passou mais de uma década resgatando, tratando e soltando esses animais discretamente, e foram seus registros cuidadosos que finalmente trouxeram este primata de volta ao radar científico.
Bangka tem mais de 1 milhão de habitantes. Glaw a descreveu como estando a cerca de uma hora de voo de Jacarta, o que torna o longo silêncio científico especialmente notável. A descoberta surgiu da conexão entre o conhecimento local já existente e pesquisadores capazes de analisá-lo e publicá-lo.
Um século de registros, reconhecimento e resgates
O lóris-lento-de-Bangka foi descrito cientificamente pela primeira vez em 1906, mas só foi reconhecido como uma espécie distinta em 2013. Antes, os cientistas agrupavam diversas formas de lóris-lentos-de-Bornéu. Diferenças nas marcas faciais ajudaram a justificar a separação entre elas.
Glaw situa os últimos registros científicos históricos de Bangka discutidos no novo estudo entre 1930 e 1932; 1937 também é citado como o último registro histórico em outros resumos publicados. O histórico documentado de resgates da Alobi começa em 2015, antes dos avistamentos de 2023, às vezes apontados como o retorno da espécie.
- 1906: O lóris-lento-de-Bangka foi descrito cientificamente pela primeira vez.
- 2013: Foi reconhecido como uma espécie distinta.
- 2015–2025: A Alobi documentou mais de 90 indivíduos resgatados em Bangka.
- 2020: A União Internacional para a Conservação da Natureza classificou a espécie como criticamente ameaçada e possivelmente extinta.
- 29 de julho de 2025: A Alobi e equipes governamentais de conservação soltaram dois lóris reabilitados no Parque Nacional de Gunung Maras.
- 20 de outubro de 2026: A Re:wild anunciou o estudo que documenta a sobrevivência da espécie.
O que os locais dos resgates revelam
A Alobi recebeu animais das quatro regências de Bangka e de Pangkal Pinang, o que forneceu ao estudo evidências de sobrevivência em grande parte da ilha. Regências são divisões administrativas, amplamente comparáveis a distritos ou condados.
A população silvestre total ainda é desconhecida. São necessários levantamentos sistemáticos para estimar quantos lóris restam, identificar as florestas que ocupam e avaliar se essas populações estão conectadas. Os registros de resgate indicam os locais onde os animais encontram pessoas; levantamentos de campo também procurariam animais que vivem em áreas mais internas de habitats adequados.
Pesquisadores já começaram a estudar a distribuição. Randi Syafutra, da Flora Fauna Bangka, lidera desde 2018 um projeto para mapear a espécie e estimar sua população. Cruzar esse trabalho de campo com os locais dos resgates pode ajudar a direcionar a atenção para os grupos que ainda sobrevivem e para as florestas sob pressão.
A Alobi escolheu os sete locais de soltura entre fragmentos florestais maiores, com habitat adequado e algum grau de proteção legal ou prática. Para um primata que se desloca pelas árvores, a qualidade e a disposição das florestas restantes afetam diretamente o acesso a alimento, abrigo e outros lóris.
Resgate em Batu Rusa mostra o perigo dos fios elétricos
Em 31 de julho de 2024, a Alobi e a Agência de Conservação dos Recursos Naturais de Sumatra do Sul, conhecida como BKSDA, receberam uma denúncia sobre um lóris-lento-de-Bangka ferido por um choque elétrico na vila de Batu Rusa, distrito de Merawang, regência de Bangka.
Um morador chamado Havis cuidou do animal por vários dias antes de entrar em contato com a Alobi, pois não sabia ao certo para onde levá-lo. Segundo o relato do resgate em Batu Rusa da Alobi, o lóris tinha a mão direita muito danificada, ferimentos nos olhos e lesões no abdômen.
Os resgatistas o levaram a uma clínica. A Alobi informou que a amputação da mão direita provavelmente seria considerada e que o animal tinha poucas chances de voltar à natureza. O desfecho do tratamento não foi informado.
A Alobi relacionou esse tipo de ferimento elétrico à redução do habitat, que leva os animais silvestres a se aproximarem dos cabos em busca de alimento ou ao se deslocarem entre áreas. Para um animal que depende de agarrar galhos, uma lesão grave na mão pode tirar sua capacidade de se deslocar e se alimentar por conta própria. Glaw afirmou que alguns animais registrados nos resgates mais amplos morreram apesar do tratamento.
Como dois lóris voltaram ao Monte Maras
Em 29 de julho de 2025, a Alobi e a BKSDA soltaram dois lóris-lentos-de-Bangka reabilitados no Parque Nacional de Gunung Maras, na vila de Berbura, distrito de Riau Silip, regência de Bangka. A operação oferece um exemplo detalhado de como os resgatistas preparam os animais para a soltura.
O relato da soltura no Monte Maras da Alobi informa que os dois animais passaram por exames de saúde e observação comportamental no centro de resgate de animais silvestres da organização, em Kampoeng Reklamasi Timah Air Jangkang. A equipe avaliou se estavam prontos para retomar a vida na floresta.
Os lóris foram soltos em locais separados porque os machos tendem a ser territoriais. A Alobi informou que mantê-los separados reduziria problemas de dominância e aumentaria as chances de adaptação.
A equipe escolheu locais com copa densa. Galhos próximos e conectados permitem que os lóris se desloquem pela floresta acima do solo, oferecem proteção contra predadores e facilitam o acesso a alimentos naturais. A soltura mostra por que a reabilitação exige tanto um animal saudável quanto um destino escolhido com cuidado.
Um pequeno primata com uma mordida perigosa
O lóris-lento-de-Bangka, Nycticebus bancanus, tem pelagem castanho-avermelhada, olhos grandes e uma máscara facial clara. Um perfil da espécie publicado informa que ela mede cerca de 25,8 centímetros. O animal se desloca devagar e com cautela, agarrando-se aos galhos em vez de saltar entre eles.
Seus olhos grandes ajudam na busca por alimento à noite. Do ponto de vista evolutivo, é mais próximo dos lêmures de Madagascar e dos galagídeos da África do que dos macacos, grandes símios ou seres humanos.
Os lóris-lentos são os únicos primatas conhecidos por serem venenosos. Eles produzem uma secreção em glândulas perto dos cotovelos e a lambem, misturando-a à saliva. Assim, uma mordida pode liberar veneno que causa dor, inchaço e reações alérgicas potencialmente graves nas pessoas.
Glaw explicou os riscos e o que pesquisas sobre espécies aparentadas sugerem sobre a função do veneno:
O veneno pode causar reações alérgicas graves em seres humanos, potencialmente até fatais. Pesquisas sobre outras espécies de lóris-lentos sugerem que o veneno é usado principalmente em conflitos com outros lóris, embora também possa ter funções de defesa contra predadores e parasitas.
A espécie também tem um pente dental, um conjunto de dentes inferiores voltados para a frente, usado para higiene e para acessar a goma das árvores, além de ser usado durante mordidas. Uma pequena segunda língua, localizada sob a língua principal, ajuda a limpar esses dentes.
A perda de florestas ameaça a sobrevivência
A mineração de estanho e a derrubada de áreas para plantações de palma-de-óleo reduziram o habitat do lóris-lento-de-Bangka. Langka Sani, diretora do Centro de Resgate de Animais Silvestres Alobi, alertou que confirmar a sobrevivência da espécie deixa evidente um problema urgente de conservação:
Ficamos felizes por contribuir para os registros científicos e mostrar que o lóris-lento-de-Bangka não desapareceu, mas a espécie ainda está muito perto da extinção.
Sani apontou a mineração ilegal de estanho e a extensa derrubada de áreas para o cultivo de palma-de-óleo como causas importantes da perda de habitat. Estimativas de conservação indicam que resta menos de 20% do habitat adequado original e apontam uma suspeita de queda populacional de pelo menos 80% em 24 anos. Essas estimativas descrevem uma redução severa e reforçam a necessidade de um levantamento populacional atualizado.
A mineração causa danos que vão além da remoção de árvores no local da exploração. A mineração de estanho e ferro em Bangka também foi associada à redução da fertilidade do solo, à degradação da vegetação e à disseminação de espécies invasoras, dificultando a recuperação das florestas.
A alimentação do lóris é mais um motivo para proteger florestas saudáveis. Glaw afirmou que, provavelmente, ele come insetos, goma de árvores, néctar e outros materiais vegetais, como outros lóris-lentos. Ainda são necessários estudos detalhados sobre a alimentação da espécie de Bangka; por isso, manter um habitat natural diversificado preserva a variedade de alimentos de que ela pode precisar.
Próximos passos para as equipes de conservação
Os autores do estudo recomendam levantamentos populacionais, pesquisas genéticas, proteção do habitat e monitoramento dos animais após a soltura. Estudos genéticos podem ajudar a esclarecer as relações entre os lóris-lentos, cuja classificação mudou repetidamente. Uma pesquisa publicada em 2023 sugeriu que sua diversidade pode incluir cerca de nove espécies, em vez das cinco reconhecidas anteriormente.
O monitoramento ajudaria os resgatistas a descobrir se os animais soltos sobrevivem, se estabelecem em áreas adequadas e continuam usando o habitat escolhido para eles. Os autores recomendam que as solturas sigam as diretrizes da Comissão de Sobrevivência de Espécies da União Internacional para a Conservação da Natureza.
Também foi proposta a criação de um programa de reprodução para conservação, tanto para apoiar os esforços de proteção quanto para ampliar o conhecimento sobre a biologia e o comportamento da espécie. Não foi anunciado um cronograma para essa proposta nem para o programa mais amplo de levantamentos.
Glaw afirmou que proteger as florestas restantes é a prioridade mais urgente, juntamente com descobrir onde os animais sobrevivem e qual é o tamanho de suas populações. Os registros de resgate indicam locais de partida para o trabalho das equipes de conservação, enquanto as sete áreas de soltura oferecem pontos para investigar a sobrevivência após a reabilitação.
Principais pontos
- A Alobi documentou mais de 90 lóris-lentos-de-Bangka entre 2015 e 2025, confirmando a sobrevivência da espécie nas quatro regências de Bangka e em Pangkal Pinang.
- Após a recuperação, 86 animais foram soltos em sete locais situados em fragmentos florestais maiores.
- Os registros usados no estudo publicado na Spixiana foram fornecidos por moradores locais e equipes de resgate.
- Mineração de estanho, expansão da palma-de-óleo, estradas, fios elétricos, áreas habitadas e tráfico de animais de estimação ameaçam a espécie.
- Um caso de ferimento elétrico em julho de 2024 mostra como a perda de habitat pode expor os lóris a danos graves perto de pessoas.
- Pesquisadores recomendam levantamentos populacionais, estudos genéticos, solturas monitoradas e proteção das florestas naturais restantes.






