Indonésia registra grande excedente de diesel em meio a mudanças na política energética
A Indonésia registrou oficialmente um excedente de aproximadamente 1,4 bilhão de litros de diesel subsidiado, marcando uma importante mudança na estratégia de gestão energética do país. O ministro de Energia e Recursos Minerais, Bahlil Lahadalia, anunciou o excedente e atribuiu o resultado à combinação entre o aumento da produção de biodiesel e a ampliação da capacidade de refino nacional. Esse excedente expressivo coloca o país em posição favorável para avançar com determinação em sua meta de acabar com as importações de diesel até 2026, um marco que mudaria o lugar da nação do Sudeste Asiático no mercado global de energia.
Conteúdo
- Indonésia registra grande excedente de diesel em meio a mudanças na política energética
- O que impulsionou o excedente
- Modernização da refinaria de Balikpapan
- Do excedente ao combustível de aviação
- A meta para 2026: acabar com as importações de diesel
- Desafios e ceticismo do mercado
- Planos futuros para gasolina e etanol
- Principais pontos
O anúncio destaca o êxito das políticas governamentais recentes destinadas a fortalecer a segurança energética. Ao reduzir a dependência de combustíveis estrangeiros, a Indonésia pretende proteger sua economia da volatilidade dos preços globais e aproveitar melhor seus recursos nacionais. O excedente contribui para o objetivo mais amplo do governo de otimizar o uso de combustíveis no país e ampliar a participação dos biocombustíveis na matriz energética nacional.
O que impulsionou o excedente
O principal fator por trás desse excedente é a implementação bem-sucedida da política B40, que determina a mistura de 40% de biodiesel ao diesel vendido no mercado interno. A política depende fortemente do éster metílico de ácidos graxos (FAME, na sigla em inglês), produzido a partir do óleo de palma, um recurso abundante na Indonésia. Dados do governo indicam que o consumo de biodiesel cresceu de forma constante nos últimos anos, chegando a 14,2 bilhões de litros em 2025, ante 9,3 bilhões de litros em 2021.
Esse aumento no uso de biocombustíveis contribuiu diretamente para reduzir as importações de diesel fóssil em cerca de 3,3 milhões de quilolitros. O ministério informou que, em 2025, o consumo de biodiesel chegou a 105,2% da meta governamental de 13,5 milhões de quilolitros. Esse resultado sugere que o setor de biocombustíveis tem capacidade para sustentar percentuais ainda maiores de mistura em um futuro próximo.
Além das exigências de mistura de biocombustíveis, a operação da nova refinaria de petróleo em Balikpapan teve papel fundamental no aumento da produção nacional de diesel. A instalação faz parte do Plano Diretor de Desenvolvimento de Refinarias (RDMP, na sigla em inglês), um projeto estratégico de infraestrutura voltado à modernização da capacidade de refino do país.
Modernização da refinaria de Balikpapan
O RDMP de Balikpapan representa um avanço significativo para o setor de petróleo e gás a jusante da Indonésia. Operado pela estatal de energia Pertamina, o projeto recebeu investimentos de US$ 7,4 bilhões. A modernização ampliou a capacidade de processamento de petróleo bruto da refinaria de 260 mil para 360 mil barris por dia (bpd). A expansão acrescenta 100 mil barris à capacidade diária de processamento, fortalecendo significativamente a capacidade do país de produzir combustíveis internamente.
Um componente fundamental da modernização é a instalação de uma nova unidade de craqueamento catalítico fluido de resíduos (RFCC, na sigla em inglês). Essa tecnologia é essencial para converter frações pesadas e de baixo valor do petróleo em produtos mais leves e de maior valor, como diesel e gasolina. A unidade RFCC também permite produzir combustíveis que atendem a padrões ambientais mais rigorosos.
O ministro Bahlil ressaltou a importância estratégica da instalação durante uma reunião do gabinete.
"A refinaria de Balikpapan nos permitirá acrescentar cerca de 100 mil barris por dia [à capacidade de processamento], o que nos permitirá alcançar um excedente de diesel", disse Bahlil.
Além disso, o projeto elevou a qualidade dos produtos do padrão Euro 2 para o Euro 5. Essa melhoria reduz as emissões nocivas e aprimora o desempenho dos motores, alinhando os padrões de combustível da Indonésia a regulamentações internacionais mais rigorosas.
Do excedente ao combustível de aviação
Com o excedente de diesel garantido, o governo pretende aproveitar melhor essa oferta adicional, em vez de deixá-la sem uso. Autoridades anunciaram planos para redirecionar o diesel excedente à produção de combustível de aviação, um setor que historicamente depende de importações. Essa estratégia de conversão é um elemento central do esforço mais amplo para reduzir as importações de combustíveis e alcançar a autossuficiência energética.
No ano passado, a Indonésia importou quase 1,8 milhão de quilolitros de querosene de aviação, um forte aumento em relação aos 278 mil quilolitros importados no ano anterior. Ao converter o excedente de diesel produzido no país em combustível de aviação, o governo pretende conter o aumento dessa conta de importações. A estratégia prevê o uso da maior capacidade de refino para processar os estoques excedentes e transformá-los em Avtur, o tipo específico de combustível de aviação usado pelos motores a jato no país.
O ministro Bahlil demonstrou confiança na viabilidade dessa conversão quando a exigência B50 for implementada.
"Se conseguirmos avançar ainda mais com a exigência de mistura B50, deveremos obter um excedente de 4 milhões de toneladas, que converteremos em combustível de aviação", disse Bahlil.
Essa abordagem não só lida com o excedente de diesel, como também atende à crescente demanda por combustível de aviação, criando uma solução integrada para o setor energético.
A meta para 2026: acabar com as importações de diesel
O pilar central desse novo cenário energético é o fim completo das importações de diesel até 2026. Essa meta ambiciosa depende fortemente da plena operação da refinaria de Balikpapan e da implementação bem-sucedida da exigência de mistura de biodiesel B50. O Ministério de Energia e Recursos Minerais informou que a proibição das importações de diesel por revendedores privados de combustíveis entrará em vigor em abril de 2026. A partir daí, toda a demanda por diesel deverá ser atendida por refinarias nacionais ou pela Pertamina.
No entanto, o período de transição poderá exigir uma gestão cuidadosa. O ministro Bahlil reconheceu que talvez ainda sejam necessárias importações limitadas nos primeiros meses de 2026, dependendo da prontidão operacional da refinaria. Se a instalação de Balikpapan atingir a capacidade total por volta de março, as importações poderão continuar em janeiro e fevereiro para garantir o abastecimento nacional de energia.
"Se as operações plenas começarem em março, ainda poderá haver pequenas importações em janeiro e fevereiro para atender às necessidades de abastecimento", explicou Bahlil.
Quando a refinaria estiver em plena operação, autoridades projetam que a Indonésia poderá registrar um excedente anual de diesel de cerca de 3 a 4 milhões de quilolitros. Essa mudança alteraria fundamentalmente a posição do país no mercado regional de energia, que passaria de importador líquido a potencial exportador de diesel.
O governo também está se preparando para eliminar gradualmente as importações de gasolina de octanagem média e alta a partir de 2027. Bahlil afirmou que as autoridades estão elaborando um plano para interromper as importações de gasolina com octanagem 92, 95 e 98, priorizando o processamento de mais petróleo bruto nas refinarias nacionais.
Desafios e ceticismo do mercado
Apesar das projeções otimistas, a transição enfrenta diversos obstáculos técnicos e logísticos. Participantes do mercado demonstraram ceticismo em relação ao cronograma tanto da modernização da refinaria quanto da adoção de misturas com percentuais maiores de biodiesel. Atualmente, o país é um dos maiores importadores de óleo diesel com alto teor de enxofre da Ásia, com importações que variam de 70 mil a mais de 150 mil barris por dia.
A mudança para a condição de exportador de diesel depende fortemente da implementação bem-sucedida do programa de mistura B50 e do RDMP de Balikpapan. Especialistas observam que é tecnicamente difícil colocar unidades RFCC em operação. Atrasos e problemas técnicos afetaram projetos semelhantes na região, gerando dúvidas sobre a capacidade da instalação de Balikpapan de cumprir suas metas ambiciosas.
Questões técnicas e de viabilidade também podem dificultar a implementação da exigência de mistura B50. Percentuais mais altos de biodiesel podem gerar problemas de compatibilidade com os motores e de fluidez a frio, exigindo testes rigorosos e ajustes na infraestrutura.
Revendedores privados de combustíveis também manifestaram preocupação com a proposta de proibição das importações. Hadi Ismoyo, presidente-diretor da PT Petrogas Jatim Utama Cendana, alertou que a política poderia restringir o espaço de atuação das empresas privadas do setor a jusante e criar a percepção de que o abastecimento de combustíveis dependeria de uma única fonte, a Pertamina.
"A capacidade pode ser suficiente em termos quantitativos, mas isso não significa necessariamente que as especificações e a qualidade dos produtos atenderão às necessidades dos revendedores privados", disse Hadi.
Planos futuros para gasolina e etanol
Embora o diesel continue sendo a prioridade, o governo também planeja reduzir as importações de gasolina. Bahlil anunciou que as autoridades estão elaborando um plano para eliminar gradualmente, a partir de 2027, as importações de gasolina de octanagem média e alta (RON 92, 95 e 98). A proposta prevê ampliar o processamento de petróleo bruto no país, em vez de importar produtos acabados.
Como parte dos esforços mais amplos de modernização do setor energético, o governo também pretende elevar os padrões de qualidade dos combustíveis. Atualmente, a Indonésia produz diesel com número de cetano 51, mas a meta é alcançar os padrões Euro 5. Essa mudança reduziria as emissões e melhoraria o desempenho dos motores, embora exija investimentos significativos na modernização da infraestrutura existente das refinarias.
Paralelamente à estratégia para o diesel, o governo se prepara para ampliar o uso de etanol na gasolina. Estão em andamento planos para exigir, a partir de 2027, a mistura de 10% de etanol em toda a gasolina vendida no mercado interno. A medida busca reduzir ainda mais a dependência de combustíveis fósseis importados e apoiar o setor agrícola, criando um novo mercado para o etanol produzido a partir do açúcar.
Em conjunto, essas medidas representam uma estratégia abrangente para transformar o perfil energético da Indonésia, reduzindo a forte dependência de importações e adotando um modelo baseado no refino nacional e em biocombustíveis renováveis.
Principais pontos
- A Indonésia registrou um excedente de 1,4 bilhão de litros de diesel, impulsionado pela política de biodiesel B40 e pela modernização da refinaria de Balikpapan.
- O governo pretende interromper todas as importações de diesel até 2026 e poderá transformar o país em exportador líquido do combustível.
- O excedente de diesel será convertido em combustível de aviação para reduzir a dependência das importações de querosene de aviação.
- O RDMP de Balikpapan amplia a capacidade de refino para 360 mil barris por dia, com investimentos de US$ 7,4 bilhões.
- Está prevista para o segundo semestre de 2026 uma exigência de mistura de biodiesel B50, que deverá ampliar ainda mais o excedente.
- As autoridades planejam eliminar gradualmente até 2027 as importações de gasolina RON 92, 95 e 98.
- Especialistas do mercado manifestaram preocupação com possíveis atrasos nas operações da refinaria e com a viabilidade técnica de misturas com percentuais maiores de biodiesel.






