Uma rotina diária extenuante
Quando o despertador tocava às 5h30, o sr. Alan Wang e seus 4 mil colegas tinham exatamente oito minutos para acordar, arrumar as camas e se reunir no campo. Às 5h38, começava a corrida diária de 1,6 km. Em seguida, vinha uma extenuante jornada de estudos de 16 horas, que raramente terminava antes das 22h. Às 22h10, as luzes dos alojamentos eram apagadas. Essa era a rotina, sete dias por semana, durante três anos, na Escola de Ensino Médio nº 2 de Hengshui, na província de Hebei. Wang, hoje com 23 anos, se lembra da disciplina rígida: edredons dobrados em retângulos perfeitos, lençóis sem uma única ruga e apenas 15 minutos para o café da manhã e o jantar. Todo o restante do tempo era dedicado aos estudos. O objetivo dessa programação ultrarrígida era único: obter um excelente resultado no gaokao, o exame nacional de admissão às universidades da China, e garantir uma vaga em uma instituição de prestígio, como a Universidade Tsinghua ou a Universidade de Pequim.
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Conhecida como “modelo Hengshui”, essa abordagem educacional ganhou notoriedade por transformar escolas em fábricas de preparação para exames. No entanto, dados recentes deram início a um debate sobre a eficácia e a sustentabilidade de métodos tão extremos. A Escola de Ensino Médio de Hengshui, pioneira dessa rotina rígida, teria enviado apenas 45 alunos para as duas principais universidades da China em 2025, uma queda acentuada em relação ao pico de 275, em 2019. Gráficos publicados na internet mostram uma redução constante nas aprovações desde 2021. Essa queda levou internautas chineses a questionar se o modelo está fracassando ou se reflete um mal-estar mais profundo no sistema educacional. Alguns críticos argumentam que essa experiência elimina o entusiasmo dos alunos pelo aprendizado, enquanto defensores afirmam que ela oferece estrutura e oportunidades em comparação com outras escolas da região.
Um símbolo de pressão
O debate em torno de Hengshui vai além das estatísticas de uma única escola. A instituição se tornou um símbolo da intensa pressão embutida no sistema educacional chinês, centrado em exames. O gaokao é amplamente considerado o caminho mais claro para ascender socialmente e um acontecimento que define a vida de milhões de famílias. As mudanças demográficas agravam essa pressão: décadas de política do filho único fizeram com que as famílias depositassem em uma única criança o peso de suas expectativas e ansiedades. O professor Sang Guoyuan, da Universidade Normal de Pequim, observa que, apesar das limitações para avaliar a criatividade e as habilidades interpessoais, o gaokao continua sendo o mecanismo de seleção mais eficiente para um país com uma população estudantil enorme. Substituí-lo sem comprometer a percepção de que o sistema é justo é um desafio difícil, o que faz da reforma interna a única opção viável.
Cerca de 13,35 milhões de estudantes fizeram o exame em 2025. Embora aproximadamente 80% busquem algum tipo de ensino superior, menos de 0,5% conseguem ingressar nas universidades Tsinghua e de Pequim, somadas. O professor Sang argumenta que, para estudantes de baixa renda, de áreas rurais ou de minorias étnicas, esse sistema baseado em exames pode mudar vidas, oferecendo uma rara oportunidade de ascensão social. Ele próprio foi beneficiado pelo sistema: saiu de uma área rural da província de Qinghai e chegou a uma universidade de ponta em Pequim por meio do gaokao. Ainda assim, o custo humano desse sistema é alto. Durante o período anual de provas, em junho, cidades de toda a China praticamente param: o trânsito é desviado, obras são suspensas e voos mudam de rota para reduzir o ruído para os candidatos.
A engrenagem da fábrica
Mesmo pelos padrões das escolas de ensino médio competitivas da China, o modelo Hengshui se destacava pela disciplina militarizada. A rotina diária deixava pouco espaço para qualquer coisa que não fosse a vida acadêmica. No entanto, especialistas sugerem que o sucesso anterior da escola talvez não se devesse apenas aos métodos rigorosos de ensino. O professor Xiong Bingqi, diretor do Instituto de Pesquisa Educacional do Século 21, aponta que, durante anos, a Escola de Ensino Médio de Hengshui recrutou ativamente os alunos com as melhores notas de toda a província. Essa prática, embora ilegal, era tolerada pelas autoridades locais até por volta de 2017. Com isso, a escola concentrava os melhores talentos da província e garantia resultados impressionantes nas aprovações. Quando as autoridades restringiram esse recrutamento entre regiões, a capacidade da escola de produzir números tão altos naturalmente diminuiu. Outras escolas que tentaram copiar o modelo Hengshui muitas vezes fracassaram porque reproduziram as rotinas rígidas sem conseguir atrair estudantes de ponta.
O impacto psicológico desse ambiente tem sido alvo de fortes críticas. Os detratores acusam o sistema de tratar os alunos como máquinas de fazer provas. Alegações absurdas nas redes sociais, como a de que escolas instalariam grades de ferro nas janelas para evitar suicídios, circularam, embora muitas vezes tenham sido desmentidas. Esses rumores evidenciam a profunda ansiedade que o público projeta sobre instituições como Hengshui. Alguns pais, porém, contestam essa demonização. Wang Luan, mãe de um aluno que se formou na Escola de Ensino Médio de Hengshui, afirma que a instituição oferecia um ambiente positivo e contava com professores responsáveis. Ela observa que os alunos chegaram a ter folgas durante o ano de preparação para o exame, ao contrário do que ocorre em algumas outras instituições. Para muitos pais de regiões menos afluentes, a disciplina oferecida por Hengshui é vista como uma concessão necessária para que os filhos tenham a chance de construir um futuro melhor.
Fatores sistêmicos por trás do estresse
Analistas ressaltam que as escolhas de uma escola individual não podem resolver um problema sistêmico. A pressão sobre os alunos vem de cima, da maneira como as autoridades superiores avaliam as escolas. O professor Sang explica que as autoridades educacionais das províncias muitas vezes pressionam as instituições a subir nos rankings com base nos resultados dos exames. Em muitas regiões, as promoções de diretores e as recompensas para as escolas estão diretamente ligadas ao número de alunos que ingressam em universidades de ponta. Enquanto esses critérios de avaliação não mudarem, as escolas terão pouco incentivo para reduzir a carga de estudos ou ampliar seus currículos. A competição intensa gera um ciclo vicioso: as escolas precisam pressionar mais para manter suas posições, e os alunos precisam fazer sacrifícios cada vez maiores para acompanhar o ritmo.
Esse ambiente alimentou uma crise de saúde mental entre os jovens. Em um fórum educacional recente, acadêmicos de destaque alertaram que o sistema extremamente competitivo da China está falhando com a maioria dos estudantes. Eles mencionaram o esgotamento acadêmico generalizado e o aumento dos índices de depressão. Os estudiosos pediram reformas que ultrapassem as notas das provas para reconhecer talentos diversos e diferentes trajetórias de desenvolvimento. Essa proposta está alinhada a iniciativas mais amplas do governo, como a política de “dupla redução”, lançada em 2021, que buscou aliviar a carga dos alunos reduzindo as tarefas de casa e restringindo o ensino particular com fins lucrativos. No entanto, a permanência do gaokao como árbitro definitivo do sucesso limita o impacto dessas políticas complementares. Enquanto um único exame determinar a vaga na universidade, o incentivo para maximizar as notas prevalecerá sobre as tentativas de promover o bem-estar integral dos estudantes.
Reformar o inevitável
Há mais de uma década, o governo chinês tenta reformar o sistema do gaokao para enfrentar problemas como a aprendizagem mecânica e a desigualdade. A atual iniciativa de reforma, lançada pelo Conselho de Estado em 2014, busca desenvolver um sistema mais abrangente de seleção de talentos. Entre as principais mudanças está o fim da divisão rígida entre humanidades e ciências. Nos novos modelos, os alunos fazem três disciplinas obrigatórias — chinês, matemática e uma língua estrangeira — e escolhem outras três entre uma série de opções. Em algumas regiões, aplica-se o modelo “3+3”; em outras, o “3+1+2”. Essa flexibilidade pretende alinhar a educação aos interesses dos estudantes e às suas futuras carreiras.
Outra reforma importante é o sistema de admissão “duas bases, uma referência”. Ele transforma o ingresso nas universidades, antes baseado apenas nas notas, em um processo de avaliação mais equilibrado. As “duas bases” são a nota tradicional do gaokao e as notas dos exames de proficiência acadêmica do ensino médio, feitos ao longo dos três anos. A “uma referência” é o sistema de Avaliação da Qualidade Geral, que analisa habilidades interpessoais e outros aspectos, como responsabilidade social, saúde física e mental e realizações artísticas. O objetivo é oferecer às universidades um panorama mais amplo das capacidades de cada aluno e, em teoria, reduzir o peso decisivo do exame final.
A realidade nas salas de aula
Apesar dessas mudanças estruturais, a experiência de muitos estudantes indica que a pressão não diminuiu. Em províncias-piloto como Zhejiang, a possibilidade de fazer algumas partes do exame mais de uma vez deveria reduzir a ansiedade. Em vez disso, os alunos relataram mais estresse, pois a preparação começava mais cedo e ocorria com maior frequência. Muitas vezes, os professores aceleravam o conteúdo de dois anos do currículo para ensiná-lo em um só ano e se adaptar ao novo calendário de provas. Yao Nanfang, estudante de Zhejiang, contou que estudava diariamente até a 1h ou 2h da manhã. Segundo ela, mesmo com a possibilidade de refazer as provas, pais e professores tratavam cada tentativa como se fosse a última e única oportunidade. O medo de não melhorar a nota após repetir uma prova provocava enorme sofrimento psicológico.
Além disso, a prometida transição para uma educação integral tem avançado lentamente nas salas de aula. Diretores reconhecem que o ensino ainda se concentra intensamente na preparação para o exame, em vez de promover o desenvolvimento pleno dos alunos. Os estudantes compartilham essa percepção e observam que, apesar dos novos formatos de questões, a estratégia continua sendo resolver exercícios sem fim para dominar os padrões das provas. Yao Nanfang comentou, com sarcasmo, que os estudantes não precisam de educação física, comida ou sono, apenas de mais exercícios. A realidade é que, enquanto a admissão nas universidades depender principalmente das notas dos exames, os métodos de ensino inevitavelmente continuarão voltados a maximizá-las.
Desafios de equidade e migração
A equidade continua sendo uma questão central no processo de reforma. Historicamente, o gaokao esteve vinculado ao sistema de registro domiciliar, ou hukou, que obrigava os filhos de migrantes a voltar à cidade natal para fazer o exame. Isso causava enormes transtornos a famílias que viviam havia anos nas cidades. Reformas implementadas desde 2012 flexibilizaram gradualmente essas restrições, permitindo que filhos de migrantes que atendam aos requisitos façam o exame na província onde residem. Pesquisas indicam que essa política aumentou significativamente a probabilidade de crianças em idade escolar migrarem com suas famílias, permitindo que elas permaneçam juntas e que os filhos tenham acesso aos recursos educacionais urbanos.
No entanto, persistem disparidades na qualidade da educação entre as regiões. Províncias e cidades mais ricas têm instalações melhores, professores mais experientes e maior acesso a atividades complementares. Embora o governo tenha implementado programas especiais de admissão para aumentar as cotas de estudantes das regiões central e ocidental, a diferença de recursos continua influenciando os resultados. O sistema de pontos extras, que antes concedia pontos adicionais por competições ou realizações, foi reduzido significativamente para evitar que famílias privilegiadas manipulassem o sistema. Ainda assim, famílias mais ricas gastam bilhões em educação complementar, mantendo uma vantagem difícil de eliminar por meio de regulamentação.
A crise de saúde mental
O custo humano dessa pressão acadêmica implacável está cada vez mais evidente. Estudos sobre as taxas de suicídio entre adolescentes na China revelam uma tendência preocupante: estudantes de famílias abastadas e com alto nível de escolaridade às vezes apresentam riscos maiores do que os de famílias mais pobres. Isso contrasta com os padrões globais e aponta para a pressão singular exercida pelas expectativas dos pais em um ambiente competitivo. Crianças “deixadas para trás” em áreas rurais, que sofrem com a solidão e a falta de apoio dos pais, também enfrentam riscos elevados. A pressão intensa para ter sucesso, mesmo quando vem de pais que se preocupam profundamente com os filhos, tornou-se um fator trágico que contribui para a depressão entre os jovens.
As autoridades responderam com medidas como a proibição de aulas particulares pagas nos fins de semana e feriados. Ainda assim, as raízes culturais da educação voltada para exames são profundas. O gaokao não é apenas uma prova, mas uma instituição cultural que determina o ritmo da vida chinesa desde que foi retomado, em 1977. Mudar a mentalidade de milhões de pais que veem a educação como a única escada para a mobilidade social é um desafio que levará gerações. Mesmo com os formuladores de políticas defendendo a formação de indivíduos “completos”, a realidade do mercado muitas vezes determina que os graduados das melhores universidades consigam os melhores empregos. Enquanto a relação entre o prestígio de determinadas universidades e o sucesso profissional não enfraquecer, continuará existindo o incentivo para buscar notas altas nos exames.
O caminho adiante
A recente queda nos resultados de Hengshui pode sinalizar um ponto de virada ou simplesmente uma correção estatística após o fim do recrutamento agressivo de alunos. De todo modo, o escrutínio que ela provocou é necessário. Ele obriga a encarar os limites de um modelo educacional que prioriza a eficiência e os critérios padronizados em detrimento do bem-estar individual e da criatividade. À medida que a China entra em uma era impulsionada pela inteligência artificial e pela inovação, a capacidade de pensar de forma crítica e criativa se torna mais valiosa do que a de memorizar fatos. O atual sistema educacional corre o risco de formar estudantes excelentes em provas, mas despreparados para as complexidades do mercado de trabalho moderno.
Uma reforma efetiva exigirá mais do que ajustes nos formatos dos exames. Será preciso mudar a maneira como o sucesso é medido nas escolas. Se as autoridades provinciais deixassem de vincular o financiamento escolar e as promoções de diretores apenas ao número de alunos que ingressam em universidades de ponta, as instituições teriam liberdade para diversificar o que oferecem. Também será necessário fortalecer o sistema de “Avaliação da Qualidade Geral” para garantir que ele seja uma medida justa e consistente do potencial dos estudantes, em vez de um complemento subjetivo. Acima de tudo, será preciso oferecer aos alunos orientação profissional e apoio psicológico para que possam navegar por um cenário educacional menos rígido, mas potencialmente mais confuso.
Para ex-alunos como Wang, a experiência em Hengshui é complexa. Ele reconhece as dificuldades, mas também valoriza a resiliência que desenvolveu. Guarda com carinho a lembrança dos professores que demonstravam gentileza em meio ao rigor. Ao recordar sua passagem pela escola, mencionou um ditado popular entre os estudantes: “Depois de suportar a amargura de Hengshui, qualquer dificuldade que vier depois parece doce.” Essa capacidade de suportar adversidades é admirável, mas não deveria ser a única característica que define a educação chinesa. O desafio da China é preservar a justiça do gaokao e, ao mesmo tempo, desmontar a mentalidade de fábrica que produz tanta amargura, buscando um sistema que cultive tanto a excelência quanto o prazer de aprender.
Principais pontos
- O “modelo Hengshui” de educação está sob escrutínio após relatos de queda nas taxas de admissão em universidades de ponta, o que alimentou o debate sobre os limites de um ensino orientado por exames.
O gaokao continua sendo o principal caminho para a mobilidade social na China, mas impõe enorme pressão aos estudantes e contribui para problemas como o esgotamento acadêmico e os desafios de saúde mental.
Reformas do governo, como a política de “dupla redução” e as mudanças nas disciplinas dos exames, buscam reduzir o estresse e promover o desenvolvimento integral, embora a implementação muitas vezes fique aquém das metas estabelecidas.
Persistem problemas de equidade: as diferenças de recursos entre regiões e a barreira histórica do sistema de registro domiciliar afetam as oportunidades de estudantes rurais e migrantes.
Especialistas afirmam que, para haver mudanças significativas, é preciso deixar de avaliar as escolas apenas por resultados numéricos, permitindo uma educação mais diversificada e humana.






